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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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28
Set25

Paracetamol

Ou a política como placebo

 

A manchete foi farmacológica. Mas o efeito é político.

Reapareceu uma teoria desacreditada: a de que o paracetamol, tomado durante a gravidez, causa autismo.

Trump diz que sim. Robert Kennedy Jr. confirma. E, com um toque de exotismo, Cuba é citada como exemplo.

A equação é simples: se não há paracetamol, também não há autismo. Lógica implacável, sim — mas construída no vazio.

Porque em Cuba, onde faltam comprimidos, não se registam diagnósticos. Ciência de bolso. Ou, se quisermos, ciência de palanque.

Mas a doença não está no feto. Nem no comprimido.

Está no discurso. E é contagiosa.

 

 

 

Há figuras que não se sentam à mesa: partem-na. Não pedem licença, ignoram códigos, recusam a réplica. Limitam-se a virar o tabuleiro e a declarar que o jogo termina ali. Porque nunca chegou a começar.

Chamam-lhe política. Mas o que se ouve é retórica de feira. Uma dança de silêncios estanques, de frases suspensas, de gritos que se aplaudem a si mesmos.

O efeito é sísmico: normas desfeitas, pactos em cinzas, instituições de pernas para o ar.

Um político assim não precisa de parlamento. Precisa de claque.

Redige a sua própria gramática: a pergunta não espera resposta, e a resposta já nasce veredito.

Esta forma de surdez estratégica — será congénita ou aprendida?

Talvez ambas. Nasce do instinto de contrariar, mas cresce ao calor dos aplausos fáceis e das multidões febris.

Não é desvio. Nem patologia. É método.

A estética do ruído e da rutura que, entre a farsa e a fúria, deixa a política como uma sala depois de um vendaval: crivada de estilhaços. Vazia de sentido.

 

Paracetamol.jpg

Imagem: reprodução de The Wall Street Journal (edição de 27-09-2025).

 

02
Ago25

A Mesa e a Distância

Um homem sentava-se sempre na extremidade de uma mesa que atravessava a sala como um rio congelado. Dizia que era para proteger os outros de si mesmo, mas a sua postura indicava o contrário: era o mundo que precisava ser mantido à distância. Ao centro da mesa – que ninguém ocupava – havia apenas o silêncio. A ausência como mobiliário.

Esse homem, de olhar fixo e mãos imóveis, acreditava que o poder se media em centímetros: quanto mais longe os outros, mais perto ele estava da verdade.

Noutra parte do planeta, onde o céu parecia sempre prestes a cair de tão azul, um outro homem – com pele tingida e frases curtas como tiros – sonhou com aço debaixo de água. Queria que o medo se tornasse invisível. Chamou-lhe precaução. Chamou-lhe estratégia. Chamou-lhe paz. Mas o nome, como sempre, era um disfarce.

Esse segundo homem falava com entusiasmo de botões e mapas. Quando sorria, era por engano. Acreditava que uma ameaça dita com convicção se tornava segurança. E que a encenação, se repetida o suficiente, acabava por se tornar realidade. Como quem repete uma mentira até confundir o eco com a própria voz.

Um dia, os dois homens encontraram-se. Não apertaram mãos – apenas trocaram olhares longos, como quem mede a profundidade de um poço. Falaram por cima da mesa, gritaram por dentro das suas certezas. Ninguém escutou, mas os sismógrafos tremeram.

Lá fora, as crianças desenhavam casas. Algumas incluíam jardins. Outras, abrigos subterrâneos.

Havia tradutores, intérpretes e especialistas a tentar explicar o encontro. Diziam que tudo estava sob controlo, como se o controlo fosse uma entidade viva. Mas o mar não escutava. E debaixo do mar, o aço avançava lentamente.

Os jornais batizaram o instante de histórico. Alguns disseram apenas: inevitável.

Numa estação sem nome, um velho professor apagou o quadro e disse: “A distância entre dois homens pode ser medida em centímetros, em metros ou em mortos.”

E nesse dia, o mundo pareceu inclinar-se ligeiramente para o lado errado.

 

10
Jul25

A Queda das Ditas Duras

Dominós.jpg

 

 

 

Na Europa do século XX, as ditaduras caíram como peças de dominó — umas pela força das armas, outras pela erosão interna, algumas pela morte natural dos seus líderes. A Alemanha nazi ruiu em 1945, esmagada pela guerra e pela ocupação aliada, levando Hitler ao suicídio e à divisão do país. Em Itália, Mussolini foi deposto pelo próprio Grande Conselho Fascista em 1943, preso por ordem do rei e resgatado pouco depois por tropas alemãs. A efémera República Social Italiana, imposta pelos nazis, duraria até 1945, encerrando-se sob a ação decisiva da resistência.* 

Na França ocupada, o regime colaboracionista de Vichy caiu em 1944 com a libertação do país. Mais a sul, Portugal e Espanha ofereceram despedidas particularmente tardias aos seus ditadores. Franco morreu na cama em 1975, após quase quatro décadas de autoritarismo. Mas foi precisamente o rei que ele deixara como herdeiro, Juan Carlos, quem lideraria uma transição pactuada para a democracia. Já em Portugal, a ditadura do Estado Novo foi derrubada por militares exaustos de travar uma guerra sem sentido, numa revolução que trocou tiros por cravos, em abril de 1974.

Também em 1974, a Grécia livrou-se da farda autoritária dos coronéis — uma queda apressada pelo fiasco da sua aventura nacionalista em Chipre. E quando o Leste europeu explodiu em 1989, a queda do Muro de Berlim abriu caminho para o colapso dos regimes ditos comunistas. O caso romeno foi o mais sangrento: Ceaușescu não teve direito a tribunal. Os restantes regimes renderam-se à evidência do tempo.

A história das ditaduras mostra que nenhuma é inabalável. Por mais que pareçam edifícios colossais, imponentes e inquebráveis, erguidos sobre areia movediça, estão condenadas a afundar-se quando a base enfraquece. Por mais que os ditadores se cerquem de muros e tanques, são as fissuras abertas pela persistência dos cidadãos — a sua recusa silenciosa e teimosa — que minam os alicerces do poder.

Hoje, os olhos voltam-se para figuras como Trump, cuja retórica autoritária desafia a própria lógica democrática dos Estados Unidos — sobretudo a ilusão de que basta votar para estar a salvo de líderes com tiques de poder absoluto. E para Putin, cuja permanência à frente do Estado se sustenta numa combinação clássica: repressão interna, culto de personalidade e guerra.

Ambos resistem, por enquanto — com a teimosia típica dos mitos que hão de ruir.

Mas as ditaduras modernas — mais subtis, mais mediáticas — não estão imunes à mesma fragilidade estrutural que acabou por desfazer os alicerces das que emergiram antes.

Trump, recém-retornado, e Putin poderão durar mais quatro anos, oito, doze.

Mas o fim não virá com o degredo para Alligator Alcatraz, nem com vertigens no ponto mais alto do Kremlin.

Virá com a manta pesada do ridículo e do descompasso com a realidade — um véu diáfono que revela o afastamento das ditaduras modernas de uma realidade que avança, enquanto elas se agarram a fantasmas do passado.

A queda das ditas duras continua — agora, em tempo real.

Ditas. Duras... Mas não eternas.

 

* ... e com o Bella Ciao a ecoar pelas montanhas.

 

02
Jun25

Crónica do Paraíso

Maldivas.jpg

O sol, o mar, o silêncio e uma pergunta antiga: o que é, afinal, o Paraíso — e quanto tempo dura antes de desaparecer?

 

 

Em tempos, tive a sorte de passar uma semana numa das ilhas do Índico.

Chegado de hidroavião, fui recebido como num conto de Xerazade: música festiva, flores ao pescoço e promessas de encantamento. No fim do pontão, um senhor alto, de túnica de linho branco, disse, com um sorriso treinado, a quem chegava:

— Sou o Gerente. Bem-vindos ao Paraíso! Podem tirar os sapatos.

Obedeci. E fiquei a pensar: será isto o Paraíso?

Porque havia ali uma beleza que não precisava de me convencer de nada. O calor era certo, a água de um azul impossível — entre turquesa e cristal. E o silêncio era quase completo, descontando o som do hidroavião que, uma vez por dia, chegava e logo se perdia ao longe. Foi nesse estado de suspensão — como se o mundo material estivesse em pausa — que me lembrei de Platão. Segundo ele, o Paraíso está num outro plano, onde vivem as Formas perfeitas — o Belo, o Bem, o Verdadeiro. Esta ilha, portanto, seria apenas o reflexo pálido da Ideia do Belo. Se assim fosse, então o mar translúcido e o gin tónico seriam indícios de algo ainda mais perfeito — o que, francamente, me parece excessivo.

Os estoicos discordariam. Para eles, o Paraíso não está num lugar, mas numa atitude. Viver de acordo com a razão e com a natureza seria suficiente. Mesmo no exílio. Mesmo numa repartição pública. Mesmo em agosto, na ponte 25 de Abril.

Já os gregos antigos sonhavam com os Campos Elísios — não os de Paris, claro, mas os outros, os da mitologia. Descanso eterno para os heróis e justos. Campos verdes, sem dor nem impostos. Mas para chegar lá, era preciso morrer.

Nas religiões, o Paraíso costuma ser uma recompensa — um destino adiado e para poucos. No cristianismo, é estar junto de Deus: paz eterna, sem dor, sem lágrimas, com ruas de ouro e um controlo apertado de admissões.

No budismo, é o fim do sofrimento — o fim do desejo, o fim de querer chegar a algum lugar. O que, de certo modo, implica abdicar da própria ideia de paraíso. Entre um céu dourado e um silêncio absoluto, parece que o Paraíso não é tanto um lugar, mas uma promessa. Uma forma de suportar o presente, sonhando com o que vem a seguir.

E depois há o Paraíso político. A utopia construída com greves, reformas, relatórios e boas intenções. Há quem acredite que a igualdade total é o fim — mesmo que, por vezes, o denominador comum acabe por ser o nada. Mas sejamos justos: o nada tem sido, ao longo da história, o ponto de partida da maioria, sob quase todos os regimes.

Há também quem defenda com fervor a liberdade total — desde que se saiba competir, investir com astúcia, desinformar se for preciso, ou nascer no sítio certo. O mérito é rei, e o mercado o juiz. É um paraíso onde o calor humano se paga à parte.

Pelo meio, existem modelos em que o Paraíso parece possível: bons serviços, impostos altos e sossego coletivo. Ainda assim, mesmo aí, o céu fiscal é um equilíbrio frágil. E tudo vem com condições em letra pequenina.

O mais curioso é que tanto a religião como a política tratam o Paraíso como uma promessa. Um lugar a alcançar, a merecer, a construir. Talvez nunca aqui. Talvez nunca já. Talvez nunca, ponto final.

Mesmo esse recanto onde estive, tão perfeito, tem prazo. O mar engole costas, os corais adoecem, e o gerente — esse guardião do Paraíso — sabe que o seu ofício é temporário. A beleza, afinal, não será mais do que o prenúncio da perda.

E eu ali, (quase) no pôr do sol, de pés descalços, a beber água de coco e a pensar se o Gerente não teria razão. O Paraíso é, talvez, isso mesmo: uma pausa breve. Um lugar onde, por instantes, nada é preciso. Onde ninguém exige esforço, fé ou comprovativo de rendimentos. 

E se for mesmo só isso… então talvez baste.

 

21
Abr25

Dançar com o Mundo

Numa sala de cinema improvisada, passa a velha cena de um homem fardado a ensaiar uma delicada coreografia. Farda cintada, gesto poético. O mundo gira suavemente nas suas mãos, como uma frágil profecia visual.

Em êxtase, Adenoid Hynkel, ditador da Tosmânia, brinca com o globo terrestre como se fosse seu. Uma dança absurda entre o poder e o delírio. Não é um sketch. É um epitáfio.

No mundo real, o globo não é de borracha, mas o gesto mantém-se. A dança também. Em Mar-a-Charco, o delírio tem palco próprio.

 

Excerto de O Grande Ditador, Charlie Chaplin (1940)

 

 

A celebração

Mar-a-Charco, residência presidencial cujo nome carrega a decadência com elegância tropical, acolhe a festa dos primeiros 90 dias da administração Drunke.

O dress code: patriótico q.b., socialmente apresentável. À entrada, os convidados recebem um kit oficial — boné, laço de pontas longas e três balões vermelhos já insuflados, prontos a ser atados ao dedo mindinho.

Ronald Drunke — magnata egocêntrico que vê o mundo como um reality show em que só ele controla o microfone, o espelho e o botão vermelho — preside agora aos Enlightened States of Great Amerika. Uma nação gigante, obcecada por negócios e por uma grandeza perdida — ambos redesenhados diariamente ao sabor do humor presidencial.

Já foi Supreme States of Great America. Depois Enlightened States of Great America. Até que o “c” foi oficialmente cancelado — sinal da nova era: mais forte, mais direta, mais disléxica por decreto.

Nos ecrãs gigantes, Vlador Putianov, líder vitalício do Putianistão, dirige algumas palavras ao seu homólogo de Great Amerika. A voz é gélida, a frase solene, pesada como um mapa antigo.

— As fronteiras do futuro não se desenham sozinhas.

A assistência aplaude com entusiasmo — ou talvez por reflexo. É difícil distinguir.

Entre os convidados, a lendária primeira-ministra Bonita Melonini. Drunke aproxima-se e afirma, em tom de cumplicidade:

— A amizade entre Great Amerika e o seu país é antiga. Tremenda. Desde o Império Romano. Uma amizade muito bonita.

Silêncio respeitoso.

 

O banquete

No banquete há hot dogs, hambúrgueres, BBQ, fried chicken. Há tacos e burritos vindos do México. Há gelo da Gronelândia para as Cokes gigantes.

Ausentes: whisky canadiano, queijos europeus e chocolate do Dubai. Todos afastados pelas guerras comerciais e pela nova doutrina: “Ou és nosso cliente, ou és nosso inimigo.”

O sol bate em ângulos bíblicos sobre palmeiras de plástico e fachadas douradas.

 

O trio

Pede-se silêncio. Apresenta-se o improvável trio da política contemporânea.

Primeiro, J.D. Convex: discreto, sorridente, vice por vocação, sempre com o ar atento de quem presta contas até quando respira. Mas há algo no seu sorriso que dura meio segundo a mais. Como se, por trás da face obediente, morasse um grito com decoro. Palmas educadas.

Zylon Husk entra aos saltos — guru da pós-verdade, foguetólatra entusiasta, convencido de que a realidade se resume a uma opinião mal formatada. A assistência, já habituada a não perceber coisa nenhuma, aplaude de pé.

— And now, ladies and gentlemen... the one, the only... President Ronald Drunke!

Mar-a-Charco estremece. Drunke agarra o microfone com solenidade mitológica. Aponta o dedo indicador aos presentes:

— Noventa dias tremendos. Fizemos mais do que qualquer administração na História da Grande Amerika. A História agradece. Vocês sabem muito bem do que estou a falar. Lixámos todos os que ganham dinheiro à nossa custa. Os nossos aliados fingidos. Mas os nossos verdadeiros amigos estão aqui. Pessoas belas. Muito belas...

Cada palavra faz tremer as bolsas — até a de Lisboa, que treme por simpatia.

— E os próximos 90 dias? Tremendamente melhores. Obrigado. Muito obrigado.

 

Epílogo

Atrás, Convex comenta discretamente com um influencer em ascensão:

— Eu diria mesmo mais: tremendamente melhores.

Husk, o olhar disperso, acelerado por cafés e psicoestimulantes, solta os seus balões. Vermelhos, premonitoriamente da cor do quarto planeta. Marte, claro.

Uma pequena multidão de convidados liberta também balões vermelhos, salpicando o céu com uma euforia de borracha.

E os balões sobem, sobem — vaidosos, delirantes, frágeis. Até rebentarem.

 

01
Mar25

O Dono da Gravata

 

 

Dizem que a autoridade se impõe pelo olhar, pelo tom de voz, pelo gesto – e pelo irracional. A gravata pode impor-se da mesma forma, estendendo-se além do razoável, numa saudação reverente aos alicerces da própria virilidade. O dono da gravata sabe disso. Basta usá-la. E o efeito é inegável.

Na Sala Oval, o adorno que um exibia contrastava com a dignidade frágil do outro: um homem cercado. Era a gravata que dominava a cena: vibrante, desproporcional. Não apenas um complemento, mas um ícone, uma promessa de grandeza, um aviso silencioso: aqui está um homem cujo carisma se mede até ao último centímetro.

O murro não chegou a ser ensaiado, mas que teria sido prodigioso, isso teria.

 

25
Fev25

Mármore, Nostalgia e Outras Fantasias

Presidential Actions.JPG

Logo no dia da sua tomada de posse, num gesto carregado de pompa e dramatismo, Donald Trump assinou a ordem executiva Promoting Beautiful Federal Civic Architecture. Nela, estipula-se que os edifícios públicos dos Estados Unidos devem ser belos – e que, para o serem, devem respeitar a herança regional, tradicional e clássica. Uma exigência vaga, envolta num patriotismo arquitetónico que levanta questões pertinentes.

 

 

O que é tradição num país jovem e de imigrantes?

A América é, desde a sua fundação, uma colagem de culturas, um mosaico em que a tradição não é singular. O que significa, então, respeitar a arquitetura regional e tradicional? Será a silhueta das casas vitorianas de São Francisco? Os arranha-céus reluzentes de vidro e aço que definem a modernidade americana? As igrejas coloniais de tijolo de barro da Nova Inglaterra? Ou, quem sabe, as estruturas milenares dos povos indígenas, que já dominavam o território muito antes da chegada dos europeus, mas que, aparentemente, são deixadas de fora da tradição?

A verdade é que a ordem executiva tem uma preferência clara: o neoclássico, herdeiro da arquitetura da Grécia Antiga e das ambições imperiais de Roma. Mas será que esta é a estética que define os valores culturais americanos? Ou apenas mais um exercício de nostalgia seletiva, em que a grandiosidade das colunatas mascara a falta de substância?

 

Um regresso à grandeza colonial?

Há aqui uma ironia que não passa despercebida: o neoclássico foi o estilo escolhido pelos founding fathers para dar um verniz de legitimidade ao recém-nascido governo americano – mas é, afinal, uma importação europeia, inspirada nas arquiteturas britânica e francesa do século XVIII. Hoje, numa administração que vocifera contra a globalização e o multiculturalismo, este fascínio por um estilo arquitetónico importado parece, no mínimo, contraditório. Mas talvez, para alguns, a única influência estrangeira aceitável seja aquela que chega esculpida em mármore e trajada de passado.

Não é a primeira vez que a estética passadista é instrumentalizada politicamente. Regimes autoritários sempre tiveram queda para uma arquitetura impositiva e monumentalista: Hitler e Mussolini adoravam colunas e fachadas de pedra; Estaline e Salazar preferiam ruas e praças opressivamente vastas, onde o indivíduo desaparecia perante o esplendor do Estado. Ter edifícios neoclássicos não torna um governo autoritário, mas decretar um estilo como símbolo nacional é uma estratégia típica de regimes que procuram controlar tanto a cultura quanto a política. No fundo, o gosto certo pode ser tão relevante como a ideologia certa.

 

A grandeza que não se decreta

No final das contas, a ordem executiva de Trump é mais teatro político do que necessidade real. A grande maioria dos edifícios federais já existe, e não há planos concretos para novas construções em massa. Mas a ordem executiva cumpre o seu papel: vender ao eleitorado a ilusão de que Make America Great Again pode ser traduzido, literalmente, em simetrias perfeitas e metros cúbicos de mármore.

Certo é que nem a grandeza se decreta, nem a verdadeira força da América esteve jamais na nostalgia da arquitetura. Esteve, sim, na sua capacidade de inovação, adaptação e pluralidade; não em recriar um passado idealizado que, convenhamos, nunca existiu. Se existisse, diga-se em abono da verdade, não lhe faltariam colunas caneladas, frontões esculpidos e uma cúpula imponente no topo de cada edifício público.

 

14
Fev25

A Ordem do Absurdo

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Senhoras e senhores, chegou o momento de Portugal se levantar contra a tirania das grandes potências! O nosso novo presidente, homem de visão e de um volume vocal impressionante, tomou posse com um discurso inflamado:

"O que os Estados Unidos andam a fazer é mau para Portugal, muito mau! A nossa principal prioridade é criar uma nação orgulhosa, próspera e livre. Hoje vou assinar uma série de ordens executivas históricas!"

E assinou. Com um pincel de 50 mm, num livro de 35 linhas, formato A1. Entre as medidas urgentes, destacavam-se:

- Retaliação contra a oligarquia americana – lançar uma ofensiva simbólica com aviões de papel no Golfo da América, enquanto, em total sigilo, se dava início a uma operação naval no Arkansas.

- Autonomia estratégica – nacionalizar a uva americana e americanizar o vinho do Cartaxo, agora vendido em packs com palhinha de plástico, sem taxas aduaneiras.

- Guerra cultural – invadir as McDonald's com menus de cozido à portuguesa e ocupar os ecrãs gigantes de Times Square com vídeos da Cristina Ferreira.

- Justiça política – enviar os vikings e o seu chefe para Rikers Island e deportar um certo magnata das redes sociais, devidamente acorrentado, para a África do Sul.

Entretanto, em Nova Iorque, Sua Excelência, o Embaixador do Absurdo (cargo que já foi de Cantinflas, convém lembrar) discursava na ONU: "Se as grandes potências podem reescrever o direito internacional conforme lhes apetece, porque não podemos nós?" – questionou, enquanto distribuía pastéis de nata às delegações presentes.

Ao mesmo tempo, nos ecrãs da CNN, Marques Mendes estreava-se como analista de política internacional. Diante dele, Larry King perguntava: "Portugal está a desafiar a ordem mundial?" Com a autoridade de quem sempre teve razão, o ex-candidato respondia: "Larry, Portugal não desafia. Portugal impõe."

Nos bastidores, o FMI e a NATO discutiam se deviam rir ou enviar um porta-aviões para a marina de Cascais. Em Bruxelas, altos dignitários da UE analisavam a situação com sobriedade, até que um deles resumiu: "Se isto continuar, ainda vai haver quem peça um referendo."

Lá fora, o mundo girava, indiferente. Afinal, se a política já é uma sátira, para que servem os humoristas?

 

Créditos: mapa da Gulf Shores News

 

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