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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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11
Nov25

Bateram-me à Porta

Bateram.jpg

 

Ele — meia-idade, cabelo ainda preto, fato negro grande demais, a gola do casaco erguida. O pescoço, já não.

Ela — talvez vinte e cinco anos, vestido evasê pied-de-poule, abaixo do joelho, sapatos de meio salto ligeiramente cambados.

 

 

 

Ambos traziam

pastas de napa preta. Certas missões exigem uma pasta. E uma postura.

No modo como se apresentavam, havia qualquer coisa de encenação – uma dignidade algo teatral, como se carregassem o peso de uma causa antiga.

Disse ele, com solenidade:

– Vimos falar com o Senhor.

Eu sorri

e ativei o meu discurso número dois – aquele para visitas inesperadas e delegados das alturas.

– Dou-me – e dar-me-ei sempre – bem com todas as estrelas do céu e com os seus representantes na Terra. Não ando atrás de nenhuma em particular, mas também não quero ser apanhado de surpresa quando o sol escurecer e os figos verdes caírem, derrubados da figueira por qualquer vendaval. É que, neste ponto, as opiniões dividem-se…

Fiz uma pausa

e acrescentei, com a franqueza que a ocasião pedia:

– Estou super-stressado. Trabalho até dizer chega, e pouco tempo me sobra para conversa. A menos que queiram – o que é improvável – dar-me uma ajuda.

Ela hesitou

por um segundo. Depois disse, com serenidade:

– Somos os novos vizinhos do andar de cima.

Andar de cima.

Naturalmente.

Nunca mais os vi.

Mas, às vezes, ouço passos.

Mesmo quando o prédio está vazio.

 

10
Jun24

O Corvo

Ccorax_04.jpg

Já se passaram semanas desde que um corvo invadiu o supermercado do Arnado. O pássaro voa alto, emitindo rápidos grasnidos. Na sua trajetória aérea, mantém uma impecável elegância, sem nunca, ainda que inadvertidamente, deixar qualquer marca indesejada na cabeça dos ilustres clientes.

 

Os frequentadores do supermercado nem sempre conseguem manter a compostura. Uma senhora de idade que faz as compras todos os dias à mesma hora foi a primeira a notar o intruso. "Valha-me Deus!", exclamou, largando o carrinho de compras, que foi colidir com uma prateleira de enlatados. As crianças, por sua vez, riam e apontavam, correndo com entusiasmo por baixo do corvo. O funcionário pequenino das frutas e legumes tentou em vão espantá-lo com o boné, enquanto praguejava em voz baixa.

Sabe-se que o risco real é o dito corvo bicar cereais, frutas e bagas, já que não se espera encontrar cadáveres de insetos ou de vermes num supermercado alimentar. A gerente da loja anda visivelmente abalada. "Isto não pode continuar assim", disse ela, numa ocasião em que vigiava nervosamente a ave, pousada a descansar no cimo de uma estante de cervejas importadas. Várias tentativas de espantar o corvo, com reprimendas em estilo dramático na língua de Camões, falharam miseravelmente.

O segurança fardado de preto observa o alvoroço com ar resignado. “Infelizmente”, alegou com um suspiro profundo, “a minha formação não cobre incidentes aéreos”. “Só faltava esta!”, pensou ele, enquanto se desenrolava o absurdo da situação.

Entretanto compareceram no local um representante da ASAE, o delegado de saúde, um dirigente sindical e o presidente da câmara. Dois deles declararam não ter competência na matéria. Os outros dois deram ordem de expulsão ao protagonista, ordem que não foi acatada. A cada tentativa de capturar ou espantar o corvo, este respondia com um grasnido desdenhoso, desenhando um voo acrobático em direção a outra seção da loja.

Também lá esteve a dona de uma barraca de tiro ao alvo, que costuma assentar arraiais na feira do Espírito Santo. O chumbo não acertou no corvo, mas numa conduta de ar que ia a passar. Danos colaterais! O estrondo fez com que um senhor geralmente bem-humorado deixasse cair um frasco de vidro com azeitonas, que se estilhaçou, enquanto uma jovem deixava escapar um grito de puro terror.  

Snipers das Operações Especiais preparam-se agora para intervir.

De vez em quando, o sistema de som da loja emite cantos canoros para relaxamento e meditação.

 

Foto de uma publicação digital do CERVAS – Centro de Ecologia Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens.

 

09
Mai24

Síndrome do Braço Levantado

Síndrome braço levantado.jpg

 

Observo que, hoje em dia, os jovens, sem excluir outros, parecem não conseguir deslocar-se sem levantar o braço direito. Quando caminham pelo passeio, atravessam passadeiras ou seguem nos transportes públicos, o braço aponta inevitavelmente para o infinito. Assumo que este fenómeno peculiar se designe por “síndrome do braço levantado”.

Será reminiscência de um regime autoritário? Não, pois não é o braço inteiro que ganha a posição horizontal, mas apenas o antebraço que se eleva. Gesto filosófico de Bordalo, pergunta-se? Também não, uma vez que o braço esquerdo não intervém e a mão pode mesmo permanecer no bolso.

Questiono-me sobre a sua origem patológica: será deficiência congénita ou doença adquirida? Sinto curiosidade em saber se os cientistas já estarão a trabalhar numa cura.

Um amigo médico esclareceu:
“É o apoio para o telemóvel, Deus meu!”

Assim, sem querer, ele rimou.

 

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