A Qualidade do Tremoço

Trump e Putin, como bons negociantes, vão regatear a repartição de territórios e decidir o futuro da Europa, sem dar cavaco a ninguém. Mas, bem vistas as coisas, enquanto a tempestade se formava, a Europa discutia a qualidade do tremoço.
A História ensina – por vezes, os alunos distraem-se. Há um padrão inquietante que atravessa os séculos: quando se avizinham tempestades, certas elites refugiam-se no pormenor, no tecnicismo ou no ritualismo político, como se a ordem do mundo pudesse sustentar-se em formalismos. Nos corredores do poder, afinam-se argumentos, polindo o detalhe como se fosse marfim; ao mesmo tempo, a História esculpe o futuro a golpes de machado.
No século V, Roma debatia hierarquias e privilégios enquanto os visigodos invadiam e pilhavam a cidade; a Constantinopla do século XV discutia – diz-se – com zelo intelectual bizantino o sexo dos anjos, enquanto os canhões otomanos abalavam os alicerces do império; em Versailles de final de Oitocentos, entre danças e reformas tímidas, poucos tinham oportunidade de ver a maré revolucionária a subir nas ruas de Paris.
Não é que estas discussões fossem irrelevantes. Eram sofisticadas, mas também um luxo que o tempo não permitia. É o erro do xadrezista que, orgulhoso da tática brilhante que lhe assegura um peão promovido, ignora que em dois lances sofrerá mate. Ou o defeito da construção modular, em que as partes se unem num todo sem alma. Ou ainda o azar do homem comum que, receoso de adoecer, foge da chuva apressado, sem reparar que a morte acelera ao dobrar da esquina.
Durante demasiado tempo, olhou-se para a tempestade como um risco longínquo, algo a ser gerido com paciência, notas de imprensa e sanções – talvez bem-intencionadas. Entretanto, as nuvens acumularam-se, o céu escureceu, o vento avisou e os trovões ribombaram. Não ao longe, mas sobre as nossas cabeças. O tempo do detalhe calculista já não se sustenta.
A civilização vive da ordem e do método; só sobrevive quando sabe preparar-se para as ruturas da História. O tempo do tremoço passou; o seu valor nutricional é inegável, mas já não basta. Agora, impõe-se erguer os olhos do prato e encarar a tempestade.
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