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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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20
Ago25

Museu de Gente

Com as mãos nos bolsos e as ideias à solta

 

 

 

Disse-me um amigo, com aquele tom que só os septuagenários afinam entre um suspiro e um diagnóstico:

– Em suma, já sou uma peça de museu.

A frase ficou no ar, a pairar como uma borboleta antiga, dessas que já só sobrevivem, espetadas com alfinetes, em álbuns de ciências naturais. E eu, que não resisto a ideias disparatadas com valor de futuro, imaginei logo o cenário: museus a contratarem velhos. Não a tempo inteiro – apenas durante as horas de visita, que ninguém merece ser património o dia todo com as cruzes a estalar.

Um museu onde as peças falam, resmungam, afinam a garganta, corrigem a legenda da própria vitrine e até se ofendem com perguntas mal feitas. Jovens visitantes aproximam-se dos “exemplares” – sentados em cadeirões de veludo gasto ou à mesa de fórmica – e perguntam, com genuína curiosidade ou reverência mal enjorcada:

– Senhor Velho, como era viver no bafio salazarento? Foi mesmo tudo a preto e branco… ou é só o filtro do TikTok?

As peças – também conhecidas por seres humanos com mais memória do que cartilagem – respondem com a serenidade dos que não têm pressa. Falam de senhas de racionamento e de cartas de amor escritas a esferográfica azul. De censura e rádios de válvulas.

E de esperanças pequenas, mas obstinadas.

Algumas fazem pausas para o comprimido da tensão. Outras encenam episódios do Zip-Zip ou recriam reuniões clandestinas com cheiro a cevada.

Cada sala tem o seu tema: Antes do Multibanco – A arte do troco; Pides e Piadinhas – Humor em tempos de medo; Cartas, Censura e Cravos – A construção do inacreditável.

E claro, como em qualquer museu, também aqui há etiquetas: “Exemplar não adaptado a sushi”; “Intervalo para sesta às 15h30”.

No fim da visita, zonas de descanso duplas: uma para os jovens, exaustos de fingir que já viram tudo; outra para os velhos, exaustos de terem visto mesmo. Em ambas, bolachas Maria, mantas e a RTP Memória a passar em loop.

Distopia? Talvez. Mas não mais absurda do que a realidade em que se fecham os velhos dentro de lares com nomes paradisíacos, como se a memória fosse contagiosa. Ali eles pouco falam… que quase ninguém pára para ouvir.

No museu, pelo menos, há diálogo.

Ou talvez esse museu já exista, disfarçado. Nos cafés, nos bancos de jardim, nas salas de espera dos centros de saúde. A entrada é gratuita. O acervo é infinito. Basta sentar-se, se houver lugar.

E quem sabe, um dia, também eu seja colocado numa dessas salas. Ao lado de um abat-jour e de um cartaz desbotado a dizer “Liberdade”.

Eu, peça cansada, mas não calada.

Com as mãos nos bolsos. E as ideias à solta.

 

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Foto de R. Stachman (Unsplash)

 

26
Jul25

Ritual

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Os sons da cidade espalham-se ao raiar da aurora. É o som da civilização cansada a fingir que desperta.

O som inebriado dos estudantes que, por dois semestres apressados, tomam de empréstimo a noite de uma cidade que nunca será inteiramente sua. Mas que parece pertencer-lhes por instantes.

Alguns sons não têm morada. Passam. Apenas passam.

Os pássaros cantam, ignorantes da tragédia planetária. Há gente que acorda, olheiras fundas e pão com manteiga na mão. O sol levanta-se, belo e cruel, marcando o fim da pausa e o regresso à rotina do desassossego.

Pelas seis e meia, ouve-se a voz grave dos que saem cedo – passos ritmados no passeio, botas pesadas a anunciar mais um dia igual.

Um carro ou uma motorizada sulca, de tempos a tempos, o silêncio espesso das ruas – deixando atrás de si o ronco quente do motor e o bafo do tubo de escape.

Vêm os homens da construção pelas sete e pouco, sacudidos pelas curvas dos autocarros suburbanos ou, com sorte, na carrinha velha onde se ouve o rádio do empreiteiro.

Logo a seguir, são as empregadas de limpeza, que partem cedo das suas terras e, como quem cumpre um ritual, desaguam na Baixa e se mantêm em grupos – grupos que se desfazem ao longo do percurso –, conversando, alto e sem pressa, sobre os maridos cansados, os mais velhos que já pouco dizem, e a prima que arranjou lugar na padaria.

Nas ruas circula o cheiro inconfundível do pão quente, a caminho das pastelarias e cafés ainda fechadas ao mundo. A cadeia de abastecimento junta-se ao burburinho matinal.

Já se veem os que servem o café a dispor as mesas na esplanada – como soldados sonolentos de um ritual quotidiano.

Depois, a cidade adensa-se: buzinas nos engarrafamentos, autocarros que quase raspam em tudo o que se move – e também no que não se move. Diz-se que há de vir o metrobus, com a sua via dedicada, por definição. Talvez no fim do ano… se Deus quiser.

Acordam os habitantes da cidade: casais jovens e os que tentam sê-lo, em marcha apressada para deixar os filhos na creche, na escola – ou, com aquela dedicação parental que já roça o absurdo, na universidade.

E ouvem-se também, das janelas entreabertas, os murmúrios dos mais velhos, insatisfeitos – alguém suspira pela vida que poderia ter sido... e já não será.

Os passos dos trabalhadores do comércio apressam-se – o horário de abertura é às nove, nalguns casos às dez, como é hábito nas cidades de nuestros hermanos.

E depois vêm os funcionários, rostos conhecidos dos balcões, dos carimbos e dos crachás – cada um fiel ao seu pequeno caos. E à ajudinha da cápsula compatível com Nespresso.

O som alastra. Primeiro murmúrio, depois clamor. A cidade parece ganhar forma – sobrepõem-se rotinas, funções, rostos de todas as idades, sotaques familiares e línguas que ela ainda está a aprender a ouvir.

Gente que caminha lado a lado, ou se cruza, trocando olhares e, quando o acaso permite, um "bom dia" distraído.

Dizem que é o som de uma cidade a ganhar tino. Talvez seja só ruído. Mas seguimos, como sempre, até à próxima esquina.

 

03
Mar25

A Linhagem dos Visionários

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Nos círculos mais influentes da tecnologia, há quem defenda que as "pessoas inteligentes devem ter muitos filhos".

 

Afinal, o mundo precisa de engenheiros, programadores e visionários para povoar Marte – ou, pelo menos, para garantir que a rede social X (antigo Twitter) continue operacional. O apelo ao fabrico em série de génios não é exatamente uma novidade. Há séculos que se sonha com linhagens puras, sem a interferência desagradável da aleatoriedade genética. E essa visão parece ganhar força entre alguns multimilionários, a julgar pelo entusiasmo com que certos nomes multiplicam a sua descendência.

Curiosamente, esta ideia não anda longe da lógica distópica de The Handmaid’s Tale, romance de Margaret Atwood adaptado para o streaming, em que a reprodução deixou de ser um capricho biológico para se tornar uma missão de Estado. Em Gilead, as servas não tinham escolha. Neste mundo de que falamos, a persuasão cumpre o seu papel: sem amor, sem encantamento, apenas um projeto calculado. A natalidade elevada é um dever de classe, um imperativo quase moral para quem quer um bilhete para o futuro. Embora alguns defendam que ter muitos filhos é um investimento no amanhã, a questão permanece: será sempre uma escolha racional ou apenas um reflexo de condicionamentos sociais?

É claro que ninguém sugere um regime de reprodução forçada. Aqui não há comandantes nem esposas guardiãs. Ou melhor, há, sim: um dos homens mais ricos do mundo é agora chefe do Departamento de Eficiência Governativa, o principal assessor do Presidente. A eugenia de Silicon Valley trata do resto, convertendo a parentalidade num investimento estratégico. A promessa é clara: criar linhagens de visionários e moldar as próximas gerações sem perguntar se estas querem carregar tal destino. O futuro é demasiado importante para ser democrático.

 

13
Out24

Fúria de uma Cabra de Companhia

Poema Pet Friendly

 

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Aurora

Bé-é-é-é! bé-é-é!
Cabra nasce lá na quinta,
olhos sãos, pelagem tinta,
a balir, livre que é!

Cabra aprende a saltitar,
cabra vive a descobrir,
cabra dança até cair,
corre, corre, sem parar!

Cabra cresce, forte e pura.
Mãos afagam, cabra sente
calor, carinho presente,
brotam afetos sem censura.

Inquietação

Cabra corre, cabra cresce. 
Dentro dela arde um vulcão!
Sem limites, nem prisão.
Cabra olha… cabra esquece.

Cada passo, uma explosão!
Corre, raspa chão incerto.
Salta longe, foge perto,
corre cabra, solta a mão.

Cabra luta, não se rende.
Corre cabra, chega a hora!
Foge, foge, sem demora,
não recua, vai em frente.

Dança com o infinito

Corre cabra, corre agora!
Cabra corre, cabra voa,
cabra vive numa boa.
Vento chama, mundo fora!

Mundo gira, solta as garras.
Cabra rola, cabra dança.
Já sem freios, na balança,
corre cabra, sem amarras.

No vazio da imensidão,
cabra busca, sem cansar.
Alma livre a despertar,
coração em confusão!

Peso do sonho

Corre, corre, chão que arde,
tudo foge em fúria fria.
Cabra sente a fantasia.
Corre cabra, sem alarde.

Liberdade tem seu preço,
cabra corre, cabra para,
olha em volta, nada aclara,
alma vira-se do avesso.

Fúria corre sempre além!
Olhos fecham, noite avança,
à beira do rio descansa,
corre cabra, sem ninguém.

08
Out24

O Paradoxo Persa

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O Irão é um país de paradoxos profundos, onde o fascínio se mistura com a estranheza em cada esquina. Um fascínio que nasce de uma cultura com mais de cinco mil anos, cujas raízes mergulham na filosofia de Zoroastro (bons pensamentos, boas palavras e boas ações!) e na grandeza de impérios que marcam a história da antiguidade e do mundo. No entanto, o desenvolvimento tecnológico atual, impressionante nos campos científico e militar, convive lado a lado com tradições que, embora moldadas pela islamização após a conquista árabe no século VII, ainda ditam muitos aspetos do quotidiano. O passado e o futuro encontram-se, mas nem sempre se compreendem.

 

 

Nas ruas e avenidas, homens e mulheres percorrem caminhos separados, como se a geografia do apartheid se desenhasse sob os seus pés. O hijab, o niqab, o chador — cada um conta uma história de silêncios impostos. As mulheres, ao falar com estranhos, especialmente com estrangeiros, sublinham cada frase com o brilho intenso dos olhos e a agitação dos braços, dos quais apenas se veem as mãos longas, dedos de pianista que parecem bailar nas entrelinhas do que não podem dizer.

Várias polícias vigiam-se mutuamente, numa dança de repressão em que o cidadão comum é o espectador indefeso. E, no palco da obediência, a temida polícia de costumes tudo vê, tudo julga. Sob o regime dos Reza Pahlavi, os persas vislumbraram uma liberdade de costumes que nunca se traduziu em democracia política ou justiça social — um vazio que, com Khomeini, foi preenchido com a retórica religiosa, consolidando a autoridade dos clérigos.

Em nome de Alá, o Misericordioso (assim começa todo o discurso oficial), garantiu-se a licitude do regime, e com ela veio o peso de um destino traçado para as mulheres. Nas páginas sagradas do Corão, encontrou-se a justificação para o silêncio e a submissão. A vulnerabilidade da mulher, diante de um futuro que não escolheu, fechou o círculo. Mas, dentro deste silêncio, as mãos e o brilho dos olhos aspiram ainda a uma liberdade por conquistar — uma voz que, embora calada, nunca deixou de querer ser ouvida.

 

Nota:

Foto publicada em dnotícias.pt, 14 de abril de 2023.

 

17
Set24

O Dever acima de Tudo ou a Insaciável Crueza do Ter

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Só por ironia se pode confundir o substantivo da expressão “o dever acima de tudo!” com o verbo transitivo dever, no sentido de “ter uma dívida de 500 escudos”. E, no entanto, esta confusão é reveladora. O "dever" moral, como obrigação inescapável, carrega consigo uma carga tão pesada como qualquer dívida monetária. Há professores de Português que passam catrefadas de deveres. Por supuesto debemos estarles agradecidos – a gratidão é, também ela, uma espécie de dívida moral. Seja como for, dever hoje 500 escudos é mais do que improvável. Nem o escudo nem as dívidas duram eternamente. Mas o dever é como aquele parente chato que nunca se vai embora, sempre a lembrar-nos de como as coisas têm de ser, mesmo quando fingimos não ouvir.

Se o "dever" é essa presença incómoda e constante, o "ter" é o outro lado da moeda, igualmente implacável. Esmiuçando: "a insaciável crueza do ter" expõe a sua natureza faminta, a ambição que jamais se sacia. Como o dever, o ter é também uma expectativa esmagadora, mas ao contrário do primeiro, o seu peso é distribuído de modo desigual: quem mais tem mais quer. A crueza do "ter" não reside apenas na quantidade, mas na tirania que impõe. É o império da posse, onde a fortuna decide arbitrariamente os seus favoritos. Má fortuna, por sua vez, é quase sempre a norma, enquanto poucos acumulam o que para tantos outros será eternamente inalcançável.

Ter não é senão um verbo – simples, despojado de complementos – mas transforma-se num substantivo – teres – quando designa o que alguém possui, por vezes à custa de outros. Numa sociedade que valoriza o ter acima de tudo, as desigualdades tornam-se quase naturais. No entanto, o "dever" e o "ter" não são forças opostas; coexistem, alimentam-se uma da outra. Quem tem deve. Quem deve deseja ter. E, assim, fecha-se o ciclo.

O espetáculo, claro, tem de continuar!

 

A frase "The show must go on" em Os Cavalos Também se Abatem (1969), realizado por Sydney Pollack, simboliza a cruel indiferença de um espetáculo que, mesmo diante da exaustão e do sofrimento humano, exige continuidade a qualquer custo.

Da mesma forma, "The show must go on / The show must go on, yeah / Inside my heart is breaking / My make-up may be flaking / But my smile still stays on" (1991), dos inesquecíveis Queen, expressa a luta para prosseguir, ainda que o coração ameace sossobrar.

 

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