Ritual

Os sons da cidade espalham-se ao raiar da aurora. É o som da civilização cansada a fingir que desperta.
O som inebriado dos estudantes que, por dois semestres apressados, tomam de empréstimo a noite de uma cidade que nunca será inteiramente sua. Mas que parece pertencer-lhes por instantes.
Alguns sons não têm morada. Passam. Apenas passam.
Os pássaros cantam, ignorantes da tragédia planetária. Há gente que acorda, olheiras fundas e pão com manteiga na mão. O sol levanta-se, belo e cruel, marcando o fim da pausa e o regresso à rotina do desassossego.
Pelas seis e meia, ouve-se a voz grave dos que saem cedo – passos ritmados no passeio, botas pesadas a anunciar mais um dia igual.
Um carro ou uma motorizada sulca, de tempos a tempos, o silêncio espesso das ruas – deixando atrás de si o ronco quente do motor e o bafo do tubo de escape.
Vêm os homens da construção pelas sete e pouco, sacudidos pelas curvas dos autocarros suburbanos ou, com sorte, na carrinha velha onde se ouve o rádio do empreiteiro.
Logo a seguir, são as empregadas de limpeza, que partem cedo das suas terras e, como quem cumpre um ritual, desaguam na Baixa e se mantêm em grupos – grupos que se desfazem ao longo do percurso –, conversando, alto e sem pressa, sobre os maridos cansados, os mais velhos que já pouco dizem, e a prima que arranjou lugar na padaria.
Nas ruas circula o cheiro inconfundível do pão quente, a caminho das pastelarias e cafés ainda fechadas ao mundo. A cadeia de abastecimento junta-se ao burburinho matinal.
Já se veem os que servem o café a dispor as mesas na esplanada – como soldados sonolentos de um ritual quotidiano.
Depois, a cidade adensa-se: buzinas nos engarrafamentos, autocarros que quase raspam em tudo o que se move – e também no que não se move. Diz-se que há de vir o metrobus, com a sua via dedicada, por definição. Talvez no fim do ano… se Deus quiser.
Acordam os habitantes da cidade: casais jovens e os que tentam sê-lo, em marcha apressada para deixar os filhos na creche, na escola – ou, com aquela dedicação parental que já roça o absurdo, na universidade.
E ouvem-se também, das janelas entreabertas, os murmúrios dos mais velhos, insatisfeitos – alguém suspira pela vida que poderia ter sido... e já não será.
Os passos dos trabalhadores do comércio apressam-se – o horário de abertura é às nove, nalguns casos às dez, como é hábito nas cidades de nuestros hermanos.
E depois vêm os funcionários, rostos conhecidos dos balcões, dos carimbos e dos crachás – cada um fiel ao seu pequeno caos. E à ajudinha da cápsula compatível com Nespresso.
O som alastra. Primeiro murmúrio, depois clamor. A cidade parece ganhar forma – sobrepõem-se rotinas, funções, rostos de todas as idades, sotaques familiares e línguas que ela ainda está a aprender a ouvir.
Gente que caminha lado a lado, ou se cruza, trocando olhares e, quando o acaso permite, um "bom dia" distraído.
Dizem que é o som de uma cidade a ganhar tino. Talvez seja só ruído. Mas seguimos, como sempre, até à próxima esquina.
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