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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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01
Dez25

O Dia da Restauração

Crónica gastronómica, dita aos tachos e ouvida pelas gerações.

Ilustração_O_Dia_da_Restauração.png

 

A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.

 

 

 

No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.

Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.

No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.

Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.

¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.

O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!

Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.

– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!

E concluiu, parafraseando Mestre Almada:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:

– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.

No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.

Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.

– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.

E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.

Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.

 

- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.

- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.

 

04
Jul25

A Roda e o Vento

Mandala.jpg

Em tempos em que as linhas entre o sagrado e o absurdo se tornam cada vez mais ténues, a ideia de reencarnação ganha novos contornos.

 

 

O Testamento

Num mosteiro suspenso nas alturas rarefeitas de Dharamsala, sob uma luz dourada filtrada por bandeiras de oração que dançam com o vento ancestral, o 14.º Dalai Lama, com olhos de paz profunda e voz como pedra antiga, dirige-se ao mundo:

Quando eu partir, voltarei. Não nascerei onde me esperam. Serei homem — mas não moldado. Livre da mão do império. Leiam os sinais com pureza. E não temam o desvio.

A China reage com firmeza ritual, prometendo conduzir o processo com os seus protocolos apertados como algemas. Mas o mundo escuta. E os monges, em segredo, começam a preparar o inevitável.

 

O Vazio

A morte do Dalai Lama não tem som. Um frio denso espalha-se pelas planícies e vales.

Convocam-se oráculos. Rituais milenares cruzam os corredores dos templos. Os monges estudam estrelas, fragmentos de sonhos, deslocações de energia.

O oráculo murmura três sinais: silêncio denso, reflexo ausente, orgulho inato.

Dharamsala transforma-se num centro de vigília espiritual. Abrem-se arquivos ancestrais com luvas brancas. Mapas cármicos sobrepõem-se como mandalas cifradas.

Forma-se uma comitiva sagrada: lamas experientes, astrólogos, linguistas, noviços com relíquias ao peito, olhos como lanternas.

Partem para os Himalaias, os Andes, os Alpes, os Apalaches — as periferias invisíveis e as metrópoles onde a alma se esconde sob o betão e o consumo. A sua presença é quase invisível — e, ainda assim, imparável.

Consultam calendários lunares, escutam parteiras, analisam nascimentos coincidentes com o último suspiro do mestre.

Em cada casa com aura suspeita, oferecem os objetos — um sino, uma tigela, um colar de madeira antiga — para acordar a memória. Procuram gestos automáticos, olhos que reconhecem o invisível, dedos que hesitam antes de escolher.

Vivem meses entre malas feitas e desfeitas, silêncios e mantras. A imprensa especula. O povo sussurra. Mas nada é certo.

A reencarnação escapa. As visões contradizem-se. Instala-se uma angústia sem nome, como se o novo Dalai Lama não quisesse ser encontrado. Ou pior: como se estivesse deliberadamente fora do mapa.

 

A Revelação

Nos subúrbios de um continente distraído, uma mulher comenta com os vizinhos que o filho é... estranho.

Fala com palavras de homem feito. Corrige adultos. Dá ordens a quem não o escuta. Detesta jogos que não impliquem autoridade. Promete grandeza. Exige reverência. Nunca pede desculpa.

E passa muito tempo ao espelho, a ensaiar poses para o olhar dos outros.

Certa vez, proclama:

O mundo precisa de mim. Mas não está pronto.

Quando os monges chegam, são recebidos por brinquedos alinhados com rigor militar. De uma bolsa retiram os objetos antigos, que dispõem sobre uma mesa de vidro. O menino aproxima-se, olha, toca, depois murmura:

— That was mine! The bell is off-key. So are you.

Silêncio absoluto. Um dos monges fecha os olhos, como se escutasse um sinal. Outro anota algo com mãos trémulas — talvez iluminação, talvez cobiça.

O menino tem quatro anos. Rechunchudo. Pele clara. Uma boquinha quadrada, que articula frases simples com a precisão de quem acredita que cada palavra sua é lei. O olhar é tão firme quanto altivo. Usa fatinho azul escuro, gravata vermelha absurda, a roçar-lhe os joelhos — como se fosse emprestada — e penteado cuidadosamente esculpido num laranja improvável, desafiando o vento, o karma e o bom senso.

O ciclo fecha-se. A roda do renascimento girou… e tropeçou. O universo riu-se. Não foi de alegria.

 

Nota: A mandala que abre este post é um símbolo visual do universo e da impermanência, usado em tradições budistas. Representa ciclos de existência — perfeitos à vista, mas frágeis no centro. Tal como a história que acaba de se fechar.


21
Abr25

Dançar com o Mundo

Numa sala de cinema improvisada, passa a velha cena de um homem fardado a ensaiar uma delicada coreografia. Farda cintada, gesto poético. O mundo gira suavemente nas suas mãos, como uma frágil profecia visual.

Em êxtase, Adenoid Hynkel, ditador da Tosmânia, brinca com o globo terrestre como se fosse seu. Uma dança absurda entre o poder e o delírio. Não é um sketch. É um epitáfio.

No mundo real, o globo não é de borracha, mas o gesto mantém-se. A dança também. Em Mar-a-Charco, o delírio tem palco próprio.

 

Excerto de O Grande Ditador, Charlie Chaplin (1940)

 

 

A celebração

Mar-a-Charco, residência presidencial cujo nome carrega a decadência com elegância tropical, acolhe a festa dos primeiros 90 dias da administração Drunke.

O dress code: patriótico q.b., socialmente apresentável. À entrada, os convidados recebem um kit oficial — boné, laço de pontas longas e três balões vermelhos já insuflados, prontos a ser atados ao dedo mindinho.

Ronald Drunke — magnata egocêntrico que vê o mundo como um reality show em que só ele controla o microfone, o espelho e o botão vermelho — preside agora aos Enlightened States of Great Amerika. Uma nação gigante, obcecada por negócios e por uma grandeza perdida — ambos redesenhados diariamente ao sabor do humor presidencial.

Já foi Supreme States of Great America. Depois Enlightened States of Great America. Até que o “c” foi oficialmente cancelado — sinal da nova era: mais forte, mais direta, mais disléxica por decreto.

Nos ecrãs gigantes, Vlador Putianov, líder vitalício do Putianistão, dirige algumas palavras ao seu homólogo de Great Amerika. A voz é gélida, a frase solene, pesada como um mapa antigo.

— As fronteiras do futuro não se desenham sozinhas.

A assistência aplaude com entusiasmo — ou talvez por reflexo. É difícil distinguir.

Entre os convidados, a lendária primeira-ministra Bonita Melonini. Drunke aproxima-se e afirma, em tom de cumplicidade:

— A amizade entre Great Amerika e o seu país é antiga. Tremenda. Desde o Império Romano. Uma amizade muito bonita.

Silêncio respeitoso.

 

O banquete

No banquete há hot dogs, hambúrgueres, BBQ, fried chicken. Há tacos e burritos vindos do México. Há gelo da Gronelândia para as Cokes gigantes.

Ausentes: whisky canadiano, queijos europeus e chocolate do Dubai. Todos afastados pelas guerras comerciais e pela nova doutrina: “Ou és nosso cliente, ou és nosso inimigo.”

O sol bate em ângulos bíblicos sobre palmeiras de plástico e fachadas douradas.

 

O trio

Pede-se silêncio. Apresenta-se o improvável trio da política contemporânea.

Primeiro, J.D. Convex: discreto, sorridente, vice por vocação, sempre com o ar atento de quem presta contas até quando respira. Mas há algo no seu sorriso que dura meio segundo a mais. Como se, por trás da face obediente, morasse um grito com decoro. Palmas educadas.

Zylon Husk entra aos saltos — guru da pós-verdade, foguetólatra entusiasta, convencido de que a realidade se resume a uma opinião mal formatada. A assistência, já habituada a não perceber coisa nenhuma, aplaude de pé.

— And now, ladies and gentlemen... the one, the only... President Ronald Drunke!

Mar-a-Charco estremece. Drunke agarra o microfone com solenidade mitológica. Aponta o dedo indicador aos presentes:

— Noventa dias tremendos. Fizemos mais do que qualquer administração na História da Grande Amerika. A História agradece. Vocês sabem muito bem do que estou a falar. Lixámos todos os que ganham dinheiro à nossa custa. Os nossos aliados fingidos. Mas os nossos verdadeiros amigos estão aqui. Pessoas belas. Muito belas...

Cada palavra faz tremer as bolsas — até a de Lisboa, que treme por simpatia.

— E os próximos 90 dias? Tremendamente melhores. Obrigado. Muito obrigado.

 

Epílogo

Atrás, Convex comenta discretamente com um influencer em ascensão:

— Eu diria mesmo mais: tremendamente melhores.

Husk, o olhar disperso, acelerado por cafés e psicoestimulantes, solta os seus balões. Vermelhos, premonitoriamente da cor do quarto planeta. Marte, claro.

Uma pequena multidão de convidados liberta também balões vermelhos, salpicando o céu com uma euforia de borracha.

E os balões sobem, sobem — vaidosos, delirantes, frágeis. Até rebentarem.

 

29
Nov24

O Dia da Restauração

O_Dia_da_Restauração.png

No dia 1.º de dezembro celebra-se um histórico golpe de estado culinário: o momento em que ilustres chefs de cuisine esconjuram o cochinillo asado, proclamando o cozido à portuguesa como prato soberano. 

 

 

Tomados pelo espírito de mudança, os conjurados empenharam-se em tornar o cozido um símbolo de unidade e excelência acessível a todas as classes – nobreza, clero e povo.

Na disposição de devolver a primazia ao prato que alimentara gerações, 40 chefs, a que se juntaram abades e sargentos-mores – armados de colheres de pau e aventais – marcharam até ao Paço da Ribeira, cuja original elegância manuelina sucumbira ao pesado maneirismo imposto pelos Felipes. Em pleno salão nobre, a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor foram surpreendidos no meio de uma sumptuosa degustação de cochinillo asado, as bocas brilhando de gordura estrangeira, qual arautos decadentes da gula castelhana.

Os conjurados ergueram as colheres como cetros de guerra, unidos em fervor patriótico, o Grão-Chef à frente – uma figura austera e resoluta que a todos inspirava com a sua inabalável confiança culinária.

– ¿Cómo osan, bárbaros, desafiar el glorioso cochinillo, consagrado por Su Majestad y con estrella Michelin? – questionou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio, os talheres dourados ainda em riste. – ¡Este manjar, de carne tierna y espíritu imperial, es el símbolo máximo de nuestro refinamiento!

O Grão-Chef adiantou-se, solene.

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento, para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino! O cozido, prato soberano que fortaleceu gerações, resistiu ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade, o verdadeiro sustento da alma portuguesa, em contraste com esse intruso, de carne mole e flácida – uma afronta à robustez da pátria.

E, parafraseando Mestre Almada, concluiu com veemência:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Os outros chefs conjurados, de olhos brilhantes e rostos cobertos por vapor da panela de pressão, gritaram em uníssono:

– Glória ao cozido! Vergonha para o cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se rapidamente num armário do palácio, temendo pela perda da sua estrela Michelin.

Lá dentro já se encontrava o Provador-Mor; sem espaço para se esconder ao lado dela, remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada dos papéis guardados no interior, mais se assemelhando a um profundo embaraço digestivo. Viu-se, então, constrangido a abrir a porta e sair – literalmente – do armário. No instante em que se revelou, num gesto de confissão implícita, foi prontamente defenestrado, selando o seu destino trágico sem a suavidade sequer de um paraquedas.

Enquanto os gritos de “cozido, cozido!” ecoavam pelo Paço, um rumor, espalhando-se mais rápido do que um bom caldo entornado, fervilhava já nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

O boato – uma fake news de 1640 – percorreu vilas e campos, e logo as gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas – rolos de massa, facas e pinças de churrasco –, cada um como melhor e mais asinha podia.

Não tardou muito para que a suposta conspiração contra o Grão-Chef fosse esmiuçada em cada canto do reino, atraindo azeiteiros, almocreves, taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés, todos unidos em defesa do emblemático cozido, na rebelião contra o cochinillo, em boa hora iniciada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, a ordem culinária foi restaurada, e o cozido, triunfante, reclamou o trono das mesas portuguesas.

 

Notas:

1 - A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, sublinhe-se – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef que, num 2024 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que esta anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram, seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas, surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640 e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383!

3 - Séculos depois da ocorrência relatada, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha, numa confluência inesperada de destinos. Coube a um nobre catalão, de nome Roberto Martinez, a tarefa de reerguer o nosso esplendor. Em 1640, a revolta gastronómica na Catalunha enfraqueceu as forças e atenções espanholas, abrindo caminho para o sucesso do movimento da restauração. Agora, formou-se uma aliança impensável entre o cozido à portuguesa e os sabores mediterrânicos. Fiel aos costumes usados, o país voltou a abrir-se à inovação, e com ela surgiu um estilo: a força do cozido à portuguesa, combinada com a leveza do pan amb tomàquet e a precisão dos cargots a la llauna. Essenciais, diz-se, tanto para a posse de bola como para a estratégia de jogo, numa verdadeira cuisine de fusão!

4 - Convém ainda mencionar que a ilustração no início do texto foi gerada por IA, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico – o Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela! Foi, portanto, defenestrado ao contrário! Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

 

29
Set24

O Dia em Que a Internet Parou

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Foi no final de uma tarde abafada de setembro que os líderes mundiais surgiram em todas as televisões e rádios com uma notícia impensável: a internet ia ser desligada. De imediato. Sem aviso prévio, sem tempo para despedidas digitais ou backups de última hora.

 

Os rumores tinham começado semanas antes, sussurrados nos becos digitais onde a luz raramente penetra. Falava-se de um colapso global iminente, mas poucos davam ouvidos a tais conspirações. Afinal, a internet era o fio invisível com que se fabricava o tecido da civilização contemporânea – trabalho, relações, conhecimento, memórias. Como poderia alguém, ou qualquer governo, pensar sequer em desligá-la?

E, no entanto, aconteceu. O anúncio foi transmitido exatamente às 18h00 TMG em Nova Iorque, Pequim, Paris, Lisboa, Tashkent e em todas as capitais do mundo. A expressão do rosto dos líderes não deixava margem para dúvidas: algo monumental estava prestes a acontecer.

O Presidente da República Portuguesa já estava perante as câmaras e os microfones. A sua expressão era séria, mas o tom familiar. “Meus amigos, a internet trouxe-nos muito: conhecimento, ligações, oportunidades. Mas também desafios sérios que ameaçam a nossa privacidade e condição humana. Dependemos de algoritmos, esquecemos o essencial: estarmos presentes, com os que nos rodeiam.”

Após uma breve pausa, continuou: “Por razões graves e urgentes, que não posso pormenorizar, a internet vai ser desligada. Sabemos que não será fácil, mas é necessário para nos proteger de uma ameaça maior. Juntos, vamos ultrapassar este desafio.”

E terminou com esperança: “Vamos redescobrir o que nos une. O que verdadeiramente importa nunca será desligado.”

Não houve grandes explicações técnicas, exceto a vaga referência a uma ameaça cibernética global e irreversível. Alguns sugeriram que a inteligência artificial tinha ultrapassado os seus criadores, e que a única maneira de proteger a humanidade era cortar a rede antes que fosse tarde demais. Outros acreditavam que o problema era intrinsecamente humano: uma guerra invisível de informação, em que o controle digital se tornara mais poderoso do que qualquer exército.

A decisão fora tomada à porta fechada, disseram, num bunker secreto algures nos Alpes Suíços, onde os governos se reuniram em conferência urgente. A data do corte? No próprio dia do anúncio. A hora? Às 18h05, precisamente.

No meio do caos que se seguiu, os computadores escureceram, um a um, como estrelas que desapareciam no firmamento tecnológico. Nos escritórios, os trabalhadores fixaram o olhar nos ecrãs, presos entre a incredulidade e o pânico. Em casa, as famílias sentiram a presença tangível da quietude, um vazio onde antes fluíam mensagens, notícias, risos virtuais, influencers a anunciar os seus últimos produtos. De repente, a internet – essa teia invisível que parecia eterna – deixou simplesmente de existir.

Então, no meio do silêncio instalado, o mundo respirou fundo. As pessoas levantaram os olhos e viram-se umas às outras como se fosse a primeira vez. Nas ruas, emergiram conversas há muito adiadas. E de onde antes havia olhares fixos em ecrãs brotaram sorrisos tímidos.

 

Nota:

A ilustração foi retirada da internet. Como esta, infelizmente, já não existe, não há forma de verificar a fonte. Agradece-se a compreensão dos arqueólogos digitais do futuro.

 

04
Ago24

Noticiário da Praia da Caparica

Caparica.jpg

Com a recente inauguração da magnífica ponte que liga Lisboa a Almada, a margem sul do Tejo torna-se o refúgio predileto dos lisboetas em dias de canícula estival. Enquanto uns desfrutam das ondas vigorosas na praia e dos piqueniques nas frescas matas circundantes, outros debatem com responsabilidade as tensões que se manifestam no cenário internacional, refletindo a diligente análise que o Estado Novo faz dos acontecimentos mundiais, incluindo as mudanças climáticas. Apresenta-se uma imagem e uma notícia da época, esta última ficcionada, claro!

 

Perante os rumores crescentes acerca da próxima contenda bélica no Médio Oriente, que ficará conhecida como a Guerra dos Seis Dias, e as previsões alarmantes que anunciam a elevação inexorável do nível das águas oceânicas, foram efetuadas consultas inadiáveis aos ilustres dirigentes da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho e da Mocidade Portuguesa, assim como aos distintos Procuradores da Câmara Corporativa. Como resultado destas ponderações, Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho de Ministros, visando a salvaguarda do interesse nacional, decretou a suspensão do estabelecimento de um novo colonato balnear nos vastos areais a sul do rio Tejo.

Enquanto este empreendimento de envergadura aguarda a sua oportunidade, os senhores banhistas são agraciados com substanciais benfeitorias, entre as quais cumpre sublinhar uma instalação sonora dotada de altifalantes por toda a extensão da orla costeira. Este melhoramento visa não só fomentar a recreação, mas também garantir a segurança e a comodidade dos veraneantes. Além da transmissão de música tradicional, fado e peças de índole religiosa, são também difundidos anúncios de utilidade pública, que incluem informações sobre crianças com boné azul e objetos perdidos ou encontrados. Igualmente se faz ouvir, com justificada constância, o familiar lema “Pois, pois… Jota Pimenta!”

 

Notas:

Fotografia da Costa da Caparica, que integra um conjunto de postais intitulado “Um trecho da praia”, publicado pela editora Passaporte.

A despeito da sua simplicidade, a estridente instalação sonora contribui para o enriquecimento do descanso balnear com música e informações de relevante mérito.

 

08
Jul24

O Outro Lado do Teste

 

Os sintomas eram febre, tosse e fadiga; ela desconfiou de imediato da COVID, especialmente porque ouvira as últimas notícias sobre o aumento de casos.

 

Sentia calafrios ao lembrar-se do contacto de risco que tivera. Decidiu ir à farmácia. Explicou a situação ao farmacêutico, que lhe entregou um teste para fazer em casa.

As instruções de uso eram claras, e o novo método de colheita da amostra revelou-se uma surpresa agradável, evitando aquela pressão incómoda nas narinas. Recolheu o material com cuidado, aplicou algumas gotas no dispositivo e esperou, ansiosa. O coração acelerado, cada segundo parecia uma eternidade enquanto a lembrança de relatos sobre complicações lhe inundavam a mente.

O teste processou rapidamente a informação, mostrando o resultado sem sombra de dúvida negativo. Sentiu um alívio imediato, pensando: “Pronta para a próxima!”

Só não esperava que o dispositivo medisse também as semanas de uma eventual gravidez.

 

01
Jul24

Fundamentalismos

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Se os fundamentalistas ocupassem as nossas serras no interior, incendiariam as almas, espalhando o medo nos corações. A sua sombra arrastar-se-ia pelas colinas, transformando a esperança em cinzas.

A não ser que o mar, já a invadir a orla costeira, chegasse a essas partes. As águas, subindo impetuosas pelas encostas áridas, cobririam a terra. Na sua vastidão líquida, apagariam o fogo do ódio e as cicatrizes deixadas pelo medo, trazendo de volta a calmaria.

Vade retro! Andarão eles por aí? Por enquanto, tudo não passou de um sonho mau de uma noite de verão. Um pesadelo dissipado pela aurora. Sinal de que a luz dança delicadamente na borda da escuridão.

 

Foto: Wakil Kohsar/AFP, publicada na secção internacional do “Le Monde”, 18 de outubro de 2022.

 

 

20
Mai24

Quando as Zebras Abandonaram a sua Zona de Conforto

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Em tempos idos, parte da população mundial de zebras ostentava pelagem completamente branca, enquanto a outra exibia elegância na sua pelagem toda preta.

 

Por viverem em geografias diferentes, estes distintos grupos sociais não se conheciam, não contactavam entre si e não tinham amigos fora do seu rebanho. Mas após a ascensão da Internet e o surgimento de apps de encontros, algumas zebras curiosas descobriram que, noutras savanas e pradarias, havia zebras com pelagem de coloração diferente da sua.

Vivia-se um contexto histórico e uma realidade socioeconómica demasiadamente monocromáticos. Foi nessas circunstâncias que zebras brancas e zebras pretas pensaram em abandonar as respetivas zonas de conforto. Se bem o pensaram, melhor o fizeram: grupos de zebras solteiras corajosas, “em perigos e guerras esforçados”, decidiram mudar de território.

Neste processo de globalização zebrática, as fêmeas em estado reprodutivo aproximavam-se de garanhões de origens diferentes. À medida que a confiança aumentava, trocavam carinhos, o que culminava em altas vocalizações de afirmação do conseguimento amoroso.

Passado um ano, nasciam zebras miscenizadas, com elegantes casacos listados e belíssimos padrões que evoluíram até aos nossos dias. Cada zebra desenvolveu a sua identidade única, um código que, em boa hora, foi aproveitado para identificação e rastreamento de produtos em estabelecimentos comerciais.

Hoje em dia, as zebras monocromáticas estão completamente extintas.

Para acrescentar um toque de patriotismo, é importante lembrar que o inventor do termo “zebra” foi um português.

 

02
Mai24

Amizades

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Nos idos anos 50 o recurso epistolar era usado como antecâmara das redes sociais. Algumas cartas da época aparecem a conta-gotas, aqui e acolá, revelando traços de carácter do seu autor.

 Dentro desse acervo epistolar, destaca-se a correspondência de uma figura particularmente enigmática: um político reservado nos propósitos e autoritário nas decisões, arquiteto de amizades cautelosas, controlador, protegido por zelosos guardiões do poder, sofisticado e paranoico nas suas precauções.

 

Minha Amiga,

Acabo, só agora, de receber, e de ler, as suas várias mensagens, anunciando-me, as primeiras, que está a chegar a estas paragens, e as últimas que já chegou e que me quer ver tão depressa quanto eu puder.

Dispusesse eu do tempo que, sendo de facto o que é, não me pertence, teria o prazer de logo aceder à vontade da minha Querida Amiga, mas, lamentavelmente, tal não me é permitido. 

Verei, no lugar onde sabe que estou, e, atentas as circunstâncias, estarei, a solução que for possível, quando possível, para criar uma conta no WhatsApp, assim assegurando, pela encriptação ponto a ponto, que as nossas comunicações permaneçam abrigadas da perceção dos que, intencional ou inadvertidamente, se deem conta da identidade de quem aqui lhe escreve. Tenha, então, a minha Amiga a bondade de usar o canal, e apenas o canal, que, concordará, importa respeitar, sob o risco de o gosto e o proveito se perderem em vivacidades quiçá gravadas e expostas em público, não obstante o zelo daqueles que se encontram mobilizados no entendimento de que todos os incómodos serão precavidos.

Decerto a minha Amiga reconhecerá o mérito de, até lá, para que nada se confunda e possa deturpar, impor uma meticulosa parcimónia no uso de smiles, esses símbolos modernos tantas vezes empregados com leveza excessiva; e de que, sendo esta a solução que, tendo de convir ao que mais importa, convirá, assim sendo, a esta amizade, que deve ser mantida e guardada em lugar seguro 😊.

Com muita consideração e estima

A.

 

O romance epistolar As Noivas de São Bento (Portela, Artur. Lisboa: Dom Quixote, 2005) narra a história de um país concreto, utilizando cartas fictícias como meio de oferecer uma perspetiva única sobre o período em que Salazar viveu e governou. 

O documento solto que agora se publica, a que o referido romande emprestou a inspiração e o género epistolar, evidencia a complexa dinâmica das amizades esquivas.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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