Manual de Uma Democracia em Ruínas

Na América de Trump, a História já não se ensina: exibe-se. Despida de dúvidas, de conflitos, de contradições, veste-se de glória e desfila em passo cerimonial.
A grandeza que se promete é a de um passado que nunca existiu: limpo, branco, masculino e obediente.
A tradição torna-se dogma. A diversidade, heresia. O saber, crime.
Sob o grito “Make America Great Again”, marcha um país em que os manuais ensinam hinos e apagam lutas. Em que professores são afastados por ensinarem ciência, e bibliotecas se esvaziam como se o silêncio fosse cura contra a dúvida.
A guerra ao conhecimento não é acidente – é estratégia. Corta-se o financiamento. Dissolve-se o Department of Education. Proíbe-se o pensamento crítico. Ensinar a pensar tornou-se um ato subversivo.
As faculdades que ainda resistem tornam-se alvos. O crime? Pensar sem pedir licença. Onde antes havia bibliotecas, há agora armazéns de propaganda; e os manuais tornaram-se montras de citações presidenciais travestidas de verdades. Até os telemóveis dos visitantes são vigiados – não por segurança, mas por higiene ideológica. O saber tornou-se contrabando. E, como em toda ditadura com verniz democrático, a ignorância deixou de ser falha: é política de Estado.
O mesmo destino coube ao Department of Health and Human Services e às agências de cooperação internacional, sob o disfarce de fiscal responsibility. Traduzido: menos professores, menos médicos, mais bandeiras.
É mais barato agitar um símbolo do que construir uma escola ou um hospital.
E, claro, há sempre um culpado à mão: o imigrante que “rouba empregos”, o cientista que “engana o povo”, o ativista “com ligações obscuras”. A máquina precisa do medo. E Trump alimenta-se dele como um profeta à mesa do Apocalipse.
No novo manual de cidadania, não existe espaço para dúvidas: há dois sexos, duas funções, duas verdades. Quem ousa perguntar por mais será corrigido. Quem ensinar o contrário, silenciado.
A identidade foi oficializada – carimbada pelo Estado, plastificada, binária.
Os debates sobre género deram lugar a doutrinas. As bandeiras arco-íris desapareceram das instituições, agora decoradas com crucifixos e retratos do Presidente – sempre com aquele olhar meio beatífico, meio ameaçador.
A sexualidade foi empacotada num uniforme: rapazes jogam futebol, raparigas cozinham. Quem não se encaixa? Consulta com um técnico de correção moral. Não é repressão – é terapia patriótica.
Trump não precisa de razão quando dá espetáculo. Nem de diplomacia, quando pode redesenhar mapas. A política externa passou a ser jogo de tabuleiro: invadir, anexar, intimidar.
A Gronelândia? “Segurança estratégica.” O Canadá? “O 51.º.” A Europa? “Parasitas ingratos.” Não há aliados – há business. E se Trump sabe fazer algo, é vender.
Mesmo quando o produto é o fim do direito internacional.
Tudo isto com aquele léxico monocórdico de feira de vaidades: “This is great. That is bad for America. This is a deal. That is a disaster.”
As frases não explicam – mandam. Ordens verbais para um povo já condicionado.
A audiência? Uma classe encurralada entre o sonho americano e o pesadelo da realidade. Gente que perdeu terreno, símbolos, poder. Que procura culpados e encontra um líder disposto a apontá-los – com o dedo, com o punho, com a força do Estado.
Trump não oferece soluções. Oferece inimigos. E isso basta.
A culpa, diz ele, é dos intelectuais, dos ambientalistas, dos jornalistas, dos negros que protestam, dos latinos que chegam, das mulheres que não se calam. É sempre “deles”.
É um espetáculo de vingança, com banda sonora e merchandising.
E a plateia, de boné vermelho, aplaude, convencida de que finalmente é ela quem manda.
Em dois meses de segundo mandato, Trump e os seus acólitos já fizeram mais estragos do que em quatro anos de primeiro. Não governam – desmantelam. Não protegem – esmagam.
A democracia não cai com tanques.
Cai com ordens executivas assinadas com caneta grossa, preta, ostensiva. Com palmas.
Com o silêncio de quem já desistiu de perguntar.
.