Adeus, Bidé – até depois
Uma crónica sobre o declínio (e metamorfose) do bidé em Portugal

Desde janeiro de 2024, o bidé deixou de ser obrigatório nas casas de banho portuguesas. Com o novo Simplex urbanístico (Decreto-Lei n.º 10/2024), bastam três peças: uma banheira ou duche, uma retrete e um lavatório. O Estado assinou discretamente o cancelamento da louça mais emblemática da intimidade doméstica.
A decisão não foi (só) higiénica. Foi também urbanística, económica e até filosófica. O objetivo era libertar área útil e alinhar com hábitos internacionais – fosse isso feito por simplificar projetos ou simplesmente reduzir exigências. Numa palavra: simplificar. E como em quase todas as simplificações, perdeu-se uma coisa – e ganhou-se liberdade.
Portugal descobriu que o bidé não era um objeto: era um estado de espírito. Um vestígio cerâmico de uma era em que a higiene era ritualizada, coreografada e separada por aparelhos. Hoje, a água continua essencial, mas o modo como ela nos encontra ficou ao critério da arquitetura e da imaginação.
Três soluções íntimas perfilam-se para tomar o lugar da velha peça de cerâmica – cada uma com o seu charme (ou ausência dele).
A primeira é o regresso das tralhas hidráulicas. O velho polibain ainda sobrevive nalgumas casas dos anos 80. O seu jato vertical, ora manso ora imprevisível como um poço de petróleo, fez dele um caso de amor e medo. Pouco elegante, mas funcional. Mais convincente é aquela torneirinha com bicha que parece saída de um improviso de canalizador. Popular no mundo islâmico e em ascensão nos mini-apartamentos lisboetas, é barata, simples e eficaz. Pode não ser bonita, mas resolve o essencial: a água chega onde tem de chegar. Como diz o senhor Jorge, canalizador de Massamá, “a água não precisa de GPS”.
A segunda hipótese é a sofisticação japonesa. Durante anos, as sanitas-bidé foram um luxo de hotel de cinco estrelas. Hoje, os modelos com funções básicas custam menos do que uma torneira de autor em latão filosófico. Trazem jato ajustável (frontal e traseiro), ar quente e tampa aquecida. Uma música de piano acompanha o utilizador, caso se demore demais, até ao limite da decência auditiva. Com tecnologia e conforto, a sanita evoluiu para trono digital: para muitos, é a alternativa mais aceitável ao velho bidé cerâmico.
Por fim, há a robustez do mundo sem canalização – lugares onde o bidé nunca chegou, nem tinha razões para chegar. Aí, a higiene íntima é um exercício de destreza: baldes fazem de torneira, a água é racionada com precisão quase cerimonial, e a limpeza segue métodos tão antigos quanto eficazes. Nada de cerâmica nem design – só engenho e necessidade. Nestes contextos, a intimidade não se desenha – resolve-se. E há algo de admirável nessa resiliência: uma dignidade pré-azulejada, sem botão de jato, mas com imenso sentido prático.
Com a nova legislação, Portugal começa a divergir em estilos e escolhas. A construção nova – mais barata e mais compacta – tende a eliminar o bidé sem remorsos. Há arquitetos que preferem torneirinhas discretas, como se fossem segredos hidráulicos. Hotéis apostam nas sanitas-bidé para vender conforto com sotaque internacional. E muitas famílias tradicionais mantêm o bidé, como quem guarda um retrato de família em louça branca.
A casa de banho tornou-se um espelho do que somos e do que deixámos de ser. Na réplica Minimalista Escandinava, a sanita flutua na parede como se rejeitasse o pecado da gravidade – e o bidé não é bem-vindo nem como conceito: sugeri-lo é como servir feijoada num spa. Num T3 Renovado, a entrada de água do bidé poderá ter sido escondida com uma tampa cromada que brilha como uma culpa mal resolvida. Num Hotel Boutique, uma sanita tocará harpa enquanto a tampa se levanta sozinha – só falta agradecer e deixar gorjeta. Numa Casa de Família, há bidé, polibain, banheira e duche: um museu da higiene portuguesa, com legendas imaginárias. No Estúdio para Alojamento Local, a torneirinha é vendida como “conforto oriental”, mas funciona como pistola de paintball para turistas desprevenidos.
O bidé continua presente, mesmo ausente. E essa presença-fantasma define a sua importância. Para uns, é património afetivo. Para outros, um obstáculo hostil. Muitos usam-no como recipiente de cremes, escova elétrica e livros de Sudoku. Uma tia de Alvalade serve-se dele como suporte de plantas “medicinais”. Alguns batem-lhe diariamente com o joelho como quem castiga um parente incómodo. Poucos o celebram. Mas todos o reconhecem.
Mesmo em tempos de sanita inteligente, o bidé clássico guarda uma virtude difícil de replicar: a sua simplicidade mecânica. Sem eletrónica, sem sensores, sem manual de instruções. Só cerâmica e água. Paradoxalmente, talvez fosse a hipótese mais sustentável.
Como qualquer espécie digna de nota, o bidé evoluiu: começou no século XVIII como sela de aristocrata francês. Ganhou estatuto sanitário no século XX. E agora liquefaz-se: torna-se spray, sanita japonesa ou memória.
O bidé não está extinto. Apenas sublimado.
Na era pós-Simplex, a higiene íntima em Portugal passou da obrigação ao design. E cada português – e portuguesa, claro – é agora livre para reinventar o seu ritual: com sensor digital, com torneira improvisada, ou com a memória húmida de uma peça de louça que já não tem lugar, mas ainda diz muito.
Fonte da imagem: United States Patent Office. Patente de John Reid – “Bidet”, arquivada a 5 de dezembro de 1887.
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