Museu de Gente
Com as mãos nos bolsos e as ideias à solta
Disse-me um amigo, com aquele tom que só os septuagenários afinam entre um suspiro e um diagnóstico:
– Em suma, já sou uma peça de museu.
A frase ficou no ar, a pairar como uma borboleta antiga, dessas que já só sobrevivem, espetadas com alfinetes, em álbuns de ciências naturais. E eu, que não resisto a ideias disparatadas com valor de futuro, imaginei logo o cenário: museus a contratarem velhos. Não a tempo inteiro – apenas durante as horas de visita, que ninguém merece ser património o dia todo com as cruzes a estalar.
Um museu onde as peças falam, resmungam, afinam a garganta, corrigem a legenda da própria vitrine e até se ofendem com perguntas mal feitas. Jovens visitantes aproximam-se dos “exemplares” – sentados em cadeirões de veludo gasto ou à mesa de fórmica – e perguntam, com genuína curiosidade ou reverência mal enjorcada:
– Senhor Velho, como era viver no bafio salazarento? Foi mesmo tudo a preto e branco… ou é só o filtro do TikTok?
As peças – também conhecidas por seres humanos com mais memória do que cartilagem – respondem com a serenidade dos que não têm pressa. Falam de senhas de racionamento e de cartas de amor escritas a esferográfica azul. De censura e rádios de válvulas.
E de esperanças pequenas, mas obstinadas.
Algumas fazem pausas para o comprimido da tensão. Outras encenam episódios do Zip-Zip ou recriam reuniões clandestinas com cheiro a cevada.
Cada sala tem o seu tema: Antes do Multibanco – A arte do troco; Pides e Piadinhas – Humor em tempos de medo; Cartas, Censura e Cravos – A construção do inacreditável.
E claro, como em qualquer museu, também aqui há etiquetas: “Exemplar não adaptado a sushi”; “Intervalo para sesta às 15h30”.
No fim da visita, zonas de descanso duplas: uma para os jovens, exaustos de fingir que já viram tudo; outra para os velhos, exaustos de terem visto mesmo. Em ambas, bolachas Maria, mantas e a RTP Memória a passar em loop.
Distopia? Talvez. Mas não mais absurda do que a realidade em que se fecham os velhos dentro de lares com nomes paradisíacos, como se a memória fosse contagiosa. Ali eles pouco falam… que quase ninguém pára para ouvir.
No museu, pelo menos, há diálogo.
Ou talvez esse museu já exista, disfarçado. Nos cafés, nos bancos de jardim, nas salas de espera dos centros de saúde. A entrada é gratuita. O acervo é infinito. Basta sentar-se, se houver lugar.
E quem sabe, um dia, também eu seja colocado numa dessas salas. Ao lado de um abat-jour e de um cartaz desbotado a dizer “Liberdade”.
Eu, peça cansada, mas não calada.
Com as mãos nos bolsos. E as ideias à solta.

Foto de R. Stachman (Unsplash)
.



