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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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01
Dez25

O Dia da Restauração

Crónica gastronómica, dita aos tachos e ouvida pelas gerações.

Ilustração_O_Dia_da_Restauração.png

 

A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.

 

 

 

No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.

Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.

No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.

Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.

¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.

O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!

Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.

– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!

E concluiu, parafraseando Mestre Almada:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:

– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.

No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.

Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.

– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.

E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.

Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.

 

- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.

- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.

 

29
Nov24

O Dia da Restauração

O_Dia_da_Restauração.png

No dia 1.º de dezembro celebra-se um histórico golpe de estado culinário: o momento em que ilustres chefs de cuisine esconjuram o cochinillo asado, proclamando o cozido à portuguesa como prato soberano. 

 

 

Tomados pelo espírito de mudança, os conjurados empenharam-se em tornar o cozido um símbolo de unidade e excelência acessível a todas as classes – nobreza, clero e povo.

Na disposição de devolver a primazia ao prato que alimentara gerações, 40 chefs, a que se juntaram abades e sargentos-mores – armados de colheres de pau e aventais – marcharam até ao Paço da Ribeira, cuja original elegância manuelina sucumbira ao pesado maneirismo imposto pelos Felipes. Em pleno salão nobre, a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor foram surpreendidos no meio de uma sumptuosa degustação de cochinillo asado, as bocas brilhando de gordura estrangeira, qual arautos decadentes da gula castelhana.

Os conjurados ergueram as colheres como cetros de guerra, unidos em fervor patriótico, o Grão-Chef à frente – uma figura austera e resoluta que a todos inspirava com a sua inabalável confiança culinária.

– ¿Cómo osan, bárbaros, desafiar el glorioso cochinillo, consagrado por Su Majestad y con estrella Michelin? – questionou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio, os talheres dourados ainda em riste. – ¡Este manjar, de carne tierna y espíritu imperial, es el símbolo máximo de nuestro refinamiento!

O Grão-Chef adiantou-se, solene.

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento, para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino! O cozido, prato soberano que fortaleceu gerações, resistiu ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade, o verdadeiro sustento da alma portuguesa, em contraste com esse intruso, de carne mole e flácida – uma afronta à robustez da pátria.

E, parafraseando Mestre Almada, concluiu com veemência:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Os outros chefs conjurados, de olhos brilhantes e rostos cobertos por vapor da panela de pressão, gritaram em uníssono:

– Glória ao cozido! Vergonha para o cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se rapidamente num armário do palácio, temendo pela perda da sua estrela Michelin.

Lá dentro já se encontrava o Provador-Mor; sem espaço para se esconder ao lado dela, remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada dos papéis guardados no interior, mais se assemelhando a um profundo embaraço digestivo. Viu-se, então, constrangido a abrir a porta e sair – literalmente – do armário. No instante em que se revelou, num gesto de confissão implícita, foi prontamente defenestrado, selando o seu destino trágico sem a suavidade sequer de um paraquedas.

Enquanto os gritos de “cozido, cozido!” ecoavam pelo Paço, um rumor, espalhando-se mais rápido do que um bom caldo entornado, fervilhava já nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

O boato – uma fake news de 1640 – percorreu vilas e campos, e logo as gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas – rolos de massa, facas e pinças de churrasco –, cada um como melhor e mais asinha podia.

Não tardou muito para que a suposta conspiração contra o Grão-Chef fosse esmiuçada em cada canto do reino, atraindo azeiteiros, almocreves, taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés, todos unidos em defesa do emblemático cozido, na rebelião contra o cochinillo, em boa hora iniciada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, a ordem culinária foi restaurada, e o cozido, triunfante, reclamou o trono das mesas portuguesas.

 

Notas:

1 - A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, sublinhe-se – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef que, num 2024 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que esta anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram, seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas, surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640 e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383!

3 - Séculos depois da ocorrência relatada, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha, numa confluência inesperada de destinos. Coube a um nobre catalão, de nome Roberto Martinez, a tarefa de reerguer o nosso esplendor. Em 1640, a revolta gastronómica na Catalunha enfraqueceu as forças e atenções espanholas, abrindo caminho para o sucesso do movimento da restauração. Agora, formou-se uma aliança impensável entre o cozido à portuguesa e os sabores mediterrânicos. Fiel aos costumes usados, o país voltou a abrir-se à inovação, e com ela surgiu um estilo: a força do cozido à portuguesa, combinada com a leveza do pan amb tomàquet e a precisão dos cargots a la llauna. Essenciais, diz-se, tanto para a posse de bola como para a estratégia de jogo, numa verdadeira cuisine de fusão!

4 - Convém ainda mencionar que a ilustração no início do texto foi gerada por IA, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico – o Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela! Foi, portanto, defenestrado ao contrário! Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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