Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
11
Jan26

O Inimigo Já Não É o Que Era

(mas a realidade também já não é o que devia ser)

 

 

 

Desde que me conheço como leitor – ou pelo menos desde que comecei a perceber piadas com ministros e vacas voadoras – acompanho O Inimigo Público. Primeiro no jornal Público, agora no caderno Ideias do Expresso.

Dirigido por Luís Pedro Nunes, mestre de cerimónias de um mundo paralelo – ou talvez não tão paralelo assim – onde o ridículo é património da humanidade, o Inimigo sempre foi mais do que uma publicação de humor: foi, e continua a ser, uma bússola no meio do absurdo – enquanto ainda é possível achar o absurdo... engraçado.

Porque o humor, quando bom, não serve só para rir. Serve para pensar, para inquietar, para dar uma cotovelada elegante nas certezas. O Inimigo faz isso: serve uma caricatura matinal temperada com lucidez.

Mas eis que o mundo decidiu tornar-se a própria caricatura. E com isso, a sátira perdeu o efeito de choque – porque deixou de ser exagero.

Quando Donald Trump apareceu, parecia um sketch. E era – daqueles que começam por ser engraçados e acabam em trauma coletivo. Trouxe tudo o que não devia ter acontecido – e aconteceu. Com ele, instalou-se uma era pós-satírica – ou talvez de pós-realidade – em que o absurdo deixou de precisar de guião, e a imaginação dos cronistas já não consegue acompanhar. Como competir com alguém que sugeriu curar um vírus com luz e injetar desinfetante?

A piada perdeu a graça no momento em que passou a ser título de notícias. De repente, já não é preciso rir do absurdo – basta assistir ao telejornal.

A verdade é que O Inimigo Público continua a fazer o seu trabalho. O problema não está na sátira – está no mundo. Num planeta onde o inverosímil se torna banal, resta ao humor apenas imitar – e mal – o noticiário.

Talvez seja por isso que se tenha saudades da sátira como ela era: não porque tivesse mais graça, mas porque a realidade ainda deixava espaço para a ficção. Agora, o exagero já não espanta – limita-se a repetir aquilo que o mundo se encarregou de tornar real.

Quem sabe, Luís Pedro Nunes devesse contratar Trump como redator principal. Não para escrever piadas – mas para continuar a alimentá-las. A musa disfarçada de apocalipse cor-de-laranja.

Afinal, talvez o problema não seja O Inimigo Público, mas o público inimigo: os que deixaram de rir porque começaram a levar a loucura a sério.

 

12
Set25

Trump e a Beleza Decretada

Capitólio.jpg

 

 

Donald Trump, esse grande visionário da estética, decidiu dar uma ajudinha à arquitetura: decretou a beleza.

Assinou uma ordem executiva que devolve a arquitetura federal dos EUA à sua verdadeira vocação: ser pétrea, ser simétrica, ter colunatas e ostentar a imitação gloriosa do passado. Adeus, volumes de betão aparente, adeus palas brancas e planos leves, adeus superfícies envidraçadas protegidas por lâminas metálicas. Adeus às formas de Niemeyer, nascidas sob Kubitschek em pleno sobressalto democrático. Bem-vindos de volta, frontões triunfais!

Não é todos os dias que um estadista se dispõe a salvar a beleza com a caneta. Com o marcador grosso. E que beleza! A beleza oficial, normativa, eterna – aquela que não precisa de pensar no clima, no sítio, na função ou nos seres humanos que se servem dos edifícios.

Porque, segundo Trump, a beleza é coisa que se decide na Sala Oval. Nada de modernices ou minimalismos. O que é bonito, senhoras e senhores, é o que se parece com a Grécia ou com Roma! Ou um banco de Wall Street. Ou, por que não, um centro de saúde em Ohio com uma colunata dórica à entrada, ou uma escola primária com frontão triunfal.

Qualquer arquiteto da galáxia se sentirá pequeno diante de tamanha visão. Muitos passam décadas a dialogar com o sítio e com a história, a debater a função, a experimentar materiais e formas, quando, afinal, tudo se resolvia com uma boa cópia do Capitólio.

Ensina-se na faculdade que a arquitetura é expressão do poder. Mas Trump, com a sua proverbial subtileza filosófica, foi mais longe: decretou que ela é a expressão de um gosto só. O dele. Toda a gente acha que o Capitólio é belo. E quem discorda é desonesto e corrupto.

Afinal, já o sabíamos: a democracia pode ser barulhenta, plural, complexa, mas a arquitetura não precisa de acompanhar esse incómodo espírito do tempo. Ela pode, e deve, ser um bloco de mármore – ou de outro calcário –, imune ao tempo, às desigualdades, à crítica. Um monumento, não ao bem-estar coletivo, antes ao ego de quem o manda construir.

E não sejamos injustos. Há algo de comovente nesta cruzada estética. O desejo de ordem, de grandeza, de simetria é tão compreensível quanto infantil. Como quem quer vestir um império com uma ancestral toga romana para disfarçar fundações que cedem em silêncio.

No fundo, Trump presta um grande serviço à arquitetura: obriga a voltar à velha pergunta. A quem serve a forma construída? Aos que mandam ou aos que utilizam? À nostalgia ou à necessidade?

Porque, como escreveu um antigo arquiteto romano, a beleza nasce do equilíbrio. E o equilíbrio não cabe num decreto: constrói-se, como a própria democracia, passo a passo. E nunca, nunca, com marcador grosso.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D