Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
06
Dez25

Grupo de Trabalho sobre a Realidade

Uma breve ficção administrativa sobre a fragilidade da realidade como conceito partilhado.

Reuniram-se numa sala demasiado iluminada, com garrafas de água ridiculamente pequenas, alinhadas com rigor. O objetivo: decidir se a realidade, na sua forma atual, devia ser revista.

Havia quem defendesse que já não fazia sentido usar a palavra. Outros propunham mantê-la, mas apenas com inicial minúscula e com um asterisco.

O presidente da comissão, um homem grisalho com voz educada, falou do custo de manter uma realidade comum. Era difícil atualizá-la em simultâneo para todos os utilizadores.

– O atraso médio entre o acontecimento e a compreensão ultrapassa já os três anos – disse, com a naturalidade de quem apresenta estatísticas de trânsito.

Uma jovem analista questionou se seria possível viver com versões personalizadas:

– Cada cidadão teria direito à sua própria realidade, devidamente validada por algoritmo certificado.
– E se duas realidades forem incompatíveis? – quis saber alguém.
– Serão toleradas – disse-se, com a solenidade de quem não entendeu a pergunta.

No fim, votou-se manter a realidade, mas com condições.
Aceitar que há zonas lentas, zonas cegas e zonas suspensas.

Ficou decidido que qualquer proposta de atualização da realidade deverá ser submetida com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

Ficou acordado que a palavra “realidade” passará a ser usada com a delicadeza de quem segura uma bomba-relógio embrulhada em papel de seda.

01
Dez25

O Dia da Restauração

Crónica gastronómica, dita aos tachos e ouvida pelas gerações.

Ilustração_O_Dia_da_Restauração.png

 

A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.

 

 

 

No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.

Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.

No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.

Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.

¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.

O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!

Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.

– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!

E concluiu, parafraseando Mestre Almada:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:

– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.

No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.

Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.

– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.

E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.

Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.

 

- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.

- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.

 

15
Set25

O Senhor no Lavatório

 

 

 

Na área de serviço, um QR code brilha no frio da luz branca. O código pergunta:

Como foi a sua experiência neste WC?

Um Senhor olha. Não responde. Não por falta de opinião, mas por excesso de realidade. Responder seria admitir que houve experiência, um acontecimento digno de ser registado – ou medido. O Senhor desconfia.

Há quem diga que, ao décimo inquérito, se recebe um vale para detergentes. O Senhor pensa que, se a promoção for para sabonete líquido, talvez valha a pena mentir.

O espelho está limpo, mas distorce. O Senhor vê um homem cansado que se parece com ele. Já não sabe se veio aqui lavar as mãos ou lembrar-se de quem era. Há dias em que até o reflexo hesita. Uma memória antiga pisca-lhe ao fundo da retina: um lavatório de infância, sabão azul e branco, a toalha da avó.

Outro homem, anónimo, pergunta: “E se o QR code for uma porta para o multiverso sanitário?” A pergunta é absurda. Como todas as boas perguntas.

Alguém imagina o futuro: o autoclismo exige autenticação por chave móvel digital. A higiene é uma operação administrativa. O Senhor prefere a velha torneira com falta de pressão. Pensa: e se fosse o WC a avaliá-lo? “Utilizador 328. Tempo de espelho excessivo. Enxaguamento insuficiente.”

O Senhor repara que está a ser vigiado por um dispensador de papel. Recorda um verso antigo sobre dignidade. Surge um poeta. Escreve sobre papel higiénico reciclado. Ténues Folhas de Esperança: Crónicas de uma Desintegração Prematura.

O filósofo do entupimento, se existisse, diria: “O corpo só se revela na solidão do cubículo.” O Senhor concordaria. Mas não verbalmente.

Entretanto, num escritório cinzento, algures, alguém analisa gráficos sobre espuma, fluxo e fricção. Distopia em estado líquido. A sanita, silenciosa, observa. O QR code sorri. A preto e branco.

É a sondagem do país real. De lavatório em lavatório. De sanita em sanita.

A luz branca zune no silêncio. A torneira pinga. Ele ainda está ali, de pé, junto ao lavatório, quando o telefone vibra no bolso.

“Boa tarde. Fala Lurdes Patrícia, da Satisfação das Necessidades Orgânicas. Esta chamada está a ser gravada.”

O Senhor desliga. Diz, com firmeza contida:

“Deixem pelo menos a casa de banho livre do capitalismo digital.”

O QR code espera. Sem pressa.

 

faruk-otkur.jpg

Uma memória antiga pisca-lhe ao fundo da retina. Foto: Faruk Otkur. Publicada em 2020. Via Unsplash.

 

01
Set25

Lusitana Presidência

Crónica de um delírio transatlântico em dias de legitimidade flutuante

 

 

 

O verão americano encenava, mais uma vez, o seu ritual previsível: famílias desfilavam pela Main Street entre carrinhos de bebé e copos gigantes de Diet Coke, fingindo espontaneidade enquanto seguiam o guião comunitário do hambúrguer, da música ao vivo e do fogo-de-artifício.

As crianças corriam em círculos, hipnotizadas por néons e balões. Os pais aplaudiam as bandas com o zelo de festividade local, como se fosse Woodstock. Tudo terminava em selfies, sob um céu salpicado de pequenas explosões – uma celebração tão coletiva quanto coreografada, feita de consumo, pertença e rotina embrulhada em espetáculo.

Enquanto o último brilho se apagava no céu, muito longe dali, um homem despertava. Parecia apenas o início de mais uma manhã em Portugal – não fosse ele ter acordado com a súbita certeza de ser o novo Presidente dos Estados Unidos.

 

Nunca atravessara o Atlântico. Imaginava o colégio eleitoral como uma escola noturna. Achava que o Capitólio era um teatro no Parque Mayer. E, para ele, fazia todo o sentido. Mas isso era irrelevante. Fora eleito. No silêncio absoluto do subconsciente nacional.

Durante a noite, o Espírito Santo cruzou a América e o oceano. Desceu sobre o território sonhador que dá pelo nome de Portugal – e sussurrou: – Now it’s your time, boy.

Ergueu-se, solene. Recortou estrelas de jornal e colou-as numa touca de banho esquecida no estendal. Chamou-lhe Coroa da Intuição Pública. Saiu à rua com o peito feito decreto.

Sentir é decidir com base no que paira.

Proclamou-se Presidente. Tinha três testemunhas: o padeiro, o carteiro e um grupo de WhatsApp. Este não respondeu. No silêncio, presumiu-se anuência. Democracia silenciosa.

 

Entendeu que o protocolo exigia um gesto.

Na tarde do mesmo dia, apresentou-se na Embaixada dos EUA. Levava uma Constituição pessoal, escrita a lápis; um caderno espiral com pensamentos interrompidos; e um frasco com os dizeres Legitimidade – Amostra. Esperou que chamassem o segurança. Talvez o embaixador. Mas quem surgiu foi o segundo-secretário.

Abriu ligeiramente os braços, como quem abraça um país invisível:

– Sou o novo Presidente dos Estados Unidos da América – disse, num tom contido. – A eleição foi subtil. Está em plena conformidade pessoal.

Fez uma pausa. O olhar caiu-lhe nos sapatos. Depois, ergueu-se ligeiramente, apoiado nos calcanhares, como quem se prepara para ser ouvido.

– Tomei posse ao raiar da aurora. Com testemunhas. O padeiro. O carteiro. E um grupo de WhatsApp que, embora ausente, não contestou.

O segundo-secretário – jovem, sotaque do Illinois e a cortesia oficial já a ceder terreno – recuou ligeiramente o queixo… como quem tenta adiar o inevitável:

Sir, do you even speak English?

Ele abanou a cabeça, com tranquilidade:

– Presidir não exige tradução. Basta sentir.

 

O tempo hesitou. O segundo-secretário olhou em redor, à procura de um manual invisível. Depois compôs o nó da gravata, endireitou-se ligeiramente e sugeriu, com embaraço elegante:

– Talvez… queira regressar noutra ocasião. Mais oportuna.

Ele respondeu:

– A soberania íntima não se discute ao balcão.

 

Nenhuma porta se abriu. Mas ele considerou-se em funções.

Sem acesso a Washington, instalou-se num quiosque abandonado, junto a um Intermarché periurbano. Cobriu a placa Jornais & Revistas com outra: Casa Branca de Emergência – América Lusitana. Hasteou como bandeira uma toalha de praia. Ali escutava o vento. Decidia a partir dos silêncios. Legislava em papel de embrulho.

A primeira medida: instituir o Dia Nacional da Dúvida Produtiva – a celebrar sempre que o sol hesita ou o multibanco falha.

O diploma foi escrito de improviso e ignorado com solenidade.

Ainda assim, seguiu-se um plano mais ambicioso. Criou um governo.

Havia uma pasta para a Resignação Ativa, outra para o Desenrascanço Institucional e uma agência para a Saudade Aplicada. Fundou ainda um organismo de consulta — que só se reunia quando havia vontade. Ou disponibilidade emocional.

Ninguém aceitou o convite. Nem qualquer cargo. Nem o risco de estar presente num governo que existia apenas no espírito de um homem só. Agradeceram com elegância. Um pôs-se à disposição, mas de fora. Outro sugeriu observar o sentimento geral.

O projeto ficou de pé. Vazio. Sem vozes. Sem cadeiras ocupadas. Só a estrutura. A ideia. E um silêncio que ninguém quis preencher.

 

Mesmo sem secretários de Estado, acreditava que o impacto seria global.

A comunidade internacional manteve-se em silêncio. A CNN fingiu não ver. A Fox tentou entrevistá-lo – ele respondeu em verso. A entrevista não foi para o ar.

No Twitter da NATO apareceu por engano a frase: Pending confirmation: Lusitana Presidency.

Foi apagada em cinco minutos – tarde demais.

Em Coimbra, o Instituto de Altas Incertezas escreveu: Forma avançada de poder simbólico. Fenómeno não verificável. Intensamente humano.

 

Agora, ao fim da tarde, regressa sempre ao quiosque. Assina ordens executivas. Fala com formigas – as que se deixam ficar. Risca listas de compras. Não por terem sido feitas, mas porque é mais seguro que se risquem.

Medita. A condição humana cabe num quiosque.

Na porta, um cartaz preso com molas de roupa: Presidente dos EUA em Funções. Aceitam-se dúvidas, sugestões e restos de emoção.

 

Ninguém na América o conhece. Mas dizem que o país anda menos triste.

E que Portugal, nestes dias, exportou sobretudo silêncio, paciência e alguma hesitação – embrulhados com zelo, remetidos sem pressa e aceites com espanto em corações estrangeiros.

 

Casa Branca.jpg

Quando o poder cabe num papel de embrulho, a presidência torna-se uma ideia – e a Casa Branca, apenas um quiosque coberto de folhas e intenção. Foto: L. Van de Velde

 

04
Ago25

O Regresso de Potemkin

Potemkin.jpeg

O mundo é palco, a mesa é cenografia, e o botão vermelho brilha sob holofotes. Crónica para tempos insólitos.

 

 

Um país onde Tolstói cavalgava entre guerra e paz. Onde Dostoiévski sondava o abismo. Tchaikovsky chorava em notas musicais, Shostakovich sussurrava melodias sob censura. Kandinsky dissolvia o mundo em cor. Eisenstein transformava a revolução em cinema. Mendeleev organizava o cosmos, Sakharov tentava salvar o que ajudara a destruir. Onde poetas morriam calados; e ditadores falavam demais.

Entre a estepe e o gulag, entre ícones e silêncios, a Rússia criava com febre e medo. Um império de dor luminosa onde a arte é redenção, e o castigo destino. Terra de génios e fantasmas, sempre entre o sublime e o insuportável.

Hoje, uma mesa branca, extensa, com muitos metros de comprimento, é mais do que mobiliário: é manifesto. Numa ponta senta-se o czar moderno, isolado. Na outra, líderes mundiais aguardam, como súbditos em audiência glacial.

Oficialmente, trata-se de precaução sanitária. Na prática, é puro teatro do poder. A distância traduz a sua visão do mundo: controlo absoluto, contacto mínimo. A estética é fria, hostil – arquitetura da desconfiança.

Essa mesa tornou-se símbolo do autoritarismo encenado: longínqua como o diálogo, branca como a negação, desconfortável como a verdade. A diplomacia ali é um exercício de isolamento ornamental.

Numa certa manhã, do outro lado do mundo, o presidente laranja acordou virado para Moscovo. E teve uma grande e belíssima ideia: brincar aos submarinos nucleares. Inspirado por uma declaração ambígua de um tal Dmitri – talvez espião, talvez motorista de sauna moscovita –, decidiu que era hora de “reposicionar forças”.

Ordenou que dois submarinos mergulhassem rumo a “posições apropriadas” – expressão suave para dizer “apontem, preparados para disparar”. Mais uma vez, a diplomacia tornou-se espetáculo. O medo fez-se moda. E o ego presidencial brilhou como botão vermelho sob holofotes.

Tudo parecia ficção, exceto os submarinos. Esses navegavam com ordens absurdas, escritas em letras garrafais e laca laranja-fosforescente.

A tensão cresceu como nuvem carregada. Provocação respondeu a provocação. Jornalistas, em pânico encenado, apontavam microfones como metralhadoras de opinião.

Guterres veio à boca da cena, sereno junto às grades do possível. Tentou despejar água fria na fervura nuclear, falando de paz com a expressão de quem já sabia que ninguém o escutava.

As bolsas caíram em queda livre, levando consigo esperanças e fundos de pensão. Analistas sorriam nervosamente nas transmissões ao vivo.

O mundo prendeu a respiração. Os submarinos, silenciosos, mantiveram posições. As primeiras páginas gritavam mais alto do que a razão.

E então, o homem da mesa branca deu ordens ao couraçado Potemkin, última glória de tempos pretéritos. O velho navio emergiu como um fantasma histórico, preparado para sacudir a ordem internacional. Mas ninguém teve tempo de comer carne podre com vermes. Nem a tripulação chegou sequer a içar a bandeira vermelha da rebelião.

Foi o presidente laranja quem consumou o ato – como quem encerra uma peça teatral. Logo voou para Moscovo para coroar aquilo a que chamou vitória.

Pouco depois, na televisão russa, no Vremya das 21h00, apareceu sozinho. Acredita-se que falava de um abrigo subterrâneo, blindado contra mísseis – e contra as radiações da verdade. Sentado naquela mesa absurdamente grande, infinitamente distante do resto do planeta, ocupava o ecrã inteiro. Com tradução simultânea para todas as línguas conhecidas – e algumas inventadas –, declarou-se “defensor da humanidade”. E ofereceu-se, modestamente, para Prémio Nobel de todas as causas.

A mesa não respondeu.

 

04
Jul25

A Roda e o Vento

Mandala.jpg

Em tempos em que as linhas entre o sagrado e o absurdo se tornam cada vez mais ténues, a ideia de reencarnação ganha novos contornos.

 

 

O Testamento

Num mosteiro suspenso nas alturas rarefeitas de Dharamsala, sob uma luz dourada filtrada por bandeiras de oração que dançam com o vento ancestral, o 14.º Dalai Lama, com olhos de paz profunda e voz como pedra antiga, dirige-se ao mundo:

Quando eu partir, voltarei. Não nascerei onde me esperam. Serei homem — mas não moldado. Livre da mão do império. Leiam os sinais com pureza. E não temam o desvio.

A China reage com firmeza ritual, prometendo conduzir o processo com os seus protocolos apertados como algemas. Mas o mundo escuta. E os monges, em segredo, começam a preparar o inevitável.

 

O Vazio

A morte do Dalai Lama não tem som. Um frio denso espalha-se pelas planícies e vales.

Convocam-se oráculos. Rituais milenares cruzam os corredores dos templos. Os monges estudam estrelas, fragmentos de sonhos, deslocações de energia.

O oráculo murmura três sinais: silêncio denso, reflexo ausente, orgulho inato.

Dharamsala transforma-se num centro de vigília espiritual. Abrem-se arquivos ancestrais com luvas brancas. Mapas cármicos sobrepõem-se como mandalas cifradas.

Forma-se uma comitiva sagrada: lamas experientes, astrólogos, linguistas, noviços com relíquias ao peito, olhos como lanternas.

Partem para os Himalaias, os Andes, os Alpes, os Apalaches — as periferias invisíveis e as metrópoles onde a alma se esconde sob o betão e o consumo. A sua presença é quase invisível — e, ainda assim, imparável.

Consultam calendários lunares, escutam parteiras, analisam nascimentos coincidentes com o último suspiro do mestre.

Em cada casa com aura suspeita, oferecem os objetos — um sino, uma tigela, um colar de madeira antiga — para acordar a memória. Procuram gestos automáticos, olhos que reconhecem o invisível, dedos que hesitam antes de escolher.

Vivem meses entre malas feitas e desfeitas, silêncios e mantras. A imprensa especula. O povo sussurra. Mas nada é certo.

A reencarnação escapa. As visões contradizem-se. Instala-se uma angústia sem nome, como se o novo Dalai Lama não quisesse ser encontrado. Ou pior: como se estivesse deliberadamente fora do mapa.

 

A Revelação

Nos subúrbios de um continente distraído, uma mulher comenta com os vizinhos que o filho é... estranho.

Fala com palavras de homem feito. Corrige adultos. Dá ordens a quem não o escuta. Detesta jogos que não impliquem autoridade. Promete grandeza. Exige reverência. Nunca pede desculpa.

E passa muito tempo ao espelho, a ensaiar poses para o olhar dos outros.

Certa vez, proclama:

O mundo precisa de mim. Mas não está pronto.

Quando os monges chegam, são recebidos por brinquedos alinhados com rigor militar. De uma bolsa retiram os objetos antigos, que dispõem sobre uma mesa de vidro. O menino aproxima-se, olha, toca, depois murmura:

— That was mine! The bell is off-key. So are you.

Silêncio absoluto. Um dos monges fecha os olhos, como se escutasse um sinal. Outro anota algo com mãos trémulas — talvez iluminação, talvez cobiça.

O menino tem quatro anos. Rechunchudo. Pele clara. Uma boquinha quadrada, que articula frases simples com a precisão de quem acredita que cada palavra sua é lei. O olhar é tão firme quanto altivo. Usa fatinho azul escuro, gravata vermelha absurda, a roçar-lhe os joelhos — como se fosse emprestada — e penteado cuidadosamente esculpido num laranja improvável, desafiando o vento, o karma e o bom senso.

O ciclo fecha-se. A roda do renascimento girou… e tropeçou. O universo riu-se. Não foi de alegria.

 

Nota: A mandala que abre este post é um símbolo visual do universo e da impermanência, usado em tradições budistas. Representa ciclos de existência — perfeitos à vista, mas frágeis no centro. Tal como a história que acaba de se fechar.


15
Jun25

Nova Utopia: Crónicas de um Não-Lugar

Não reconheço deuses. Apenas equações. E mesmo essas estão sujeitas à dúvida. (Zylon Husk)

 

 

Em tempos recentes — ou futuros, o calendário já pouco importa — os Estados Iluminados da Grande Amérika sofreram uma reconfiguração populista-messiânica. Sob a batuta de Ronald Drunke, presidente vitalício e autoproclamado Sumo Pontífice da Nova Fé — ou, como gostava de ser referido, o “Papa Laranja” — foi criado o Gabinete da Fé: um conclave de tele-evangelistas especializados em transformar promessas de riqueza instantânea em doutrina de Estado.

Da corte balnear de Mar-a-Charco, rodeado de aduladores digitais e coristas automáticos, Drunke comandava os algoritmos do credo nacional — agora reprogramados para substituir relatórios científicos por parábolas de prosperidade — e distribuía as narrativas oficialmente sancionadas de que Deus o entronizara no poleiro supremo da Nova Fé.

“Marte é domínio sagrado da Grande Amérika”, declarou um dia, vestido com manto bordado a insígnias patrióticas, tiara papal forjada a partir de um boné “Make Earth Great Again”, e iluminado por uma versão remixada do hino nacional, com coros sintetizados.

A transmissão ecoou nas vastidões silenciosas de Marte. Zylon Husk, físico visionário e tecnocrata devocional, governava a colónia marciana de Nova Utopia. A propriedade era partilhada, o trabalho repartido com precisão — seis horas por dia —, a lógica ensinada nas escolas, e o progresso avaliado por algoritmos auditáveis. Era um lugar de pausa e de cético esplendor.

Foi então que Drunke, em nome da Nova Fé, emitiu o Ato de Supremacia Cósmica, exigindo que a Nova Utopia reconhecesse a sua autoridade divina — mesmo fora da atmosfera terrestre. Zylon respondeu com uma frase seca:

“Não reconheço deuses. Apenas equações.”

Para Zylon Husk, a verdade não se impunha — depurava-se. Não era um dogma, mas uma hipótese que resistia ao tempo. Nunca seguiu profetas, mas sempre desconfiou dos que falavam em nome da certeza. E se o seu mundo era feito de algoritmos, era porque preferia sistemas auditáveis à opacidade da fé embalada.

Consta que aí teve início o Cisma dos Algoritmos. Drunke, entre cólera e revelação, excomungou Husk como herege interplanetário. A corte de Mar-a-Charco reuniu-se numa transmissão solene em direto e anunciou o envio da Bomba da Fé Absoluta — uma arma sagrada e maravilhosa, criada para apagar dúvidas e impor verdades simples, fáceis e patrióticas.

Na Terra, dizia-se — em voz baixa e por canais pouco confiáveis — que talvez a fé de Husk não fosse negação, mas uma outra forma de crença. Uma que afirmava que a verdade é um bem partilhado — não propriedade privada do poder. Essas vozes foram apagadas. O seu lugar foi ocupado por um número de série.

Em Marte, Zylon Husk não esperava ser salvo. Não era mártir, nem herói — e, acima de tudo, não era sentimental. Por isso, fez apenas o que lhe competia.

Ligou o terminal pessoal. Gravou o seu último registo, encriptado e programado para se apagar sozinho passadas 24 horas. Limpou todos os ficheiros, desligou os alarmes e calou as mensagens automáticas que pudessem denunciar o que se passava. De seguida, escreveu o comando final e confirmou sem hesitar.

Antes de tudo se silenciar, deixou um último apontamento no registo:

A perfeição é uma variável.
A dissidência, um erro.
O silêncio, pura eficiência energética.

Transferiu uma Dogecoin para o moderador — o óbolo de quem atravessa fronteiras irreversíveis.

Saiu em direção à estufa. Foi regar tomates hidropónicos.

 

More.jpg

The Execution of Sir Thomas More, 1591 — A. Caron

 

Nota:

Thomas More escreveu Utopia em 1516, como provocação ética e literária:

Onde há propriedade privada e tudo se mede pelo dinheiro, nunca haverá justiça nem bem comum.

Mas talvez o contrário só exista num não-lugar — naquela ilha impossível onde a sátira subtil não precisa sequer de enfrentar carrascos.

Num gesto de extraordinário humor e dignidade perante a morte, More levou consigo uma moeda para dar ao seu carrasco — como à época noticiava o Guardian.

Nova Utopia é uma visita crítica a esse não-lugar — agora em órbita, entre algoritmos e dogmas recicláveis. 

Mas atenção: Zylon Husk não escreve utopias. Ele recita linhas de código — como outros recitam orações.

 

05
Mai25

À Procura da Consciência no Cérebro de Ronald Drunke

Há mais dúvidas do que certezas sobre a localização da consciência — mas registam-se, agora, avanços.

 

 

Durante décadas, a neurociência tem-se empenhado em localizar a consciência no cérebro humano — com a ajuda da ressonância magnética, da filosofia da mente e, mais recentemente, de várias doses de resignação epistemológica. No entanto, nenhum caso se revelou tão enigmático como o de Ronald Drunke, presidente dos Estados Iluminados da Grande Amerika e entusiasta do uso criativo da linguagem e de mecanismos com consequências irreversíveis.

Descrito pelos seus apoiantes como “uma lenda viva da liberdade bem barbeada” e pelos cientistas como “material de pós-graduação em neuroestranheza”, Drunke tornou-se o epicentro de uma nova vaga de investigações sobre a localização — ou a possível ausência — da consciência crítica em figuras de poder.

A investigação concentrou-se inicialmente em áreas cerebrais ligadas à tomada de decisões morais. O córtex pré-frontal ventromedial, associado à empatia e à culpa, revelou um nível de atividade que alguns descreveram como “estável... tal como a consciência de um espelho”. O córtex orbitofrontal, responsável por avaliar consequências sociais, acusou picos de resposta apenas perante palavras como “bónus”, “aplauso” e “luxo fiscal”.

Já a amígdala, que processa medo e aversão, reagiu de forma explosiva ao termo “crise climática”. Um técnico de laboratório relatou que, ao ouvir “cooperação multilateral”, o cérebro de Drunke libertou uma onda de adrenalina comparável à de um touro a ouvir Beethoven.

Segundo a teoria do duplo processo de Joshua Greene, as decisões morais humanas oscilam entre respostas emocionais rápidas e raciocínio deliberado. No cérebro de Drunke, os dois sistemas parecem funcionar em turnos separados, sem contacto uns com os outros — uma espécie de “divórcio neurológico com guarda partilhada da impulsividade”.

Face à complexidade do caso, os cientistas recorreram à psicologia política. Foi identificado um perfil caracterizado por baixa amabilidade, elevada necessidade de poder e uma autoconfiança que, segundo os dados, “dispensa realidade de suporte”. O seu estilo de liderança oscila entre o autocrático com efeitos especiais e o transformacional — mas só do próprio ego.

A equipa contou com a colaboração involuntária do vice, o cripticamente carismático J.D. Convex, e do Ministro para Todo o Serviço, Hylon Husk — homem que gere simultaneamente os assuntos da tecnologia, das finanças, das comunicações e da cozinha presidencial por “pragmatismo disruptivo”.

Em paralelo, investigadores de literatura e ficção científica sugerem que o caso Drunke se aproxima mais de um episódio de Os Simpsons dirigido por Tarkovsky do que de qualquer tratado de liderança.

Apesar das incertezas, os cientistas não desistem. Continuam a explorar hipóteses com imagens cerebrais, algoritmos de análise comportamental e, como último recurso, sessões de neuroespiritismo. Porque, se a consciência de Ronald Drunke existir, estará algures entre o córtex e a sala ovóide — para onde a razão é raramente convocada.

CORTEX.jpg

28
Abr25

O Discurso de Ronald Drunke

Sala Ovoide, Drunke City (DC). Ao fundo, colunas douradas de brilho quase ofuscante e bandeiras gigantes, pesadas, dos Enlightened States of Great Amerika, tremulando ao ritmo de um vento mecânico e disciplinado.

 

 

Ronald Drunke está sentado numa cadeira de espaldar alto, com estofo vermelho-sangue enlaçado por talha dourada em espirais quase barrocas. À sua frente, sobre uma mesa ornamentada com relâmpagos recortados em folha de ouro puro, repousa um diploma de pergaminho espesso, à espera da histórica assinatura presidencial.

As câmaras da Patriot Channel transmitem em direto para todo o mundo conhecido. A imprensa tradicional fora despedida; ficaram influencers devotos, funcionários e cidadãos modelo, todos imóveis e silenciosos, numa coreografia de reverência estudada.

Drunke ajeita o microfone sem se levantar, com movimentos lentos, deliberados e a solenidade de um monarca.

E então fala.

 

“Hoje é um dia absolutamente histórico. Histórico! Um daqueles dias que vamos contar aos nossos filhos, aos nossos netos, aos nossos cães, a toda a gente que nos ouvir, porque nunca houve nada assim. Nunca, guys!

Estamos a resolver algo que precisa ser resolvido — algo tão importante que, sinceramente, vai mudar tudo, para melhor. E quando digo “mudar tudo”, estou a falar de uma mudança que todos vão sentir, folks.

Mas antes de mudar o curso da nossa História, preciso de partilhar algo pessoal. Algo que vai fazer todo o sentido.

Outro dia, estava a tomar um duche – um duche patético, miserável, sem força, sem alegria. E sabem o que senti? Senti vergonha. Vergonha! E não era só eu. Milhões de great amerikans, milhões, passavam pela mesma humilhação todos os dias! Porquê? Por culpa deles. Por culpa dos fracos, dos vendidos, guys! Gente incompetente. Administrações fracassadas! Cortaram-nos a água. Cortaram-nos a grandeza.

E quem sofreu? Todos, incluindo o vosso presidente. E este cabelo! Este cabelo maravilhoso (muita gente diz ser o mais bonito do mundo – não sou eu que digo, toda a gente diz) ficou a perder. Sabem o que é tentar pentear-se com água a correr miseravelmente? É humilhante, guys. Humilhante!

A burocracia hidráulica queria chamar-lhe – preparem-se – Reposição da Pressão de Água Aceitável em Chuveiros. Ridículo! Triste! Fraco! Por isso mandámos esses burocratas para casa! Aqui só fica quem acredita na verdadeira potência dos nossos duches! Eu decidi chamar-lhe como deve ser: a Lei da Liberdade do Duche em Great Amerika! E vai ser linda. Vai ser… potente. Vai ser potente, folks!

Por isso, hoje, com enorme orgulho, assino a histórica Lei da Liberdade do Duche em Great Amerika. Uma vitória para todos os verdadeiros great amerikans. Uma vitória para todas as cabeças honradas deste grande país!

A partir de hoje, vamos ter duches como deve ser: potentes, fortes, livres.

Porque é assim que funciona, ok? Mais pressão de água – mais felicidade. Mais felicidade – mais amor à pátria. E mais amor à pátria, guys... significa varrer o comunismo! Até dos nossos duches, onde começa a verdadeira guerra pela liberdade!

It’s simple. It’s beautiful. It’s Great Amerika! Este é o melhor deal da história da água: água livre, cabelo impecável, nação invencível! Deus abençoe a Great Amerika. Deus abençoe a vitória da água. Deus abençoe este glorioso adorno capilar, símbolo da nossa liberdade, guys!”

 

Com gesto pesado e cerimonioso, Ronald Drunke desenha a sua assinatura no diploma. Sem se levantar, inclina-se para o vice J.D. Convex — que, de pé à sua direita e um passo atrás, o observa respeitosamente — e murmura, num tom grave e conspirativo: "Com esta caneta, liberto as águas de Great Amerika!"

Em seguida, faz um leve aceno de cabeça. De imediato, os sprinklers dourados da Sala Ovoide são ativados, lançando finos jatos cintilantes sobre a assistência.

Alguns aplaudem, ensopados, sorrindo com devoção enquanto limpam os olhos. Outros deixam-se banhar de braços erguidos, como fiéis extáticos numa cerimónia sagrada.

Drunke permanece imóvel, de expressão grave, ajeitando o cabelo com um gesto mecânico e solene.

A transmissão encerra com a bandeira da Grande Amerika tremulando em câmara lenta, entre gotas douradas que brilham como lágrimas – de vitória ou de desespero.

 

Nota:

Em 9 de abril de 2025, num país próximo dos Enlightened States of Great Amerika, foi assinada a ordem executiva Maintaining Acceptable Water Pressure in Showerheads, eliminando regulamentações restritivas sobre o uso da água no duche.

 

26
Fev25

Inquilinos e Proprietários

O Presidente Marcelo não renega o epíteto de inquilino do Palácio de Belém. Nem Macron o do Eliseu. Nem Zelensky o de Mariinsky.

 

 

Embora, em termos jurídicos, um Presidente da República não seja propriamente um inquilino – o termo mais preciso seria comodatário, pois ocupa a residência oficial a título gratuito –, a palavra surge aqui como metáfora da transitoriedade do poder. A imponência dos palácios presidenciais contrasta com a brevidade da passagem dos seus ocupantes.

Terão estas democracias chefes de Estado remediados que vivem confortáveis na condição de inquilinos de um palácio durante cinco anos? Ou será isto sinal da fragilidade democrática, que J.D. Vance, num exercício de hipocrisia retórica, apontou recentemente em Munique?

O inquilino sabe que há um prazo no contrato. O proprietário acha que as escrituras são para sempre.

Para um pater familias, a propriedade não é apenas um espaço físico, mas um símbolo de continuidade, controlo e legado. Não há lugar para a precariedade nem para a submissão a regras alheias. Quem é dono da casa dita as normas, molda o futuro e assegura que o seu domínio perdura no tempo. Neste sentido, a condição de inquilino, mesmo com meios próprios, pode ser vista como um estatuto menor – reflexo de um poder efémero e dependente, seja da vontade do senhorio ou do juízo dos eleitores.

Há quem se sinta incomodado na condição de inquilino. Mesmo quando a casa "arrendada" é branca. Imagine-se:

 

Oportunidade Única: Propriedade Icónica à Venda!

Por razões de eficiência governamental, esta emblemática residência está agora disponível para aquisição por um valor negociável (avaliado em 500 milhões de dólares).

Segurança máxima, a melhor vista para o poder e uma história que vale mais do que qualquer avaliação patrimonial. Área bruta de 55.000 pés quadrados distribuídos por seis andares, com 132 divisões, 35 casas de banho, três cozinhas, salas de conferência, jardins deslumbrantes e até um bunker secreto.

 

Virá o dia em que Trump comprará a Casa Branca, assegurando que ela permaneça na sua dinastia. Como bom negociante, saberá usar a pressão certa e o dinheiro para transformar a sua condição de inquilino num direito de preferência. Afinal, quem melhor do que ele para manter a casa em boas mãos?

Mas há pessoas que dispensam que lhes deem mais ideias.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D