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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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26
Jul25

Ritual

Coimbra (2).jpg

 

 

 

Os sons da cidade espalham-se ao raiar da aurora. É o som da civilização cansada a fingir que desperta.

O som inebriado dos estudantes que, por dois semestres apressados, tomam de empréstimo a noite de uma cidade que nunca será inteiramente sua. Mas que parece pertencer-lhes por instantes.

Alguns sons não têm morada. Passam. Apenas passam.

Os pássaros cantam, ignorantes da tragédia planetária. Há gente que acorda, olheiras fundas e pão com manteiga na mão. O sol levanta-se, belo e cruel, marcando o fim da pausa e o regresso à rotina do desassossego.

Pelas seis e meia, ouve-se a voz grave dos que saem cedo – passos ritmados no passeio, botas pesadas a anunciar mais um dia igual.

Um carro ou uma motorizada sulca, de tempos a tempos, o silêncio espesso das ruas – deixando atrás de si o ronco quente do motor e o bafo do tubo de escape.

Vêm os homens da construção pelas sete e pouco, sacudidos pelas curvas dos autocarros suburbanos ou, com sorte, na carrinha velha onde se ouve o rádio do empreiteiro.

Logo a seguir, são as empregadas de limpeza, que partem cedo das suas terras e, como quem cumpre um ritual, desaguam na Baixa e se mantêm em grupos – grupos que se desfazem ao longo do percurso –, conversando, alto e sem pressa, sobre os maridos cansados, os mais velhos que já pouco dizem, e a prima que arranjou lugar na padaria.

Nas ruas circula o cheiro inconfundível do pão quente, a caminho das pastelarias e cafés ainda fechadas ao mundo. A cadeia de abastecimento junta-se ao burburinho matinal.

Já se veem os que servem o café a dispor as mesas na esplanada – como soldados sonolentos de um ritual quotidiano.

Depois, a cidade adensa-se: buzinas nos engarrafamentos, autocarros que quase raspam em tudo o que se move – e também no que não se move. Diz-se que há de vir o metrobus, com a sua via dedicada, por definição. Talvez no fim do ano… se Deus quiser.

Acordam os habitantes da cidade: casais jovens e os que tentam sê-lo, em marcha apressada para deixar os filhos na creche, na escola – ou, com aquela dedicação parental que já roça o absurdo, na universidade.

E ouvem-se também, das janelas entreabertas, os murmúrios dos mais velhos, insatisfeitos – alguém suspira pela vida que poderia ter sido... e já não será.

Os passos dos trabalhadores do comércio apressam-se – o horário de abertura é às nove, nalguns casos às dez, como é hábito nas cidades de nuestros hermanos.

E depois vêm os funcionários, rostos conhecidos dos balcões, dos carimbos e dos crachás – cada um fiel ao seu pequeno caos. E à ajudinha da cápsula compatível com Nespresso.

O som alastra. Primeiro murmúrio, depois clamor. A cidade parece ganhar forma – sobrepõem-se rotinas, funções, rostos de todas as idades, sotaques familiares e línguas que ela ainda está a aprender a ouvir.

Gente que caminha lado a lado, ou se cruza, trocando olhares e, quando o acaso permite, um "bom dia" distraído.

Dizem que é o som de uma cidade a ganhar tino. Talvez seja só ruído. Mas seguimos, como sempre, até à próxima esquina.

 

27
Jun25

Cidades por Fazer

Construir uma casa — gesto antigo — é imaginar abrigo para o corpo e cenário para a vida.

 

 

 

O corpo e o abrigo

Não será tão primitivo como o pão, esse sustento primeiro, mas vem logo a seguir: antes da saúde, antes da educação, antes da paz. O abrigo é o que vem depois da fome — é onde se dorme, se ama, se chora. Onde se resiste. Onde, apesar de tudo, se inventa uma vida possível.

Pão. Habitação. Saúde. Educação. Paz. Os cinco dedos da dignidade humana. Se faltar um só, a mão já não consegue segurar o mundo. No entanto, no século XXI, este século tão nosso e tão avançado, o abrigo volta a escapar aos dedos de tantos — e com ele, a ideia de casa, de chão firme.

A exclusão habita muitas formas. E muitos nomes, nas diferentes geografias da língua portuguesa: bairros de lata, favelas, musseques, cidades de caniço. Mas os nomes não são neutros. Nomear é já interpretar. As palavras que usamos — os nomes que atribuímos a esses lugares onde vive a exclusão — moldam o modo como os vemos. Alguns nomes evocam fragilidade; outros, resistência. Uns apontam o caos — crime, desordem, abandono; outros falam de pertença, de economia interna, de formas de vida que se sustentam, apesar de tudo.

 

A cidade que foge

Sob viadutos. Em terrenos baldios. No alto dos montes, por caminhos de terra batida — ressurgem formas de habitar que julgávamos desaparecidas. Como as retratadas por Ettore Scola, no cenário  grotesco e absurdo de Feios, Porcos e Maus (1976): um casal endurecido pela vida, a roupa a secar ao vento, com outdoors e autoestradas por horizonte. A pobreza ao lado da abundância. E a cidade ali, tão perto — e tão longe.

 

Feios, Porcos e Maus.jpg 📷 Fotograma de Feios, Porcos e Maus (1976), de Ettore Scola. © Titanus. Imagem obtida via IMDb.

 

Regressemos a Portugal. Nos anos 90, o PER — Programa Especial de Realojamento — tentou responder. Realojou cerca de 34 mil famílias em todo o país, alterando de forma profunda o mapa da habitação precária. Foi uma estrutura de missão. E foi eficaz. Mas o futuro-presente exige compromissos que resistam ao tempo — mesmo quando nascem com data marcada para acabar.

Hoje, voltam — diferentes no aspeto, no próprio contexto económico: novas formas de precariedade. Espalham-se como cogumelos nos interstícios da cidade apressada, feita de consumo e de serviços.

Contentores adaptados. Garagens sem janelas. Quartos miseráveis, sobrelotados. Beliches subarrendados — por pequenas fortunas — a imigrantes ou estudantes. Jovens casais retidos em casa dos pais, sem chave para o futuro. Precariedade invisível — dispersa, escondida, silenciosa. Espaços sem nome, sem plano, sem dignidade.

Ao mesmo tempo, nos centros urbanos, acumulam-se edifícios devolutos. E há também áreas sem rumo — fragmentos expectantes, por costurar. Zonas isquémicas do território, onde a circulação da vida não chega.

 

Costurar o futuro

A resposta não é apenas construir mais — é reconstruir sentido. É serzir, ponto a ponto, ambientes habitáveis para os nossos sonhos acordados. É costurar uma cidade com redes: de água, luz, escola, jardim. Mas também com redes humanas — feitas de proximidade, partilha e compromisso.

Só quando os olhares que se cruzam forem mais frequentes do que os desvios de olhar, e as vozes que acolhem mais fortes do que as vozes que humilham e deportam, a cidade deixará, finalmente, de ser promessa adiada. 

 

05
Mai24

Ruralidade e Lentidão

Rural.jpg

Exploram-se aqui tensões entre o rural e o urbano, e, bem assim, o modo como essas tensões se manifestam nas práticas diárias e na adaptação cultural de quem migra entre estes dois mundos.

 

Há quinze anos, pela primeira vez na História, cinquenta por cento da população mundial passou a viver em cidades. Uma projeção das Nações Unidas refere que, em 2050, setenta por cento dos habitantes do planeta viverá em zonas urbanas – o que equivale a 6,7 mil milhões de pessoas. Este fenómeno de rápida concentração não só altera o cenário demográfico, mas também intensifica a procura e a pressão sobre as infraestruturas urbanas.

A cidade pode ser vista como um conjunto de redes: as vias, o abastecimento de água, a distribuição de energia… Sobre estas redes assentam edifícios e pessoas. E é neste espaço intrincado que se exercem as diversas atividades humanas: a atividade económica, a habitação, os serviços públicos, o lazer e a mobilidade. As redes e atividades refletem a complexidade das dinâmicas humanas.

A cidade é sobretudo o destino daqueles que fugiram da dureza do trabalho no campo.

Quem permanece no meio rural, conhece-o bem. Na cidade, usa-se o relógio; no campo, tem-se todo o tempo do mundo. Quem, no seu vagar, com um acervo de conhecimento empírico do ciclo do sol e do ciclo da água, poderá fazer melhor caracterização do lugar onde vive e trabalha? As diferenças entre campo e cidade, transcendendo contrastes físicos, refletem disparidades significativas no ritmo de vida e nas prioridades.

As pessoas do meio rural que se aproximam da cidade não raro perdem as referências. Na vertigem das ruas e avenidas, sem tempo para assimilar a nova complexidade, os recém-chegados do campo frequentemente injetam hábitos rurais no ambiente urbano, recorrendo a práticas que são reminiscências das suas origens.  Podem viver em garagens transformadas em habitações ou, quando possuem os meios necessários, construir enormes casas entaladas na selva de betão. Em vez dos balcões das Beiras, sabiamente virados ao sol e ao sul, instalam marquises de alumínio orientadas para onde der mais jeito, no meio da frieza urbana.

A transferência de uma cultura do ambiente rural para o contexto urbano transporta consigo a lembrança de hábitos de merceeiro, em que o entendimento de contas se limitava a lidar com fiados. Em pastas de arquivo com argolas os recém-chegados juntam, para toda a vida, os registos dos seus parcos negócios; e, debaixo do braço, transportam pastas idênticas para as reuniões do condomínio, de que, inesperadamente, se tornam administradores. 

 

30
Abr24

Minimalismos

Casal beijando-se.jpg

Na cidade, onde o ruído constante das notícias reduz complexidades a meras manchetes, emerge uma pequena história de intromissão.

A Baixinha medieval, com a sua aparência enganosamente simples, é na verdade um labirinto de esquinas que narram episódios diversos, refletindo o pulsar de um burgo cuja aparente naturalidade esconde um emaranhado de desorientações amplificadas pelo enviesamento mediático.

 

Entre murmúrios e meias-verdades, um jornal abandonado numa mesa de café capta a atenção, revelando uma ocorrência intrigante:

Últimas notícias: Numa operação coordenada, elementos da polícia detiveram ontem na Baixinha um indivíduo do sexo masculino, alegadamente por tráfico.

Esta ação coordenada das autoridades, de notável eficácia, traz ao de cima uma linguagem que merece análise mais profunda.

Acontece que, na gíria das forças policiais, os seus membros são designados por “elementos”, ao passo que os membros da sociedade civil, incluindo os alegados traficantes, são referidos como “indivíduos”. Tal distinção, que não exclui a possibilidade de qualquer grupo conter elementos envolvidos no tráfico, destaca o modo como as palavras podem moldar a perceção de uma narrativa sobre segurança pública.

Na cidade antiga, onde as ruas se entrelaçam em segredos, o mistério sobre a natureza do alegado tráfico permanece. Será tráfico de influências? De armas? Quiçá de animais selvagens? De órgãos? Ou ainda de droga? Ao fim e ao cabo, o indivíduo detido pela polícia é um suposto traficante. Contudo, nas vielas apenas perdura um eco genérico e aberto das ações alegadamente praticadas...

Vale a pena apontar um pormenor da notícia que poderia passar ignorado se não carregasse um tom discriminatório. Para quem lê sem intuitos voyeuristas, que importância tem o sexo masculino do indivíduo detido? Será que as suas características físicas e genéticas, como a presença de cromossomas XY, foram consideradas no momento da detenção? Ou que apenas o estilo e a aparência foram registados pelas autoridades ou inferidos pelo jornalista? E, afinal, que diferença faz ele ser homem, caucasiano, português, muçulmano, social-democrata ou adepto do glorioso?

Estas reflexões sobre linguagem e diferenciação levantam uma questão maior: não seria o minimalismo mediático, politicamente mais correto, uma forma de evitar tais diferenciações e julgamentos problemáticos? No entanto, a busca de um minimalismo mediático politicamente correto levanta a interrogação: poderá a simplificação chegar ao ponto de roçar o absurdo?

Perante estas indagações, imagine-se então reduzir a notícia ao seu mais puro esqueleto informativo:

Numa operação coordenada, elementos da polícia detiveram ontem na Baixinha um indivíduo, alegadamente por tráfico.

Sem sexo, sem género, sem quaisquer outros pormenores – o mínimo dos mínimos.

Neste cenário, o “minimalismo” torna-se uma “arte de subtração" em que menos informação pode não significar mais clareza, mas sim o vazio informativo. É no vazio que o ridículo se cruza com a reflexão. Ao serem retiradas camadas de contexto, resta da história apenas uma cápsula sem recheio.

A ironia reside na conclusão de que, por vezes, omitir em demasia pode resultar numa mensagem depauperada, em que a ausência de detalhe conduz à esterilidade.

 

Desenho de jovem casal numa esquina da cidade, beijando-se. Conceito minimalista.

 

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