O Regresso das Criaturas Extintas

Os cientistas acabam de anunciar um feito assombroso: recriaram animais com ADN do Canis dirus, o mítico lobo gigante extinto há 13 mil anos. Dizem que é para compreender melhor os ecossistemas do passado.
Poderemos ser levados a pensar que o passado se anuncie com uivos ou tambores — mas há regressos que chegam em silêncio, envoltos em inocência.
Um olhar húmido, o pelo branco, aparentemente inofensivo — e no entanto, ali está ele: o passado, reanimado.
O que parece dócil talvez não seja. O que parece novo talvez só tenha mudado de forma.
Se até os lobos extintos voltam à vida, o que dizer das ideias que nunca chegaram a morrer?
É neste ponto que os caminhos da ciência e da política se cruzam — cada uma com as suas intenções, ambas com os olhos postos no passado. Mas há frases que se aplicam a mais do que uma realidade. E esta, por exemplo, também serve para descrever a convulsão da presente política internacional — em que criaturas dadas como extintas parecem regressar com novos disfarces.
Só que nem todos os regressos do passado acontecem em laboratório. Alguns regressam convocados por algoritmos e por entusiasmos que se esqueceram do passado.
Trump já não é um monstro isolado. A paisagem está cheia de criaturas extintas a reaparecer com novas pelagens e velhas ambições. Musk, Milei, Orbán, Erdogan, Putin, Netanyahu, Khamenei — nomes que fazem lembrar personagens de uma distopia global ou deuses menores de um livro sagrado esquecido. Sem tocar no Extremo Oriente.
Os portões do zoológico abriram-se e as criaturas saíram — para governar com a força bruta da exceção.
As democracias encolheram. O saber tornou-se suspeito. A diversidade passou a ser tratada como desvio. E sob a pele da modernidade tecnológica, revela-se uma obsessão antiga: o território.
Putin invadiu a Ucrânia, Netanyahu arrasou a Palestina, Trump ameaça países como quem redesenha mapas ao sabor do delírio. A distopia moderna navega com GPS.
E os jornais já não informam — murmuram relatos de guerra, lidos entre cafés e silêncios.
O lobo gigante caçava em grupo; estas novas criaturas do poder são predadores solitários: obcecados pelo domínio, pelo isolamento e pela destruição de qualquer noção de coletividade que não lhes preste vassalagem.
São moldados não mais pelo ambiente — mas pelo algoritmo.
Todos, ainda assim, partilham um traço essencial: são o passado a invadir o presente com força que basta para moldar o futuro. A diferença? Uns regressaram pelas mãos da ciência. Os outros, pelas mãos da memória curta.
No meio desta distopia avant-garde, em que a ciência brinca aos deuses e a política ensaia o fascismo em direto, sobra-nos apenas o silêncio breve antes da pergunta inevitável.
A pergunta permanece, incómoda e humana:
queremos mesmo continuar por este caminho — ou teremos, enfim, coragem de abrir outro?
Foto extraída da notícia “Cientistas criam animais com ADN de lobo gigante extinto há 13 mil anos”, publicada no jornal Público a 8 de abril de 2025.
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