Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
26
Mai25

Crónica de um Saque Anunciado

Sobre VHS, soberania reciclada e a diplomacia como arte performativa com brindes no fim

Ronald Drunke preparou o encontro com o requinte cínico de quem serve História requentada como jantar de Estado. O alvo: Luís Monotone, primeiro-ministro fluente na arte de evitar o compromisso, enviado a Drunke City DC para “reforçar laços transatlânticos” e, se possível, evitar a aplicação da tarifa de 500% à exportação de mexilhão atlântico e túbaros de porco para a Grande Amérika.

 

 

Na Sala Ovoide, sob lustres pesados e entre cadeirões imponentes, o Presidente mandou apagar as luzes. Uma tela desceu com a solenidade de uma aula do 2.º ciclo. No ecrã surgiu um registo tremelicante em VHS — o passado a preto e branco, tingido de vermelho por zelo digital. Ruídos de megafone. Depois, a gravação explodiu:

— O capitalismo apodrece como carne ao sol. Mas o povo levanta-se — não pede, ocupa!

Um revolucionário de bigode e patilhas longas, camisa aos quadrados, berrava com convicção embebida em vinagre ideológico:

— Os lacaios do imperialismo saqueiam o planeta numa disputa cega.

Monotone empalideceu. Tentou sorrir, mas o suor revelou o embaraço de quem estava a ser colado, por pura má-fé, a um passado que não era o seu.

O vídeo saltou para uma cena recente: uma arruada. Alguém de fato escuro, com a gola do casaco a boiar bem acima do colarinho da camisa — o mesmo visual de Monotone naquele momento. O discurso desdobrava-se numa frase carregada de intenção e leve de sentido.

— Ãontem foi ãotem. Hoijze, nósz olhamosz… nósz olhamosz para cada criançza que nasze…

Nesse instante, o sistema de tradução automática — protótipo da Zylon Husk 3000™, calibrado com uma base de dados etimológica caótica e sotaque texano — entrou em ação:

Yesturday was the pastest. Today, we… we lookz at each baby that bornifies…

Drunke fixou o ecrã. Depois olhou para Monotone. A pausa foi curta — nem precisava de mais.

Recognize anyone? — perguntou. — So… is this your Minister of Philosophy?

Virou-se para JD Convex, que já abria a pasta com o memorando.

Give us Madeira — pediu, com a boquinha ensaiada de quem pede pouco e leva tudo. — And maybe the Azores. And those… how you say? Berlengas?

Monotone ainda tentou resgatar a compostura, explicando, com sotaque polido da Linha:

— Nós olhamos para cada cidadão com o compromisso de lhe proporcionar…

Drunke levantou a mão. A frase morreu. Tal como a soberania.

JD Convex pousou o “Memorando de Partilha Geoestratégica” à frente dele. Tanto quanto se sabe, Monotone anuiu. Uma caneta grossa terá confirmado.

Foi conduzido até à porta, com um sorriso amarelo e um saco de recuerdos: boné, autocolante e um folheto satírico, todos com frases sobre amizade, parcerias e maoismo gourmet.

À saída, Monotone deteve-se por um instante. Depois, baixou os olhos para o conteúdo do saco e murmurou, quase só para si:

— Não era isto que nós sonhámos.

Drunke compôs um sorriso postiço antes de declarar, sem pressa:

We’ll keep the islands safe.


Para que não digam que ninguém avisou: 🎵 Zeca Afonso — “Os Vampiros” (Vimeo)

 

05
Mai25

À Procura da Consciência no Cérebro de Ronald Drunke

Há mais dúvidas do que certezas sobre a localização da consciência — mas registam-se, agora, avanços.

 

 

Durante décadas, a neurociência tem-se empenhado em localizar a consciência no cérebro humano — com a ajuda da ressonância magnética, da filosofia da mente e, mais recentemente, de várias doses de resignação epistemológica. No entanto, nenhum caso se revelou tão enigmático como o de Ronald Drunke, presidente dos Estados Iluminados da Grande Amerika e entusiasta do uso criativo da linguagem e de mecanismos com consequências irreversíveis.

Descrito pelos seus apoiantes como “uma lenda viva da liberdade bem barbeada” e pelos cientistas como “material de pós-graduação em neuroestranheza”, Drunke tornou-se o epicentro de uma nova vaga de investigações sobre a localização — ou a possível ausência — da consciência crítica em figuras de poder.

A investigação concentrou-se inicialmente em áreas cerebrais ligadas à tomada de decisões morais. O córtex pré-frontal ventromedial, associado à empatia e à culpa, revelou um nível de atividade que alguns descreveram como “estável... tal como a consciência de um espelho”. O córtex orbitofrontal, responsável por avaliar consequências sociais, acusou picos de resposta apenas perante palavras como “bónus”, “aplauso” e “luxo fiscal”.

Já a amígdala, que processa medo e aversão, reagiu de forma explosiva ao termo “crise climática”. Um técnico de laboratório relatou que, ao ouvir “cooperação multilateral”, o cérebro de Drunke libertou uma onda de adrenalina comparável à de um touro a ouvir Beethoven.

Segundo a teoria do duplo processo de Joshua Greene, as decisões morais humanas oscilam entre respostas emocionais rápidas e raciocínio deliberado. No cérebro de Drunke, os dois sistemas parecem funcionar em turnos separados, sem contacto uns com os outros — uma espécie de “divórcio neurológico com guarda partilhada da impulsividade”.

Face à complexidade do caso, os cientistas recorreram à psicologia política. Foi identificado um perfil caracterizado por baixa amabilidade, elevada necessidade de poder e uma autoconfiança que, segundo os dados, “dispensa realidade de suporte”. O seu estilo de liderança oscila entre o autocrático com efeitos especiais e o transformacional — mas só do próprio ego.

A equipa contou com a colaboração involuntária do vice, o cripticamente carismático J.D. Convex, e do Ministro para Todo o Serviço, Hylon Husk — homem que gere simultaneamente os assuntos da tecnologia, das finanças, das comunicações e da cozinha presidencial por “pragmatismo disruptivo”.

Em paralelo, investigadores de literatura e ficção científica sugerem que o caso Drunke se aproxima mais de um episódio de Os Simpsons dirigido por Tarkovsky do que de qualquer tratado de liderança.

Apesar das incertezas, os cientistas não desistem. Continuam a explorar hipóteses com imagens cerebrais, algoritmos de análise comportamental e, como último recurso, sessões de neuroespiritismo. Porque, se a consciência de Ronald Drunke existir, estará algures entre o córtex e a sala ovóide — para onde a razão é raramente convocada.

CORTEX.jpg

01
Mai25

A Chamada dos Desalinhados

Uma comédia (quase) diplomática entre dois blocos que nunca foram alinhados

 

[Excerto exclusivo intercetado por meios altamente duvidosos.]

🎵
Num país onde o tino escapou pela fronteira,
Kid Tock dá o ritmo, agita a bandeira.
Com tarifas ao rubro, ego no refrão,
Ronald Drunke comanda feito pavão.
🎵

 

[O telefone toca. Do lado da Grande Amérika, ouve-se uma versão trap da Marcha Oficial, composta por Kid Tock.]

RONALD DRUNKE (voz de quem já misturou Red Bull, presunção e água benta):
Xixi! Como está o melhor comunista do mercado? Já mandei taxar a paciência, vai render milhões! Preparado para uma nova ordem mundial, em que eu decido tudo e o resto aplaude?

XIXI PING (voz tranquila, como quem medita rodeado de servidores Huawei):
Presidente Drunke. Os seus aliados ligaram. Parece que confundiu “festa surpresa” com “ataque nuclear económico”. Destruir o sistema económico ocidental… outra vez. É como ver alguém incendiar a própria casa para matar um mosquito.

DRUNKE:
Escusas de me agradecer, buddy. Finalmente alguém teve coragem de travar esta palhaçada do “comércio livre”. Acabaram-se as férias pagas para europeus e os brinquedos de plástico que explodem.

PING:
Interessante teoria. Vocês mandaram as fábricas embora e importaram dívida… Agora que o jogo corre mal, atiram o tabuleiro ao chão. Um clássico grande amerikano: perder e declarar vitória.

DRUNKE:
A questão aqui é soberania, buddy. Soberania e tarifas. Grandes tarifas. As maiores. Até o Kim Kaboom ligou a perguntar como é que se faz.

PING:
Estou certo de que os aliados estão encantados com a perspetiva de serem tratados como inimigos. Deve ser… revigorante, especialmente para os da NATO.

DRUNKE:
A NATO? É aquele clube europeu — eu finjo que pago quotas e eles fingem que treinam para guerras de faz-de-conta. Aliás, estou a pensar criar a minha própria aliança: The Enlightened States of Great Me.

PING:
Magnífico. Um clube ideal para jantares silenciosos.

DRUNKE:
Não preciso de jantar com ninguém. Tenho o Hylon Husk, que está a construir uma internet nova, uma moeda nova… e, se não me engano, um novo planeta para fugir aos impostos.

[Silêncio breve. O som de um ventilador lento. Ao fundo, a voz amplificada de Hylon Husk irrompe pela Sala Ovoide, num tom meio distraído, meio messiânico]:

"Se tudo correr bem, até ao fim do dia lançamos a Constelação Fiscal — 42 satélites que declaram IRS automaticamente e fazem elogios ao presidente em cinco línguas."

PING:
Pelo menos não lhe falta ambição. Só falta agora construir uma realidade alternativa… onde os seus planos resultem e ninguém lhe contradiga o horóscopo.

[A linha cai. Alegadamente, porque alguém ligou o micro-ondas na Sala Ovoide.]

 

Fontes próximas garantem que, após a chamada, Drunke lançou uma linha de T-shirts com o slogan"Fez-se História (again!)", agora disponível em tamanhos XXL e geoestratégico.

O vice J.D. Convex afirmou que “tudo corre segundo os planos, embora ainda não os tenha lido”.

Hylon Husk, visivelmente entusiasmado, surgiu ao fundo de uma live stream a testar um megafone quântico pessoal. Segundo testemunhas, o aparelho só transmite autoelogios, previsões financeiras falhadas e citações descontextualizadas de Nietzsche.

 

Telefone Vermelho.jpg

Prova histórica de que a diplomacia, no fundo, é uma reunião de condomínio com arsenal nuclear

 

28
Abr25

O Discurso de Ronald Drunke

Sala Ovoide, Drunke City (DC). Ao fundo, colunas douradas de brilho quase ofuscante e bandeiras gigantes, pesadas, dos Enlightened States of Great Amerika, tremulando ao ritmo de um vento mecânico e disciplinado.

 

 

Ronald Drunke está sentado numa cadeira de espaldar alto, com estofo vermelho-sangue enlaçado por talha dourada em espirais quase barrocas. À sua frente, sobre uma mesa ornamentada com relâmpagos recortados em folha de ouro puro, repousa um diploma de pergaminho espesso, à espera da histórica assinatura presidencial.

As câmaras da Patriot Channel transmitem em direto para todo o mundo conhecido. A imprensa tradicional fora despedida; ficaram influencers devotos, funcionários e cidadãos modelo, todos imóveis e silenciosos, numa coreografia de reverência estudada.

Drunke ajeita o microfone sem se levantar, com movimentos lentos, deliberados e a solenidade de um monarca.

E então fala.

 

“Hoje é um dia absolutamente histórico. Histórico! Um daqueles dias que vamos contar aos nossos filhos, aos nossos netos, aos nossos cães, a toda a gente que nos ouvir, porque nunca houve nada assim. Nunca, guys!

Estamos a resolver algo que precisa ser resolvido — algo tão importante que, sinceramente, vai mudar tudo, para melhor. E quando digo “mudar tudo”, estou a falar de uma mudança que todos vão sentir, folks.

Mas antes de mudar o curso da nossa História, preciso de partilhar algo pessoal. Algo que vai fazer todo o sentido.

Outro dia, estava a tomar um duche – um duche patético, miserável, sem força, sem alegria. E sabem o que senti? Senti vergonha. Vergonha! E não era só eu. Milhões de great amerikans, milhões, passavam pela mesma humilhação todos os dias! Porquê? Por culpa deles. Por culpa dos fracos, dos vendidos, guys! Gente incompetente. Administrações fracassadas! Cortaram-nos a água. Cortaram-nos a grandeza.

E quem sofreu? Todos, incluindo o vosso presidente. E este cabelo! Este cabelo maravilhoso (muita gente diz ser o mais bonito do mundo – não sou eu que digo, toda a gente diz) ficou a perder. Sabem o que é tentar pentear-se com água a correr miseravelmente? É humilhante, guys. Humilhante!

A burocracia hidráulica queria chamar-lhe – preparem-se – Reposição da Pressão de Água Aceitável em Chuveiros. Ridículo! Triste! Fraco! Por isso mandámos esses burocratas para casa! Aqui só fica quem acredita na verdadeira potência dos nossos duches! Eu decidi chamar-lhe como deve ser: a Lei da Liberdade do Duche em Great Amerika! E vai ser linda. Vai ser… potente. Vai ser potente, folks!

Por isso, hoje, com enorme orgulho, assino a histórica Lei da Liberdade do Duche em Great Amerika. Uma vitória para todos os verdadeiros great amerikans. Uma vitória para todas as cabeças honradas deste grande país!

A partir de hoje, vamos ter duches como deve ser: potentes, fortes, livres.

Porque é assim que funciona, ok? Mais pressão de água – mais felicidade. Mais felicidade – mais amor à pátria. E mais amor à pátria, guys... significa varrer o comunismo! Até dos nossos duches, onde começa a verdadeira guerra pela liberdade!

It’s simple. It’s beautiful. It’s Great Amerika! Este é o melhor deal da história da água: água livre, cabelo impecável, nação invencível! Deus abençoe a Great Amerika. Deus abençoe a vitória da água. Deus abençoe este glorioso adorno capilar, símbolo da nossa liberdade, guys!”

 

Com gesto pesado e cerimonioso, Ronald Drunke desenha a sua assinatura no diploma. Sem se levantar, inclina-se para o vice J.D. Convex — que, de pé à sua direita e um passo atrás, o observa respeitosamente — e murmura, num tom grave e conspirativo: "Com esta caneta, liberto as águas de Great Amerika!"

Em seguida, faz um leve aceno de cabeça. De imediato, os sprinklers dourados da Sala Ovoide são ativados, lançando finos jatos cintilantes sobre a assistência.

Alguns aplaudem, ensopados, sorrindo com devoção enquanto limpam os olhos. Outros deixam-se banhar de braços erguidos, como fiéis extáticos numa cerimónia sagrada.

Drunke permanece imóvel, de expressão grave, ajeitando o cabelo com um gesto mecânico e solene.

A transmissão encerra com a bandeira da Grande Amerika tremulando em câmara lenta, entre gotas douradas que brilham como lágrimas – de vitória ou de desespero.

 

Nota:

Em 9 de abril de 2025, num país próximo dos Enlightened States of Great Amerika, foi assinada a ordem executiva Maintaining Acceptable Water Pressure in Showerheads, eliminando regulamentações restritivas sobre o uso da água no duche.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D