Última Dança em Washington
A capital dos Estados Unidos candidata-se à filiação honorária no Clube das Cidades sem Tino.

Não se sabe bem quando começou a dança, e entretanto há notícia de que o presidente decidiu deitar abaixo a Ala Leste da Casa Branca para ali construir um salão de baile. Aparentemente, o poder precisava de mais espaço para rodopiar. Nada contra a música, nem sequer contra o baile — mas há um compasso qualquer que soa a desvario quando o ritmo da festa se impõe ao da razão.
Diz-se que é um projeto great, tremendous, absolutamente necessário. Que o novo salão acolherá jantares de Estado, eventos patrióticos e, quem sabe, indultos em massa entre danças e discursos. O que não se diz é se houve licenciamento, pareceres técnicos ou, pelo menos, um instante de pudor. Por cá, a reconstrução de uma varanda num prédio dos anos cinquenta exige quatro reuniões de condomínio, três vistorias da câmara municipal e uma catrefada de carimbos; lá, parece bastar o estalar de dedos de quem ocupa a Sala Oval.
Supõe-se que o briefing com a equipa criativa foi breve: menos Lincoln, mais Las Vegas — e ponham um trono giratório com vista para a FOX News. A Ala Leste, onde funcionavam os escritórios presidenciais e se mantinha o Salão das Primeiras-Damas, foi arrasada para abrir espaço a lustres dourados, espelhos venezianos e — diz-se — uma mirror ball pendurada como o novo sol, girando lenta sobre os escombros da moderação. A Ala Leste caiu — que ninguém se espante se amanhã surgir no jardim sul um campo de golfe.
Os defensores do património histórico americano gritaram “heresia!” — e com razão. A Casa Branca não é uma casa qualquer. É o rosto visível de uma ideia — a da democracia americana — que há muito perdeu o brilho e começa agora a ranger nos alicerces. Derrubar uma ala histórica para instalar um salão de baile não é apenas um gesto de mau gosto; é uma metáfora involuntária de poder absoluto, uma valsa dançada sobre o soalho gasto da moderação.
Os juristas do urbanismo perguntam se houve avaliação de impacto, se a comissão federal de planeamento levantou um dedo que fosse, se alguém verificou a compatibilidade da demolição com as leis do património. Trump respondeu, diz-se, que não precisa de aprovação para modernizar “a sua” residência. É curioso: os autocratas têm essa tendência — confundem o Estado com o palacete, o bem público com a pista de dança.
Os políticos dividem-se, como sempre: uns aplaudem a coragem da transformação, outros lamentam a perda da memória. O povo observa, entre incrédulo e cansado, como quem vê um reality show com orçamento ilimitado. Afinal, tudo parece hoje espetáculo — até a destruição.
E, no entanto, há algo de tristemente coerente neste gesto: o mundo afundado em crises e desigualdades, e o velho magnata a pôr de pé o salão para dançar — talvez não por capricho, mas como maneira engenhosa de encobrir o esqueleto corroído do poder. Talvez, no fundo, o baile seja o rito que resta a uma democracia exausta — a valsa final antes do silêncio.
Fotografia; Jacquelyn Martin / AP. Trabalhos de demolição na Ala Leste da Casa Branca, antes da construção do novo salão de baile.
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