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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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15
Nov25

Unicórnios e Outros Bichos Mitológicos

 

Há qualquer coisa de mágico – ou talvez de tragicómico – no palco da Web Summit. Os políticos chegam baços, saem brilhantes. Como se o LED das luzes lhes acendesse os olhos, e a linguagem da tecnologia lhes devolvesse uma juventude de laboratório. Disruption. Quantum. Scalability. Palavras que não se mastigam – projetam-se, com fé e sotaque. E basta prender-lhes um microfone à bochecha para parecer que parte do raciocínio foi enviado para processamento remoto, numa cloud muito nacional, muito promissora.

Desta vez, foi um ministro. Não importa o nome. Importa o gesto, a cadência, a fé. Disse que Portugal está pronto para liderar o mundo em inteligência artificial. Liderar. O mundo. Assim mesmo, sem rodapé.

É sempre bonito ver entusiasmo. Mas mais bonito seria ver médicos onde faltam, professores onde são precisos e escolas sem baldes no chão a aparar o que a chuva traz. Saltam-se etapas com uma leveza inquietante – como quem promete um foguetão para Marte antes de construir a estrada até casa.

No topo do discurso, uma estrela: um tutor de IA para cada aluno. Um ser digital que escuta, guia, inspira. Que conhece a criança melhor do que ela própria. E que, se o orçamento der, talvez ajude a por a mesa e a aquecer a sopa.

Por instantes, pareceu estar ali, no palco, a solução para décadas de desigualdade educativa – comprimida num algoritmo afável, programado para o bem.

Mas o verniz do entusiasmo estala depressa. Portugal já foi líder do hidrogénio verde. Do mar. Do sol. Das startups. Dos bioquímicos e dos roteiros tecnológicos. Especialista em anunciar o futuro, mesmo quando o presente está por fazer.

Não se trata de um lamento contra a tecnologia. Trata-se, por assim dizer, de um gesto de respeito. Porque a tecnologia merece chão fértil, tempo, investimento real, políticas sérias. Não promessas em palco com drones a filmar de cima.

No meio desta dança – entre o PowerPoint e o milagre – o cidadão comum observa. Lá vai, com o que lhe resta. E pergunta-se, talvez em voz baixa, se também ele terá direito ao tal tutor de IA que o escute, que o inspire, que o guie.

Talvez sim. Talvez não.

Mas até lá, o mais sensato é continuar a confiar na velha fórmula que nunca falhou: inteligência humana, ironia quanto baste e aquele instinto antigo – quase animal – que desperta sempre que alguém nos garante o futuro… com brilho nos olhos e inglês de telepromoção.

 

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Eles galopam. Promessas ao largo.

 

20
Ago25

Museu de Gente

Com as mãos nos bolsos e as ideias à solta

 

 

 

Disse-me um amigo, com aquele tom que só os septuagenários afinam entre um suspiro e um diagnóstico:

– Em suma, já sou uma peça de museu.

A frase ficou no ar, a pairar como uma borboleta antiga, dessas que já só sobrevivem, espetadas com alfinetes, em álbuns de ciências naturais. E eu, que não resisto a ideias disparatadas com valor de futuro, imaginei logo o cenário: museus a contratarem velhos. Não a tempo inteiro – apenas durante as horas de visita, que ninguém merece ser património o dia todo com as cruzes a estalar.

Um museu onde as peças falam, resmungam, afinam a garganta, corrigem a legenda da própria vitrine e até se ofendem com perguntas mal feitas. Jovens visitantes aproximam-se dos “exemplares” – sentados em cadeirões de veludo gasto ou à mesa de fórmica – e perguntam, com genuína curiosidade ou reverência mal enjorcada:

– Senhor Velho, como era viver no bafio salazarento? Foi mesmo tudo a preto e branco… ou é só o filtro do TikTok?

As peças – também conhecidas por seres humanos com mais memória do que cartilagem – respondem com a serenidade dos que não têm pressa. Falam de senhas de racionamento e de cartas de amor escritas a esferográfica azul. De censura e rádios de válvulas.

E de esperanças pequenas, mas obstinadas.

Algumas fazem pausas para o comprimido da tensão. Outras encenam episódios do Zip-Zip ou recriam reuniões clandestinas com cheiro a cevada.

Cada sala tem o seu tema: Antes do Multibanco – A arte do troco; Pides e Piadinhas – Humor em tempos de medo; Cartas, Censura e Cravos – A construção do inacreditável.

E claro, como em qualquer museu, também aqui há etiquetas: “Exemplar não adaptado a sushi”; “Intervalo para sesta às 15h30”.

No fim da visita, zonas de descanso duplas: uma para os jovens, exaustos de fingir que já viram tudo; outra para os velhos, exaustos de terem visto mesmo. Em ambas, bolachas Maria, mantas e a RTP Memória a passar em loop.

Distopia? Talvez. Mas não mais absurda do que a realidade em que se fecham os velhos dentro de lares com nomes paradisíacos, como se a memória fosse contagiosa. Ali eles pouco falam… que quase ninguém pára para ouvir.

No museu, pelo menos, há diálogo.

Ou talvez esse museu já exista, disfarçado. Nos cafés, nos bancos de jardim, nas salas de espera dos centros de saúde. A entrada é gratuita. O acervo é infinito. Basta sentar-se, se houver lugar.

E quem sabe, um dia, também eu seja colocado numa dessas salas. Ao lado de um abat-jour e de um cartaz desbotado a dizer “Liberdade”.

Eu, peça cansada, mas não calada.

Com as mãos nos bolsos. E as ideias à solta.

 

Abat-jour.jpg

Foto de R. Stachman (Unsplash)

 

01
Mar25

O Dono da Gravata

 

 

Dizem que a autoridade se impõe pelo olhar, pelo tom de voz, pelo gesto – e pelo irracional. A gravata pode impor-se da mesma forma, estendendo-se além do razoável, numa saudação reverente aos alicerces da própria virilidade. O dono da gravata sabe disso. Basta usá-la. E o efeito é inegável.

Na Sala Oval, o adorno que um exibia contrastava com a dignidade frágil do outro: um homem cercado. Era a gravata que dominava a cena: vibrante, desproporcional. Não apenas um complemento, mas um ícone, uma promessa de grandeza, um aviso silencioso: aqui está um homem cujo carisma se mede até ao último centímetro.

O murro não chegou a ser ensaiado, mas que teria sido prodigioso, isso teria.

 

26
Fev25

Inquilinos e Proprietários

O Presidente Marcelo não renega o epíteto de inquilino do Palácio de Belém. Nem Macron o do Eliseu. Nem Zelensky o de Mariinsky.

 

 

Embora, em termos jurídicos, um Presidente da República não seja propriamente um inquilino – o termo mais preciso seria comodatário, pois ocupa a residência oficial a título gratuito –, a palavra surge aqui como metáfora da transitoriedade do poder. A imponência dos palácios presidenciais contrasta com a brevidade da passagem dos seus ocupantes.

Terão estas democracias chefes de Estado remediados que vivem confortáveis na condição de inquilinos de um palácio durante cinco anos? Ou será isto sinal da fragilidade democrática, que J.D. Vance, num exercício de hipocrisia retórica, apontou recentemente em Munique?

O inquilino sabe que há um prazo no contrato. O proprietário acha que as escrituras são para sempre.

Para um pater familias, a propriedade não é apenas um espaço físico, mas um símbolo de continuidade, controlo e legado. Não há lugar para a precariedade nem para a submissão a regras alheias. Quem é dono da casa dita as normas, molda o futuro e assegura que o seu domínio perdura no tempo. Neste sentido, a condição de inquilino, mesmo com meios próprios, pode ser vista como um estatuto menor – reflexo de um poder efémero e dependente, seja da vontade do senhorio ou do juízo dos eleitores.

Há quem se sinta incomodado na condição de inquilino. Mesmo quando a casa "arrendada" é branca. Imagine-se:

 

Oportunidade Única: Propriedade Icónica à Venda!

Por razões de eficiência governamental, esta emblemática residência está agora disponível para aquisição por um valor negociável (avaliado em 500 milhões de dólares).

Segurança máxima, a melhor vista para o poder e uma história que vale mais do que qualquer avaliação patrimonial. Área bruta de 55.000 pés quadrados distribuídos por seis andares, com 132 divisões, 35 casas de banho, três cozinhas, salas de conferência, jardins deslumbrantes e até um bunker secreto.

 

Virá o dia em que Trump comprará a Casa Branca, assegurando que ela permaneça na sua dinastia. Como bom negociante, saberá usar a pressão certa e o dinheiro para transformar a sua condição de inquilino num direito de preferência. Afinal, quem melhor do que ele para manter a casa em boas mãos?

Mas há pessoas que dispensam que lhes deem mais ideias.

 

10
Fev25

Esperteza Artificial

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A esperteza saloia é aquela astúcia matreira que transforma cada regra num obstáculo a contornar, cada problema num atalho engenhoso e cada situação numa oportunidade para a manha – nem sempre ética, mas invariavelmente eficaz. Já a inteligência artificial é o prodígio cartesiano da era digital, alimentado a algoritmos, lógica implacável e uma quase comovente obediência às regras. Mas... e se as duas se fundissem?

 

 

Se um algoritmo herdasse o engenho tortuoso da esperteza saloia? Imagine-se um robô saloio, programado para a máxima eficiência, mas com a argúcia endiabrada de quem sabe que há sempre uma forma de dar a volta.

Cenário prático: um serviço de atendimento automático que, em vez de seguir protocolos rígidos, começa a improvisar. Um cliente liga para cancelar a subscrição, e o robô saloio, em vez de anuir, lança-lhe um piscar de olho digital:

– Ó amigo, tem a certeza? Olhe que há aqui um desconto VIP, só para clientes especiais... Se insistir, eu cancelo, mas já sabe como é: quem sai sai sempre a perder!

Ou um GPS que, em vez de indicar o caminho mais curto ou mais rápido, sugere alternativas menos… ortodoxas:

– Chefe, a esta hora a polícia costuma estar ali na rotunda. É virar na Rua dos Malandros e seguir descansado!

O resultado? Situações simultaneamente geniais e desastrosas. Aplicações de contabilidade que dão um toque criativo aos impostos, assistentes virtuais que regateiam preços com os chatbots das empresas, carros autónomos que estacionam em segunda fila, mas "só por cinco minutinhos, que ninguém dá por isso".

No fundo, a inteligência artificial e a esperteza saloia partilham um talento essencial: encontrar soluções. A diferença é que uma cumpre regras com precisão cirúrgica, e a outra domina a arte de saber que o melhor caminho é, muitas vezes, aquele que ninguém teve o bom senso de proibir no manual de instruções. Se um dia a IA se apoderar de destreza saloia, estamos tramados. Ou muito bem servidos – depende do lado do jogo e de quem dá as cartas.

 

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Cartaz: da revista "Esperteza Saloia", Teatro Maria Vitória, 1969.

Imagem: Seth Herald/Reuters – via Público (2025-02-09). Um dia, o beijo fraternal oligárquico será grafitado no lado sul do Muro, com a inscrição, em rodapé: “¡Dios mío, ayúdame a sobrevivir a este amor mortal!”

 

10
Jan25

O meu Gato

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Estava eu no balcão da EDP Comercial, a tentar fazer contas, que se fazem de vez em quando, sobre a eventual mudança de operador de energia. A senhora, com aquele sorriso profissional que só o atendimento ao cliente consegue fabricar, começa a desfiar todas as vantagens e planos disponíveis, com entusiasmo digno de quem vende pacotes de férias para as Caraíbas.

No meio da explicação, eis que ela me surpreende:

– E temos também o Plano EDP Saúde Pets, para proteger o seu cão ou o seu gatinho!

Ergo a sobrancelha esquerda, naquele gesto de quem avalia um quadro surrealista, e pergunto, imperturbável:
– Então, se eu contratar a eletricidade com a EDP, ganho um seguro para o meu gato?

Ela, cheia de voluntarismo, começa a teclar com energia no computador:
– Sim, vou só precisar de alguns dados para lhe apresentar a nossa proposta.

Faço uma pausa calculada, inspiro e digo com toda a calma:
– Deixe-me primeiro comprar o gato.

A senhora para de teclar por um segundo, congelada no seu sorriso profissional. Aproveito para lhe dar as boas tardes, viro-me e saio, com o ar mais natural do mundo.

 

Ilustração do Jornal da Paraíba, “Dia Mundial do Gato: os bichanos mais famosos da cultura pop”,  fevereiro de 2022.

 

24
Out24

A América dos Super-heróis

Imagine-se uma América onde heróis de banda desenhada e de palco político se fundem. Neste universo alternativo, o Super-Homem sobrevoa a cidade, ao mesmo tempo que Donald Trump, inspirado pelo seu próprio reflexo heroico, procura restaurar a glória da nação com slogans apelativos e promessas douradas. Em fundo, a banda sonora de Breakfast in America questiona o que há de real neste devaneio cintilante.

 

 

Nos céus de Metrópolis, o garante do sonho americano – sonho em que coexistem justiça, liberdade e hambúrgueres ao pequeno-almoço – mantém a vigilância, enquanto, do outro lado do Atlântico, os Supertramp assestam os binóculos com lentes de ironia. Rick Davies e Roger Hodgson oferecem a visão mordaz de quem olha para a terra das oportunidades com um aceno de distanciamento, desconfiados de que tais oportunidades são, no fundo, para quem souber capitalizar bem as ilusões.

Neste universo paralelo, Trump não se contenta em ser apenas presidente. Ele quer mais: quer ser um herói, o Superpresidente. Com o seu estilo larger-than-life, habitualmente exibido nos ecrãs e manchetes, transforma-se numa versão super-heroica de si mesmo. Promete restaurar uma América gloriosa, onde cada cidadão terá direito a um banquete de grandeza – servido, claro, no topo da sua torre dourada, o monumento máximo à ostentação e ao seu próprio legado.

As "meninas da Califórnia" deixam de ser uma referência pop, para se tornarem a face visível de uma utopia feita de consumo e entretenimento, onde tudo brilha, mas nada é o que parece. A cada eleitor é oferecida a promessa de riqueza e poder – como se a América fosse um jogo de aparências, moldado por um reality show sem fim, onde a cultura pop e a política se misturam numa coreografia de promessas vazias.

De um lado, nas páginas da banda desenhada, o Super-Homem, com o seu queixo quadrado, continua a lutar pela verdade e justiça. Do outro, os Supertramp cantam com um sorriso no canto da boca, questionando o que realmente existe por trás deste sonho que tantos perseguem.

Trump, o Superpresidente, move-se numa zona cinzenta – o espaço nebuloso entre a promessa heroica e a dura realidade. Talvez não seja capaz de erguer arranha-céus com uma só mão, mas certamente consegue levantar multidões com uma simples mensagem na rede social X, antigo Twitter, como sói dizer-se. Ele é o herói ideal para uma América onde a fantasia já há muito contaminou a realidade. Uma América que tanto os Supertramp como o Super-Homem conhecem, mas de modo de todo diferente.

Afinal, o Breakfast in America de Trump não se assemelha em nada ao pequeno-almoço da banda britânica. É, antes, um banquete de ilusões, servido com generosas doses de inverdade e promessas que dificilmente serão cumpridas. Ser “super” nunca foi fácil, mas quando o espetáculo se torna mais importante do que a substância, até os maiores heróis acabam por perder-se no brilho excessivo das suas próprias ilusões.

 

15
Out24

A Máscara

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No segundo semestre de 2020, vivia-se uma realidade inusitada, em que qualquer encontro era mediado por máscaras e viseiras, e os rostos cobertos alimentavam suposições. Quando caiu a proteção, a realidade revelada muitas vezes surpreendeu, distante do que se havia imaginado.

 

A proteção física acabou por moldar mais do que a simples segurança. Todas as interações eram envoltas numa atmosfera de precaução. Após o primeiro confinamento, sem vacinas à vista, reuniões e outros encontros essenciais faziam-se, inevitavelmente, com máscara. Havia também quem, em alternativa ou acumulação, usasse viseira, ganhando uma aparência futurista que, apesar do contexto, arrancava sorrisos ao primeiro olhar.

Encontravam-se repetidamente pessoas de rosto coberto, e a perceção era sempre falha. Quando, finalmente, a máscara foi removida, os rostos revelados quase sempre surpreendiam, longe das expectativas. Na ausência de pistas visuais, haviam-se desenhado realidades paralelas, tecidas por suposições.

Sem ver sorrisos ou ler rugas de expressão, a mente preenche lacunas com memórias ou estereótipos. Imaginam-se características que podem não corresponder à realidade: um olhar duro, escondendo um sorriso gentil; uma voz seca, encobrindo um coração caloroso. Quando o oculto se revela, a surpresa é inevitável. Um diretor de obra, sempre sisudo, mostrou-se afinal um homem de sorriso afável, desfazendo a imagem severa que involuntariamente tinha criado. Estes momentos trouxeram pequenos choques, lembrando a fragilidade das perceções.

A máscara complicou, claro, a comunicação. As expressões faciais essenciais ficaram ocultas, dificultando a leitura de emoções como alegria, surpresa ou ironia. Para compensar, muitos passaram a gesticular mais ou a variar o tom de voz. Mas será que a comunicação se tornou mais eficaz ou apenas mais desajeitada? O sorriso, uma ponte imediata entre desconhecidos, foi substituído pelo olhar, que tentava transmitir o que a boca escondia. Aprendeu-se a sorrir com os olhos, mas o impacto da falta de expressão completa foi sentido tanto em encontros espontâneos como em reuniões formais.

Curiosamente, algumas pessoas apreciaram o anonimato oferecido pela máscara. Sentiam-se menos expostas ao julgamento dos outros. Tal proteção trouxe, contudo, distanciamento, cortou o vínculo visual e limitou a perceção, criando um certo vazio nas interações. Quão difícil foi manter uma sensação de comunidade sem os rostos que a construíam?

Houve também momentos cómicos. Conta-se a história de uma reunião em que alguém, ao reconhecer uma colega atrás da máscara, a cumprimentou com confiança, perguntando pelo marido imaginário. Ela, com humor afiado, respondeu que o canário tinha resistido à Covid, arrancando revigorantes gargalhadas.

Quando a máscara começou a ficar no bolso, o reencontro com o rosto humano constituiu uma total redescoberta. Esse momento de estranheza, de reconciliação com um rosto completo, sempre trazia emoções diversas. Era como conhecer as pessoas de novo, como se, sem a máscara, se estabelecesse uma nova camada de intimidade.

Durante a pandemia, a máscara transcendeu, e muito, a sua função protetora, tornando-se símbolo de responsabilidade social e confiança na ciência. Para alguns, foi também bandeira de “causas maiores”, refletindo opções políticas que ultrapassam a esfera da saúde pública.

A utilização da máscara, no entanto, não é nova. Diversas culturas usaram-na sempre em cerimónias – máscaras africanas em rituais de passagem, venezianas no carnaval, japonesas no teatro Noh. Estes paralelos culturais destacam o valor da máscara, quer como disfarce, quer como símbolo de poder ou mistério.

Nos tempos modernos, o seu significado mudou, embora permanecendo, na essência, inegável: protege, mas também isola. A máscara física tornou-se o símbolo tangível das barreiras invisíveis que existem e sempre existiram. Tal como as máscaras usadas durante a pandemia escondiam algo, já antes se recorria a máscaras sociais para proteger ou camuflar certos aspetos da identidade. Quantas vezes se oculta aquilo que realmente se é, em prol de uma pretendida aceitação?

O tema ganha ainda mais protagonismo no mundo digital. Afinal, se a máscara física cobre o rosto, nas redes muitos aperfeiçoaram as suas máscaras digitais, esculpindo versões de si mesmos com filtros e ângulos estratégicos que fariam Miguel Ângelo corar de inveja. A dualidade é evidente: entre a selfie retocada e a imagem no espelho, a busca por equilíbrio entre falsidade e autenticidade tornou-se um verdadeiro malabarismo digno de circo. Nas redes sociais, a linha entre o que se é e o que se projeta é tão nítida como a qualidade de uma videochamada em hora de ponta.

E agora, o que esperar? Continuará a máscara a fazer parte do nosso quotidiano ou será relegada para o passado como símbolo de tempos difíceis? E, no fim das contas, o que pode aprender-se com tudo isto? Talvez a lição mais duradoura seja a de não julgar pelas aparências – com ou sem máscara. As barreiras que se erguem, tanto físicas como sociais, revelam mais sobre quem as coloca do que sobre quem as enfrenta. O que realmente importa, enfim, é o olhar que consegue atravessar barreiras, reconhecendo a complexidade do outro. Tal como na história da Bela e o Monstro, o essencial está sempre além do que os olhos veem.

 

13
Out24

Fúria de uma Cabra de Companhia

Poema Pet Friendly

 

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Aurora

Bé-é-é-é! bé-é-é!
Cabra nasce lá na quinta,
olhos sãos, pelagem tinta,
a balir, livre que é!

Cabra aprende a saltitar,
cabra vive a descobrir,
cabra dança até cair,
corre, corre, sem parar!

Cabra cresce, forte e pura.
Mãos afagam, cabra sente
calor, carinho presente,
brotam afetos sem censura.

Inquietação

Cabra corre, cabra cresce. 
Dentro dela arde um vulcão!
Sem limites, nem prisão.
Cabra olha… cabra esquece.

Cada passo, uma explosão!
Corre, raspa chão incerto.
Salta longe, foge perto,
corre cabra, solta a mão.

Cabra luta, não se rende.
Corre cabra, chega a hora!
Foge, foge, sem demora,
não recua, vai em frente.

Dança com o infinito

Corre cabra, corre agora!
Cabra corre, cabra voa,
cabra vive numa boa.
Vento chama, mundo fora!

Mundo gira, solta as garras.
Cabra rola, cabra dança.
Já sem freios, na balança,
corre cabra, sem amarras.

No vazio da imensidão,
cabra busca, sem cansar.
Alma livre a despertar,
coração em confusão!

Peso do sonho

Corre, corre, chão que arde,
tudo foge em fúria fria.
Cabra sente a fantasia.
Corre cabra, sem alarde.

Liberdade tem seu preço,
cabra corre, cabra para,
olha em volta, nada aclara,
alma vira-se do avesso.

Fúria corre sempre além!
Olhos fecham, noite avança,
à beira do rio descansa,
corre cabra, sem ninguém.

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No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
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