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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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15
Jun25

Nova Utopia: Crónicas de um Não-Lugar

Não reconheço deuses. Apenas equações. E mesmo essas estão sujeitas à dúvida. (Zylon Husk)

 

 

Em tempos recentes — ou futuros, o calendário já pouco importa — os Estados Iluminados da Grande Amérika sofreram uma reconfiguração populista-messiânica. Sob a batuta de Ronald Drunke, presidente vitalício e autoproclamado Sumo Pontífice da Nova Fé — ou, como gostava de ser referido, o “Papa Laranja” — foi criado o Gabinete da Fé: um conclave de tele-evangelistas especializados em transformar promessas de riqueza instantânea em doutrina de Estado.

Da corte balnear de Mar-a-Charco, rodeado de aduladores digitais e coristas automáticos, Drunke comandava os algoritmos do credo nacional — agora reprogramados para substituir relatórios científicos por parábolas de prosperidade — e distribuía as narrativas oficialmente sancionadas de que Deus o entronizara no poleiro supremo da Nova Fé.

“Marte é domínio sagrado da Grande Amérika”, declarou um dia, vestido com manto bordado a insígnias patrióticas, tiara papal forjada a partir de um boné “Make Earth Great Again”, e iluminado por uma versão remixada do hino nacional, com coros sintetizados.

A transmissão ecoou nas vastidões silenciosas de Marte. Zylon Husk, físico visionário e tecnocrata devocional, governava a colónia marciana de Nova Utopia. A propriedade era partilhada, o trabalho repartido com precisão — seis horas por dia —, a lógica ensinada nas escolas, e o progresso avaliado por algoritmos auditáveis. Era um lugar de pausa e de cético esplendor.

Foi então que Drunke, em nome da Nova Fé, emitiu o Ato de Supremacia Cósmica, exigindo que a Nova Utopia reconhecesse a sua autoridade divina — mesmo fora da atmosfera terrestre. Zylon respondeu com uma frase seca:

“Não reconheço deuses. Apenas equações.”

Para Zylon Husk, a verdade não se impunha — depurava-se. Não era um dogma, mas uma hipótese que resistia ao tempo. Nunca seguiu profetas, mas sempre desconfiou dos que falavam em nome da certeza. E se o seu mundo era feito de algoritmos, era porque preferia sistemas auditáveis à opacidade da fé embalada.

Consta que aí teve início o Cisma dos Algoritmos. Drunke, entre cólera e revelação, excomungou Husk como herege interplanetário. A corte de Mar-a-Charco reuniu-se numa transmissão solene em direto e anunciou o envio da Bomba da Fé Absoluta — uma arma sagrada e maravilhosa, criada para apagar dúvidas e impor verdades simples, fáceis e patrióticas.

Na Terra, dizia-se — em voz baixa e por canais pouco confiáveis — que talvez a fé de Husk não fosse negação, mas uma outra forma de crença. Uma que afirmava que a verdade é um bem partilhado — não propriedade privada do poder. Essas vozes foram apagadas. O seu lugar foi ocupado por um número de série.

Em Marte, Zylon Husk não esperava ser salvo. Não era mártir, nem herói — e, acima de tudo, não era sentimental. Por isso, fez apenas o que lhe competia.

Ligou o terminal pessoal. Gravou o seu último registo, encriptado e programado para se apagar sozinho passadas 24 horas. Limpou todos os ficheiros, desligou os alarmes e calou as mensagens automáticas que pudessem denunciar o que se passava. De seguida, escreveu o comando final e confirmou sem hesitar.

Antes de tudo se silenciar, deixou um último apontamento no registo:

A perfeição é uma variável.
A dissidência, um erro.
O silêncio, pura eficiência energética.

Transferiu uma Dogecoin para o moderador — o óbolo de quem atravessa fronteiras irreversíveis.

Saiu em direção à estufa. Foi regar tomates hidropónicos.

 

More.jpg

The Execution of Sir Thomas More, 1591 — A. Caron

 

Nota:

Thomas More escreveu Utopia em 1516, como provocação ética e literária:

Onde há propriedade privada e tudo se mede pelo dinheiro, nunca haverá justiça nem bem comum.

Mas talvez o contrário só exista num não-lugar — naquela ilha impossível onde a sátira subtil não precisa sequer de enfrentar carrascos.

Num gesto de extraordinário humor e dignidade perante a morte, More levou consigo uma moeda para dar ao seu carrasco — como à época noticiava o Guardian.

Nova Utopia é uma visita crítica a esse não-lugar — agora em órbita, entre algoritmos e dogmas recicláveis. 

Mas atenção: Zylon Husk não escreve utopias. Ele recita linhas de código — como outros recitam orações.

 

13
Mai25

Liturgia Corporativa para Crentes dos KPIs

Como Nada Dizer de Novo em 500 Palavras e um Coffee Break

Detesto os arautos da tecnocracia. Entre cada palavra em português, dizem duas em inglês — sempre naquele sotaque pseudo-californiano, aprendido algures entre um workshop de liderança e um curso online de três horas. Para eles, não há problemas — só challenges. E já ninguém trabalha: gere deliverables, cumpre deadlines e executa tasks com entusiasmo vazio.

 

 

A tecnocracia é a nova religião laica. Os tecnocratas são os seus sacerdotes — devotos do Excel, do PowerPoint e da ambiguidade estratégica. Prometem soluções para tudo, mas sobrevivem a eternizar os problemas sob o manto do “rigor técnico”. Não resolvem: monitorizam. Não enfrentam: gerem expectativas. A realidade? Não tem versão beta nem espaço para iteração.

E depois há o dialeto sagrado: um anglo-management devocional. Não se diz “vamos reunir”, diz-se “vamos fazer um meeting para alinhar o mindset da equipa antes do coffee break”. Não se discute: faz-se um brainstorm. E se tudo correu mal? Foi, desde logo, uma learning opportunity.

Falar português claro, pelos vistos, é coisa de gente pouco fora da caixa. O inglês, mesmo maltratado, dá logo um ar de competência importada. Só que esta linguagem não é comunicação — é camuflagem. Um código interno que distingue os iluminados dos comuns mortais. Quem não domina o jargão é automaticamente desqualificado. Fica fora do jogo. Ou, com sorte, promovido a figurante — talvez o palhaço pobre da reunião.

Esta obsessão não aproxima — afasta. Gera meetings que duram horas, onde se fala muito e se decide pouco. Porque ninguém quer arriscar. É melhor ficar no vago, na flexibilidade, no liquid mindset. O tecnocrata vive de eufemismos.

Quem pensa que o tema já deu o que tinha a dar está profundamente enganado. O tecnocrata evoluiu. Tornou-se 2.0. Agora tem soft skills, diz que é empático, que valoriza a diversidade, que é agile, resilient e innovative. Por fora, humano. Por dentro, o mesmo ficheiro Excel — com novos filtros.

Não é só nas empresas. Até o próprio Estado se converteu. Os ministérios falam de governança, os autarcas organizam workshops de cocriação e os serviços públicos comunicam como agências de publicidade. Substituiu-se o debate político por apresentações em PowerPoint. A proximidade com o cidadão? Sim, claro — por newsletter automática.

A tecnocracia não resolve — prolonga. Alimenta-se da aparência de controlo. Mas o embuste já não convence. Talvez esteja na hora de reaprender português claro. Trocar brainstormings por ideias, issues por problemas, challenges por coragem. Fingir que tudo está sob controlo não basta. Os clientes e os eleitores já entenderam o truque.

 

Tecnocracia foto.jpg

Foto de Polina Zimmerman

 

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