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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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15
Jul25

O Feitiço do Aprendiz

aprendiz.jpg

 

 

"You’re fired!" era apenas uma frase televisiva. Dita com ar triunfante por um apresentador que, semana após semana, punha fim à carreira de um aprendiz de empresário. Era um ritual do entretenimento. Era The Apprentice.

Durante mais de uma década, esse apresentador, também produtor e juiz, foi líder absoluto no estúdio. Bastava-lhe a frase. Um corte seco de câmara. Um olhar ensaiado. E a autoridade impunha-se. O efeito não vinha da decisão, mas da encenação. O poder vivia na pose, no ritmo do silêncio, no gesto estudado. Tudo estava sob controlo.

Como tantos reality shows do nosso tempo, este também transbordou do pequeno ecrã. Quando atravessou a fronteira para a política real, o apresentador levou tudo consigo: a personagem, o estilo, a frase. Teatral. Arbitrário. Feito de efeitos rápidos e meias-verdades encenadas. Passou a cortina com um arsenal mediático e uma frase-feitiço que meio mundo conhecia.

"You’re fired!", a frase mágica, parecia bastar para impor vontade. Rapidamente tornou-se maior do que o novo aprendiz de feiticeiro que a proferia. Despedir deixou de ser um ato administrativo. Passou a ser uma fórmula de autoridade instantânea. Invocada vezes sem conta. Idolatrada. E com isso ganhou vida própria. Transformou-se numa ameaça real para o sistema democrático que a tinha acolhido sem resistência.

Esse aprendiz de feiticeiro, agora investido de poderes reais, encolheu o Estado à medida do seu ego. Eliminou empregos. Desmantelou serviços essenciais de saúde, educação e apoio humanitário. Tal como num lance de xadrez, capturou a Justiça en passant. Sem compreender o perigo, chamou feitiços que escapavam ao seu entendimento. Declarou guerra tarifária à China, à União Europeia e ao mundo. Provocou retaliações em cadeia. Deteve e expulsou imigrantes em massa. Provocou disrupções nas cadeias de produção e um caos social que avançou sem travões. Militarizou discursos. Ordenou bombardeamentos sem consulta nem consenso. Deslegitimou o sistema eleitoral.

A vassoura encantada já começava a rodopiar sozinha.

O aprendiz, desde o início, abandonou o multilateralismo, trocando-o por uma diplomacia de ocasião. Feita de promessas voláteis. De vantagens imediatas.

Achou que podia despedir tudo e todos: juízes, jornalistas, eleitores — até a própria democracia.

Como no poema de Goethe, despertou forças que não compreendia. A democracia, como a vassoura encantada, seguiu em frente. Surda ao comando de quem lhe lançara o feitiço. Será que alguém com raciocínio esquemático e vocabulário limitado pode mesmo compreender as subtilezas de contextos complexos? Então, os efeitos colaterais não tardaram a manifestar-se. Seguiram a sua própria lógica. Discreta, mas implacável.

Nada disto é novo. Entre democracia e demagogia, o caminho pode ser curto. A República de Weimar era uma democracia. E mesmo assim deu lugar ao totalitarismo. De lá à Venezuela, passando por Itália, Hungria e Turquia, aprendizes imprudentes invocaram forças que não controlaram. Deixaram para trás ruína institucional, social e moral.

Enquanto se distraem e se deixam entreter, as democracias correm o risco de confundir o espetáculo com soberania.

Mas toda a peça grotesca tem o seu ato final. E, como nas grandes tragédias, os papéis invertem-se no fim.

É então que a democracia regressa ao palco. Não como figurante, mas como protagonista.

Ergue-se, firme. Não há aplausos. Apenas o silêncio espesso de um palco que já viu demais. Enfrenta a câmara invisível com a gravidade de quem foi ferida, mas não vencida.

E pronuncia, com a dignidade que só a justiça tardia conhece, a frase que sela o destino de quem se julgava acima da lei:

"You’re fired!"

 

Nota: Ilustração de Nelson Cruz para o poema O Aprendiz de Feiticeiro de Goethe.

 

12
Jul25

Dejà Vu

 

 

Hoje, um déjà vu inquietante atravessa a paisagem política global. Uma sensação de repetição histórica –daquelas que não reconfortam. Resquício de tempos sombrios. Uma presença que não se deixa esquecer. Estará a História a ensaiar novamente os mesmos passos? Não com as mesmas caras, nem nos mesmos palcos. Mas com argumentos parecidos. Com métodos semelhantes. Com uma mesma pressa em distorcer as regras — e uma mesma habilidade em transvesti-las de legitimidade.

Foi assim, por exemplo, na Alemanha de 1933. Recém-chegado ao poder, o governo não tardou a encontrar, num artigo da antiga Constituição de Weimar – aprovada nas últimas convulsões de uma democracia enfraquecida –, o pretexto jurídico para instaurar a governação por decreto. Uma lei com nome benevolente: Para Aliviar o Sofrimento do Povo e do Reich. Mas cujo efeito foi aliviar, sim – o fardo da fiscalização parlamentar. A Constituição podia ser reescrita. O Reichstag, ignorado. E os opositores, silenciados. Tudo dentro do enquadramento legal – com a violência invisível de quem o controla.

Hoje, noutro continente, com outras figuras e outro vocabulário, assiste-se a algo que, em traços largos, reencarna esse mesmo padrão.

Nos últimos dias, foi aprovada nos Estados Unidos uma peça legislativa colossal – quase mil páginas. Chama-se One Big Beautiful Bill. Nome sedutor, de marketing eficaz.Um título com mais brilho do que substância. Trata-se de um pacote orçamental, com ramificações que extravasam o mero orçamento. O debate foi apressado. O tempo para análise, curto. A pressão sobre os congressistas, intensa. Tudo em nome da urgência, da necessidade patriótica, da salvação da nação.

Mas o mecanismo – esse já vimos antes: aprovar muito, depressa, em silêncio, com um sorriso na face e a erosão institucional escondida em rodapé.

E quando as leis se tornam demasiado bonitas no nome? Títulos grandes. Sonantes. Impecavelmente patrióticos. One Big Beautiful Bill. Nomes que brilham nos ecrãs e nas manchetes. E escondem, lá dentro, cláusulas discretas. Pequenos desvios. Portas entreabertas. Silêncios escritos. Instrumentos de poder. Legalmente afinados. Democraticamente perigosos.

É nestes momentos que a História se insinua. Não como pretexto, mas como aviso. Porque a democracia –mesmo quando se ampara na legalidade – pode ser esvaziada por dentro. E quando as leis se tornam demasiado bonitas no nome… é prudente ler com ainda mais atenção o seu conteúdo.

 

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Capa de apresentação da One Big Beautiful Bill. Imagem: IDN Financials

 

10
Jul25

A Queda das Ditas Duras

Dominós.jpg

 

 

 

Na Europa do século XX, as ditaduras caíram como peças de dominó — umas pela força das armas, outras pela erosão interna, algumas pela morte natural dos seus líderes. A Alemanha nazi ruiu em 1945, esmagada pela guerra e pela ocupação aliada, levando Hitler ao suicídio e à divisão do país. Em Itália, Mussolini foi deposto pelo próprio Grande Conselho Fascista em 1943, preso por ordem do rei e resgatado pouco depois por tropas alemãs. A efémera República Social Italiana, imposta pelos nazis, duraria até 1945, encerrando-se sob a ação decisiva da resistência.* 

Na França ocupada, o regime colaboracionista de Vichy caiu em 1944 com a libertação do país. Mais a sul, Portugal e Espanha ofereceram despedidas particularmente tardias aos seus ditadores. Franco morreu na cama em 1975, após quase quatro décadas de autoritarismo. Mas foi precisamente o rei que ele deixara como herdeiro, Juan Carlos, quem lideraria uma transição pactuada para a democracia. Já em Portugal, a ditadura do Estado Novo foi derrubada por militares exaustos de travar uma guerra sem sentido, numa revolução que trocou tiros por cravos, em abril de 1974.

Também em 1974, a Grécia livrou-se da farda autoritária dos coronéis — uma queda apressada pelo fiasco da sua aventura nacionalista em Chipre. E quando o Leste europeu explodiu em 1989, a queda do Muro de Berlim abriu caminho para o colapso dos regimes ditos comunistas. O caso romeno foi o mais sangrento: Ceaușescu não teve direito a tribunal. Os restantes regimes renderam-se à evidência do tempo.

A história das ditaduras mostra que nenhuma é inabalável. Por mais que pareçam edifícios colossais, imponentes e inquebráveis, erguidos sobre areia movediça, estão condenadas a afundar-se quando a base enfraquece. Por mais que os ditadores se cerquem de muros e tanques, são as fissuras abertas pela persistência dos cidadãos — a sua recusa silenciosa e teimosa — que minam os alicerces do poder.

Hoje, os olhos voltam-se para figuras como Trump, cuja retórica autoritária desafia a própria lógica democrática dos Estados Unidos — sobretudo a ilusão de que basta votar para estar a salvo de líderes com tiques de poder absoluto. E para Putin, cuja permanência à frente do Estado se sustenta numa combinação clássica: repressão interna, culto de personalidade e guerra.

Ambos resistem, por enquanto — com a teimosia típica dos mitos que hão de ruir.

Mas as ditaduras modernas — mais subtis, mais mediáticas — não estão imunes à mesma fragilidade estrutural que acabou por desfazer os alicerces das que emergiram antes.

Trump, recém-retornado, e Putin poderão durar mais quatro anos, oito, doze.

Mas o fim não virá com o degredo para Alligator Alcatraz, nem com vertigens no ponto mais alto do Kremlin.

Virá com a manta pesada do ridículo e do descompasso com a realidade — um véu diáfono que revela o afastamento das ditaduras modernas de uma realidade que avança, enquanto elas se agarram a fantasmas do passado.

A queda das ditas duras continua — agora, em tempo real.

Ditas. Duras... Mas não eternas.

 

* ... e com o Bella Ciao a ecoar pelas montanhas.

 

31
Mar25

Manual de Uma Democracia em Ruínas

Democracia em Ruínas.jpg

Na América de Trump, a História já não se ensina: exibe-se. Despida de dúvidas, de conflitos, de contradições, veste-se de glória e desfila em passo cerimonial.

 

 

A grandeza que se promete é a de um passado que nunca existiu: limpo, branco, masculino e obediente.
A tradição torna-se dogma. A diversidade, heresia. O saber, crime.

Sob o grito “Make America Great Again”, marcha um país em que os manuais ensinam hinos e apagam lutas. Em que professores são afastados por ensinarem ciência, e bibliotecas se esvaziam como se o silêncio fosse cura contra a dúvida.
A guerra ao conhecimento não é acidente – é estratégia. Corta-se o financiamento. Dissolve-se o Department of Education. Proíbe-se o pensamento crítico. Ensinar a pensar tornou-se um ato subversivo.

As faculdades que ainda resistem tornam-se alvos. O crime? Pensar sem pedir licença. Onde antes havia bibliotecas, há agora armazéns de propaganda; e os manuais tornaram-se montras de citações presidenciais travestidas de verdades. Até os telemóveis dos visitantes são vigiados – não por segurança, mas por higiene ideológica. O saber tornou-se contrabando. E, como em toda ditadura com verniz democrático, a ignorância deixou de ser falha: é política de Estado.

O mesmo destino coube ao Department of Health and Human Services e às agências de cooperação internacional, sob o disfarce de fiscal responsibility. Traduzido: menos professores, menos médicos, mais bandeiras.
É mais barato agitar um símbolo do que construir uma escola ou um hospital.

E, claro, há sempre um culpado à mão: o imigrante que “rouba empregos”, o cientista que “engana o povo”, o ativista “com ligações obscuras”. A máquina precisa do medo. E Trump alimenta-se dele como um profeta à mesa do Apocalipse.

No novo manual de cidadania, não existe espaço para dúvidas: há dois sexos, duas funções, duas verdades. Quem ousa perguntar por mais será corrigido. Quem ensinar o contrário, silenciado.
A identidade foi oficializada – carimbada pelo Estado, plastificada, binária.

Os debates sobre género deram lugar a doutrinas. As bandeiras arco-íris desapareceram das instituições, agora decoradas com crucifixos e retratos do Presidente – sempre com aquele olhar meio beatífico, meio ameaçador.
A sexualidade foi empacotada num uniforme: rapazes jogam futebol, raparigas cozinham. Quem não se encaixa? Consulta com um técnico de correção moral. Não é repressão – é terapia patriótica.

Trump não precisa de razão quando dá espetáculo. Nem de diplomacia, quando pode redesenhar mapas. A política externa passou a ser jogo de tabuleiro: invadir, anexar, intimidar.
A Gronelândia? “Segurança estratégica.” O Canadá? “O 51.º.” A Europa? “Parasitas ingratos.” Não há aliados – há business. E se Trump sabe fazer algo, é vender.
Mesmo quando o produto é o fim do direito internacional.

Tudo isto com aquele léxico monocórdico de feira de vaidades: “This is great. That is bad for America. This is a deal. That is a disaster.”
As frases não explicam – mandam. Ordens verbais para um povo já condicionado.

A audiência? Uma classe encurralada entre o sonho americano e o pesadelo da realidade. Gente que perdeu terreno, símbolos, poder. Que procura culpados e encontra um líder disposto a apontá-los – com o dedo, com o punho, com a força do Estado.

Trump não oferece soluções. Oferece inimigos. E isso basta.

A culpa, diz ele, é dos intelectuais, dos ambientalistas, dos jornalistas, dos negros que protestam, dos latinos que chegam, das mulheres que não se calam. É sempre “deles”.
É um espetáculo de vingança, com banda sonora e merchandising.
E a plateia, de boné vermelho, aplaude, convencida de que finalmente é ela quem manda.

Em dois meses de segundo mandato, Trump e os seus acólitos já fizeram mais estragos do que em quatro anos de primeiro. Não governam – desmantelam. Não protegem – esmagam.
A democracia não cai com tanques.
Cai com ordens executivas assinadas com caneta grossa, preta, ostensiva. Com palmas.
Com o silêncio de quem já desistiu de perguntar.

 

26
Fev25

Inquilinos e Proprietários

O Presidente Marcelo não renega o epíteto de inquilino do Palácio de Belém. Nem Macron o do Eliseu. Nem Zelensky o de Mariinsky.

 

 

Embora, em termos jurídicos, um Presidente da República não seja propriamente um inquilino – o termo mais preciso seria comodatário, pois ocupa a residência oficial a título gratuito –, a palavra surge aqui como metáfora da transitoriedade do poder. A imponência dos palácios presidenciais contrasta com a brevidade da passagem dos seus ocupantes.

Terão estas democracias chefes de Estado remediados que vivem confortáveis na condição de inquilinos de um palácio durante cinco anos? Ou será isto sinal da fragilidade democrática, que J.D. Vance, num exercício de hipocrisia retórica, apontou recentemente em Munique?

O inquilino sabe que há um prazo no contrato. O proprietário acha que as escrituras são para sempre.

Para um pater familias, a propriedade não é apenas um espaço físico, mas um símbolo de continuidade, controlo e legado. Não há lugar para a precariedade nem para a submissão a regras alheias. Quem é dono da casa dita as normas, molda o futuro e assegura que o seu domínio perdura no tempo. Neste sentido, a condição de inquilino, mesmo com meios próprios, pode ser vista como um estatuto menor – reflexo de um poder efémero e dependente, seja da vontade do senhorio ou do juízo dos eleitores.

Há quem se sinta incomodado na condição de inquilino. Mesmo quando a casa "arrendada" é branca. Imagine-se:

 

Oportunidade Única: Propriedade Icónica à Venda!

Por razões de eficiência governamental, esta emblemática residência está agora disponível para aquisição por um valor negociável (avaliado em 500 milhões de dólares).

Segurança máxima, a melhor vista para o poder e uma história que vale mais do que qualquer avaliação patrimonial. Área bruta de 55.000 pés quadrados distribuídos por seis andares, com 132 divisões, 35 casas de banho, três cozinhas, salas de conferência, jardins deslumbrantes e até um bunker secreto.

 

Virá o dia em que Trump comprará a Casa Branca, assegurando que ela permaneça na sua dinastia. Como bom negociante, saberá usar a pressão certa e o dinheiro para transformar a sua condição de inquilino num direito de preferência. Afinal, quem melhor do que ele para manter a casa em boas mãos?

Mas há pessoas que dispensam que lhes deem mais ideias.

 

21
Out24

Geografias

Guernica.jpg

Convém, desde logo, saber de Geografia! Quem não conhece os diferentes cantos do mundo não vive no planeta Terra; andará, quiçá, ofuscado por outros astros. Compreender os territórios e as forças que moldam o planeta importa para auscultar as várias dimensões do presente e antecipar o futuro.

 

 

Não é só uma questão de mapas, mas também de saber como as culturas interagem. Há os que preferem a monocultura – seja nos campos ou nas ideias. É curioso notar como as monoculturas agrícolas, ligadas a um único cultivo, trazem consequências desastrosas: o esgotamento do solo, a vulnerabilidade a pragas... A monocultura ideológica é parecida. Uma visão única, imposta ou autoimposta, acaba por sufocar a diversidade, o que raramente acaba bem. Seja nas políticas ou na cultura, a resistência à diversidade muitas vezes termina em repressão ou violência. Em contraste, o multiculturalismo oferece um caminho para harmonizar diferenças e fortalecer sociedades.

Com o fim do colonialismo clássico e o surgimento de novas dinâmicas globais, o estreitamento do nosso mundo e o aumento das migrações, as democracias aprenderam que o multiculturalismo, quando bem gerido, é a chave para a coexistência pacífica. Promove a inclusão, garante que diferentes línguas, religiões e tradições convivam sob um mesmo guarda-chuva, ao invés de competirem por reconhecimento, influência e direitos. E o mais importante: mantém viva a essência da liberdade e da igualdade.

A escala muda quando se fala de cooperação internacional. Se o multiculturalismo se refere à convivência de culturas dentro de um país, o multilateralismo trata de Estados que tentam relacionar-se num palco global. É aqui que os conflitos se tornam mais visíveis. Enquanto vários atores cooperam, outros decidem andar sozinhos: entra em jogo o unilateralismo, o famoso “faço o que quero, e não me importo com o resto”, bem ao estilo de quem dita regras sem ouvir ninguém.

Sabe-se como essas escolhas isoladas acabam por enfraquecer os esforços de resolver problemas globais. Comércio internacional? Alterações climáticas? Isso só se resolve com todos os envolvidos à mesa. Razão por que instituições como a ONU ainda são fundamentais, mesmo que seja fácil criticá-las.

Ao pensar em Putin ou Netanyahu, o tema fica claro. Enquanto o primeiro destrói infraestruturas na Ucrânia para minar a sua resistência, Netanyahu fez algo semelhante em operações na Palestina e no Líbano, atingindo loucamente equipamentos e infraestruturas civis. Mas também Khamenei não é propriamente um menino do coro.

Mais a leste, Kim prefere – pasme-se! – destruir o seu próprio país, bombardeando estradas e outras ligações ao Sul. Estas ações não só comprometem o futuro da reconciliação entre as Coreias, mas também perpetuam a pobreza e o isolamento do seu regime.

É tudo farinha do mesmo saco! O custo nunca é só o de reconstruir casas, escolas ou pontes, mas também o de regenerar a confiança e a esperança de paz.

À boca da cena apresenta-se agora o retornado Trump. No seu anterior mandato, não iniciou nenhuma guerra em grande escala. Contudo, esteve envolvido em operações militares e conflitos em andamento. Trump, conhecido como o construtor de muros, é mais do que um destruidor de infraestruturas físicas; ele sabe como atacar os alicerces da democracia americana. Com a sua retórica de divisão, bombardeia instituições que sustentam a democracia formal. Desafia processos eleitorais e ataca a imprensa livre.

Parece que a destruição de pontes – diplomáticas e institucionais – está em alta no círculo dos líderes autoritários. Enquanto isso, todos os predadores deste mundo afiam as garras em simultâneo.

Num tal cenário, permanece o papel das organizações internacionais, e aqui entra António Guterres, o defensor incansável do multilateralismo. A sua ação não tem sido agraciada pela sorte, sofrendo os constantes bloqueios das potências que insistem em andar sozinhas.

Desde a retirada de países-chave de acordos importantes, como o Acordo de Paris, até às tensões geopolíticas na Ucrânia e no Médio Oriente, Guterres tem enfrentado um cenário complexo. Ainda assim, a ONU permanece uma plataforma essencial. Apesar de um mundo fragmentado, figuras dedicadas mostram que a persistência no multilateralismo é crucial. Num cenário em que ações individuais têm repercussões coletivas, a cooperação internacional deixa de ser uma escolha e torna-se uma necessidade prática. Valorizar o multilateralismo permite soluções mais justas e eficazes para problemas comuns – uma realidade que precisa de ser reconhecida e incentivada.

 

Nota:

A destruição de infraestruturas civis, como se viu em Guernica, em 1937, é mais do que um ato de guerra: é um símbolo de repressão e violência contra populações inteiras. Picasso imortalizou o horror numa das obras mais icónicas do século XX, exposta no Museu Reina Sofia, em Madrid.

 

 

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