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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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11
Jan26

O Inimigo Já Não É o Que Era

(mas a realidade também já não é o que devia ser)

 

 

 

Desde que me conheço como leitor – ou pelo menos desde que comecei a perceber piadas com ministros e vacas voadoras – acompanho O Inimigo Público. Primeiro no jornal Público, agora no caderno Ideias do Expresso.

Dirigido por Luís Pedro Nunes, mestre de cerimónias de um mundo paralelo – ou talvez não tão paralelo assim – onde o ridículo é património da humanidade, o Inimigo sempre foi mais do que uma publicação de humor: foi, e continua a ser, uma bússola no meio do absurdo – enquanto ainda é possível achar o absurdo... engraçado.

Porque o humor, quando bom, não serve só para rir. Serve para pensar, para inquietar, para dar uma cotovelada elegante nas certezas. O Inimigo faz isso: serve uma caricatura matinal temperada com lucidez.

Mas eis que o mundo decidiu tornar-se a própria caricatura. E com isso, a sátira perdeu o efeito de choque – porque deixou de ser exagero.

Quando Donald Trump apareceu, parecia um sketch. E era – daqueles que começam por ser engraçados e acabam em trauma coletivo. Trouxe tudo o que não devia ter acontecido – e aconteceu. Com ele, instalou-se uma era pós-satírica – ou talvez de pós-realidade – em que o absurdo deixou de precisar de guião, e a imaginação dos cronistas já não consegue acompanhar. Como competir com alguém que sugeriu curar um vírus com luz e injetar desinfetante?

A piada perdeu a graça no momento em que passou a ser título de notícias. De repente, já não é preciso rir do absurdo – basta assistir ao telejornal.

A verdade é que O Inimigo Público continua a fazer o seu trabalho. O problema não está na sátira – está no mundo. Num planeta onde o inverosímil se torna banal, resta ao humor apenas imitar – e mal – o noticiário.

Talvez seja por isso que se tenha saudades da sátira como ela era: não porque tivesse mais graça, mas porque a realidade ainda deixava espaço para a ficção. Agora, o exagero já não espanta – limita-se a repetir aquilo que o mundo se encarregou de tornar real.

Quem sabe, Luís Pedro Nunes devesse contratar Trump como redator principal. Não para escrever piadas – mas para continuar a alimentá-las. A musa disfarçada de apocalipse cor-de-laranja.

Afinal, talvez o problema não seja O Inimigo Público, mas o público inimigo: os que deixaram de rir porque começaram a levar a loucura a sério.

 

04
Jan26

O dia em que o Mundo Respirou

Disseram os astrólogos que 2026 começaria com grandes acontecimentos.
Acertaram na escala. Erraram na lógica.

 

 

 

1

Todas as manhãs, às 5h48, Xixi Pang ajustava a respiração ao compasso de um metrónomo digital, rodeado por assessores imóveis e plantas sintéticas. Chamavam-lhe “recalibração cognitiva de alto nível”.
Foi nesse instante, ainda de robe funcional, que o pelotão de monges tibetanos entrou. Treinados em Zurique, armados com mandalas de acusação simbólica, estavam credenciados por um consórcio internacional de preservação da memória cultural.
A acusação — “obliteração sistemática da memória do século XXI” — foi lida em quatro línguas vivas e duas mortas.
Xixi acenou. Não por concordância, mas por reflexo institucional.
Foi selado num frasquinho de vidro transparente, para análise. A China protestou. As bolsas subiram.

2

Ao fim da tarde, na sua datsha de férias, de tronco nu e copo de vodka na mão, Putianov contemplava a lareira onde ardiam documentos do século XX.
O destacamento georgiano entrou pela porta principal. Treinados pela Ucrânia, com apoio turco, seguiram o Protocolo 27-B da Carta de Bucareste — cuja autenticidade fora validada horas antes num podcast esloveno.
Putianov foi levado em silêncio, montado num cavalo albino.
O cavalo pediu asilo. Foi concedido.

3

Pipi emergia de uma sessão de sais minerais no Spa Oriental do Hilton de Jerusalém Oeste quando o painel “Soluções Hídricas em Regiões em Conflito” foi suspenso.
A detenção foi executada por agentes de várias jurisdições, com capacetes azuis reutilizados e crachás impressos à pressa.
O mandado partira de um Tribunal Híbrido do Médio Oriente, de estatuto flutuante e competência variável.
Pipi alegou missão de paz. Foi desmentido por catorze telegramas, um vídeo em loop e um PowerPoint intitulado “Água, Paz e Escavadoras”.
A comitiva dissolveu-se por inconsistência ética. O tribunal suspendeu-se a si próprio.

4

Na varanda de Mar-a-Charco, Drunke ensaiava um gesto de golfe, em camisa aberta e bronzeado perpétuo.
A flotilha iraniana surgiu sobre jet skis pretos. Bandeiras verdes fluorescentes. A CNN transmitiu em direto. A Fox classificou como “turismo aquático hostil”.
— Não podemos resolver isto com 18 buracos e dois mojitos? — perguntou.
Foi detido ao som de uma banda a tocar Sinatra. JD Convex leu um comunicado segundo o protocolo de emergência. A Sra. Drunke nada disse, como sempre.

5

Nenhum disparo. Nenhum herói. Apenas capturas eficazes, com fundamentos jurídicos que pingam da jurisprudência como tinta molhada.
A legalidade, agora, é flexível como yoga geopolítico.
O mundo, que ontem talvez gritasse, hoje atualiza as notícias enquanto mastiga pipocas.

 

03
Jan26

Onde está a minha Tribo?

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Em caminhos que atravessam florestas de solidão, cada passo é uma oportunidade de forjar ligações e descobrir significados.

 

 

          Há quem viva
sem se filiar em partidos ou religiões, nem se deixar levar pelo entusiasmo dos estádios. Evitando espaços onde tradições e ideologias são já sombras gastas do vasto horizonte da experiência humana. Percorrer desertos ideológicos não é uma fuga ao vento, mas uma forma de o enfrentar – com a pele exposta à brutalidade da beleza e à descoberta daquilo que, mesmo invisível, nos une.

          As árvores de inverno,
nuas e solitárias, encarnam essa resistência tranquila: enfrentam o frio não com desespero, mas com a dignidade de quem encontra revelações no silêncio. O seu isolamento evoca uma coragem coletiva, uma celebração de identidade. Afinal, a moral não se forja em dogmas, mas na textura da própria existência – esse tecido vivo e interligado que resiste mesmo às distâncias percebidas.

          Talvez por isso tenha nascido
duas vezes. A primeira, no rés-do-chão de uma casa de habitação na Rua Luciano Cordeiro, como rezava a cédula pessoal. A segunda, aos 16 anos, quando a leitura compulsiva de Sartre e outros autores despertou uma fome de pensamento que desarrumava a adolescência. Mas esse segundo nascimento não ficou ancorado no passado – reaparece sempre que a liberdade se insinua – trazendo consigo o peso silencioso da escolha. Renasço sempre que me volto para o silêncio, recusando o conforto das certezas prontas.

          Os professores, os colegas
e os amigos – inteligências inquietas – moldaram-me. As circunstâncias também deixaram a sua marca, com a paciência (ou impaciência) do tempo. Tribos informais surgiam nos intervalos, em cafés, em ideias partilhadas que sabiam ser maiores do que as palavras. Nunca foram multidões, mas constelações – breves encontros de luz num céu interior.

          Onde está, então,
a minha tribo? Talvez não se veja. A tribo não é um lugar fixo, nem um grupo fechado – é um reconhecimento mútuo. As árvores isoladas no frio não estão verdadeiramente sós: as suas raízes entrelaçam-se na rede subterrânea que sustenta o ser.

          A minha tribo vive aí
– no invisível que persiste.

 

01
Jan26

Regresso à Idade Média

Entre castelos de dados e fogueiras digitais, a nova Idade Média está entre nós – e não vem a cavalo

 

 

1

Diz-se que a Idade Média é coisa do passado. Uma fase ultrapassada, encerrada nos manuais escolares, ilustrada com gravuras de monges curvados e castelos húmidos. Mas, como em tantas mortes anunciadas, talvez tenha apenas mudado de roupa. Não desapareceu: reciclou-se.

A Idade Média não foi negra por esconder o poder; foi clara por o exibir. O senhor sentava-se no alto, a espada à vista, o direito divino bem exposto. A verdadeira escuridão começa quando o poder se apresenta como salvação, quando deixa de mandar e passa a proteger, quando já não oprime – cuida.

 

2

Imagine-se um feudo qualquer. Poderia chamar-se Terravela. O senhor manda. Os servos obedecem. Quem ousa falar fora de tempo desaparece. Não é preciso grande imaginação: basta pensar num território fechado, numa verdade única, numa hierarquia sem fissuras. O feudo vive da repetição, do medo e da promessa de segurança. Em troca, exige silêncio. E aclamações em dias certos.

 

3

O mundo continua em palco – mas alguns, poucos, constroem o seu feudo no camarim. Há o fanfarrão de bandeira em punho e exército de seguidores – em Mar-a-Lago ou nos comícios das planícies interiores. Há o imperador eterno, instalado em Pequim, que combina censura interna com empatia externa – até que a dívida substitua o afeto. Há o cruzado moderno, em Jerusalém, que invoca uma promessa antiga e dispara certezas recentes. E há o czar reinventado, entre cúpulas ortodoxas e reservas de gás, que troca ideologia por nostalgia e anexações.

Todos eleitos, ungidos, legitimados – claro. Pela vontade do povo, pelo medo, por urnas, algoritmos ou decretos. A forma muda; o gesto repete-se.

 

4

Também o povo mudou, dizem. Mudou, sim, mas talvez menos do que se supõe. Na Idade Média, não sabiam ler. Hoje, leem o que lhes aparece à frente. Ontem havia senhores; hoje há sistemas. Uns invisíveis, outros automatizados, todos eficazes. Onde antes havia inquisidores, há agora especialistas em autoajuda e pregadores de virtude. A lógica é semelhante: indicar o bem, apontar o mal, punir o desvio.

A ignorância perdeu o nome, mas não o efeito. Continua útil, obediente, bem-comportada – agora com ar limpo e verniz de opinião.

 

5

Ó glória vã de mandar!

– Camões

O verso atravessa séculos sem perder atualidade. Mandar continua a ser uma tentação antiga, e obedecer uma prática cómoda. O mando, a mentira.

Outra vez nas trevas. Que alguém acenda a luz.

 

22
Dez25

Intervalo

 

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Natal de 1914.
Algures na frente ocidental, soldados alemães e britânicos saíram das trincheiras, suspenderam o fogo e jogaram futebol na terra de ninguém.
São raros os momentos em que a guerra revela a sua absurda nudez. Este foi um deles.

 

 

O episódio é conhecido o suficiente 
para ser esquecido com elegância. Não foi ordenado. Não foi geral. Aconteceu à margem dos comandos – e não por causa deles. Durante horas – nalguns lugares, dias – cantaram-se canções, trocaram-se cigarros, enterraram-se mortos. Houve bolas improvisadas, passes desajeitados, risos. No dia seguinte, a guerra continuou.

A imagem que resta – 
homens de farda a disputar uma bola no lamaçal – sugere reconciliação. Mas engana. O que ali se vê não é paz: é um intervalo. Um parêntesis tolerado pelo calendário, não uma rutura do sistema.

Os alemães saíram das trincheiras e nós fizemos o mesmo. Apertámos as mãos, desejámos um feliz Natal uns aos outros. Depois alguém apareceu com uma bola e começou um jogo de futebol.
Graham Williams, soldado britânico

A imprensa gosta de heróis.
Mas este episódio não os oferece. Oferece, isso sim, frases contidas, quase embaraçadas, em cartas enviadas para casa:

Os ingleses trouxeram uma bola de futebol e rapidamente começou um jogo animado. Que coisa extraordinária pensar que homens que pouco antes se tentavam matar agora jogavam juntos.
Johannes Niemann, tenente alemão

Não há ali programa político, 
nem redenção, nem profecia. Surpresa há. E há também uma economia de palavras – talvez porque, naquele dia, qualquer explicação soasse excessiva.

Os factos são simples. 
As trincheiras estavam próximas. Os soldados reconheciam-se pelas vozes. O Natal autorizou uma pausa improvisada na rotina. E, por breves horas, a guerra ficou sem a sua encenação de sempre: sem distância, sem alvo, sem a abstração necessária para disparar. Viu-se, então, o que restava quando os adereços caíram: homens normais, com frio, fome e saudades, perfeitamente capazes de conversar com quem, na véspera, trocavam disparos.

A guerra exige uma história que a justifique. 
Naquele dia, faltou-lhe o guião.

É aqui que a nudez se torna absurda. 
Não porque a guerra tenha parado, mas porque, depois de tudo, não havia já uma boa razão para que continuasse – e continuou. A trégua não falhou; cumpriu a sua função. Foi um intervalo, não uma revolta. O Natal foi a exceção ritual: permitiu suspender sem transformar, humanizar sem alterar, reconhecer sem desobedecer.

A ironia maior não está no futebol. 
Está no regresso ordeiro às posições, na pontualidade do recomeço, na eficiência com que a máquina retomou o seu ritmo. Jogar juntos não impediu nada. Reconhecer o outro como semelhante não travou o processo. A guerra não precisa de ódio; precisa de rotina.

Será talvez isso o que mais incomoda neste episódio. 
Não que demonstre a vitória da humanidade sobre a guerra. Demonstra algo mais desconfortável: a sua convivência pacífica por um dia e a submissão no dia seguinte. A guerra mostrou-se sem justificação. Mesmo assim, avançou.

Assim, o Natal ficou para trás... 
A exceção desvaneceu-se. O resultado manteve-se em aberto por mais quatro anos.

 

Imagem: Frente Ocidental, 1914 – um intervalo regulamentar na primeira grande máquina de morte do século XX.

 

06
Dez25

Grupo de Trabalho sobre a Realidade

Uma breve ficção administrativa sobre a fragilidade da realidade como conceito partilhado.

 

 

Reuniram-se numa sala absurdamente iluminada, onde garrafas de água minúsculas se alinhavam com precisão militar.

O objetivo era decidir se, na sua forma atual, a realidade ainda fazia sentido.

Havia quem defendesse que já não se justificava usar a palavra. Outros propunham mantê-la, mas apenas com inicial minúscula e com um asterisco.

O presidente da comissão, um homem grisalho com voz educada, falou do custo de manter uma realidade partilhada. Era difícil atualizá-la em simultâneo para todos os utilizadores.

– O atraso médio entre o acontecimento e a compreensão ultrapassa já os três anos – disse, com a naturalidade de quem apresenta estatísticas de trânsito.

Uma jovem analista questionou se seria possível conviver com versões personalizadas:

– Cada cidadão teria direito à sua própria realidade, devidamente validada por algoritmo reconhecido pelas autoridades competentes.

– E se as diferentes realidades forem incompatíveis? – quis saber alguém.

– Serão toleradas – disse-se, com a solenidade metódica de quem ignora o sentido do que aprova.

No fim, optou-se por manter a realidade – com reservas, claro.

Aceitou-se que há zonas lentas, zonas cegas e zonas suspensas.

Ficou decidido que qualquer proposta de atualização deverá ser submetida com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

Ficou acordado que a palavra “realidade” passará a ser usada com a delicadeza de quem segura uma bomba-relógio embrulhada em papel de seda.

Não se discutiu, contudo, se a realidade estava interessada em ser mantida.

 

01
Dez25

O Dia da Restauração

Crónica gastronómica, dita aos tachos e ouvida pelas gerações.

Ilustração_O_Dia_da_Restauração.png

 

A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.

 

 

 

No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.

Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.

No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.

Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.

¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.

O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!

Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.

– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!

E concluiu, parafraseando Mestre Almada:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:

– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.

No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.

Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.

– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.

E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.

Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.

 

- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.

- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.

 

20
Nov25

Adeus, Bidé – até depois

Uma crónica sobre o declínio (e metamorfose) do bidé em Portugal


Bidé.jpg

 

Desde janeiro de 2024, o bidé deixou de ser obrigatório nas casas de banho portuguesas. Com o novo Simplex urbanístico (Decreto-Lei n.º 10/2024), bastam três peças: uma banheira ou duche, uma retrete e um lavatório. O Estado assinou discretamente o cancelamento da louça mais emblemática da intimidade doméstica.

A decisão não foi (só) higiénica. Foi também urbanística, económica e até filosófica. O objetivo era libertar área útil e alinhar com hábitos internacionais – fosse isso feito por simplificar projetos ou simplesmente reduzir exigências. Numa palavra: simplificar. E como em quase todas as simplificações, perdeu-se uma coisa – e ganhou-se liberdade.

 

 

 

 

Portugal descobriu que o bidé não era um objeto: era um estado de espírito. Um vestígio cerâmico de uma era em que a higiene era ritualizada, coreografada e separada por aparelhos. Hoje, a água continua essencial, mas o modo como ela nos encontra ficou ao critério da arquitetura e da imaginação.

Três soluções íntimas perfilam-se para tomar o lugar da velha peça de cerâmica – cada uma com o seu charme (ou ausência dele).

A primeira é o regresso das tralhas hidráulicas. O velho polibain ainda sobrevive nalgumas casas dos anos 80. O seu jato vertical, ora manso ora imprevisível como um poço de petróleo, fez dele um caso de amor e medo. Pouco elegante, mas funcional. Mais convincente é aquela torneirinha com bicha que parece saída de um improviso de canalizador. Popular no mundo islâmico e em ascensão nos mini-apartamentos lisboetas, é barata, simples e eficaz. Pode não ser bonita, mas resolve o essencial: a água chega onde tem de chegar. Como diz o senhor Jorge, canalizador de Massamá, “a água não precisa de GPS”.

A segunda hipótese é a sofisticação japonesa. Durante anos, as sanitas-bidé foram um luxo de hotel de cinco estrelas. Hoje, os modelos com funções básicas custam menos do que uma torneira de autor em latão filosófico. Trazem jato ajustável (frontal e traseiro), ar quente e tampa aquecida. Uma música de piano acompanha o utilizador, caso se demore demais, até ao limite da decência auditiva. Com tecnologia e conforto, a sanita evoluiu para trono digital: para muitos, é a alternativa mais aceitável ao velho bidé cerâmico.

Por fim, há a robustez do mundo sem canalização – lugares onde o bidé nunca chegou, nem tinha razões para chegar. Aí, a higiene íntima é um exercício de destreza: baldes fazem de torneira, a água é racionada com precisão quase cerimonial, e a limpeza segue métodos tão antigos quanto eficazes. Nada de cerâmica nem design – só engenho e necessidade. Nestes contextos, a intimidade não se desenha – resolve-se. E há algo de admirável nessa resiliência: uma dignidade pré-azulejada, sem botão de jato, mas com imenso sentido prático.

Com a nova legislação, Portugal começa a divergir em estilos e escolhas. A construção nova – mais barata e mais compacta – tende a eliminar o bidé sem remorsos. Há arquitetos que preferem torneirinhas discretas, como se fossem segredos hidráulicos. Hotéis apostam nas sanitas-bidé para vender conforto com sotaque internacional. E muitas famílias tradicionais mantêm o bidé, como quem guarda um retrato de família em louça branca.

A casa de banho tornou-se um espelho do que somos e do que deixámos de ser. Na réplica Minimalista Escandinava, a sanita flutua na parede como se rejeitasse o pecado da gravidade – e o bidé não é bem-vindo nem como conceito: sugeri-lo é como servir feijoada num spa. Num T3 Renovado, a entrada de água do bidé poderá ter sido escondida com uma tampa cromada que brilha como uma culpa mal resolvida. Num Hotel Boutique, uma sanita tocará harpa enquanto a tampa se levanta sozinha – só falta agradecer e deixar gorjeta. Numa Casa de Família, há bidé, polibain, banheira e duche: um museu da higiene portuguesa, com legendas imaginárias. No Estúdio para Alojamento Local, a torneirinha é vendida como “conforto oriental”, mas funciona como pistola de paintball para turistas desprevenidos.

O bidé continua presente, mesmo ausente. E essa presença-fantasma define a sua importância. Para uns, é património afetivo. Para outros, um obstáculo hostil. Muitos usam-no como recipiente de cremes, escova elétrica e livros de Sudoku. Uma tia de Alvalade serve-se dele como suporte de plantas “medicinais”. Alguns batem-lhe diariamente com o joelho como quem castiga um parente incómodo. Poucos o celebram. Mas todos o reconhecem.

Mesmo em tempos de sanita inteligente, o bidé clássico guarda uma virtude difícil de replicar: a sua simplicidade mecânica. Sem eletrónica, sem sensores, sem manual de instruções. Só cerâmica e água. Paradoxalmente, talvez fosse a hipótese mais sustentável.

Como qualquer espécie digna de nota, o bidé evoluiu: começou no século XVIII como sela de aristocrata francês. Ganhou estatuto sanitário no século XX. E agora liquefaz-se: torna-se spray, sanita japonesa ou memória.

O bidé não está extinto. Apenas sublimado.

Na era pós-Simplex, a higiene íntima em Portugal passou da obrigação ao design. E cada português – e portuguesa, claro – é agora livre para reinventar o seu ritual: com sensor digital, com torneira improvisada, ou com a memória húmida de uma peça de louça que já não tem lugar, mas ainda diz muito.

 

Fonte da imagem: United States Patent Office. Patente de John Reid – “Bidet”, arquivada a 5 de dezembro de 1887.

 

15
Nov25

Unicórnios e Outros Bichos Mitológicos

 

Há qualquer coisa de mágico – ou talvez de tragicómico – no palco da Web Summit. Os políticos chegam baços, saem brilhantes. Como se o LED das luzes lhes acendesse os olhos, e a linguagem da tecnologia lhes devolvesse uma juventude de laboratório. Disruption. Quantum. Scalability. Palavras que não se mastigam – projetam-se, com fé e sotaque. E basta prender-lhes um microfone à bochecha para parecer que parte do raciocínio foi enviado para processamento remoto, numa cloud muito nacional, muito promissora.

Desta vez, foi um ministro. Não importa o nome. Importa o gesto, a cadência, a fé. Disse que Portugal está pronto para liderar o mundo em inteligência artificial. Liderar. O mundo. Assim mesmo, sem rodapé.

É sempre bonito ver entusiasmo. Mas mais bonito seria ver médicos onde faltam, professores onde são precisos e escolas sem baldes no chão a aparar o que a chuva traz. Saltam-se etapas com uma leveza inquietante – como quem promete um foguetão para Marte antes de construir a estrada até casa.

No topo do discurso, uma estrela: um tutor de IA para cada aluno. Um ser digital que escuta, guia, inspira. Que conhece a criança melhor do que ela própria. E que, se o orçamento der, talvez ajude a por a mesa e a aquecer a sopa.

Por instantes, pareceu estar ali, no palco, a solução para décadas de desigualdade educativa – comprimida num algoritmo afável, programado para o bem.

Mas o verniz do entusiasmo estala depressa. Portugal já foi líder do hidrogénio verde. Do mar. Do sol. Das startups. Dos bioquímicos e dos roteiros tecnológicos. Especialista em anunciar o futuro, mesmo quando o presente está por fazer.

Não se trata de um lamento contra a tecnologia. Trata-se, por assim dizer, de um gesto de respeito. Porque a tecnologia merece chão fértil, tempo, investimento real, políticas sérias. Não promessas em palco com drones a filmar de cima.

No meio desta dança – entre o PowerPoint e o milagre – o cidadão comum observa. Lá vai, com o que lhe resta. E pergunta-se, talvez em voz baixa, se também ele terá direito ao tal tutor de IA que o escute, que o inspire, que o guie.

Talvez sim. Talvez não.

Mas até lá, o mais sensato é continuar a confiar na velha fórmula que nunca falhou: inteligência humana, ironia quanto baste e aquele instinto antigo – quase animal – que desperta sempre que alguém nos garante o futuro… com brilho nos olhos e inglês de telepromoção.

 

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Eles galopam. Promessas ao largo.

 

13
Nov25

Sermão às Pedras da Calçada

Uma pregação laica sobre a cidade, dita às pedras e ouvida pelo tempo.

 

Tudo começou com um sermão – não no púlpito, mas sobre a calçada de uma praça imaginária. Foi ali que nasceu a Cidade sem Tino: sem ser por vontade divina, mas sim por curiosidade terrena — esse gesto de olhar para o chão e perguntar o que as pedras pensam de nós. O Sermão às Pedras da Calçada inaugurou este espaço com a inquietação de quem fala à matéria inerte, esperando resposta. Entre a ironia e a fé no humano, traçava, desde então, o rumo desta cidade: pensar o quotidiano, desmontar o absurdo e, quando possível, devolver-lhe o riso. Hoje, as pedras continuam – mais gastas, talvez. As falácias multiplicaram-se, mudaram de pele, assumiram formas mais subtis. Mas há também passos novos, mais atentos. Por isso, republica-se este sermão – com reformulações discretas – não como relíquia, mas como lembrete de que até o chão pode ser lugar de pensamento.

 

 

 

 

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Numa praça deserta, sob o sol do meio-dia, o calor eleva-se do empedrado em ondas invisíveis, e o silêncio adensa-se entre fachadas imóveis. Um pregador põe os olhos no chão e, com voz aveludada, desafia as verdades aceites.

 

Ó pedras da calçada,
vós que revestis o chão da cidade não apenas como adorno, nem como mero suporte para os passos apressados dos transeuntes, sois as guardiãs do tempo, da memória, das nossas histórias e dos desafios contemporâneos. Sois testemunhas silenciosas das escolhas que moldam o quotidiano e dos desafios que se acumulam a cada esquina.

Ao observarmos o mundo
transformar-se num mar de falácias, questionamos: será falha vossa, que não empedrais firmemente, ou da terra, que não se deixa empedrar? Será porque os novos pregadores proclamam a verdade enquanto praticam a hipocrisia, ou porque os acomodados escolhem seguir os exemplos corruptos em vez das palavras íntegras?

Vós, pedras,
que conheceis cada canto da cidade, formais a verdadeira ágora onde se manifestam as angústias e alegrias dos cidadãos. Sois humildes na essência: guiando os passos da gente comum, mostrais mais atenção à realidade do que à vaidade das poses encenadas. Como netas das imponentes catedrais que escreviam a História em pedras de grande formato, unis o antigo e o contemporâneo em cada rua, em cada praça. Triunfais sobre o torpor dos espaços por calcetar.

Ainda assim, ó pedras da calçada,
urge que não permaneçais apenas como testemunhas mudas e vos ergais contra as adversidades que assolam a nossa cidade. Levantai-vos contra os tanques que cruzam o empedrado, tentando expandir a sua influência ou impregnar a vossa natureza com uma visão hierárquica da cultura. Vede como o musgo do preconceito e da discriminação, que cresce silenciosamente entre vós, cria barreiras invisíveis que segregam os passos de pessoas de diferentes cores e origens. Vós, que devíeis unir, tornastes-vos, sem querer, divisoras do caminho, favorecendo uns em detrimento de outros. Não permitais, ó pedras, que, por astúcia interesseira, raízes daninhas se entrelacem sorrateiramente, enfraquecendo a terra que vos sustenta e usurpando as casas a que ofereceis acesso.

Vós, que fostes assentes
uma a uma com cinzel e martelo, pela mestria de quem zela para que nenhuma saliência cause tropeço, estai atentas à erosão das fundações, essa imperfeição disfarçada sob o polimento da legalidade. Lutai contra o abuso de prerrogativas que vos despoja do vosso pó e da areia fina para proveito próprio. Levantai-vos contra os culs-de-sac e outros impasses infrutíferos da justiça eclipsada.

Vivei, ó pedras,
em consonância com as pessoas, a fauna e a flora. Suportando o peso da vida que vos envolve, abraçai o desafio climático com a firmeza de quem sustenta o mundo passo a passo. E, mesmo que permaneçais mudas, deixai que o vosso silêncio fale mais alto do que os gritos da ambição vazia.

Tenho falado convosco
como quem fala ao tempo. Nem sempre sei se me escutais, ou se estas palavras se perdem entre os passos e o pó. Mas creio que, mesmo mudas, vós sentis quando algo se desloca no fundo da cidade – como um pressentimento que antecede o desabamento ou a sementeira.

Despeço-me, então,
ó pedras da calçada, com uma exortação final: continuai a sonhar e a inspirar sonhos, pois em vós reside o potencial de mudar destinos. Recordai o que diz o poeta e deixai que a música, simples mas poderosa, flua. Sonhai, pois, e sabei que o mundo se move e avança, como pedra “colorida entre as mãos de uma criança”.

La la la ra la ra ra.

 

- O Sermão de Santo António, que inspirou este texto, foi pregado por António Vieira, na cidade de S. Luís do Maranhão, ano de 1654, três dias antes de o autor embarcar ocultamente para o reino, a procurar o remédio da salvação dos índios.

- No Speakers' Corner do Hyde Park qualquer cidadão pode discursar. Há a crença de que o orador, ao permanecer sobre uma cadeira ou caixote, não pisa solo inglês, estando por isso isento das leis e tradições – uma noção pitoresca, mas sem fundamento.

- Pedra Filosofal é um poema de António Gedeão, publicado em 1956, que fala da capacidade humana de sonhar e transformar o mundo. Em 1970, Manuel Freire fez do poema canção, que rapidamente se tornou um hino de resistência.

- Há pedras que sonham. E, às vezes, por entre as juntas, desponta qualquer coisa maior.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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