O Narcisista
Há quem volte para governar. Outros regressam para repetir o número. Neste ato, o protagonista é aplauso de si mesmo, produtor da crise e herói da sua própria invenção. Um exercício de vaidade com roteiro de vingança.
Ele não regressa. Repete-se. Não volta ao poder – volta ao palco. A sua ausência foi apenas um intervalo mal interpretado.
No segundo ato, a encenação aperta. A luz é mais crua; o cenário, mais pobre; os gestos, mais nítidos. O que antes parecia improviso é agora vingança com guião. O erro do passado foi confiar nos filtros. Agora, filtra-se tudo – menos a raiva.
Uma vítima foi a estatística. A matemática contrariou o enredo e foi despedida. O número passou a ser suspeito. A verdade entrou em período sabático. Ainda não regressou.
Depois, a dissidência institucional. Quem recusa o roteiro sai de cena. O investigador que investigava demais. A jurista que leu a lei. O técnico que não quis maquilhar relatórios. Todos removidos com a mesma lógica: deslealdade à personagem principal. Não se trata de funções – trata-se de fidelidade.
Lá fora, o mundo é mercado. O desacordo, um número. A ameaça, uma percentagem. A diplomacia, um balcão de trocas diretas. Um elogio adia. Uma crítica acelera. Até o inofensivo pode tornar-se risco – basta uma etiqueta nova. A crise é fabricável. Desde que tenha o nome certo.
No centro de tudo, a sala. Não é um gabinete – é palco. A forma como se entra. O gesto ao sentar. O silêncio antes da fala. Tudo é dirigido. O visitante, público. A conversa, peça. O protagonista, constante.
As instituições tornam-se adereços. A legalidade, efeito especial. A linguagem cresce em volume e desaparece em significado. O tom apocalíptico consome tudo. Só ele pode salvar o que ameaça destruir.
Não governa. Representa. O discurso não convence – comove. A plateia não discute – aclama. Duvidar é má educação. A complexidade, inimiga.
O homem acredita ser necessário. Age como tal. Cada gesto é o ensaio de um destino. Cada erro, culpa de outro. Cada verdade, adaptável. Há algo de religioso na forma como se oferece como resposta. E algo de vaudeville na forma como tudo o resto é encenado.
O protagonista nunca sai de cena. Mesmo quando cai o pano, continua a acenar.
E nós, deste lado, assistimos – o próximo ato já começou.

Olha como quem vigia. Espera como quem já decidiu o final.
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