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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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01
Set25

Lusitana Presidência

Crónica de um delírio transatlântico em dias de legitimidade flutuante

 

 

 

O verão americano encenava, mais uma vez, o seu ritual previsível: famílias desfilavam pela Main Street entre carrinhos de bebé e copos gigantes de Diet Coke, fingindo espontaneidade enquanto seguiam o guião comunitário do hambúrguer, da música ao vivo e do fogo-de-artifício.

As crianças corriam em círculos, hipnotizadas por néons e balões. Os pais aplaudiam as bandas com o zelo de festividade local, como se fosse Woodstock. Tudo terminava em selfies, sob um céu salpicado de pequenas explosões – uma celebração tão coletiva quanto coreografada, feita de consumo, pertença e rotina embrulhada em espetáculo.

Enquanto o último brilho se apagava no céu, muito longe dali, um homem despertava. Parecia apenas o início de mais uma manhã em Portugal – não fosse ele ter acordado com a súbita certeza de ser o novo Presidente dos Estados Unidos.

 

Nunca atravessara o Atlântico. Imaginava o colégio eleitoral como uma escola noturna. Achava que o Capitólio era um teatro no Parque Mayer. E, para ele, fazia todo o sentido. Mas isso era irrelevante. Fora eleito. No silêncio absoluto do subconsciente nacional.

Durante a noite, o Espírito Santo cruzou a América e o oceano. Desceu sobre o território sonhador que dá pelo nome de Portugal – e sussurrou: – Now it’s your time, boy.

Ergueu-se, solene. Recortou estrelas de jornal e colou-as numa touca de banho esquecida no estendal. Chamou-lhe Coroa da Intuição Pública. Saiu à rua com o peito feito decreto.

Sentir é decidir com base no que paira.

Proclamou-se Presidente. Tinha três testemunhas: o padeiro, o carteiro e um grupo de WhatsApp. Este não respondeu. No silêncio, presumiu-se anuência. Democracia silenciosa.

 

Entendeu que o protocolo exigia um gesto.

Na tarde do mesmo dia, apresentou-se na Embaixada dos EUA. Levava uma Constituição pessoal, escrita a lápis; um caderno espiral com pensamentos interrompidos; e um frasco com os dizeres Legitimidade – Amostra. Esperou que chamassem o segurança. Talvez o embaixador. Mas quem surgiu foi o segundo-secretário.

Abriu ligeiramente os braços, como quem abraça um país invisível:

– Sou o novo Presidente dos Estados Unidos da América – disse, num tom contido. – A eleição foi subtil. Está em plena conformidade pessoal.

Fez uma pausa. O olhar caiu-lhe nos sapatos. Depois, ergueu-se ligeiramente, apoiado nos calcanhares, como quem se prepara para ser ouvido.

– Tomei posse ao raiar da aurora. Com testemunhas. O padeiro. O carteiro. E um grupo de WhatsApp que, embora ausente, não contestou.

O segundo-secretário – jovem, sotaque do Illinois e a cortesia oficial já a ceder terreno – recuou ligeiramente o queixo… como quem tenta adiar o inevitável:

Sir, do you even speak English?

Ele abanou a cabeça, com tranquilidade:

– Presidir não exige tradução. Basta sentir.

 

O tempo hesitou. O segundo-secretário olhou em redor, à procura de um manual invisível. Depois compôs o nó da gravata, endireitou-se ligeiramente e sugeriu, com embaraço elegante:

– Talvez… queira regressar noutra ocasião. Mais oportuna.

Ele respondeu:

– A soberania íntima não se discute ao balcão.

 

Nenhuma porta se abriu. Mas ele considerou-se em funções.

Sem acesso a Washington, instalou-se num quiosque abandonado, junto a um Intermarché periurbano. Cobriu a placa Jornais & Revistas com outra: Casa Branca de Emergência – América Lusitana. Hasteou como bandeira uma toalha de praia. Ali escutava o vento. Decidia a partir dos silêncios. Legislava em papel de embrulho.

A primeira medida: instituir o Dia Nacional da Dúvida Produtiva – a celebrar sempre que o sol hesita ou o multibanco falha.

O diploma foi escrito de improviso e ignorado com solenidade.

Ainda assim, seguiu-se um plano mais ambicioso. Criou um governo.

Havia uma pasta para a Resignação Ativa, outra para o Desenrascanço Institucional e uma agência para a Saudade Aplicada. Fundou ainda um organismo de consulta — que só se reunia quando havia vontade. Ou disponibilidade emocional.

Ninguém aceitou o convite. Nem qualquer cargo. Nem o risco de estar presente num governo que existia apenas no espírito de um homem só. Agradeceram com elegância. Um pôs-se à disposição, mas de fora. Outro sugeriu observar o sentimento geral.

O projeto ficou de pé. Vazio. Sem vozes. Sem cadeiras ocupadas. Só a estrutura. A ideia. E um silêncio que ninguém quis preencher.

 

Mesmo sem secretários de Estado, acreditava que o impacto seria global.

A comunidade internacional manteve-se em silêncio. A CNN fingiu não ver. A Fox tentou entrevistá-lo – ele respondeu em verso. A entrevista não foi para o ar.

No Twitter da NATO apareceu por engano a frase: Pending confirmation: Lusitana Presidency.

Foi apagada em cinco minutos – tarde demais.

Em Coimbra, o Instituto de Altas Incertezas escreveu: Forma avançada de poder simbólico. Fenómeno não verificável. Intensamente humano.

 

Agora, ao fim da tarde, regressa sempre ao quiosque. Assina ordens executivas. Fala com formigas – as que se deixam ficar. Risca listas de compras. Não por terem sido feitas, mas porque é mais seguro que se risquem.

Medita. A condição humana cabe num quiosque.

Na porta, um cartaz preso com molas de roupa: Presidente dos EUA em Funções. Aceitam-se dúvidas, sugestões e restos de emoção.

 

Ninguém na América o conhece. Mas dizem que o país anda menos triste.

E que Portugal, nestes dias, exportou sobretudo silêncio, paciência e alguma hesitação – embrulhados com zelo, remetidos sem pressa e aceites com espanto em corações estrangeiros.

 

Casa Branca.jpg

Quando o poder cabe num papel de embrulho, a presidência torna-se uma ideia – e a Casa Branca, apenas um quiosque coberto de folhas e intenção. Foto: L. Van de Velde

 

21
Set24

Um Jantar Muito Especial

Um Jantar Muito Especial.jpg

 

 

– Oh, não! Outra vez sopa de legumes! – rosnei, irritado. – Quem me dera ter aqui uma ovelhinha. Fazia já um belo ensopado de borrego!

Eis senão quando… Truz, truz! Quem batia à porta era uma linda ovelhinha.

– Posso entrar? – balbuciou ela, a tremer.

– Claro que sim, minha querida! A casa é tua! Vieste mesmo à hora do jantar – retorqui com um sorriso que não disfarçava as minhas presas afiadas.

A ovelhinha estava cheia de frio.

– Brrrr, brrrr! – resmungava ela.

– Que azar o meu! – admiti. – Logo me calhou uma ovelhinha congelada! Não gosto de comida assim, fria e sem graça!

E então tive uma ideia... Levei-a para perto da lareira e enrosquei-me à volta dela, permitindo que o calor do fogo a aquecesse, enquanto eu folheava a minha receita preferida de ensopado de borrego. Mnham, mnham! Já me crescia água na boca só de pensar no delicioso repasto.

Mas não era eu o único que estava com fome. A barriga da ovelhinha também já estava a dar horas…

– Que azar o meu! – pensei. – Não posso comer uma ovelhinha esfomeada! Até ia fazer-me mal ao estômago!

Ofereci à ovelhinha uma cenoura.

– Assim, já tenho borrego recheado!

A ovelhinha devorou a cenoura tão depressa que ficou com soluços.

– Hic, hic, hic! – fazia ela sem parar.

– Ai, ai! Que azar o meu! – lamentei-me com razão. – Quem é que come uma ovelhinha com soluços? Até pode ser contagioso!

O problema é que eu não percebia nada de soluços. Como é que se fazia para os calar de vez?

Tentei tudo: atirei a ovelhinha ao ar, virei-a de cabeça para baixo, abanei-a de um lado para o outro, mas nada resultou! Hic! Hic! Então, peguei nela ao colo e comecei a dar-lhe palmadinhas no lombo. Os soluços não tardaram a passar e ela adormeceu, enroscada no meu pescoço.

Fiquei perplexo porque nunca tinha sido abraçado pelo meu futuro jantar. E como seria expectável, a fome, afinal, já não era tanta…

A ovelhinha ressonava baixinho encostada às minhas orelhas.

– Rrrrooonchhh, rrrrooonchhh! – fazia ela.

– Que azar o meu... – suspirei. – Como é que vou devorar uma ovelha que ressona?

Sentei-me na velha cadeira de balouço, com a ovelhinha ao colo, e senti uma calma estranha. Já nem me lembro da última vez que alguém se aninhou assim nas minhas patas.

Mas mal comecei a cheirar a ovelhinha, fiquei deliciado com o seu cheiro doce e reconfortante!

– Ohhh! – suspirei. – Se eu a comesse depressa, ela nem sequer dava por isso.

E quando me preparava para trinchar a ovelhinha… a fulana acordou e deu-me um grande beijinho! Chuac!

– Nããooo! – gritei. – Isso não vale! Eu sou um carnívoro e tu és um ensopado!

– Um enlatado? – perguntou a ovelhinha a sorrir. E confessou: – Eu sei lá o que é isso!

– Que é que eu faço à minha vida?! – exclamei. – Bom, vais mesmo ter de te ir embora!

Com fiemeza, pus a ovelhinha na rua, mas primeiro dei-lhe um agasalho.

– Some-te daqui! – gritei. – Se tu ficares, como-te e depois já não podes arrepender-te.

E com um grande estrondo fechei a porta. Bang!

Lá fora, a noite era escura e fria. E a ovelhinha não parava de bater.

– Oh, Olivier! Olivier? – suplicou ela. – Deixa-me entrar!

Mas eu tapei as orelhas e pus-me a cantar “Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá!” até a ovelhinha desistir. Finalmente, tudo estava em silêncio.

– Ainda bem que ela já se foi embora! – suspirei, aliviado. – Aqui não estava em segurança. Um tipo esfomeado como eu é sempre capaz do pior!

Mas pouco depois, comecei a pensar na ovelhinha, sozinha e desamparada na escuridão da floresta.

– Talvez ela morra de frio… Talvez se perca… Talvez caia nas garras de um predador qualquer… Oh, não! O que é que eu fui fazer? – questionei-me, arrependido.

Sem perda de tempo, levantei-me num pulo e abri a porta, sentindo o frio da noite invadir a casa. Mas não havia sinal da ovelhinha. Nem qualquer pegada na noite. A floresta parecia mais sombria do que nunca. Corri em desespero pela floresta, chamando: – Ovelhinha, ovelhinha! Volta, por favor! Prometo que não te como! Só quero que estejas segura!

A minha cabeça não parava. A ideia de nunca mais a ver começou a pesar de uma maneira estranha, como se algo estivesse a apertar-me o coração. Cansado e encharcado, depois do que pareceu uma eternidade, voltei para casa, cabisbaixo e com as patas pesadas. Estava completamente abatido.

Quando entrei, qual não foi o meu espanto! Não podia acreditar! Ali, ao pé da lareira, enroscada e segura, estava a ovelhinha.

– Voltaste! – exclamei, incrédulo. Senti um enorme alívio. – És mesmo tu? Não tens outro sítio para onde ir?

A ovelhinha abanou a cabeça com um sorriso doce e tímido.

– Que-que-queres ficar aqui co-comigo? – convidei eu a gaguejar.

A ovelhinha olhou-me, olhos nos olhos.

– E tu prometes que não me comes? – quis ela saber.

– Não! Claro que não! – assegurei. Dizia-me o instinto que eu devia fazer o contrário, mas como é que seria capaz de comer uma ovelhinha que precisava de mim? Até podia ficar com o coração partido…

A ovelhinha sorriu e atirou-se para as minhas patas.

– Estás com fome, enlatado? – perguntei, abanando a cauda timidamente. – Que tal uma sopinha de legumes?

 

Notas:

- Este conto é uma adaptação livre de “A Ovelhinha que Veio para Jantar”, de Steve Smallman, ilustrado por Joelle Dreidemy.

- No final desta versão revista e aumentada, decidi abrir um restaurante vegetariano com a ovelhinha, porque, afinal, a sopa de legumes não é assim tão má, desde que eu tenha companhia!

 

26
Jun24

Fábula Burrical

Fábula_burrical.jpg

Era uma vez um rei que decidiu empreender uma viagem para pescar. Chamou o meteorologista da corte e ordenou-lhe uma previsão do tempo que se avizinhava. 

 

Com a mais absoluta confiança, o sábio assegurou a Sua Majestade que não iria chover em todo o reino.

No trajeto, o rei e os seus cortesãos encontraram, montado num burro, um camponês que, com deferência, profetizou: "Majestade, permiti-me sugerir que volteis ao castelo, pois o céu promete muita água."

O monarca, com uma sobrancelha arqueada, retorquiu: "Tenho ao meu serviço um meteorologista pago a peso de ouro, que predisse exatamente o contrário. Prossigamos!". Mal haviam avançado, viram-se submersos numa tempestade torrencial. 

Ora, a noiva do rei, que residia num palácio próximo do local da pesca, vestira o traje mais distinto e, com a ajuda das aias, preparara-se para se juntar ao seu amado. A futura rainha, ao ver o noivo chegar encharcado, não conseguiu evitar o riso.

Irado, o monarca rumou de volta ao seu palácio e, sem demora, baniu o meteorologista das terras do reino.

Convocando o camponês, ofereceu-lhe uma posição na corte. Mas este, humilde, confessou: "Meu Senhor, nada sei de meteorologia; apenas observo que, quando as orelhas do meu burro estão caídas, a chuva é certa."

Os conselheiros murmuravam sobre “mudar estratégias” e “perceções empíricas”. O rei tomou então uma decisão: "Vamos inovar a abordagem das previsões meteorológicas, juntando este sábio animal à nossa corte."

O burro foi nomeado Conselheiro Sénior para a Meteorologia, com uma indumentária nobre especialmente confecionada para si. Um cortesão zeloso propôs um retiro de imersão para alinhar o novo conselheiro com a visão estratégica do reino.

E assim se estabeleceu a tradição de recrutar assessores com competências questionáveis para posições de influência. Eis a razão pela qual burros ocupam geralmente cargos bem remunerados em qualquer máquina estatal.

 

Fábulas envolvendo animais que revelam verdades sobre a natureza humana são tema recorrente na literatura de Esopo e La Fontaine. No entanto, não é possível atribuir a origem exata desta narrativa a um único autor ou uma única fonte, dado que surgiram variantes em diferentes culturas e épocas.

A encantadora ilustração de um assessor a saborear o merecido café na sua hora de descanso é um exemplo de como algumas obras de arte percorrem o mundo sem assinatura de autor.

 

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