Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
06
Dez25

Grupo de Trabalho sobre a Realidade

Uma breve ficção administrativa sobre a fragilidade da realidade como conceito partilhado.

Reuniram-se numa sala demasiado iluminada, com garrafas de água ridiculamente pequenas, alinhadas com rigor. O objetivo: decidir se a realidade, na sua forma atual, devia ser revista.

Havia quem defendesse que já não fazia sentido usar a palavra. Outros propunham mantê-la, mas apenas com inicial minúscula e com um asterisco.

O presidente da comissão, um homem grisalho com voz educada, falou do custo de manter uma realidade comum. Era difícil atualizá-la em simultâneo para todos os utilizadores.

– O atraso médio entre o acontecimento e a compreensão ultrapassa já os três anos – disse, com a naturalidade de quem apresenta estatísticas de trânsito.

Uma jovem analista questionou se seria possível viver com versões personalizadas:

– Cada cidadão teria direito à sua própria realidade, devidamente validada por algoritmo certificado.
– E se duas realidades forem incompatíveis? – quis saber alguém.
– Serão toleradas – disse-se, com a solenidade de quem não entendeu a pergunta.

No fim, votou-se manter a realidade, mas com condições.
Aceitar que há zonas lentas, zonas cegas e zonas suspensas.

Ficou decidido que qualquer proposta de atualização da realidade deverá ser submetida com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

Ficou acordado que a palavra “realidade” passará a ser usada com a delicadeza de quem segura uma bomba-relógio embrulhada em papel de seda.

01
Dez25

O Dia da Restauração

Crónica gastronómica, dita aos tachos e ouvida pelas gerações.

Ilustração_O_Dia_da_Restauração.png

 

A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.

 

 

 

No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.

Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.

No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.

Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.

¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.

O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!

Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.

– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!

E concluiu, parafraseando Mestre Almada:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:

– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.

No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.

Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.

– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.

E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.

Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.

 

- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.

- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.

 

20
Nov25

Adeus, Bidé – até depois

Uma crónica sobre o declínio (e metamorfose) do bidé em Portugal


Bidé.jpg

 

Desde janeiro de 2024, o bidé deixou de ser obrigatório nas casas de banho portuguesas. Com o novo Simplex urbanístico (Decreto-Lei n.º 10/2024), bastam três peças: uma banheira ou duche, uma retrete e um lavatório. O Estado assinou discretamente o cancelamento da louça mais emblemática da intimidade doméstica.

A decisão não foi (só) higiénica. Foi também urbanística, económica e até filosófica. O objetivo era libertar área útil e alinhar com hábitos internacionais – fosse isso feito por simplificar projetos ou simplesmente reduzir exigências. Numa palavra: simplificar. E como em quase todas as simplificações, perdeu-se uma coisa – e ganhou-se liberdade.

 

 

 

 

Portugal descobriu que o bidé não era um objeto: era um estado de espírito. Um vestígio cerâmico de uma era em que a higiene era ritualizada, coreografada e separada por aparelhos. Hoje, a água continua essencial, mas o modo como ela nos encontra ficou ao critério da arquitetura e da imaginação.

Três soluções íntimas perfilam-se para tomar o lugar da velha peça de cerâmica – cada uma com o seu charme (ou ausência dele).

A primeira é o regresso das tralhas hidráulicas. O velho polibain ainda sobrevive nalgumas casas dos anos 80. O seu jato vertical, ora manso ora imprevisível como um poço de petróleo, fez dele um caso de amor e medo. Pouco elegante, mas funcional. Mais convincente é aquela torneirinha com bicha que parece saída de um improviso de canalizador. Popular no mundo islâmico e em ascensão nos mini-apartamentos lisboetas, é barata, simples e eficaz. Pode não ser bonita, mas resolve o essencial: a água chega onde tem de chegar. Como diz o senhor Jorge, canalizador de Massamá, “a água não precisa de GPS”.

A segunda hipótese é a sofisticação japonesa. Durante anos, as sanitas-bidé foram um luxo de hotel de cinco estrelas. Hoje, os modelos com funções básicas custam menos do que uma torneira de autor em latão filosófico. Trazem jato ajustável (frontal e traseiro), ar quente e tampa aquecida. Uma música de piano acompanha o utilizador, caso se demore demais, até ao limite da decência auditiva. Com tecnologia e conforto, a sanita evoluiu para trono digital: para muitos, é a alternativa mais aceitável ao velho bidé cerâmico.

Por fim, há a robustez do mundo sem canalização – lugares onde o bidé nunca chegou, nem tinha razões para chegar. Aí, a higiene íntima é um exercício de destreza: baldes fazem de torneira, a água é racionada com precisão quase cerimonial, e a limpeza segue métodos tão antigos quanto eficazes. Nada de cerâmica nem design – só engenho e necessidade. Nestes contextos, a intimidade não se desenha – resolve-se. E há algo de admirável nessa resiliência: uma dignidade pré-azulejada, sem botão de jato, mas com imenso sentido prático.

Com a nova legislação, Portugal começa a divergir em estilos e escolhas. A construção nova – mais barata e mais compacta – tende a eliminar o bidé sem remorsos. Há arquitetos que preferem torneirinhas discretas, como se fossem segredos hidráulicos. Hotéis apostam nas sanitas-bidé para vender conforto com sotaque internacional. E muitas famílias tradicionais mantêm o bidé, como quem guarda um retrato de família em louça branca.

A casa de banho tornou-se um espelho do que somos e do que deixámos de ser. Na réplica Minimalista Escandinava, a sanita flutua na parede como se rejeitasse o pecado da gravidade – e o bidé não é bem-vindo nem como conceito: sugeri-lo é como servir feijoada num spa. Num T3 Renovado, a entrada de água do bidé poderá ter sido escondida com uma tampa cromada que brilha como uma culpa mal resolvida. Num Hotel Boutique, uma sanita tocará harpa enquanto a tampa se levanta sozinha – só falta agradecer e deixar gorjeta. Numa Casa de Família, há bidé, polibain, banheira e duche: um museu da higiene portuguesa, com legendas imaginárias. No Estúdio para Alojamento Local, a torneirinha é vendida como “conforto oriental”, mas funciona como pistola de paintball para turistas desprevenidos.

O bidé continua presente, mesmo ausente. E essa presença-fantasma define a sua importância. Para uns, é património afetivo. Para outros, um obstáculo hostil. Muitos usam-no como recipiente de cremes, escova elétrica e livros de Sudoku. Uma tia de Alvalade serve-se dele como suporte de plantas “medicinais”. Alguns batem-lhe diariamente com o joelho como quem castiga um parente incómodo. Poucos o celebram. Mas todos o reconhecem.

Mesmo em tempos de sanita inteligente, o bidé clássico guarda uma virtude difícil de replicar: a sua simplicidade mecânica. Sem eletrónica, sem sensores, sem manual de instruções. Só cerâmica e água. Paradoxalmente, talvez fosse a hipótese mais sustentável.

Como qualquer espécie digna de nota, o bidé evoluiu: começou no século XVIII como sela de aristocrata francês. Ganhou estatuto sanitário no século XX. E agora liquefaz-se: torna-se spray, sanita japonesa ou memória.

O bidé não está extinto. Apenas sublimado.

Na era pós-Simplex, a higiene íntima em Portugal passou da obrigação ao design. E cada português – e portuguesa, claro – é agora livre para reinventar o seu ritual: com sensor digital, com torneira improvisada, ou com a memória húmida de uma peça de louça que já não tem lugar, mas ainda diz muito.

 

Fonte da imagem: United States Patent Office. Patente de John Reid – “Bidet”, arquivada a 5 de dezembro de 1887.

 

11
Nov25

Bateram-me à Porta

Bateram.jpg

 

Ele — meia-idade, cabelo ainda preto, fato negro grande demais, a gola do casaco erguida. O pescoço, já não.

Ela — talvez vinte e cinco anos, vestido evasê pied-de-poule, abaixo do joelho, sapatos de meio salto ligeiramente cambados.

 

 

 

Ambos traziam

pastas de napa preta. Certas missões exigem uma pasta. E uma postura.

No modo como se apresentavam, havia qualquer coisa de encenação – uma dignidade algo teatral, como se carregassem o peso de uma causa antiga.

Disse ele, com solenidade:

– Vimos falar com o Senhor.

Eu sorri

e ativei o meu discurso número dois – aquele para visitas inesperadas e delegados das alturas.

– Dou-me – e dar-me-ei sempre – bem com todas as estrelas do céu e com os seus representantes na Terra. Não ando atrás de nenhuma em particular, mas também não quero ser apanhado de surpresa quando o sol escurecer e os figos verdes caírem, derrubados da figueira por qualquer vendaval. É que, neste ponto, as opiniões dividem-se…

Fiz uma pausa

e acrescentei, com a franqueza que a ocasião pedia:

– Estou super-stressado. Trabalho até dizer chega, e pouco tempo me sobra para conversa. A menos que queiram – o que é improvável – dar-me uma ajuda.

Ela hesitou

por um segundo. Depois disse, com serenidade:

– Somos os novos vizinhos do andar de cima.

Andar de cima.

Naturalmente.

Nunca mais os vi.

Mas, às vezes, ouço passos.

Mesmo quando o prédio está vazio.

 

10
Out25

Drunke Peace Prize

Quando o ego de um homem não cabe numa redoma dourada, há só uma solução: criar o seu próprio mundo. E, se esse mundo tiver um prémio da paz com o nome dele, melhor ainda. Uma crónica sobre feridas, farsas e fake prizes.

 

 

 

Ronald Drunke está a olhar para um mapa à procura da Suécia e a perguntar se é possível erguer um muro à volta do Prémio Nobel. Não dá.

Seguindo à risca o Manual de Ditador Ofendido, rabisca retaliações. Primeiro: taxar a Suécia — “segurança nacional”, claro. Nasce a Taxa Anti-Almôndega. IKEA? Terrorismo escandinavo. ABBA? Infiltração comunista. Nobel? “Fake prize. Muito injusto, pessoal! Very sad.

Mas talvez não chegue. Na sala ovoide, Drunke ensaia um plano diplomático alternativo: invadir Oslo com a Delta Force disfarçada de diplomatas suecos e capturar Corina de la Paz numa caixa da IKEA, sob o brilhante nome de Operação Nobel Take-Back. MacPomposo, de águia ao ombro e colete com lantejoulas patrióticas, lidera a missão ao som de Top Gun. Bugs Bunny supervisiona, com aprovação presidencial.

Na cabeça de Drunke, já está decidido: “Se o Comité Nobel não me quer, o Comité Nobel é o inimigo.” Se Oslo não cair, há sempre um plano B: fundar o Drunke Peace Prize — atribuído anualmente a ele próprio. Os próximos dez já têm dono.

 

09
Out25

Do Crescimento Nasal

e outros fenómenos físicos

 

iStock-479774396.jpg

 Vivemos numa era em que a verdade não precisa de provas — só de partilhas. E quanto mais absurda for, mais longe viaja. Talvez por isso, certos rostos públicos pareçam cada vez mais... desproporcionais.

 

 

 

A tese científica

Nos últimos anos, assistimos a uma aceleração notável do desenvolvimento nasal em determinadas figuras de poder. Não é metáfora moral, é fenómeno mensurável.

O nariz cresce. Cresce muito. Cresce depressa. Ao início discreto, o alongamento manifesta-se logo após a primeira distorção factual.

Depois torna-se visível em discursos, entrevistas e, sobretudo, nos comentários em maiúsculas que brotam como fungos nas caixas digitais. Em alguns espécimes, o crescimento já compromete a visão periférica.

 

As causas

Sabe-se agora que não é preciso ser de madeira — basta insistir. Um único “ganhei as eleições” dito no momento errado provoca dilatação imediata.

A reincidência — “foi tudo roubado” — mantém o alongamento, mesmo quando tribunais, auditorias e máquinas de contar votos dizem o contrário.

Há casos documentados em que o nariz começou a crescer numa conferência de imprensa e só parou após a milésima partilha.

Noutra latitude, garantiu-se — com ar clínico de cosmonauta — que não havia tropas na Crimeia. Apenas “turistas entusiastas” com equipamento completo.

Em versão doméstica, registou-se torção bilateral quando alguém afirmou, sem pestanejar, que Portugal importa criminosos e ainda lhes paga subsídios. As estatísticas protestaram — tímidas, portuguesas — mas o nariz já atravessara a ombreira.

Resultado: atletas olímpicos do apêndice facial cruzam oceanos à frente do próprio corpo. Aerodinâmica impecável. Evidência zero.

O resto é biologia aplicada: estímulo, resposta, aplauso — e o nariz a ensaiar, mais uma vez, o infinito.

 

O papel do público

Estudos recentes confirmam que, nestes casos, o nariz não é apenas órgão sensorial: é instrumento performativo.

O crescimento é diretamente proporcional à audiência. Quando há palmas, avança. Com partilhas, alastra.

O nariz tornou-se uma superfície de sustentação que capta indignação e a retransmite sob a forma de certezas.

Daí que alguns sujeitos só consigam respirar dentro de um auditório — ainda que virtual.

Sem eco, o apêndice retrai. Sem atenção, dobra-se sobre si mesmo como galho seco.

Mas basta um “é isso mesmo!” vindo do fundo da sala — ou de um grupo de WhatsApp — e dispara de novo.

 

As consequências

São observáveis a olho nu.

Nas autoestradas do discurso, os narizes já provocam acidentes: colisões frontais com a realidade, engarrafamentos de bom senso, despistes morais.

A verdade, empurrada para a berma, aguarda com colete refletor. E nós, sempre apressados, deixamos que a esteira da turbulência nos penteie a franja: chamamos-lhe pensamento crítico.

A oficina de Gepeto fechou; agora chama-se algoritmo.

E o algoritmo não esculpe bonecos — fabrica narizes.

Quanto mais longos, melhor: dão mais cliques, mais sombra, mais vento.

 

Um toque de ironia filosófica

A ciência é clara: as mentiras não crescem na cara, crescem em alcance.

O nariz não precisa de cirurgia; precisa de plateia.

Tirem-lhe o aplauso fácil, o eco confortável, e encolhe.

Mas enquanto houver palcos disponíveis e dedos prontos para partilhar, continuará a expandir-se.

E nós, distraídos, faremos do impacto uma confirmação, convencidos de que é uma ideia.

Se doer, não é o nariz — é a ideia. Acertaste-lhe em cheio.

 

Foto: luckyraccoon / iStock.

 

06
Out25

O Espírito do Lugar

Notas sobre regeneração urbana em tempos digitais

BCD.jpg

 

Coimbra entrou oficialmente na era digital. O Presidente, de boné bem assente — adorno superior da modernidade simbólica —, inaugurou o mobiliário urbano interativo. Um momento de entusiasmo público e selfies municipais: mupis, cacifos, bancos solares e mesas interativas. Tudo brilha. Tudo promete futuro. Mais tarde, o reflexo fixa-se no vidro — e a dúvida fica no ar: ao ligar à tomada, a Baixa não terá desligado algo?

 

 

1
O parque edificado, com fachadas descascadas e degraus que rangem como ossos velhos, continua a ser habitado por estudantes apressados, imigrantes em sótãos sobrelotados e memórias cuidadosamente instaladas nos vãos de escada.

As lojas, adormecidas no conforto do tempo, recebem agora o toque revigorante do “bairro digital” — um verdadeiro elixir de juventude urbana. Online.

2
Percorre-se as ruas e encontra-se um comércio exausto, de montras empoeiradas, letreiros que tremeluzem e vitrinas onde já só se vê o reflexo do espaço vazio.
Empregados que um dia sorriram com gosto servem agora um tempo suspenso.

Mas tudo muda com alguns retoques de Photoshop e um upload habilidoso: no bairro comercial digital, estes estabelecimentos ressuscitam como marcas de “experiência” — modernas, reluzentes e com um “since 1918” cuidadosamente preservado no logótipo — tornadas verdadeiras organizações de sucesso.

3
Imagine-se só: os utilizadores do centro urbano de Coimbra nunca mais escorregarão nas rampas íngremes de Santa Cruz.
Nunca mais sofrerão o calor abrasador do verão, na Ferreira Borges, nem a chuva inclemente do inverno, nas ruelas da Baixinha.
Nunca mais terão de tatear o caminho quando faltar luz na “Rua Visconde da mesma”, como dizia a imprensa de antanho.

Imagine-se, também, cidadãos libertos da audição compulsória dos fados de sempre, à porta de Almedina — em alto volume, de manhã à noite.
É que o fado, por mais autêntico que seja, não foi feito para ser sorvido à colher de sopa.
E os cantores de rua, desafinados e pagos com trocos de 20 cêntimos, dificilmente figuram entre os bens imateriais da humanidade:

No hell below us
Above us, only sky
You may say I'm a dreamer…
but I'm not the only oooooone.

Felizmente, a playlist do mupi tem controlo de volume.

4
O novo centro urbano é uma espécie de evangelho apócrifo — revelação alternativa, não necessariamente em oposição aos canónicos.

Ou melhor: o centro pensado para ser vivido pela maioria dos seus utilizadores assemelha-se a uma realidade composta — cuidadosamente desenhada para o olhar contemporâneo.

As lojas orientais e de bugigangas de cortiça continuam presentes, discretas no tecido físico da cidade.
No centro urbano digital, porém, surgem reinventadas como espaços gourmet, envoltas em atmosferas de experiência.
Favorecidas no retrato, revelam uma nova estética de pertença. Dá gosto vê-las.

5
Adota-se oficialmente a dentadura digital — enfim, a dentadura do novo proletariado.

Os rostos, agora remotos, exibem sorrisos calibrados: uniformes, branqueados, transmitidos a partir de call centers que ninguém sabe onde ficam.

Com USBs que piscam, LEDs imóveis e QR codes reluzentes, a nova Baixa Digital desfila um catálogo de sorrisos — higiénicos, sem necessidade de contacto humano.

A distribuição está assegurada: pela Uber Eats, pela Glovo ou pelo cacifo inteligente que “agiliza” o que resta da antiga loja de bairro — agora reduzida à sua herança digital.

6
As crianças jogam em mesas interativas.
Os adultos carregam o telemóvel nos bancos solares.
O centro está mais conectado, mais funcional.

Mas será que ainda é um bairro? Ou já é mais do que isso — um showroom virtual com casario antigo como cenário?

A cidade, essa, não muda.
O que muda é o seu reflexo — cuidadosamente redesenhado.

E há quem veja no espelho digital mais autenticidade do que na vida que ele omite.

Há ideias com poder transformador que geram momentos de luminosidade extrema.
Convém, por isso, nunca esquecer os óculos de sol.

7
Coimbra ganhou um novo bairro digital.
Que importa que, ao mesmo tempo, tenha perdido um bairro de verdade?

Poderá perguntar-se como se mede agora o grau de pertença. Ou como se contabilizam os vizinhos que partiram, os silêncios que foram ocupar os lugares da conversa.

Pura retórica.

Os sensores calculam o tráfego e a temperatura.
A saudade, em breve, há de tornar-se quantificável — e quando isso acontecer, Coimbra estará na vanguarda.

As escadas continuam frias de inverno e quentes de verão.
Mas já ninguém se senta nos degraus a ver a tarde cair.

As janelas continuam abertas. Para o sinal Wi-Fi.

E o pão quente da padaria? Substituído por um código QR na vitrina vazia.

O espírito do lugar não se instala por USB.
Não vibra no bolso.
Não tem brilho de ecrã.
Mas deixa marcas — nas pedras, nos gestos, na memória do que se perde quando tudo parece novo demais.

 

Créditos fotográficos: C.M. Coimbra. N. Ávila, 2025

 

15
Set25

O Senhor no Lavatório

 

 

 

Na área de serviço, um QR code brilha no frio da luz branca. O código pergunta:

Como foi a sua experiência neste WC?

Um Senhor olha. Não responde. Não por falta de opinião, mas por excesso de realidade. Responder seria admitir que houve experiência, um acontecimento digno de ser registado – ou medido. O Senhor desconfia.

Há quem diga que, ao décimo inquérito, se recebe um vale para detergentes. O Senhor pensa que, se a promoção for para sabonete líquido, talvez valha a pena mentir.

O espelho está limpo, mas distorce. O Senhor vê um homem cansado que se parece com ele. Já não sabe se veio aqui lavar as mãos ou lembrar-se de quem era. Há dias em que até o reflexo hesita. Uma memória antiga pisca-lhe ao fundo da retina: um lavatório de infância, sabão azul e branco, a toalha da avó.

Outro homem, anónimo, pergunta: “E se o QR code for uma porta para o multiverso sanitário?” A pergunta é absurda. Como todas as boas perguntas.

Alguém imagina o futuro: o autoclismo exige autenticação por chave móvel digital. A higiene é uma operação administrativa. O Senhor prefere a velha torneira com falta de pressão. Pensa: e se fosse o WC a avaliá-lo? “Utilizador 328. Tempo de espelho excessivo. Enxaguamento insuficiente.”

O Senhor repara que está a ser vigiado por um dispensador de papel. Recorda um verso antigo sobre dignidade. Surge um poeta. Escreve sobre papel higiénico reciclado. Ténues Folhas de Esperança: Crónicas de uma Desintegração Prematura.

O filósofo do entupimento, se existisse, diria: “O corpo só se revela na solidão do cubículo.” O Senhor concordaria. Mas não verbalmente.

Entretanto, num escritório cinzento, algures, alguém analisa gráficos sobre espuma, fluxo e fricção. Distopia em estado líquido. A sanita, silenciosa, observa. O QR code sorri. A preto e branco.

É a sondagem do país real. De lavatório em lavatório. De sanita em sanita.

A luz branca zune no silêncio. A torneira pinga. Ele ainda está ali, de pé, junto ao lavatório, quando o telefone vibra no bolso.

“Boa tarde. Fala Lurdes Patrícia, da Satisfação das Necessidades Orgânicas. Esta chamada está a ser gravada.”

O Senhor desliga. Diz, com firmeza contida:

“Deixem pelo menos a casa de banho livre do capitalismo digital.”

O QR code espera. Sem pressa.

 

faruk-otkur.jpg

Uma memória antiga pisca-lhe ao fundo da retina. Foto: Faruk Otkur. Publicada em 2020. Via Unsplash.

 

12
Set25

Trump e a Beleza Decretada

Capitólio.jpg

 

 

Donald Trump, esse grande visionário da estética, decidiu dar uma ajudinha à arquitetura: decretou a beleza.

Assinou uma ordem executiva que devolve a arquitetura federal dos EUA à sua verdadeira vocação: ser pétrea, ser simétrica, ter colunatas e ostentar a imitação gloriosa do passado. Adeus, volumes de betão aparente, adeus palas brancas e planos leves, adeus superfícies envidraçadas protegidas por lâminas metálicas. Adeus às formas de Niemeyer, nascidas sob Kubitschek em pleno sobressalto democrático. Bem-vindos de volta, frontões triunfais!

Não é todos os dias que um estadista se dispõe a salvar a beleza com a caneta. Com o marcador grosso. E que beleza! A beleza oficial, normativa, eterna – aquela que não precisa de pensar no clima, no sítio, na função ou nos seres humanos que se servem dos edifícios.

Porque, segundo Trump, a beleza é coisa que se decide na Sala Oval. Nada de modernices ou minimalismos. O que é bonito, senhoras e senhores, é o que se parece com a Grécia ou com Roma! Ou um banco de Wall Street. Ou, por que não, um centro de saúde em Ohio com uma colunata dórica à entrada, ou uma escola primária com frontão triunfal.

Qualquer arquiteto da galáxia se sentirá pequeno diante de tamanha visão. Muitos passam décadas a dialogar com o sítio e com a história, a debater a função, a experimentar materiais e formas, quando, afinal, tudo se resolvia com uma boa cópia do Capitólio.

Ensina-se na faculdade que a arquitetura é expressão do poder. Mas Trump, com a sua proverbial subtileza filosófica, foi mais longe: decretou que ela é a expressão de um gosto só. O dele. Toda a gente acha que o Capitólio é belo. E quem discorda é desonesto e corrupto.

Afinal, já o sabíamos: a democracia pode ser barulhenta, plural, complexa, mas a arquitetura não precisa de acompanhar esse incómodo espírito do tempo. Ela pode, e deve, ser um bloco de mármore – ou de outro calcário –, imune ao tempo, às desigualdades, à crítica. Um monumento, não ao bem-estar coletivo, antes ao ego de quem o manda construir.

E não sejamos injustos. Há algo de comovente nesta cruzada estética. O desejo de ordem, de grandeza, de simetria é tão compreensível quanto infantil. Como quem quer vestir um império com uma ancestral toga romana para disfarçar fundações que cedem em silêncio.

No fundo, Trump presta um grande serviço à arquitetura: obriga a voltar à velha pergunta. A quem serve a forma construída? Aos que mandam ou aos que utilizam? À nostalgia ou à necessidade?

Porque, como escreveu um antigo arquiteto romano, a beleza nasce do equilíbrio. E o equilíbrio não cabe num decreto: constrói-se, como a própria democracia, passo a passo. E nunca, nunca, com marcador grosso.

 

10
Set25

O Chato, a Chata e o Chat

 

 

 

O chato não sabe que é chato. Por isso continua. E talvez a verdadeira chatice esteja justamente aí: nessa pureza cega de quem não duvida do que diz. Porque quem duvida – quem se escuta antes de falar – já se fere por dentro, e um pouco de dor salva-nos do exagero.

O chato acredita que existe porque é ouvido. Quando não é ouvido, aumenta o volume. O silêncio do outro não é percebido como recusa, mas como surdez. A função do chato não é convencer – é continuar. Ele quer atenção, mas não sabe pedir; então constrói um labirinto de frases, na esperança de que alguém se perca lá dentro e o encontre.

A chata é mais perigosa. Porque tem detalhes. E cada detalhe que oferece é uma corda que lança ao outro, como se dissesse: agarra-me por aqui, ou perco-me.

Transforma o pormenor em evento, o ponto final em vírgula, diz trinta palavras onde bastava uma, mas fá-lo com tal convicção que, por momentos, acreditamos que havia mesmo ali qualquer coisa de novo a aprender. Vai dando voltas e reviravoltas até se transformar numa dança que não acaba.

E talvez o outro se canse. Mas ela não. Porque está a tentar nomear o que sente, e o que sente nunca cabe numa frase curta. A chata sofre porque pensa demais no que sente. E continua a desabafar para tentar calar o que não se cala cá dentro. Ainda não conseguiu.

E o chat? O chat é onde os dois se encontram – sem se tocar. É a nova forma da insistência: digital, assíncrona, omnipresente.

É onde o chato continua a fazer-se ouvir, agora sem ouvidos presentes, bastando um olhar fugidio que automatize um "visto às 03h12". Onde a chata pode escrever cinco mensagens seguidas sem que ninguém a interrompa. E pensa que isso é liberdade. Mas talvez seja apenas solidão consentida.

O chat é o espelho onde ninguém aparece refletido. Um lugar onde se fala sem saber se há alguém do outro lado. Mas mesmo assim escreve-se. Porque o silêncio digital não é silêncio: é ausência sem fim.

Em tempos, o silêncio era uma escolha. Agora é bug. É erro do sistema. Nunca se assume que alguém se calou por vontade – apenas que algo falhou.

Então, mesmo sem resposta, o chato envia mais uma mensagem. E a chata reformula de novo o que ninguém perguntou. Há também um sticker com um coração, que não é amor, mas um gesto automático. E o gesto vale mais do que o sentimento. Porque o sentimento exige presença, e o chat só devolve reflexos.

No fim, estamos todos ali. A tentar não desaparecer. A tentar não ser os chatos, nem as chatas, mas a suspeitar que somos. Ainda assim, continuamos. Digitamos. Enviamos. Esperamos.

Talvez ser chato seja isto. Esperar que alguém nos leia como quem escuta um segredo. O mundo não se cala. Mas às vezes o que precisamos mesmo é de alguém que diga:

“Estou aqui. Não precisas de escrever nada.”

 

Chato.jpg

Estudo taxonómico da chatice contemporânea. Espécimes observados em redes sociais, grupos de WhatsApp e chats diversos.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D