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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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01
Jan26

Regresso à Idade Média

Entre castelos de dados e fogueiras digitais, a nova Idade Média está entre nós – e não vem a cavalo

 

 

1

Diz-se que a Idade Média é coisa do passado. Uma fase ultrapassada, encerrada nos manuais escolares, ilustrada com gravuras de monges curvados e castelos húmidos. Mas, como em tantas mortes anunciadas, talvez tenha apenas mudado de roupa. Não desapareceu: reciclou-se.

A Idade Média não foi negra por esconder o poder; foi clara por o exibir. O senhor sentava-se no alto, a espada à vista, o direito divino bem exposto. A verdadeira escuridão começa quando o poder se apresenta como salvação, quando deixa de mandar e passa a proteger, quando já não oprime – cuida.

 

2

Imagine-se um feudo qualquer. Poderia chamar-se Terravela. O senhor manda. Os servos obedecem. Quem ousa falar fora de tempo desaparece. Não é preciso grande imaginação: basta pensar num território fechado, numa verdade única, numa hierarquia sem fissuras. O feudo vive da repetição, do medo e da promessa de segurança. Em troca, exige silêncio. E aclamações em dias certos.

 

3

O mundo continua em palco – mas alguns, poucos, constroem o seu feudo no camarim. Há o fanfarrão de bandeira em punho e exército de seguidores – em Mar-a-Lago ou nos comícios das planícies interiores. Há o imperador eterno, instalado em Pequim, que combina censura interna com empatia externa – até que a dívida substitua o afeto. Há o cruzado moderno, em Jerusalém, que invoca uma promessa antiga e dispara certezas recentes. E há o czar reinventado, entre cúpulas ortodoxas e reservas de gás, que troca ideologia por nostalgia e anexações.

Todos eleitos, ungidos, legitimados – claro. Pela vontade do povo, pelo medo, por urnas, algoritmos ou decretos. A forma muda; o gesto repete-se.

 

4

Também o povo mudou, dizem. Mudou, sim, mas talvez menos do que se supõe. Na Idade Média, não sabiam ler. Hoje, leem o que lhes aparece à frente. Ontem havia senhores; hoje há sistemas. Uns invisíveis, outros automatizados, todos eficazes. Onde antes havia inquisidores, há agora especialistas em autoajuda e pregadores de virtude. A lógica é semelhante: indicar o bem, apontar o mal, punir o desvio.

A ignorância perdeu o nome, mas não o efeito. Continua útil, obediente, bem-comportada – agora com ar limpo e verniz de opinião.

 

5

Ó glória vã de mandar!

– Camões

O verso atravessa séculos sem perder atualidade. Mandar continua a ser uma tentação antiga, e obedecer uma prática cómoda. O mando, a mentira.

Outra vez nas trevas. Que alguém acenda a luz.

 

20
Set25

Depois da Ficção: Desmontar o Mundo

 

 

 

Num ecrã luminoso, seres de pele azul movem-se entre árvores vivas e raízes que falam em silêncio. Vivem ligados à terra e à memória. Cada gesto obedece a um código antigo. Quando se colhe uma presa, há gesto. Há contenção. Há reconhecimento.

Cá fora, a realidade arde – fragmentada em notícias, amputada de linguagem, indiferente à respiração do mundo.

Numa janela do ecrã, pessoas em filas densas seguem em marcha lenta. Levam trouxas à cabeça e filhos ao colo. Vão para sul, para longe do fogo. Diz-se: “zona segura”. Depois bombardeia-se a zona segura. Em seguida, muda-se o nome. Não se muda a destruição.

Entre os dois mundos, a turbulência faz tremer os olhos de quem olha para o ecrã. Há que apertar o cinto. Os altifalantes sugerem calma. Entretanto, lá fora, uma cidade desaba.

Quando o céu estabiliza, a refeição chega.

What would you like to drink, Sir?

A civilização mantém-se.

Na ficção, as florestas acendem-se à noite. Cada árvore guarda o vestígio de quem passou, de quem caiu, de quem dançou. Os mortos são sementes. A dor tem lugar. No planeta imaginado, até a violência obedece a uma ética.

Na realidade, a morte multiplica-se sem nome, sem tempo para enterros. Mata-se rápido, limpa-se o que resta, apaga-se a criança do registo. Diz-se “colateral”, como se a morte fosse um erro técnico, não uma escolha.

A linguagem tornou-se arma. “Operação”, “alvo”, “evacuação”. Não se diz: destruição. Não se diz: expulsão. Não se diz: genocídio. Não se diz: lucro.

As guerras do presente travam-se com mapas de minerais na mão. A promessa de apoio transforma-se em fatura. Terras raras em troca do direito de resistir. Rios ocupados em troca de paz artificial. A cartografia já não desenha cidades, caminhos e pontes – desenha zonas de extração. A Ucrânia como armazém. Gaza como postal turístico.

Primeiro esvazia-se a vida. Depois inaugura-se o negócio. Cidades em ruínas reimaginadas como praias temáticas. Desertificação com piscina.

Para que a máquina funcione, é preciso destravar o sistema. A democracia, com os seus processos lentos, atrapalha. A justiça atrasa. O jornalismo denuncia. As ONG incomodam. As ciências humanas pensam demais. Por isso, há que desmontar tudo. Um corte de financiamento aqui, um ataque à credibilidade acolá, uma nova ordem, aceite sem resistência por um sistema exausto.

Os novos construtores de mundos falam como engenheiros. Um povo pode ser silenciado – como ruído de fundo. A floresta, apagada do mapa. Substituída por servidores. O mar, repartido em lotes turísticos. Como se a paisagem existisse apenas para caber numa certidão do registo predial.

Tudo o que vive demais – fala demais, recorda demais, sangra demais – é uma falha de sistema.

Chamam-lhe soberania. Eficiência. Inovação. Mas inovação sem ética é apenas colapso – com melhor design. O futuro que se constrói assim é um museu interativo da indiferença: bonito por fora, vazio por dentro.

Contudo, há ainda quem recuse a equação. Quem diga: nem tudo pode ser codificado. Nem tudo pode ser comprado. Nem tudo pode ser sacrificado em nome da máquina e do medo.

Esses – os que escrevem, os que documentam, os que choram, mesmo quando não é em voz alta – são os próximos silenciados.

No ecrã, as árvores fecham-se sobre os corpos. Guardam-nos. Lá fora, as imagens ardem antes de chegar ao fim. A memória, agora, tem prazo curto. E os vivos continuam a mover-se, trouxa à cabeça, em direção a lugar nenhum.

 

Avatar.jpg

Imagem: “Avatar” (2009), realização de James Cameron. Imagem promocional – © 20th Century Studios / Lightstorm Entertainment.

Cameron imaginou um mundo onde os mortos têm memória e a dor tem lugar. E recusou viver num onde isso já não acontece.

 

15
Jul25

O Feitiço do Aprendiz

aprendiz.jpg

 

 

"You’re fired!" era apenas uma frase televisiva. Dita com ar triunfante por um apresentador que, semana após semana, punha fim à carreira de um aprendiz de empresário. Era um ritual do entretenimento. Era The Apprentice.

Durante mais de uma década, esse apresentador, também produtor e juiz, foi líder absoluto no estúdio. Bastava-lhe a frase. Um corte seco de câmara. Um olhar ensaiado. E a autoridade impunha-se. O efeito não vinha da decisão, mas da encenação. O poder vivia na pose, no ritmo do silêncio, no gesto estudado. Tudo estava sob controlo.

Como tantos reality shows do nosso tempo, este também transbordou do pequeno ecrã. Quando atravessou a fronteira para a política real, o apresentador levou tudo consigo: a personagem, o estilo, a frase. Teatral. Arbitrário. Feito de efeitos rápidos e meias-verdades encenadas. Passou a cortina com um arsenal mediático e uma frase-feitiço que meio mundo conhecia.

"You’re fired!", a frase mágica, parecia bastar para impor vontade. Rapidamente tornou-se maior do que o novo aprendiz de feiticeiro que a proferia. Despedir deixou de ser um ato administrativo. Passou a ser uma fórmula de autoridade instantânea. Invocada vezes sem conta. Idolatrada. E com isso ganhou vida própria. Transformou-se numa ameaça real para o sistema democrático que a tinha acolhido sem resistência.

Esse aprendiz de feiticeiro, agora investido de poderes reais, encolheu o Estado à medida do seu ego. Eliminou empregos. Desmantelou serviços essenciais de saúde, educação e apoio humanitário. Tal como num lance de xadrez, capturou a Justiça en passant. Sem compreender o perigo, chamou feitiços que escapavam ao seu entendimento. Declarou guerra tarifária à China, à União Europeia e ao mundo. Provocou retaliações em cadeia. Deteve e expulsou imigrantes em massa. Provocou disrupções nas cadeias de produção e um caos social que avançou sem travões. Militarizou discursos. Ordenou bombardeamentos sem consulta nem consenso. Deslegitimou o sistema eleitoral.

A vassoura encantada já começava a rodopiar sozinha.

O aprendiz, desde o início, abandonou o multilateralismo, trocando-o por uma diplomacia de ocasião. Feita de promessas voláteis. De vantagens imediatas.

Achou que podia despedir tudo e todos: juízes, jornalistas, eleitores — até a própria democracia.

Como no poema de Goethe, despertou forças que não compreendia. A democracia, como a vassoura encantada, seguiu em frente. Surda ao comando de quem lhe lançara o feitiço. Será que alguém com raciocínio esquemático e vocabulário limitado pode mesmo compreender as subtilezas de contextos complexos? Então, os efeitos colaterais não tardaram a manifestar-se. Seguiram a sua própria lógica. Discreta, mas implacável.

Nada disto é novo. Entre democracia e demagogia, o caminho pode ser curto. A República de Weimar era uma democracia. E mesmo assim deu lugar ao totalitarismo. De lá à Venezuela, passando por Itália, Hungria e Turquia, aprendizes imprudentes invocaram forças que não controlaram. Deixaram para trás ruína institucional, social e moral.

Enquanto se distraem e se deixam entreter, as democracias correm o risco de confundir o espetáculo com soberania.

Mas toda a peça grotesca tem o seu ato final. E, como nas grandes tragédias, os papéis invertem-se no fim.

É então que a democracia regressa ao palco. Não como figurante, mas como protagonista.

Ergue-se, firme. Não há aplausos. Apenas o silêncio espesso de um palco que já viu demais. Enfrenta a câmara invisível com a gravidade de quem foi ferida, mas não vencida.

E pronuncia, com a dignidade que só a justiça tardia conhece, a frase que sela o destino de quem se julgava acima da lei:

"You’re fired!"

 

Nota: Ilustração de Nelson Cruz para o poema O Aprendiz de Feiticeiro de Goethe.

 

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