Cinco Horas para a Imortalidade

À beira de mais um 10 de Junho — dia de Portugal, de Camões e das Comunidades — impõe-se a ilustração de Hugo van der Ding: um retrato que é certeiro e cruelmente belo do nosso Poeta em plena aflição produtiva. Algures entre a epopeia e o esgotamento.
Lá está ele: coroa de louros — provavelmente sintética — portátil sobre a mesa frágil, chávena esquecida, e o olhar de quem já não distingue entre o ritmo heroico e o batimento cardíaco acelerado pela cafeína. Faltam cinco horas. E o Canto IX.
É ali que deviam entrar as musas inspiradoras, as batalhas navais e — com alguma sorte — uma alegoria moral bem colocada. Mas o tempo escasseia. A folha continua em branco. E a dúvida, essa, alastra.
A despeito de atuar com a diligência exigível face às circunstâncias concretas — conseguirá o prestimoso Luís Vaz atingir os seus objetivos?
O prazo aperta. O ânimo falha. E o manuscrito está longe de pronto. Sobram anotações dispersas: “inserir deusa aqui”, “ver mitologia adequada para esta parte”, “acrescentar glória pátria com subtileza”.
Neste Camões, trabalhador precário, exausto, revemos algo muito nosso: o talento à espera do momento certo, a obra-prima quase feita, o engenho confiado ao derradeiro impulso — esse dom nacional do desenrascanço.
Impressiona saber que até o maior poeta da nossa língua teve dias em que nem as musas atenderam o chamamento. Porque entre a glória e o rascunho há apenas cinco horas — e um poeta a tentar o impossível.
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