Sermão às Pedras da Calçada
Uma pregação laica sobre a cidade, dita às pedras e ouvida pelo tempo.
Tudo começou com um sermão – não no púlpito, mas sobre a calçada de uma praça imaginária. Foi ali que nasceu a Cidade sem Tino: sem ser por vontade divina, mas sim por curiosidade terrena — esse gesto de olhar para o chão e perguntar o que as pedras pensam de nós. O Sermão às Pedras da Calçada inaugurou este espaço com a inquietação de quem fala à matéria inerte, esperando resposta. Entre a ironia e a fé no humano, traçava, desde então, o rumo desta cidade: pensar o quotidiano, desmontar o absurdo e, quando possível, devolver-lhe o riso. Hoje, as pedras continuam – mais gastas, talvez. As falácias multiplicaram-se, mudaram de pele, assumiram formas mais subtis. Mas há também passos novos, mais atentos. Por isso, republica-se este sermão – com reformulações discretas – não como relíquia, mas como lembrete de que até o chão pode ser lugar de pensamento.

Numa praça deserta, sob o sol do meio-dia, o calor eleva-se do empedrado em ondas invisíveis, e o silêncio adensa-se entre fachadas imóveis. Um pregador põe os olhos no chão e, com voz aveludada, desafia as verdades aceites.
Ó pedras da calçada,
vós que revestis o chão da cidade não apenas como adorno, nem como mero suporte para os passos apressados dos transeuntes, sois as guardiãs do tempo, da memória, das nossas histórias e dos desafios contemporâneos. Sois testemunhas silenciosas das escolhas que moldam o quotidiano e dos desafios que se acumulam a cada esquina.
Ao observarmos o mundo
transformar-se num mar de falácias, questionamos: será falha vossa, que não empedrais firmemente, ou da terra, que não se deixa empedrar? Será porque os novos pregadores proclamam a verdade enquanto praticam a hipocrisia, ou porque os acomodados escolhem seguir os exemplos corruptos em vez das palavras íntegras?
Vós, pedras,
que conheceis cada canto da cidade, formais a verdadeira ágora onde se manifestam as angústias e alegrias dos cidadãos. Sois humildes na essência: guiando os passos da gente comum, mostrais mais atenção à realidade do que à vaidade das poses encenadas. Como netas das imponentes catedrais que escreviam a História em pedras de grande formato, unis o antigo e o contemporâneo em cada rua, em cada praça. Triunfais sobre o torpor dos espaços por calcetar.
Ainda assim, ó pedras da calçada,
urge que não permaneçais apenas como testemunhas mudas e vos ergais contra as adversidades que assolam a nossa cidade. Levantai-vos contra os tanques que cruzam o empedrado, tentando expandir a sua influência ou impregnar a vossa natureza com uma visão hierárquica da cultura. Vede como o musgo do preconceito e da discriminação, que cresce silenciosamente entre vós, cria barreiras invisíveis que segregam os passos de pessoas de diferentes cores e origens. Vós, que devíeis unir, tornastes-vos, sem querer, divisoras do caminho, favorecendo uns em detrimento de outros. Não permitais, ó pedras, que, por astúcia interesseira, raízes daninhas se entrelacem sorrateiramente, enfraquecendo a terra que vos sustenta e usurpando as casas a que ofereceis acesso.
Vós, que fostes assentes
uma a uma com cinzel e martelo, pela mestria de quem zela para que nenhuma saliência cause tropeço, estai atentas à erosão das fundações, essa imperfeição disfarçada sob o polimento da legalidade. Lutai contra o abuso de prerrogativas que vos despoja do vosso pó e da areia fina para proveito próprio. Levantai-vos contra os culs-de-sac e outros impasses infrutíferos da justiça eclipsada.
Vivei, ó pedras,
em consonância com as pessoas, a fauna e a flora. Suportando o peso da vida que vos envolve, abraçai o desafio climático com a firmeza de quem sustenta o mundo passo a passo. E, mesmo que permaneçais mudas, deixai que o vosso silêncio fale mais alto do que os gritos da ambição vazia.
Tenho falado convosco
como quem fala ao tempo. Nem sempre sei se me escutais, ou se estas palavras se perdem entre os passos e o pó. Mas creio que, mesmo mudas, vós sentis quando algo se desloca no fundo da cidade – como um pressentimento que antecede o desabamento ou a sementeira.
Despeço-me, então,
ó pedras da calçada, com uma exortação final: continuai a sonhar e a inspirar sonhos, pois em vós reside o potencial de mudar destinos. Recordai o que diz o poeta e deixai que a música, simples mas poderosa, flua. Sonhai, pois, e sabei que o mundo se move e avança, como pedra “colorida entre as mãos de uma criança”.
La la la ra la ra ra.
- O Sermão de Santo António, que inspirou este texto, foi pregado por António Vieira, na cidade de S. Luís do Maranhão, ano de 1654, três dias antes de o autor embarcar ocultamente para o reino, a procurar o remédio da salvação dos índios.
- No Speakers' Corner do Hyde Park qualquer cidadão pode discursar. Há a crença de que o orador, ao permanecer sobre uma cadeira ou caixote, não pisa solo inglês, estando por isso isento das leis e tradições – uma noção pitoresca, mas sem fundamento.
- Pedra Filosofal é um poema de António Gedeão, publicado em 1956, que fala da capacidade humana de sonhar e transformar o mundo. Em 1970, Manuel Freire fez do poema canção, que rapidamente se tornou um hino de resistência.
- Há pedras que sonham. E, às vezes, por entre as juntas, desponta qualquer coisa maior.
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