Unicórnios e Outros Bichos Mitológicos
Há qualquer coisa de mágico – ou talvez de tragicómico – no palco da Web Summit. Os políticos chegam baços, saem brilhantes. Como se o LED das luzes lhes acendesse os olhos, e a linguagem da tecnologia lhes devolvesse uma juventude de laboratório. Disruption. Quantum. Scalability. Palavras que não se mastigam – projetam-se, com fé e sotaque. E basta prender-lhes um microfone à bochecha para parecer que parte do raciocínio foi enviado para processamento remoto, numa cloud muito nacional, muito promissora.
Desta vez, foi um ministro. Não importa o nome. Importa o gesto, a cadência, a fé. Disse que Portugal está pronto para liderar o mundo em inteligência artificial. Liderar. O mundo. Assim mesmo, sem rodapé.
É sempre bonito ver entusiasmo. Mas mais bonito seria ver médicos onde faltam, professores onde são precisos e escolas sem baldes no chão a aparar o que a chuva traz. Saltam-se etapas com uma leveza inquietante – como quem promete um foguetão para Marte antes de construir a estrada até casa.
No topo do discurso, uma estrela: um tutor de IA para cada aluno. Um ser digital que escuta, guia, inspira. Que conhece a criança melhor do que ela própria. E que, se o orçamento der, talvez ajude a por a mesa e a aquecer a sopa.
Por instantes, pareceu estar ali, no palco, a solução para décadas de desigualdade educativa – comprimida num algoritmo afável, programado para o bem.
Mas o verniz do entusiasmo estala depressa. Portugal já foi líder do hidrogénio verde. Do mar. Do sol. Das startups. Dos bioquímicos e dos roteiros tecnológicos. Especialista em anunciar o futuro, mesmo quando o presente está por fazer.
Não se trata de um lamento contra a tecnologia. Trata-se, por assim dizer, de um gesto de respeito. Porque a tecnologia merece chão fértil, tempo, investimento real, políticas sérias. Não promessas em palco com drones a filmar de cima.
No meio desta dança – entre o PowerPoint e o milagre – o cidadão comum observa. Lá vai, com o que lhe resta. E pergunta-se, talvez em voz baixa, se também ele terá direito ao tal tutor de IA que o escute, que o inspire, que o guie.
Talvez sim. Talvez não.
Mas até lá, o mais sensato é continuar a confiar na velha fórmula que nunca falhou: inteligência humana, ironia quanto baste e aquele instinto antigo – quase animal – que desperta sempre que alguém nos garante o futuro… com brilho nos olhos e inglês de telepromoção.

Eles galopam. Promessas ao largo.
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