Dançar com o Mundo
Numa sala de cinema improvisada, passa a velha cena de um homem fardado a ensaiar uma delicada coreografia. Farda cintada, gesto poético. O mundo gira suavemente nas suas mãos, como uma frágil profecia visual.
Em êxtase, Adenoid Hynkel, ditador da Tosmânia, brinca com o globo terrestre como se fosse seu. Uma dança absurda entre o poder e o delírio. Não é um sketch. É um epitáfio.
No mundo real, o globo não é de borracha, mas o gesto mantém-se. A dança também. Em Mar-a-Charco, o delírio tem palco próprio.
Excerto de O Grande Ditador, Charlie Chaplin (1940)
A celebração
Mar-a-Charco, residência presidencial cujo nome carrega a decadência com elegância tropical, acolhe a festa dos primeiros 90 dias da administração Drunke.
O dress code: patriótico q.b., socialmente apresentável. À entrada, os convidados recebem um kit oficial — boné, laço de pontas longas e três balões vermelhos já insuflados, prontos a ser atados ao dedo mindinho.
Ronald Drunke — magnata egocêntrico que vê o mundo como um reality show em que só ele controla o microfone, o espelho e o botão vermelho — preside agora aos Enlightened States of Great Amerika. Uma nação gigante, obcecada por negócios e por uma grandeza perdida — ambos redesenhados diariamente ao sabor do humor presidencial.
Já foi Supreme States of Great America. Depois Enlightened States of Great America. Até que o “c” foi oficialmente cancelado — sinal da nova era: mais forte, mais direta, mais disléxica por decreto.
Nos ecrãs gigantes, Vlador Putianov, líder vitalício do Putianistão, dirige algumas palavras ao seu homólogo de Great Amerika. A voz é gélida, a frase solene, pesada como um mapa antigo.
— As fronteiras do futuro não se desenham sozinhas.
A assistência aplaude com entusiasmo — ou talvez por reflexo. É difícil distinguir.
Entre os convidados, a lendária primeira-ministra Bonita Melonini. Drunke aproxima-se e afirma, em tom de cumplicidade:
— A amizade entre Great Amerika e o seu país é antiga. Tremenda. Desde o Império Romano. Uma amizade muito bonita.
Silêncio respeitoso.
O banquete
No banquete há hot dogs, hambúrgueres, BBQ, fried chicken. Há tacos e burritos vindos do México. Há gelo da Gronelândia para as Cokes gigantes.
Ausentes: whisky canadiano, queijos europeus e chocolate do Dubai. Todos afastados pelas guerras comerciais e pela nova doutrina: “Ou és nosso cliente, ou és nosso inimigo.”
O sol bate em ângulos bíblicos sobre palmeiras de plástico e fachadas douradas.
O trio
Pede-se silêncio. Apresenta-se o improvável trio da política contemporânea.
Primeiro, J.D. Convex: discreto, sorridente, vice por vocação, sempre com o ar atento de quem presta contas até quando respira. Mas há algo no seu sorriso que dura meio segundo a mais. Como se, por trás da face obediente, morasse um grito com decoro. Palmas educadas.
Zylon Husk entra aos saltos — guru da pós-verdade, foguetólatra entusiasta, convencido de que a realidade se resume a uma opinião mal formatada. A assistência, já habituada a não perceber coisa nenhuma, aplaude de pé.
— And now, ladies and gentlemen... the one, the only... President Ronald Drunke!
Mar-a-Charco estremece. Drunke agarra o microfone com solenidade mitológica. Aponta o dedo indicador aos presentes:
— Noventa dias tremendos. Fizemos mais do que qualquer administração na História da Grande Amerika. A História agradece. Vocês sabem muito bem do que estou a falar. Lixámos todos os que ganham dinheiro à nossa custa. Os nossos aliados fingidos. Mas os nossos verdadeiros amigos estão aqui. Pessoas belas. Muito belas...
Cada palavra faz tremer as bolsas — até a de Lisboa, que treme por simpatia.
— E os próximos 90 dias? Tremendamente melhores. Obrigado. Muito obrigado.
Epílogo
Atrás, Convex comenta discretamente com um influencer em ascensão:
— Eu diria mesmo mais: tremendamente melhores.
Husk, o olhar disperso, acelerado por cafés e psicoestimulantes, solta os seus balões. Vermelhos, premonitoriamente da cor do quarto planeta. Marte, claro.
Uma pequena multidão de convidados liberta também balões vermelhos, salpicando o céu com uma euforia de borracha.
E os balões sobem, sobem — vaidosos, delirantes, frágeis. Até rebentarem.
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