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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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01
Abr25

O Rapto da Europa 2.0

Make Mythology Great Again

113147.jpg

Diz-se que, em tempos antigos, Zeus viu a bela Europa a brincar na praia e, inflamado de desejo divino, disfarçou-se de touro branco – dócil, belo, enganador. Levou-a no dorso até Creta, onde o disfarce se desfez e o ato se impôs sob o céu dos deuses.

Muitos séculos passaram. Do Olimpo, restam apenas as ruínas – mas o touro voltou.

 

 

Não precisa agora de patas – basta-lhe um perfil. Uma conta, um avatar.
Não berra – twitta.
O novo Zeus não desce dos céus: sobe nas sondagens.

Traz consigo o caos, em cápsulas de retórica, e uma fera invisível chamada demagogia.

Perdão, “democracia”. Vendida como liberdade, engolida como fé.

A Europa – a de hoje, de papel timbrado e cúpulas de vidro – continua encantada. Distraída com a calibragem legal do pepino, fascinada pelas suas próprias regras e regulamentos, ignora o ruído dos cascos.

Alguns avisam:
- Vem aí o touro!
Logo são silenciados. Chamam-lhes alarmistas, inimigos dos procedimentos.

- Ora, um touro branco com cabelo laranja… que mal poderá fazer? Deve andar só perdido.

O touro não precisa de levar a Europa nos cornos.
Basta seduzi-la.

Um discurso bem calibrado.

A promessa de uma promessa. Um reality show, um festival da Mundovisão com direito a votação da audiência.

E Europa, adormecida entre diretivas e comissões sem fim, começa a sonhar.

Quando acordar, talvez o Parlamento Europeu esteja encimado por um T dourado.
Talvez o euro tenha um novo símbolo, importado de Wall Street.
Talvez o Olimpo seja agora em Mar-a-Lago.

Ainda assim, há esperança.

E alguém organiza uma petição online:
“Diz NÃO ao rapto da Europa – preserva o nosso Estado de Direito!”
Em três horas: cinco mil assinaturas digitais e um carimbo da Comissão.

O touro, impassível, continua a sua voragem.

E a pergunta persiste:
Será este o destino da Europa – ser sempre raptada?
Por deuses disfarçados?

Por mercados desregulados?

Por algoritmos com vocação messiânica?

 

Ou haverá, algures, numa aldeia esquecida,

uma voz, uma fenda, uma pedra solta que resista ao encanto do touro?

Uma voz que diga:
- Nem todo o touro é deus.
- Nem todo o encanto é liberdade.

Talvez a Europa ainda tenha tempo para descer do dorso da fera – antes que o mar se feche para sempre.

 

“O Rapto de Europa”, Tiziano (1562). Óleo sobre tela.

 

 

18
Fev25

A Qualidade do Tremoço

tremoços.jpg

Trump e Putin, como bons negociantes, vão regatear a repartição de territórios e decidir o futuro da Europa, sem dar cavaco a ninguém. Mas, bem vistas as coisas, enquanto a tempestade se formava, a Europa discutia a qualidade do tremoço.

 

 

A História ensina – por vezes, os alunos distraem-se. Há um padrão inquietante que atravessa os séculos: quando se avizinham tempestades, certas elites refugiam-se no pormenor, no tecnicismo ou no ritualismo político, como se a ordem do mundo pudesse sustentar-se em formalismos. Nos corredores do poder, afinam-se argumentos, polindo o detalhe como se fosse marfim; ao mesmo tempo, a História esculpe o futuro a golpes de machado.

No século V, Roma debatia hierarquias e privilégios enquanto os visigodos invadiam e pilhavam a cidade; a Constantinopla do século XV discutia – diz-se – com zelo intelectual bizantino o sexo dos anjos, enquanto os canhões otomanos abalavam os alicerces do império; em Versailles de final de Oitocentos, entre danças e reformas tímidas, poucos tinham oportunidade de ver a maré revolucionária a subir nas ruas de Paris.

Não é que estas discussões fossem irrelevantes. Eram sofisticadas, mas também um luxo que o tempo não permitia. É o erro do xadrezista que, orgulhoso da tática brilhante que lhe assegura um peão promovido, ignora que em dois lances sofrerá mate. Ou o defeito da construção modular, em que as partes se unem num todo sem alma. Ou ainda o azar do homem comum que, receoso de adoecer, foge da chuva apressado, sem reparar que a morte acelera ao dobrar da esquina.

Durante demasiado tempo, olhou-se para a tempestade como um risco longínquo, algo a ser gerido com paciência, notas de imprensa e sanções – talvez bem-intencionadas. Entretanto, as nuvens acumularam-se, o céu escureceu, o vento avisou e os trovões ribombaram. Não ao longe, mas sobre as nossas cabeças. O tempo do detalhe calculista já não se sustenta.

A civilização vive da ordem e do método; só sobrevive quando sabe preparar-se para as ruturas da História. O tempo do tremoço passou; o seu valor nutricional é inegável, mas já não basta. Agora, impõe-se erguer os olhos do prato e encarar a tempestade.

 

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