A Chamada dos Desalinhados
Uma comédia (quase) diplomática entre dois blocos que nunca foram alinhados
[Excerto exclusivo intercetado por meios altamente duvidosos.]
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Num país onde o tino escapou pela fronteira,
Kid Tock dá o ritmo, agita a bandeira.
Com tarifas ao rubro, ego no refrão,
Ronald Drunke comanda feito pavão.
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[O telefone toca. Do lado da Grande Amérika, ouve-se uma versão trap da Marcha Oficial, composta por Kid Tock.]
RONALD DRUNKE (voz de quem já misturou Red Bull, presunção e água benta):
Xixi! Como está o melhor comunista do mercado? Já mandei taxar a paciência, vai render milhões! Preparado para uma nova ordem mundial, em que eu decido tudo e o resto aplaude?
XIXI PING (voz tranquila, como quem medita rodeado de servidores Huawei):
Presidente Drunke. Os seus aliados ligaram. Parece que confundiu “festa surpresa” com “ataque nuclear económico”. Destruir o sistema económico ocidental… outra vez. É como ver alguém incendiar a própria casa para matar um mosquito.
DRUNKE:
Escusas de me agradecer, buddy. Finalmente alguém teve coragem de travar esta palhaçada do “comércio livre”. Acabaram-se as férias pagas para europeus e os brinquedos de plástico que explodem.
PING:
Interessante teoria. Vocês mandaram as fábricas embora e importaram dívida… Agora que o jogo corre mal, atiram o tabuleiro ao chão. Um clássico grande amerikano: perder e declarar vitória.
DRUNKE:
A questão aqui é soberania, buddy. Soberania e tarifas. Grandes tarifas. As maiores. Até o Kim Kaboom ligou a perguntar como é que se faz.
PING:
Estou certo de que os aliados estão encantados com a perspetiva de serem tratados como inimigos. Deve ser… revigorante, especialmente para os da NATO.
DRUNKE:
A NATO? É aquele clube europeu — eu finjo que pago quotas e eles fingem que treinam para guerras de faz-de-conta. Aliás, estou a pensar criar a minha própria aliança: The Enlightened States of Great Me.
PING:
Magnífico. Um clube ideal para jantares silenciosos.
DRUNKE:
Não preciso de jantar com ninguém. Tenho o Hylon Husk, que está a construir uma internet nova, uma moeda nova… e, se não me engano, um novo planeta para fugir aos impostos.
[Silêncio breve. O som de um ventilador lento. Ao fundo, a voz amplificada de Hylon Husk irrompe pela Sala Ovoide, num tom meio distraído, meio messiânico]:
"Se tudo correr bem, até ao fim do dia lançamos a Constelação Fiscal — 42 satélites que declaram IRS automaticamente e fazem elogios ao presidente em cinco línguas."
PING:
Pelo menos não lhe falta ambição. Só falta agora construir uma realidade alternativa… onde os seus planos resultem e ninguém lhe contradiga o horóscopo.
[A linha cai. Alegadamente, porque alguém ligou o micro-ondas na Sala Ovoide.]
Fontes próximas garantem que, após a chamada, Drunke lançou uma linha de T-shirts com o slogan: "Fez-se História (again!)", agora disponível em tamanhos XXL e geoestratégico.
O vice J.D. Convex afirmou que “tudo corre segundo os planos, embora ainda não os tenha lido”.
Hylon Husk, visivelmente entusiasmado, surgiu ao fundo de uma live stream a testar um megafone quântico pessoal. Segundo testemunhas, o aparelho só transmite autoelogios, previsões financeiras falhadas e citações descontextualizadas de Nietzsche.

Prova histórica de que a diplomacia, no fundo, é uma reunião de condomínio com arsenal nuclear
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