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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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15
Set25

O Senhor no Lavatório

 

 

 

Na área de serviço, um QR code brilha no frio da luz branca. O código pergunta:

Como foi a sua experiência neste WC?

Um Senhor olha. Não responde. Não por falta de opinião, mas por excesso de realidade. Responder seria admitir que houve experiência, um acontecimento digno de ser registado – ou medido. O Senhor desconfia.

Há quem diga que, ao décimo inquérito, se recebe um vale para detergentes. O Senhor pensa que, se a promoção for para sabonete líquido, talvez valha a pena mentir.

O espelho está limpo, mas distorce. O Senhor vê um homem cansado que se parece com ele. Já não sabe se veio aqui lavar as mãos ou lembrar-se de quem era. Há dias em que até o reflexo hesita. Uma memória antiga pisca-lhe ao fundo da retina: um lavatório de infância, sabão azul e branco, a toalha da avó.

Outro homem, anónimo, pergunta: “E se o QR code for uma porta para o multiverso sanitário?” A pergunta é absurda. Como todas as boas perguntas.

Alguém imagina o futuro: o autoclismo exige autenticação por chave móvel digital. A higiene é uma operação administrativa. O Senhor prefere a velha torneira com falta de pressão. Pensa: e se fosse o WC a avaliá-lo? “Utilizador 328. Tempo de espelho excessivo. Enxaguamento insuficiente.”

O Senhor repara que está a ser vigiado por um dispensador de papel. Recorda um verso antigo sobre dignidade. Surge um poeta. Escreve sobre papel higiénico reciclado. Ténues Folhas de Esperança: Crónicas de uma Desintegração Prematura.

O filósofo do entupimento, se existisse, diria: “O corpo só se revela na solidão do cubículo.” O Senhor concordaria. Mas não verbalmente.

Entretanto, num escritório cinzento, algures, alguém analisa gráficos sobre espuma, fluxo e fricção. Distopia em estado líquido. A sanita, silenciosa, observa. O QR code sorri. A preto e branco.

É a sondagem do país real. De lavatório em lavatório. De sanita em sanita.

A luz branca zune no silêncio. A torneira pinga. Ele ainda está ali, de pé, junto ao lavatório, quando o telefone vibra no bolso.

“Boa tarde. Fala Lurdes Patrícia, da Satisfação das Necessidades Orgânicas. Esta chamada está a ser gravada.”

O Senhor desliga. Diz, com firmeza contida:

“Deixem pelo menos a casa de banho livre do capitalismo digital.”

O QR code espera. Sem pressa.

 

faruk-otkur.jpg

Uma memória antiga pisca-lhe ao fundo da retina. Foto: Faruk Otkur. Publicada em 2020. Via Unsplash.

 

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