Onde está a minha Tribo?

Em caminhos que atravessam florestas de solidão, cada passo é uma oportunidade de forjar ligações e descobrir significados.
Há quem viva
sem se filiar em partidos ou religiões, nem se deixar levar pelo entusiasmo dos estádios. Evitando espaços onde tradições e ideologias são já sombras gastas do vasto horizonte da experiência humana. Percorrer desertos ideológicos não é uma fuga ao vento, mas uma forma de o enfrentar – com a pele exposta à brutalidade da beleza e à descoberta daquilo que, mesmo invisível, nos une.
As árvores de inverno,
nuas e solitárias, encarnam essa resistência tranquila: enfrentam o frio não com desespero, mas com a dignidade de quem encontra revelações no silêncio. O seu isolamento evoca uma coragem coletiva, uma celebração de identidade. Afinal, a moral não se forja em dogmas, mas na textura da própria existência – esse tecido vivo e interligado que resiste mesmo às distâncias percebidas.
Talvez por isso tenha nascido
duas vezes. A primeira, no rés-do-chão de uma casa de habitação na Rua Luciano Cordeiro, como rezava a cédula pessoal. A segunda, aos 16 anos, quando a leitura compulsiva de Sartre e outros autores despertou uma fome de pensamento que desarrumava a adolescência. Mas esse segundo nascimento não ficou ancorado no passado – reaparece sempre que a liberdade se insinua – trazendo consigo o peso silencioso da escolha. Renasço sempre que me volto para o silêncio, recusando o conforto das certezas prontas.
Os professores, os colegas
e os amigos – inteligências inquietas – moldaram-me. As circunstâncias também deixaram a sua marca, com a paciência (ou impaciência) do tempo. Tribos informais surgiam nos intervalos, em cafés, em ideias partilhadas que sabiam ser maiores do que as palavras. Nunca foram multidões, mas constelações – breves encontros de luz num céu interior.
Onde está, então,
a minha tribo? Talvez não se veja. A tribo não é um lugar fixo, nem um grupo fechado – é um reconhecimento mútuo. As árvores isoladas no frio não estão verdadeiramente sós: as suas raízes entrelaçam-se na rede subterrânea que sustenta o ser.
A minha tribo vive aí
– no invisível que persiste.
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