O Feitiço do Aprendiz

"You’re fired!" era apenas uma frase televisiva. Dita com ar triunfante por um apresentador que, semana após semana, punha fim à carreira de um aprendiz de empresário. Era um ritual do entretenimento. Era The Apprentice.
Durante mais de uma década, esse apresentador, também produtor e juiz, foi líder absoluto no estúdio. Bastava-lhe a frase. Um corte seco de câmara. Um olhar ensaiado. E a autoridade impunha-se. O efeito não vinha da decisão, mas da encenação. O poder vivia na pose, no ritmo do silêncio, no gesto estudado. Tudo estava sob controlo.
Como tantos reality shows do nosso tempo, este também transbordou do pequeno ecrã. Quando atravessou a fronteira para a política real, o apresentador levou tudo consigo: a personagem, o estilo, a frase. Teatral. Arbitrário. Feito de efeitos rápidos e meias-verdades encenadas. Passou a cortina com um arsenal mediático e uma frase-feitiço que meio mundo conhecia.
"You’re fired!", a frase mágica, parecia bastar para impor vontade. Rapidamente tornou-se maior do que o novo aprendiz de feiticeiro que a proferia. Despedir deixou de ser um ato administrativo. Passou a ser uma fórmula de autoridade instantânea. Invocada vezes sem conta. Idolatrada. E com isso ganhou vida própria. Transformou-se numa ameaça real para o sistema democrático que a tinha acolhido sem resistência.
Esse aprendiz de feiticeiro, agora investido de poderes reais, encolheu o Estado à medida do seu ego. Eliminou empregos. Desmantelou serviços essenciais de saúde, educação e apoio humanitário. Tal como num lance de xadrez, capturou a Justiça en passant. Sem compreender o perigo, chamou feitiços que escapavam ao seu entendimento. Declarou guerra tarifária à China, à União Europeia e ao mundo. Provocou retaliações em cadeia. Deteve e expulsou imigrantes em massa. Provocou disrupções nas cadeias de produção e um caos social que avançou sem travões. Militarizou discursos. Ordenou bombardeamentos sem consulta nem consenso. Deslegitimou o sistema eleitoral.
A vassoura encantada já começava a rodopiar sozinha.
O aprendiz, desde o início, abandonou o multilateralismo, trocando-o por uma diplomacia de ocasião. Feita de promessas voláteis. De vantagens imediatas.
Achou que podia despedir tudo e todos: juízes, jornalistas, eleitores — até a própria democracia.
Como no poema de Goethe, despertou forças que não compreendia. A democracia, como a vassoura encantada, seguiu em frente. Surda ao comando de quem lhe lançara o feitiço. Será que alguém com raciocínio esquemático e vocabulário limitado pode mesmo compreender as subtilezas de contextos complexos? Então, os efeitos colaterais não tardaram a manifestar-se. Seguiram a sua própria lógica. Discreta, mas implacável.
Nada disto é novo. Entre democracia e demagogia, o caminho pode ser curto. A República de Weimar era uma democracia. E mesmo assim deu lugar ao totalitarismo. De lá à Venezuela, passando por Itália, Hungria e Turquia, aprendizes imprudentes invocaram forças que não controlaram. Deixaram para trás ruína institucional, social e moral.
Enquanto se distraem e se deixam entreter, as democracias correm o risco de confundir o espetáculo com soberania.
Mas toda a peça grotesca tem o seu ato final. E, como nas grandes tragédias, os papéis invertem-se no fim.
É então que a democracia regressa ao palco. Não como figurante, mas como protagonista.
Ergue-se, firme. Não há aplausos. Apenas o silêncio espesso de um palco que já viu demais. Enfrenta a câmara invisível com a gravidade de quem foi ferida, mas não vencida.
E pronuncia, com a dignidade que só a justiça tardia conhece, a frase que sela o destino de quem se julgava acima da lei:
"You’re fired!"
Nota: Ilustração de Nelson Cruz para o poema O Aprendiz de Feiticeiro de Goethe.
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