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A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.
No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.
Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.
No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.
Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.
– ¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.
O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:
– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!
Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.
– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!
E concluiu, parafraseando Mestre Almada:
– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!
Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:
– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!
Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.
No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.
Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.
– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.
E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:
– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!
Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.
Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.
Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.
- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.
- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.
- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.
- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.