A Linguagem Morreu
Mas ainda responde a emojis
Era uma sexta-feira qualquer, daquelas em que o cérebro acorda como um cursor a piscar à espera de instruções, e, com toda a naturalidade, enviei um “👍” à mensagem de um coleguinha. Um polegar para cima. Um simples gesto digital que, para mim, dizia “estou contigo”. Para ele, aparentemente, aquilo soou a “cala-te, estou velho e cansado”.
A linguagem morreu. Não com um grito, mas com um emoji mal entendido.
E não estou a ser dramático – bom, talvez um pouco. A crónica de Luís Pedro Nunes no Expresso – “OK, o mata-conversa” – não só confirma a morte do discurso como também assina o atestado de óbito com a esferográfica preta de um médico legista. Diz ele que o “OK” se tornou o equivalente textual de um aceno feito com o cotovelo: seco, automático, socialmente aceitável, mas semanticamente vazio.
Assino por baixo – com um 💀, claro.
Durante as aulas que tive de semiologia, nos anos 70, tudo parecia mais claro. O modelo era elegantemente linear: emissor → canal → recetor – com “p” mudo, como os dicionários antigos mandavam antes do AO90. Agora temos o mesmo circuito, mas com ruído, sarcasmo e um algoritmo a intermediar a ironia. O canal é o WhatsApp, o recetor é um Gen Z que se expressa em caveiras e o emissor sou eu – um boomer de dicionário na mão, o Unicode aberto noutro separador.
E no epicentro deste ruído geracional… o emoji.
Emoji: signo, ruído, ou performance?
Os emojis são a nova pontuação emocional. Ou então são o colapso final da linguagem simbólica. Depende da qualidade do vinho e da bateria do telemóvel.
Segundo o meu “Guia Boomer de Emojis com Intenção Literária”: 🤭 = Ironia leve; 😂 = Tentativa desesperada de parecer cool; 💀 = Gargalhada autêntica.
A caveira agora ri.
Descartes deve estar a dar voltas no túmulo – com uma lágrima de riso no olho.
Mas como explicar tudo isto sem parecer um professor reformado que se perdeu no grupo de WhatsApp da família? A resposta é: com dificuldade. Coloca-se um emoji aqui, outro acolá, como quem agita bandeiras numa névoa de notificações, e reza-se para que do outro lado ninguém leia ao contrário. A dúvida? Já não paira – instala-se, como aquela atualização do sistema que ninguém pediu.
Semiologia embriagada
Escreveu Barthes que o sentido se constrói por camadas. Agora é por stickers.
O signo não é só flutuante – é um alcoólico pessoano: “bebi qualquer coisa como três copos de aguardente”, escreveu Álvaro de Campos na Tabacaria. E assim tropeça, ri e nunca chega inteiro a casa.
O emoji, como signo, já não comunica – sugere. Ou melhor: confunde. É o equivalente digital de um olhar de esguelha. Mesmo assim continuamos a usá-lo, como monges a pintar iluminuras, convencidos de que aquilo vai sobreviver ao dilúvio.
Um boomer, um Gen Z e um bosquímano entram num bar
E ninguém entende o que o outro está a dizer.
O boomer manda um 👍. O Gen Z responde com 💀. O boomer acha que está a ser ameaçado de morte. O Gen Z está a rir-se. O bosquímano, provavelmente o único ali com uma relação saudável com os signos, acende a fogueira – e lança gestos de fumo. Que não se confunda com meros sinais. O fumo do bosquímano é signo: tem intenção, direção e leitura partilhada. Já o fumo de um incêndio em Seia, por mais dramático que seja, é apenas sinal.
A diferença? O bosquímano quer dizer algo. O fogo, nem por isso.
Conclusão (ou mais uma tentativa de mandar sinal)
A linguagem morreu, sim. Mas como qualquer morto ilustre, continua a ser citada, homenageada e usada como referência em crónicas metalinguísticas.
E se ainda conseguimos mandar uma caveira a alguém e receber de volta um coração amarelo (💛 = afeto neutro, certificado para avós), talvez reste ali um último sopro de vida nos circuitos do canal.
Talvez a linguagem não tenha morrido. Talvez esteja apenas em coma linguístico, ligada à máquina pelo emoji certo, enviado na hora certa. Será que ainda sabemos traduzi-los?
A semiologia? Está sentada num banco de emojis – à espera de uma reação.
🤭
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