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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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Set25

Pós-Ficção

Quando a realidade ultrapassa a distopia

 

 

 

A metáfora falha

À medida que a distopia deixa de ser futuro e se instala como rotina, a ficção perde o seu papel de alerta. Deixou de servir para imaginar o que poderá correr mal — descreve agora o que está em curso. O que antes era exagero de cinema — vigilância total, manipulação informacional, colapso institucional — tornou-se prática corrente, muitas vezes sem escândalo. O mundo já não se inspira na utopia: copia, discretamente, os manuais da distopia.

Aquilo que outrora era metáfora é agora relatório. A democracia liberal mostra sinais evidentes de erosão. E o avanço tecnológico, longe de ser neutro, consolida novas formas de poder. Estamos a entrar na era da Pós-Ficção.

 

Tecnologia e poder: o fio condutor

A tecnologia não é neutra. Embebida em código, algoritmos e infraestruturas, redefine relações de poder, autonomia e dependência. O que antes era tarefa do Estado — regular, deliberar, garantir direitos — passa, cada vez mais, para as mãos de plataformas digitais, corporações e engenheiros. Como resultado, emerge o tecnolibertarianismo: uma ideologia que vê na regulação estatal um entrave e, nas corporações, os novos arautos da liberdade.

Esta liberdade, no entanto, é seletiva: menos democracia institucional, mais autonomia corporativa. A defesa da “liberdade de expressão” muitas vezes serve como pretexto para rejeitar a moderação. A esfera pública transformou-se em fluxo de conteúdos gerido por algoritmos. O cidadão tornou-se utilizador. A soberania cede lugar às decisões inscritas no design das plataformas.

Democracia em queda, tecnologia em ascensão A democracia liberal, vista como lenta e ineficaz perante a velocidade das crises (climática, tecnológica, informacional), é substituída por soluções “eficientes”: modelos tecnocráticos, regimes personalistas, plataformas privadas com alcance planetário. Surge um novo pacto: empresas como novos Estados, CEOs como semideuses, algoritmos como constituições secretas.

No limite, é a própria ideia de democracia que se descarta. Deixa de ser apenas criticada pelas suas falhas — passa a ser tratada como erro de conceção. Visões pós-liberais ganham terreno, do elitismo tecnocrático aos movimentos neorreacionários. Em comum, a crença de que a democracia não sofre apenas de falhas — encontra-se obsoleta.

 

Alianças tóxicas: tecnolibertarianismo e MAGA

A transição de uma ordem liberal-democrática para um modelo desregulado, autoritário e centrado no poder pessoal ou corporativo é impulsionada por forças distintas, mas compatíveis. Entre elas, o tecnolibertarianismo — articulado por investidores e pensadores de visão pró-mercado radical — e o movimento MAGA, populista e iliberal, com raízes mais emocionais do que doutrinárias.

O tecnolibertarianismo vê o Estado como entrave à inovação e à liberdade entendida como autonomia irrestrita. O MAGA aposta na descredibilização institucional, no culto da personalidade e na exceção como norma. Ambos desprezam as instituições tradicionais, defendem uma liberdade assimétrica e recorrem à desinformação para desativar resistências. A sua convergência não é coincidência: operam em domínios distintos, mas reforçam-se mutuamente na erosão da democracia.

 

O cinema como profecia

Os filmes de ficção científica, outrora exagerados, hoje soam proféticos. Em Metropolis (1927), elites vivem sustentadas por trabalhadores invisíveis — uma imagem que faz eco na economia contemporânea. The Matrix dramatiza a simulação total como forma de governo. The Handmaid’s Tale mostra como a regressão institucional pode mascarar-se de ordem moral e segurança. Inception revela que o controlo do imaginário é hoje mais eficaz do que a censura direta.

A realidade não copia literalmente estas distopias, mas reencena os seus mecanismos. A distopia não é futuro: é presente em expansão. A distopia não se impõe com violência, mas com escolhas de design e promessas de eficiência.

 

A emergência da Pós-Ficção

Propõe-se Pós-Ficção como nome para este tempo histórico, em que as ideias da ficção distópica se realizam com naturalidade, quase sem resistência. A distopia tornou-se rotineira. O paradoxo é profundo: a ficção, em vez de prevenir, inspirou. Em vez de despertar resistências, tornou-se modelo para soluções autoritárias. Os atuais gestores do mundo leram os filmes — mas como guias de engenharia, não como alertas morais.

 

A política do imaginário

Se a distopia chegou antes do tempo, resta perguntar: o que fazer? A saída não será instantânea nem tecnológica. Exigirá imaginação política, reinvenção cívica e algum desconforto com a promessa de eficiência permanente. Reimaginar a democracia implica reposicionar a tecnologia como instrumento público, e não como linguagem sagrada. É necessário quebrar a lógica da inevitabilidade e recuperar a soberania sobre os nossos próprios sistemas.

A distopia não chega de rompante: infiltra-se em algoritmos e decisões de interface pensadas para condicionar sem o pareçam.

A escrita do mundo continua. Mas se não formos os autores do próximo argumento, seremos apenas personagens.

 

17
Ago25

O Guardião da Pureza

“Zaratustra, ao completar trinta anos, deixou a sua pátria e o lago da sua infância, e subiu à montanha. Aí viveu do espírito e da solidão, e disso não se cansou durante dez anos. Mas, por fim, o seu coração mudou. Então, numa manhã, ergueu-se com a aurora, dirigiu-se ao sol e falou-lhe assim...”

(Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

 

 

 

Zaratustra desceu da montanha com um livro em chamas. Não trazia mandamentos, mas perguntas. A liberdade, dizia, não é um dom – é uma tarefa. E cada escolha pesa. Cada ato exige o risco da responsabilidade.

Mas há terras onde a ética da escolha foi substituída pela moral da obediência. Onde o gesto livre é suspeito, e a dúvida um crime litúrgico. Nessas paisagens de calma imposta, ergue-se o Guardião da Pureza.

Não é um homem. É um sistema com rosto. Um corpo feito de olhos e ouvidos, espalhado como névoa por praças, escolas, lares. Infiltra-se nas dobras da vida privada: no gesto, no riso contido. Multiplica os véus – não por devoção. Exibe castigos como quem exibe troféus. Faz do medo estética. A teatralidade do poder é a sua liturgia.

As mulheres, cobertas por roupas escuras, longas, pesadas, mostram apenas o rosto e as mãos. Falam com os olhos. E com mãos longas, de pianista. Cada gesto, uma música sussurrada sob camadas de silêncio.

Sob o domínio do Guardião, a pureza não é um ideal: é uma arma. O véu torna-se fronteira. O castigo público, espetáculo. O silêncio, língua oficial. Tudo é ritual. E quanto mais puro o povo, mais impuro o poder que o molda.

Ele conhece bem o ciclo: primeiro, libertar – com promessas de dignidade. Depois, dominar – em nome da virtude. Por fim, purificar – até ao esquecimento. A história repete-se como teatro de sombras: ontem foram as riquezas naturais, hoje são as consciências. Tudo nacionalizado em nome da moral.

Claro que ele não está sozinho. Pertence a uma galeria de protagonistas que, por pavor do efémero, decidem tornar-se eternos. São os engenheiros do medo, artesãos da unanimidade. Chamem-lhes o que quiserem: clérigos, salvadores, mandatários eternos – em nome de Deus, envoltos nas sombras que costuram sobre os corpos alheios.

Mas a eternidade é frágil.

O Guardião da Pureza crê que ela lhe pertence porque dita o silêncio e multiplica véus. Mas a eternidade não se decreta: basta um gesto ínfimo – um olhar descoberto, uma palavra fora do guião – para que todo o império da pureza se desfaça em pó.

Não é o povo que teme o Guardião. É o Guardião que treme diante da livre escolha.

 

Olhar.jpg

 O silêncio também sabe olhar.

 

12
Ago25

O Manual da Eternidade

Onde se demonstra que, no poder, a paciência é mais afiada que a espada – e menos arriscada para quem a segura.

 

 

Entrou sem perguntar. A casa já era dele. Disse que ia limpar. Começou nos cantos, passou para as salas e acabou nas pessoas. Chamou-lhes poeira. Chamou à vassoura moral. A moral, no seu reino, era uma escada: quem subia, caía; quem caía, não voltava.

O trono tinha um relógio. O relógio tinha ponteiros. Os ponteiros tinham pressa. Mandou arrancá-los.

Vinha de sangue antigo, de marchas longas, de vitórias e purgas. Aprendeu cedo que poder não é conquistar; é não morrer. Teve ouro e teve lama. O ouro ensinou-o a sentar-se. A lama ensinou-o a cavar. Juntou as duas coisas: sentou-se e cavou à volta.

O jogo não era de xadrez. No xadrez há um fim. O dele era de cerco. Devagar, até não haver saída. Enquanto uns nadavam, ele fechava portos. Enquanto uns apanhavam sol, ele fechava portas. Cercava sempre.

Nos reinos de votos, pedem números. No dele, pedem fidelidade. E fidelidade não se conta, testa-se.

Sorria. Um sorriso oriental. O poder não precisa de muito mais. O resto é silêncio. E o silêncio é a música que toca quando todos têm medo.

Não era eterno. Fingiu que era. Todos fingem. Até que o eterno seguinte entra pela mesma porta.

O poder não acaba. Só muda de mãos. Troca apenas de dono.

 

Mao.jpg

Duas figuras lado a lado: o líder e a dama antiga, unidos pela luz e separados pela sombra. Ele, mais exposto; ela, mais oculta. Até na pedra, a autoridade fica à frente. Fotografia: Sculpture for sale, Flea Market, Chaotian Palace, Nanjing, China, 2007 — Phil Douglis

 

10
Jul25

A Queda das Ditas Duras

Dominós.jpg

 

 

 

Na Europa do século XX, as ditaduras caíram como peças de dominó — umas pela força das armas, outras pela erosão interna, algumas pela morte natural dos seus líderes. A Alemanha nazi ruiu em 1945, esmagada pela guerra e pela ocupação aliada, levando Hitler ao suicídio e à divisão do país. Em Itália, Mussolini foi deposto pelo próprio Grande Conselho Fascista em 1943, preso por ordem do rei e resgatado pouco depois por tropas alemãs. A efémera República Social Italiana, imposta pelos nazis, duraria até 1945, encerrando-se sob a ação decisiva da resistência.* 

Na França ocupada, o regime colaboracionista de Vichy caiu em 1944 com a libertação do país. Mais a sul, Portugal e Espanha ofereceram despedidas particularmente tardias aos seus ditadores. Franco morreu na cama em 1975, após quase quatro décadas de autoritarismo. Mas foi precisamente o rei que ele deixara como herdeiro, Juan Carlos, quem lideraria uma transição pactuada para a democracia. Já em Portugal, a ditadura do Estado Novo foi derrubada por militares exaustos de travar uma guerra sem sentido, numa revolução que trocou tiros por cravos, em abril de 1974.

Também em 1974, a Grécia livrou-se da farda autoritária dos coronéis — uma queda apressada pelo fiasco da sua aventura nacionalista em Chipre. E quando o Leste europeu explodiu em 1989, a queda do Muro de Berlim abriu caminho para o colapso dos regimes ditos comunistas. O caso romeno foi o mais sangrento: Ceaușescu não teve direito a tribunal. Os restantes regimes renderam-se à evidência do tempo.

A história das ditaduras mostra que nenhuma é inabalável. Por mais que pareçam edifícios colossais, imponentes e inquebráveis, erguidos sobre areia movediça, estão condenadas a afundar-se quando a base enfraquece. Por mais que os ditadores se cerquem de muros e tanques, são as fissuras abertas pela persistência dos cidadãos — a sua recusa silenciosa e teimosa — que minam os alicerces do poder.

Hoje, os olhos voltam-se para figuras como Trump, cuja retórica autoritária desafia a própria lógica democrática dos Estados Unidos — sobretudo a ilusão de que basta votar para estar a salvo de líderes com tiques de poder absoluto. E para Putin, cuja permanência à frente do Estado se sustenta numa combinação clássica: repressão interna, culto de personalidade e guerra.

Ambos resistem, por enquanto — com a teimosia típica dos mitos que hão de ruir.

Mas as ditaduras modernas — mais subtis, mais mediáticas — não estão imunes à mesma fragilidade estrutural que acabou por desfazer os alicerces das que emergiram antes.

Trump, recém-retornado, e Putin poderão durar mais quatro anos, oito, doze.

Mas o fim não virá com o degredo para Alligator Alcatraz, nem com vertigens no ponto mais alto do Kremlin.

Virá com a manta pesada do ridículo e do descompasso com a realidade — um véu diáfono que revela o afastamento das ditaduras modernas de uma realidade que avança, enquanto elas se agarram a fantasmas do passado.

A queda das ditas duras continua — agora, em tempo real.

Ditas. Duras... Mas não eternas.

 

* ... e com o Bella Ciao a ecoar pelas montanhas.

 

21
Abr25

Dançar com o Mundo

Numa sala de cinema improvisada, passa a velha cena de um homem fardado a ensaiar uma delicada coreografia. Farda cintada, gesto poético. O mundo gira suavemente nas suas mãos, como uma frágil profecia visual.

Em êxtase, Adenoid Hynkel, ditador da Tosmânia, brinca com o globo terrestre como se fosse seu. Uma dança absurda entre o poder e o delírio. Não é um sketch. É um epitáfio.

No mundo real, o globo não é de borracha, mas o gesto mantém-se. A dança também. Em Mar-a-Charco, o delírio tem palco próprio.

 

Excerto de O Grande Ditador, Charlie Chaplin (1940)

 

 

A celebração

Mar-a-Charco, residência presidencial cujo nome carrega a decadência com elegância tropical, acolhe a festa dos primeiros 90 dias da administração Drunke.

O dress code: patriótico q.b., socialmente apresentável. À entrada, os convidados recebem um kit oficial — boné, laço de pontas longas e três balões vermelhos já insuflados, prontos a ser atados ao dedo mindinho.

Ronald Drunke — magnata egocêntrico que vê o mundo como um reality show em que só ele controla o microfone, o espelho e o botão vermelho — preside agora aos Enlightened States of Great Amerika. Uma nação gigante, obcecada por negócios e por uma grandeza perdida — ambos redesenhados diariamente ao sabor do humor presidencial.

Já foi Supreme States of Great America. Depois Enlightened States of Great America. Até que o “c” foi oficialmente cancelado — sinal da nova era: mais forte, mais direta, mais disléxica por decreto.

Nos ecrãs gigantes, Vlador Putianov, líder vitalício do Putianistão, dirige algumas palavras ao seu homólogo de Great Amerika. A voz é gélida, a frase solene, pesada como um mapa antigo.

— As fronteiras do futuro não se desenham sozinhas.

A assistência aplaude com entusiasmo — ou talvez por reflexo. É difícil distinguir.

Entre os convidados, a lendária primeira-ministra Bonita Melonini. Drunke aproxima-se e afirma, em tom de cumplicidade:

— A amizade entre Great Amerika e o seu país é antiga. Tremenda. Desde o Império Romano. Uma amizade muito bonita.

Silêncio respeitoso.

 

O banquete

No banquete há hot dogs, hambúrgueres, BBQ, fried chicken. Há tacos e burritos vindos do México. Há gelo da Gronelândia para as Cokes gigantes.

Ausentes: whisky canadiano, queijos europeus e chocolate do Dubai. Todos afastados pelas guerras comerciais e pela nova doutrina: “Ou és nosso cliente, ou és nosso inimigo.”

O sol bate em ângulos bíblicos sobre palmeiras de plástico e fachadas douradas.

 

O trio

Pede-se silêncio. Apresenta-se o improvável trio da política contemporânea.

Primeiro, J.D. Convex: discreto, sorridente, vice por vocação, sempre com o ar atento de quem presta contas até quando respira. Mas há algo no seu sorriso que dura meio segundo a mais. Como se, por trás da face obediente, morasse um grito com decoro. Palmas educadas.

Zylon Husk entra aos saltos — guru da pós-verdade, foguetólatra entusiasta, convencido de que a realidade se resume a uma opinião mal formatada. A assistência, já habituada a não perceber coisa nenhuma, aplaude de pé.

— And now, ladies and gentlemen... the one, the only... President Ronald Drunke!

Mar-a-Charco estremece. Drunke agarra o microfone com solenidade mitológica. Aponta o dedo indicador aos presentes:

— Noventa dias tremendos. Fizemos mais do que qualquer administração na História da Grande Amerika. A História agradece. Vocês sabem muito bem do que estou a falar. Lixámos todos os que ganham dinheiro à nossa custa. Os nossos aliados fingidos. Mas os nossos verdadeiros amigos estão aqui. Pessoas belas. Muito belas...

Cada palavra faz tremer as bolsas — até a de Lisboa, que treme por simpatia.

— E os próximos 90 dias? Tremendamente melhores. Obrigado. Muito obrigado.

 

Epílogo

Atrás, Convex comenta discretamente com um influencer em ascensão:

— Eu diria mesmo mais: tremendamente melhores.

Husk, o olhar disperso, acelerado por cafés e psicoestimulantes, solta os seus balões. Vermelhos, premonitoriamente da cor do quarto planeta. Marte, claro.

Uma pequena multidão de convidados liberta também balões vermelhos, salpicando o céu com uma euforia de borracha.

E os balões sobem, sobem — vaidosos, delirantes, frágeis. Até rebentarem.

 

01
Mar25

O Dono da Gravata

 

 

Dizem que a autoridade se impõe pelo olhar, pelo tom de voz, pelo gesto – e pelo irracional. A gravata pode impor-se da mesma forma, estendendo-se além do razoável, numa saudação reverente aos alicerces da própria virilidade. O dono da gravata sabe disso. Basta usá-la. E o efeito é inegável.

Na Sala Oval, o adorno que um exibia contrastava com a dignidade frágil do outro: um homem cercado. Era a gravata que dominava a cena: vibrante, desproporcional. Não apenas um complemento, mas um ícone, uma promessa de grandeza, um aviso silencioso: aqui está um homem cujo carisma se mede até ao último centímetro.

O murro não chegou a ser ensaiado, mas que teria sido prodigioso, isso teria.

 

28
Jun24

Ares Majestáticos

Uma postura majestática transcende a mera configuração física e condensa uma aura de poder, grandiosidade e presença imutável que impõe respeito. Tal postura, frequentemente reservada para a nobreza ou para os mais altos escalões da sociedade, sublinha o seu peso de autoridade e a gravidade histórica através do silêncio e da quietude.

 

 

Considere-se uma figura sentada em silêncio, cuja postura não é apenas uma pose, mas uma declaração de resistência ao avanço implacável da história. Esta imagem, reminiscente de um monarca, evoca a expressão idiomática "esperar sentado", sugerindo uma serenidade e paciência nascidas do poder e da segurança de um legado. A postura majestática aqui é estática, opacamente soberana, inabalável face às flutuações dos tempos.

Descrever uma postura majestática exige captar as subtilezas que a fazem não só visível como também sentida. A figura, envolta em mantos de autoridade, senta-se com a coluna tão direita quanto a linhagem que representa. A cabeça ergue-se, não por arrogância, mas como uma necessidade imposta pela dignidade de quem suporta o peso de uma coroa, ainda que virtual. Olhos aguçados e perspicazes varrem o horizonte. Não apenas olhando, mas também antevendo, sempre vigilantes para evitar a complacência que a paz pode trazer.

As mãos de tal personagem são particularmente reveladoras. Uma repousa suavemente sobre um apoio de braço, dedos adornados com os anéis do poder, cada joia o testemunho de uma batalha vencida, um tratado assinado ou um casamento que selou a paz. A outra mão talvez segure um cetro ou um pedaço de pergaminho, símbolos de governança e sabedoria. Estas mãos não tremem; são firmes, e cada gesto é deliberado, cada movimento cuidadosamente orquestrado para alcançar um propósito específico.

Ao fundo, reverberam as ações das corporações do reino, que continuam e continuarão a moldar os contornos da sociedade. Ainda assim, a figura permanece como ponto focal, um pilar de força por entre os sussurros suaves dos cortesãos e o clamor distante do povo. O ambiente está impregnado do peso da história, cada artefacto ao redor sussurrando lendas de antecessores que estabeleceram as bases do seu poder.

Quando tal personagem, por encanto, se digna falar, a sua linguagem não é apenas uma ferramenta, mas uma arma. Emprega o plural majestático, falando de "nós" em vez de "eu", encapsulando uma tradição que se estende por gerações. Tal recurso não é gramatical, mas simbólico, paradigma de quem não fala apenas por si próprio, mas como a encarnação régia de um passado, que pretende estender ao presente e ao futuro.

 

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