O Delírio das Estrelas
Sempre se disse que os marcianos eram verdes. Nunca se soube porquê.
É uma daquelas verdades absolutas, aprendidas na escola primária, para nunca mais serem questionadas.
Poderá hoje duvidar-se desta certeza.
Ir a Marte...
(…) amar-te, assim, perdidamente
É seres alma, e sangue, e vida em mim
(Florbela Espanca, 1931)
Subitamente, no horário nobre
A primeira vez em que se falou em “libertar Marte” foi num tweet do presidente Ronald Drunke:
- Vamos levar liberdade a esse planeta de comunistas enferrujados.
Ora tudo aquilo que começa num tweet transforma-se rapidamente numa cerimónia com cobertura em tempo real.
Às 20h00 exatas de Drunke City (D.C.), a transmissão da Fox News é interrompida. Drunke, com o olhar aborrecido de quem acredita que tem de fundar uma nova era galáctica à hora de jantar, assina a Ordem Executiva 422-Z: Reclassificação do Solo Marciano para Fins de Desenvolvimento Residencial Patriótico. A caneta é preta, grande, absurda.
Entra em cena Zylon Husk, Ministro da Inovação e do Caos Governativo.
Com um gesto, ativa um holograma de Marte, em rotação, detalhado, legendado. As crateras brilham em vermelho e dourado. Uma voz sintética anuncia: “Zonas de viabilidade habitacional elevada.”
Mare Acidalium pisca. O símbolo de construção surge com o selo da Grande Amerika.
Drunke levanta-se e declara:
- Vamos colocar a bandeira da Great Amerika em Marte. A seguir, construiremos a Drunke Dune Tower, em Mare Acidalium, para resolver, de forma definitiva e espetacular, a crise da habitação interplanetária.
O holograma mostra a futura torre como se estivesse já no presente. A bandeira agita-se, animada por efeitos especiais. Marte é oficialmente um mercado imobiliário.
Exportar liberdade, taxar a ferrugem
Mas como poderá Ronald Drunk colocar a bandeira da Grande Amerika em Marte?
Muito simples: repetindo até à exaustão que 96% dos marcianos aspiram, acima de tudo, a ter um passaporte da Great Amerika.
Detalhe irrelevante: ninguém sabe quem fez a sondagem.
Enquanto isto, para debilitar a economia marciana, anuncia a modesta taxa aduaneira de 575% sobre todos os produtos vindos do planeta vermelho.
A economia de Marte baseada numa robusta exportação de óxido de ferro, também conhecido por ferrugem, treme com a ameaça de tarifas aduaneiras. Os marcianos, que desfrutam de um razoável equilíbrio económico, começam a sentir imediatamente os efeitos devastadores desta nova política comercial interplanetária.
Com a chegada iminente de visitantes, os habitantes locais, perplexos e talvez ligeiramente irritados com as medidas protecionistas extremas, estão divididos: uns veem nisto a oportunidade perfeita de abrir hotéis de luxo nas planícies marcianas. So beautiful! Outros, suspeitando dos terráqueos desde a transmissão das primeiras temporadas de reality shows da Grande Amerika, erguem cartazes de protesto.
Isabella Marsica, conhecida como Regina Rubra
Um certo dia, à beira da cratera de Pavor Primevo, Isabella Marsica caminhava entre os seus. Estava rodeada de aias e de criaturas magras, de olhos fundos, consumidas pela poeira e pela fome.
O silêncio em redor era de outro tempo. Como se até o vento soubesse esperar.
Zylon Husk, recém-chegado, envolto num traje metálico reluzente, aproximou-se com olhar desconfiado.
— What hast thou there? Que tendes vós aí? — perguntou ele, empunhando o tradutor universal como quem segura um cetro.
Isabella fitou-o com uma calma ancestral e respondeu:
— São cravos, senhor. São cravos.
Do seu colo caíram então cravos vermelhos. Vivos e húmidos, cheirando a primavera.
E os marcianos choraram copiosamente, como quem reencontra na memória o perfume esquecido das revoluções feitas com flores.

Uma selfie descuidada tirada com um smartphone: Husk em Marte com um alienígena (do Arquivo Histórico da Grande Amerika, imagem 14B)
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