Grupo de Trabalho sobre a Realidade
Uma breve ficção administrativa sobre a fragilidade da realidade como conceito partilhado.
Reuniram-se numa sala absurdamente iluminada, onde garrafas de água minúsculas se alinhavam com precisão militar.
O objetivo era decidir se, na sua forma atual, a realidade ainda fazia sentido.
Havia quem defendesse que já não se justificava usar a palavra. Outros propunham mantê-la, mas apenas com inicial minúscula e com um asterisco.
O presidente da comissão, um homem grisalho com voz educada, falou do custo de manter uma realidade partilhada. Era difícil atualizá-la em simultâneo para todos os utilizadores.
– O atraso médio entre o acontecimento e a compreensão ultrapassa já os três anos – disse, com a naturalidade de quem apresenta estatísticas de trânsito.
Uma jovem analista questionou se seria possível conviver com versões personalizadas:
– Cada cidadão teria direito à sua própria realidade, devidamente validada por algoritmo reconhecido pelas autoridades competentes.
– E se as diferentes realidades forem incompatíveis? – quis saber alguém.
– Serão toleradas – disse-se, com a solenidade metódica de quem ignora o sentido do que aprova.
No fim, optou-se por manter a realidade – com reservas, claro.
Aceitou-se que há zonas lentas, zonas cegas e zonas suspensas.
Ficou decidido que qualquer proposta de atualização deverá ser submetida com, no mínimo, 30 dias de antecedência.
Ficou acordado que a palavra “realidade” passará a ser usada com a delicadeza de quem segura uma bomba-relógio embrulhada em papel de seda.
Não se discutiu, contudo, se a realidade estava interessada em ser mantida.
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