Trump e a Beleza Decretada

Donald Trump, esse grande visionário da estética, decidiu dar uma ajudinha à arquitetura: decretou a beleza.
Assinou uma ordem executiva que devolve a arquitetura federal dos EUA à sua verdadeira vocação: ser pétrea, ser simétrica, ter colunatas e ostentar a imitação gloriosa do passado. Adeus, volumes de betão aparente, adeus palas brancas e planos leves, adeus superfícies envidraçadas protegidas por lâminas metálicas. Adeus às formas de Niemeyer, nascidas sob Kubitschek em pleno sobressalto democrático. Bem-vindos de volta, frontões triunfais!
Não é todos os dias que um estadista se dispõe a salvar a beleza com a caneta. Com o marcador grosso. E que beleza! A beleza oficial, normativa, eterna – aquela que não precisa de pensar no clima, no sítio, na função ou nos seres humanos que se servem dos edifícios.
Porque, segundo Trump, a beleza é coisa que se decide na Sala Oval. Nada de modernices ou minimalismos. O que é bonito, senhoras e senhores, é o que se parece com a Grécia ou com Roma! Ou um banco de Wall Street. Ou, por que não, um centro de saúde em Ohio com uma colunata dórica à entrada, ou uma escola primária com frontão triunfal.
Qualquer arquiteto da galáxia se sentirá pequeno diante de tamanha visão. Muitos passam décadas a dialogar com o sítio e com a história, a debater a função, a experimentar materiais e formas, quando, afinal, tudo se resolvia com uma boa cópia do Capitólio.
Ensina-se na faculdade que a arquitetura é expressão do poder. Mas Trump, com a sua proverbial subtileza filosófica, foi mais longe: decretou que ela é a expressão de um gosto só. O dele. Toda a gente acha que o Capitólio é belo. E quem discorda é desonesto e corrupto.
Afinal, já o sabíamos: a democracia pode ser barulhenta, plural, complexa, mas a arquitetura não precisa de acompanhar esse incómodo espírito do tempo. Ela pode, e deve, ser um bloco de mármore – ou de outro calcário –, imune ao tempo, às desigualdades, à crítica. Um monumento, não ao bem-estar coletivo, antes ao ego de quem o manda construir.
E não sejamos injustos. Há algo de comovente nesta cruzada estética. O desejo de ordem, de grandeza, de simetria é tão compreensível quanto infantil. Como quem quer vestir um império com uma ancestral toga romana para disfarçar fundações que cedem em silêncio.
No fundo, Trump presta um grande serviço à arquitetura: obriga a voltar à velha pergunta. A quem serve a forma construída? Aos que mandam ou aos que utilizam? À nostalgia ou à necessidade?
Porque, como escreveu um antigo arquiteto romano, a beleza nasce do equilíbrio. E o equilíbrio não cabe num decreto: constrói-se, como a própria democracia, passo a passo. E nunca, nunca, com marcador grosso.
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