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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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Set25

Trump e a Beleza Decretada

Capitólio.jpg

 

 

Donald Trump, esse grande visionário da estética, decidiu dar uma ajudinha à arquitetura: decretou a beleza.

Assinou uma ordem executiva que devolve a arquitetura federal dos EUA à sua verdadeira vocação: ser pétrea, ser simétrica, ter colunatas e ostentar a imitação gloriosa do passado. Adeus, volumes de betão aparente, adeus palas brancas e planos leves, adeus superfícies envidraçadas protegidas por lâminas metálicas. Adeus às formas de Niemeyer, nascidas sob Kubitschek em pleno sobressalto democrático. Bem-vindos de volta, frontões triunfais!

Não é todos os dias que um estadista se dispõe a salvar a beleza com a caneta. Com o marcador grosso. E que beleza! A beleza oficial, normativa, eterna – aquela que não precisa de pensar no clima, no sítio, na função ou nos seres humanos que se servem dos edifícios.

Porque, segundo Trump, a beleza é coisa que se decide na Sala Oval. Nada de modernices ou minimalismos. O que é bonito, senhoras e senhores, é o que se parece com a Grécia ou com Roma! Ou um banco de Wall Street. Ou, por que não, um centro de saúde em Ohio com uma colunata dórica à entrada, ou uma escola primária com frontão triunfal.

Qualquer arquiteto da galáxia se sentirá pequeno diante de tamanha visão. Muitos passam décadas a dialogar com o sítio e com a história, a debater a função, a experimentar materiais e formas, quando, afinal, tudo se resolvia com uma boa cópia do Capitólio.

Ensina-se na faculdade que a arquitetura é expressão do poder. Mas Trump, com a sua proverbial subtileza filosófica, foi mais longe: decretou que ela é a expressão de um gosto só. O dele. Toda a gente acha que o Capitólio é belo. E quem discorda é desonesto e corrupto.

Afinal, já o sabíamos: a democracia pode ser barulhenta, plural, complexa, mas a arquitetura não precisa de acompanhar esse incómodo espírito do tempo. Ela pode, e deve, ser um bloco de mármore – ou de outro calcário –, imune ao tempo, às desigualdades, à crítica. Um monumento, não ao bem-estar coletivo, antes ao ego de quem o manda construir.

E não sejamos injustos. Há algo de comovente nesta cruzada estética. O desejo de ordem, de grandeza, de simetria é tão compreensível quanto infantil. Como quem quer vestir um império com uma ancestral toga romana para disfarçar fundações que cedem em silêncio.

No fundo, Trump presta um grande serviço à arquitetura: obriga a voltar à velha pergunta. A quem serve a forma construída? Aos que mandam ou aos que utilizam? À nostalgia ou à necessidade?

Porque, como escreveu um antigo arquiteto romano, a beleza nasce do equilíbrio. E o equilíbrio não cabe num decreto: constrói-se, como a própria democracia, passo a passo. E nunca, nunca, com marcador grosso.

 

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