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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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20
Set25

Depois da Ficção: Desmontar o Mundo

 

 

 

Num ecrã luminoso, seres de pele azul movem-se entre árvores vivas e raízes que falam em silêncio. Vivem ligados à terra e à memória. Cada gesto obedece a um código antigo. Quando se colhe uma presa, há gesto. Há contenção. Há reconhecimento.

Cá fora, a realidade arde – fragmentada em notícias, amputada de linguagem, indiferente à respiração do mundo.

Numa janela do ecrã, pessoas em filas densas seguem em marcha lenta. Levam trouxas à cabeça e filhos ao colo. Vão para sul, para longe do fogo. Diz-se: “zona segura”. Depois bombardeia-se a zona segura. Em seguida, muda-se o nome. Não se muda a destruição.

Entre os dois mundos, a turbulência faz tremer os olhos de quem olha para o ecrã. Há que apertar o cinto. Os altifalantes sugerem calma. Entretanto, lá fora, uma cidade desaba.

Quando o céu estabiliza, a refeição chega.

What would you like to drink, Sir?

A civilização mantém-se.

Na ficção, as florestas acendem-se à noite. Cada árvore guarda o vestígio de quem passou, de quem caiu, de quem dançou. Os mortos são sementes. A dor tem lugar. No planeta imaginado, até a violência obedece a uma ética.

Na realidade, a morte multiplica-se sem nome, sem tempo para enterros. Mata-se rápido, limpa-se o que resta, apaga-se a criança do registo. Diz-se “colateral”, como se a morte fosse um erro técnico, não uma escolha.

A linguagem tornou-se arma. “Operação”, “alvo”, “evacuação”. Não se diz: destruição. Não se diz: expulsão. Não se diz: genocídio. Não se diz: lucro.

As guerras do presente travam-se com mapas de minerais na mão. A promessa de apoio transforma-se em fatura. Terras raras em troca do direito de resistir. Rios ocupados em troca de paz artificial. A cartografia já não desenha cidades, caminhos e pontes – desenha zonas de extração. A Ucrânia como armazém. Gaza como postal turístico.

Primeiro esvazia-se a vida. Depois inaugura-se o negócio. Cidades em ruínas reimaginadas como praias temáticas. Desertificação com piscina.

Para que a máquina funcione, é preciso destravar o sistema. A democracia, com os seus processos lentos, atrapalha. A justiça atrasa. O jornalismo denuncia. As ONG incomodam. As ciências humanas pensam demais. Por isso, há que desmontar tudo. Um corte de financiamento aqui, um ataque à credibilidade acolá, uma nova ordem, aceite sem resistência por um sistema exausto.

Os novos construtores de mundos falam como engenheiros. Um povo pode ser silenciado – como ruído de fundo. A floresta, apagada do mapa. Substituída por servidores. O mar, repartido em lotes turísticos. Como se a paisagem existisse apenas para caber numa certidão do registo predial.

Tudo o que vive demais – fala demais, recorda demais, sangra demais – é uma falha de sistema.

Chamam-lhe soberania. Eficiência. Inovação. Mas inovação sem ética é apenas colapso – com melhor design. O futuro que se constrói assim é um museu interativo da indiferença: bonito por fora, vazio por dentro.

Contudo, há ainda quem recuse a equação. Quem diga: nem tudo pode ser codificado. Nem tudo pode ser comprado. Nem tudo pode ser sacrificado em nome da máquina e do medo.

Esses – os que escrevem, os que documentam, os que choram, mesmo quando não é em voz alta – são os próximos silenciados.

No ecrã, as árvores fecham-se sobre os corpos. Guardam-nos. Lá fora, as imagens ardem antes de chegar ao fim. A memória, agora, tem prazo curto. E os vivos continuam a mover-se, trouxa à cabeça, em direção a lugar nenhum.

 

Avatar.jpg

Imagem: “Avatar” (2009), realização de James Cameron. Imagem promocional – © 20th Century Studios / Lightstorm Entertainment.

Cameron imaginou um mundo onde os mortos têm memória e a dor tem lugar. E recusou viver num onde isso já não acontece.

 

21
Out24

Geografias

Guernica.jpg

Convém, desde logo, saber de Geografia! Quem não conhece os diferentes cantos do mundo não vive no planeta Terra; andará, quiçá, ofuscado por outros astros. Compreender os territórios e as forças que moldam o planeta importa para auscultar as várias dimensões do presente e antecipar o futuro.

 

 

Não é só uma questão de mapas, mas também de saber como as culturas interagem. Há os que preferem a monocultura – seja nos campos ou nas ideias. É curioso notar como as monoculturas agrícolas, ligadas a um único cultivo, trazem consequências desastrosas: o esgotamento do solo, a vulnerabilidade a pragas... A monocultura ideológica é parecida. Uma visão única, imposta ou autoimposta, acaba por sufocar a diversidade, o que raramente acaba bem. Seja nas políticas ou na cultura, a resistência à diversidade muitas vezes termina em repressão ou violência. Em contraste, o multiculturalismo oferece um caminho para harmonizar diferenças e fortalecer sociedades.

Com o fim do colonialismo clássico e o surgimento de novas dinâmicas globais, o estreitamento do nosso mundo e o aumento das migrações, as democracias aprenderam que o multiculturalismo, quando bem gerido, é a chave para a coexistência pacífica. Promove a inclusão, garante que diferentes línguas, religiões e tradições convivam sob um mesmo guarda-chuva, ao invés de competirem por reconhecimento, influência e direitos. E o mais importante: mantém viva a essência da liberdade e da igualdade.

A escala muda quando se fala de cooperação internacional. Se o multiculturalismo se refere à convivência de culturas dentro de um país, o multilateralismo trata de Estados que tentam relacionar-se num palco global. É aqui que os conflitos se tornam mais visíveis. Enquanto vários atores cooperam, outros decidem andar sozinhos: entra em jogo o unilateralismo, o famoso “faço o que quero, e não me importo com o resto”, bem ao estilo de quem dita regras sem ouvir ninguém.

Sabe-se como essas escolhas isoladas acabam por enfraquecer os esforços de resolver problemas globais. Comércio internacional? Alterações climáticas? Isso só se resolve com todos os envolvidos à mesa. Razão por que instituições como a ONU ainda são fundamentais, mesmo que seja fácil criticá-las.

Ao pensar em Putin ou Netanyahu, o tema fica claro. Enquanto o primeiro destrói infraestruturas na Ucrânia para minar a sua resistência, Netanyahu fez algo semelhante em operações na Palestina e no Líbano, atingindo loucamente equipamentos e infraestruturas civis. Mas também Khamenei não é propriamente um menino do coro.

Mais a leste, Kim prefere – pasme-se! – destruir o seu próprio país, bombardeando estradas e outras ligações ao Sul. Estas ações não só comprometem o futuro da reconciliação entre as Coreias, mas também perpetuam a pobreza e o isolamento do seu regime.

É tudo farinha do mesmo saco! O custo nunca é só o de reconstruir casas, escolas ou pontes, mas também o de regenerar a confiança e a esperança de paz.

À boca da cena apresenta-se agora o retornado Trump. No seu anterior mandato, não iniciou nenhuma guerra em grande escala. Contudo, esteve envolvido em operações militares e conflitos em andamento. Trump, conhecido como o construtor de muros, é mais do que um destruidor de infraestruturas físicas; ele sabe como atacar os alicerces da democracia americana. Com a sua retórica de divisão, bombardeia instituições que sustentam a democracia formal. Desafia processos eleitorais e ataca a imprensa livre.

Parece que a destruição de pontes – diplomáticas e institucionais – está em alta no círculo dos líderes autoritários. Enquanto isso, todos os predadores deste mundo afiam as garras em simultâneo.

Num tal cenário, permanece o papel das organizações internacionais, e aqui entra António Guterres, o defensor incansável do multilateralismo. A sua ação não tem sido agraciada pela sorte, sofrendo os constantes bloqueios das potências que insistem em andar sozinhas.

Desde a retirada de países-chave de acordos importantes, como o Acordo de Paris, até às tensões geopolíticas na Ucrânia e no Médio Oriente, Guterres tem enfrentado um cenário complexo. Ainda assim, a ONU permanece uma plataforma essencial. Apesar de um mundo fragmentado, figuras dedicadas mostram que a persistência no multilateralismo é crucial. Num cenário em que ações individuais têm repercussões coletivas, a cooperação internacional deixa de ser uma escolha e torna-se uma necessidade prática. Valorizar o multilateralismo permite soluções mais justas e eficazes para problemas comuns – uma realidade que precisa de ser reconhecida e incentivada.

 

Nota:

A destruição de infraestruturas civis, como se viu em Guernica, em 1937, é mais do que um ato de guerra: é um símbolo de repressão e violência contra populações inteiras. Picasso imortalizou o horror numa das obras mais icónicas do século XX, exposta no Museu Reina Sofia, em Madrid.

 

 

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