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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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Dez25

Intervalo

 

Intervalo.jpg

Natal de 1914.
Algures na frente ocidental, soldados alemães e britânicos saíram das trincheiras, suspenderam o fogo e jogaram futebol na terra de ninguém.
São raros os momentos em que a guerra revela a sua absurda nudez. Este foi um deles.

 

 

O episódio é conhecido o suficiente 
para ser esquecido com elegância. Não foi ordenado. Não foi geral. Aconteceu à margem dos comandos – e não por causa deles. Durante horas – nalguns lugares, dias – cantaram-se canções, trocaram-se cigarros, enterraram-se mortos. Houve bolas improvisadas, passes desajeitados, risos. No dia seguinte, a guerra continuou.

A imagem que resta – 
homens de farda a disputar uma bola no lamaçal – sugere reconciliação. Mas engana. O que ali se vê não é paz: é um intervalo. Um parêntesis tolerado pelo calendário, não uma rutura do sistema.

Os alemães saíram das trincheiras e nós fizemos o mesmo. Apertámos as mãos, desejámos um feliz Natal uns aos outros. Depois alguém apareceu com uma bola e começou um jogo de futebol.
Graham Williams, soldado britânico

A imprensa gosta de heróis.
Mas este episódio não os oferece. Oferece, isso sim, frases contidas, quase embaraçadas, em cartas enviadas para casa:

Os ingleses trouxeram uma bola de futebol e rapidamente começou um jogo animado. Que coisa extraordinária pensar que homens que pouco antes se tentavam matar agora jogavam juntos.
Johannes Niemann, tenente alemão

Não há ali programa político, 
nem redenção, nem profecia. Surpresa há. E há também uma economia de palavras – talvez porque, naquele dia, qualquer explicação soasse excessiva.

Os factos são simples. 
As trincheiras estavam próximas. Os soldados reconheciam-se pelas vozes. O Natal autorizou uma pausa improvisada na rotina. E, por breves horas, a guerra ficou sem a sua encenação de sempre: sem distância, sem alvo, sem a abstração necessária para disparar. Viu-se, então, o que restava quando os adereços caíram: homens normais, com frio, fome e saudades, perfeitamente capazes de conversar com quem, na véspera, trocavam disparos.

A guerra exige uma história que a justifique. 
Naquele dia, faltou-lhe o guião.

É aqui que a nudez se torna absurda. 
Não porque a guerra tenha parado, mas porque, depois de tudo, não havia já uma boa razão para que continuasse – e continuou. A trégua não falhou; cumpriu a sua função. Foi um intervalo, não uma revolta. O Natal foi a exceção ritual: permitiu suspender sem transformar, humanizar sem alterar, reconhecer sem desobedecer.

A ironia maior não está no futebol. 
Está no regresso ordeiro às posições, na pontualidade do recomeço, na eficiência com que a máquina retomou o seu ritmo. Jogar juntos não impediu nada. Reconhecer o outro como semelhante não travou o processo. A guerra não precisa de ódio; precisa de rotina.

Será talvez isso o que mais incomoda neste episódio. 
Não que demonstre a vitória da humanidade sobre a guerra. Demonstra algo mais desconfortável: a sua convivência pacífica por um dia e a submissão no dia seguinte. A guerra mostrou-se sem justificação. Mesmo assim, avançou.

Assim, o Natal ficou para trás... 
A exceção desvaneceu-se. O resultado manteve-se em aberto por mais quatro anos.

 

Imagem: Frente Ocidental, 1914 – um intervalo regulamentar na primeira grande máquina de morte do século XX.

 

10
Jul25

A Queda das Ditas Duras

Dominós.jpg

 

 

 

Na Europa do século XX, as ditaduras caíram como peças de dominó — umas pela força das armas, outras pela erosão interna, algumas pela morte natural dos seus líderes. A Alemanha nazi ruiu em 1945, esmagada pela guerra e pela ocupação aliada, levando Hitler ao suicídio e à divisão do país. Em Itália, Mussolini foi deposto pelo próprio Grande Conselho Fascista em 1943, preso por ordem do rei e resgatado pouco depois por tropas alemãs. A efémera República Social Italiana, imposta pelos nazis, duraria até 1945, encerrando-se sob a ação decisiva da resistência.* 

Na França ocupada, o regime colaboracionista de Vichy caiu em 1944 com a libertação do país. Mais a sul, Portugal e Espanha ofereceram despedidas particularmente tardias aos seus ditadores. Franco morreu na cama em 1975, após quase quatro décadas de autoritarismo. Mas foi precisamente o rei que ele deixara como herdeiro, Juan Carlos, quem lideraria uma transição pactuada para a democracia. Já em Portugal, a ditadura do Estado Novo foi derrubada por militares exaustos de travar uma guerra sem sentido, numa revolução que trocou tiros por cravos, em abril de 1974.

Também em 1974, a Grécia livrou-se da farda autoritária dos coronéis — uma queda apressada pelo fiasco da sua aventura nacionalista em Chipre. E quando o Leste europeu explodiu em 1989, a queda do Muro de Berlim abriu caminho para o colapso dos regimes ditos comunistas. O caso romeno foi o mais sangrento: Ceaușescu não teve direito a tribunal. Os restantes regimes renderam-se à evidência do tempo.

A história das ditaduras mostra que nenhuma é inabalável. Por mais que pareçam edifícios colossais, imponentes e inquebráveis, erguidos sobre areia movediça, estão condenadas a afundar-se quando a base enfraquece. Por mais que os ditadores se cerquem de muros e tanques, são as fissuras abertas pela persistência dos cidadãos — a sua recusa silenciosa e teimosa — que minam os alicerces do poder.

Hoje, os olhos voltam-se para figuras como Trump, cuja retórica autoritária desafia a própria lógica democrática dos Estados Unidos — sobretudo a ilusão de que basta votar para estar a salvo de líderes com tiques de poder absoluto. E para Putin, cuja permanência à frente do Estado se sustenta numa combinação clássica: repressão interna, culto de personalidade e guerra.

Ambos resistem, por enquanto — com a teimosia típica dos mitos que hão de ruir.

Mas as ditaduras modernas — mais subtis, mais mediáticas — não estão imunes à mesma fragilidade estrutural que acabou por desfazer os alicerces das que emergiram antes.

Trump, recém-retornado, e Putin poderão durar mais quatro anos, oito, doze.

Mas o fim não virá com o degredo para Alligator Alcatraz, nem com vertigens no ponto mais alto do Kremlin.

Virá com a manta pesada do ridículo e do descompasso com a realidade — um véu diáfono que revela o afastamento das ditaduras modernas de uma realidade que avança, enquanto elas se agarram a fantasmas do passado.

A queda das ditas duras continua — agora, em tempo real.

Ditas. Duras... Mas não eternas.

 

* ... e com o Bella Ciao a ecoar pelas montanhas.

 

25
Fev25

Mármore, Nostalgia e Outras Fantasias

Presidential Actions.JPG

Logo no dia da sua tomada de posse, num gesto carregado de pompa e dramatismo, Donald Trump assinou a ordem executiva Promoting Beautiful Federal Civic Architecture. Nela, estipula-se que os edifícios públicos dos Estados Unidos devem ser belos – e que, para o serem, devem respeitar a herança regional, tradicional e clássica. Uma exigência vaga, envolta num patriotismo arquitetónico que levanta questões pertinentes.

 

 

O que é tradição num país jovem e de imigrantes?

A América é, desde a sua fundação, uma colagem de culturas, um mosaico em que a tradição não é singular. O que significa, então, respeitar a arquitetura regional e tradicional? Será a silhueta das casas vitorianas de São Francisco? Os arranha-céus reluzentes de vidro e aço que definem a modernidade americana? As igrejas coloniais de tijolo de barro da Nova Inglaterra? Ou, quem sabe, as estruturas milenares dos povos indígenas, que já dominavam o território muito antes da chegada dos europeus, mas que, aparentemente, são deixadas de fora da tradição?

A verdade é que a ordem executiva tem uma preferência clara: o neoclássico, herdeiro da arquitetura da Grécia Antiga e das ambições imperiais de Roma. Mas será que esta é a estética que define os valores culturais americanos? Ou apenas mais um exercício de nostalgia seletiva, em que a grandiosidade das colunatas mascara a falta de substância?

 

Um regresso à grandeza colonial?

Há aqui uma ironia que não passa despercebida: o neoclássico foi o estilo escolhido pelos founding fathers para dar um verniz de legitimidade ao recém-nascido governo americano – mas é, afinal, uma importação europeia, inspirada nas arquiteturas britânica e francesa do século XVIII. Hoje, numa administração que vocifera contra a globalização e o multiculturalismo, este fascínio por um estilo arquitetónico importado parece, no mínimo, contraditório. Mas talvez, para alguns, a única influência estrangeira aceitável seja aquela que chega esculpida em mármore e trajada de passado.

Não é a primeira vez que a estética passadista é instrumentalizada politicamente. Regimes autoritários sempre tiveram queda para uma arquitetura impositiva e monumentalista: Hitler e Mussolini adoravam colunas e fachadas de pedra; Estaline e Salazar preferiam ruas e praças opressivamente vastas, onde o indivíduo desaparecia perante o esplendor do Estado. Ter edifícios neoclássicos não torna um governo autoritário, mas decretar um estilo como símbolo nacional é uma estratégia típica de regimes que procuram controlar tanto a cultura quanto a política. No fundo, o gosto certo pode ser tão relevante como a ideologia certa.

 

A grandeza que não se decreta

No final das contas, a ordem executiva de Trump é mais teatro político do que necessidade real. A grande maioria dos edifícios federais já existe, e não há planos concretos para novas construções em massa. Mas a ordem executiva cumpre o seu papel: vender ao eleitorado a ilusão de que Make America Great Again pode ser traduzido, literalmente, em simetrias perfeitas e metros cúbicos de mármore.

Certo é que nem a grandeza se decreta, nem a verdadeira força da América esteve jamais na nostalgia da arquitetura. Esteve, sim, na sua capacidade de inovação, adaptação e pluralidade; não em recriar um passado idealizado que, convenhamos, nunca existiu. Se existisse, diga-se em abono da verdade, não lhe faltariam colunas caneladas, frontões esculpidos e uma cúpula imponente no topo de cada edifício público.

 

18
Fev25

A Qualidade do Tremoço

tremoços.jpg

Trump e Putin, como bons negociantes, vão regatear a repartição de territórios e decidir o futuro da Europa, sem dar cavaco a ninguém. Mas, bem vistas as coisas, enquanto a tempestade se formava, a Europa discutia a qualidade do tremoço.

 

 

A História ensina – por vezes, os alunos distraem-se. Há um padrão inquietante que atravessa os séculos: quando se avizinham tempestades, certas elites refugiam-se no pormenor, no tecnicismo ou no ritualismo político, como se a ordem do mundo pudesse sustentar-se em formalismos. Nos corredores do poder, afinam-se argumentos, polindo o detalhe como se fosse marfim; ao mesmo tempo, a História esculpe o futuro a golpes de machado.

No século V, Roma debatia hierarquias e privilégios enquanto os visigodos invadiam e pilhavam a cidade; a Constantinopla do século XV discutia – diz-se – com zelo intelectual bizantino o sexo dos anjos, enquanto os canhões otomanos abalavam os alicerces do império; em Versailles de final de Oitocentos, entre danças e reformas tímidas, poucos tinham oportunidade de ver a maré revolucionária a subir nas ruas de Paris.

Não é que estas discussões fossem irrelevantes. Eram sofisticadas, mas também um luxo que o tempo não permitia. É o erro do xadrezista que, orgulhoso da tática brilhante que lhe assegura um peão promovido, ignora que em dois lances sofrerá mate. Ou o defeito da construção modular, em que as partes se unem num todo sem alma. Ou ainda o azar do homem comum que, receoso de adoecer, foge da chuva apressado, sem reparar que a morte acelera ao dobrar da esquina.

Durante demasiado tempo, olhou-se para a tempestade como um risco longínquo, algo a ser gerido com paciência, notas de imprensa e sanções – talvez bem-intencionadas. Entretanto, as nuvens acumularam-se, o céu escureceu, o vento avisou e os trovões ribombaram. Não ao longe, mas sobre as nossas cabeças. O tempo do detalhe calculista já não se sustenta.

A civilização vive da ordem e do método; só sobrevive quando sabe preparar-se para as ruturas da História. O tempo do tremoço passou; o seu valor nutricional é inegável, mas já não basta. Agora, impõe-se erguer os olhos do prato e encarar a tempestade.

 

04
Ago24

Noticiário da Praia da Caparica

Caparica.jpg

Com a recente inauguração da magnífica ponte que liga Lisboa a Almada, a margem sul do Tejo torna-se o refúgio predileto dos lisboetas em dias de canícula estival. Enquanto uns desfrutam das ondas vigorosas na praia e dos piqueniques nas frescas matas circundantes, outros debatem com responsabilidade as tensões que se manifestam no cenário internacional, refletindo a diligente análise que o Estado Novo faz dos acontecimentos mundiais, incluindo as mudanças climáticas. Apresenta-se uma imagem e uma notícia da época, esta última ficcionada, claro!

 

Perante os rumores crescentes acerca da próxima contenda bélica no Médio Oriente, que ficará conhecida como a Guerra dos Seis Dias, e as previsões alarmantes que anunciam a elevação inexorável do nível das águas oceânicas, foram efetuadas consultas inadiáveis aos ilustres dirigentes da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho e da Mocidade Portuguesa, assim como aos distintos Procuradores da Câmara Corporativa. Como resultado destas ponderações, Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho de Ministros, visando a salvaguarda do interesse nacional, decretou a suspensão do estabelecimento de um novo colonato balnear nos vastos areais a sul do rio Tejo.

Enquanto este empreendimento de envergadura aguarda a sua oportunidade, os senhores banhistas são agraciados com substanciais benfeitorias, entre as quais cumpre sublinhar uma instalação sonora dotada de altifalantes por toda a extensão da orla costeira. Este melhoramento visa não só fomentar a recreação, mas também garantir a segurança e a comodidade dos veraneantes. Além da transmissão de música tradicional, fado e peças de índole religiosa, são também difundidos anúncios de utilidade pública, que incluem informações sobre crianças com boné azul e objetos perdidos ou encontrados. Igualmente se faz ouvir, com justificada constância, o familiar lema “Pois, pois… Jota Pimenta!”

 

Notas:

Fotografia da Costa da Caparica, que integra um conjunto de postais intitulado “Um trecho da praia”, publicado pela editora Passaporte.

A despeito da sua simplicidade, a estridente instalação sonora contribui para o enriquecimento do descanso balnear com música e informações de relevante mérito.

 

28
Jun24

Ares Majestáticos

Uma postura majestática transcende a mera configuração física e condensa uma aura de poder, grandiosidade e presença imutável que impõe respeito. Tal postura, frequentemente reservada para a nobreza ou para os mais altos escalões da sociedade, sublinha o seu peso de autoridade e a gravidade histórica através do silêncio e da quietude.

 

 

Considere-se uma figura sentada em silêncio, cuja postura não é apenas uma pose, mas uma declaração de resistência ao avanço implacável da história. Esta imagem, reminiscente de um monarca, evoca a expressão idiomática "esperar sentado", sugerindo uma serenidade e paciência nascidas do poder e da segurança de um legado. A postura majestática aqui é estática, opacamente soberana, inabalável face às flutuações dos tempos.

Descrever uma postura majestática exige captar as subtilezas que a fazem não só visível como também sentida. A figura, envolta em mantos de autoridade, senta-se com a coluna tão direita quanto a linhagem que representa. A cabeça ergue-se, não por arrogância, mas como uma necessidade imposta pela dignidade de quem suporta o peso de uma coroa, ainda que virtual. Olhos aguçados e perspicazes varrem o horizonte. Não apenas olhando, mas também antevendo, sempre vigilantes para evitar a complacência que a paz pode trazer.

As mãos de tal personagem são particularmente reveladoras. Uma repousa suavemente sobre um apoio de braço, dedos adornados com os anéis do poder, cada joia o testemunho de uma batalha vencida, um tratado assinado ou um casamento que selou a paz. A outra mão talvez segure um cetro ou um pedaço de pergaminho, símbolos de governança e sabedoria. Estas mãos não tremem; são firmes, e cada gesto é deliberado, cada movimento cuidadosamente orquestrado para alcançar um propósito específico.

Ao fundo, reverberam as ações das corporações do reino, que continuam e continuarão a moldar os contornos da sociedade. Ainda assim, a figura permanece como ponto focal, um pilar de força por entre os sussurros suaves dos cortesãos e o clamor distante do povo. O ambiente está impregnado do peso da história, cada artefacto ao redor sussurrando lendas de antecessores que estabeleceram as bases do seu poder.

Quando tal personagem, por encanto, se digna falar, a sua linguagem não é apenas uma ferramenta, mas uma arma. Emprega o plural majestático, falando de "nós" em vez de "eu", encapsulando uma tradição que se estende por gerações. Tal recurso não é gramatical, mas simbólico, paradigma de quem não fala apenas por si próprio, mas como a encarnação régia de um passado, que pretende estender ao presente e ao futuro.

 

02
Mai24

Amizades

Amizades.jpg

Nos idos anos 50 o recurso epistolar era usado como antecâmara das redes sociais. Algumas cartas da época aparecem a conta-gotas, aqui e acolá, revelando traços de carácter do seu autor.

 Dentro desse acervo epistolar, destaca-se a correspondência de uma figura particularmente enigmática: um político reservado nos propósitos e autoritário nas decisões, arquiteto de amizades cautelosas, controlador, protegido por zelosos guardiões do poder, sofisticado e paranoico nas suas precauções.

 

Minha Amiga,

Acabo, só agora, de receber, e de ler, as suas várias mensagens, anunciando-me, as primeiras, que está a chegar a estas paragens, e as últimas que já chegou e que me quer ver tão depressa quanto eu puder.

Dispusesse eu do tempo que, sendo de facto o que é, não me pertence, teria o prazer de logo aceder à vontade da minha Querida Amiga, mas, lamentavelmente, tal não me é permitido. 

Verei, no lugar onde sabe que estou, e, atentas as circunstâncias, estarei, a solução que for possível, quando possível, para criar uma conta no WhatsApp, assim assegurando, pela encriptação ponto a ponto, que as nossas comunicações permaneçam abrigadas da perceção dos que, intencional ou inadvertidamente, se deem conta da identidade de quem aqui lhe escreve. Tenha, então, a minha Amiga a bondade de usar o canal, e apenas o canal, que, concordará, importa respeitar, sob o risco de o gosto e o proveito se perderem em vivacidades quiçá gravadas e expostas em público, não obstante o zelo daqueles que se encontram mobilizados no entendimento de que todos os incómodos serão precavidos.

Decerto a minha Amiga reconhecerá o mérito de, até lá, para que nada se confunda e possa deturpar, impor uma meticulosa parcimónia no uso de smiles, esses símbolos modernos tantas vezes empregados com leveza excessiva; e de que, sendo esta a solução que, tendo de convir ao que mais importa, convirá, assim sendo, a esta amizade, que deve ser mantida e guardada em lugar seguro 😊.

Com muita consideração e estima

A.

 

O romance epistolar As Noivas de São Bento (Portela, Artur. Lisboa: Dom Quixote, 2005) narra a história de um país concreto, utilizando cartas fictícias como meio de oferecer uma perspetiva única sobre o período em que Salazar viveu e governou. 

O documento solto que agora se publica, a que o referido romande emprestou a inspiração e o género epistolar, evidencia a complexa dinâmica das amizades esquivas.

 

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