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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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Mai25

A Galinha e os Ossos

Crónica de uma escavação interrompida

Terra.jpg

“Galinha ku ta skarva txeu ta atxa os di se ansedadis.”
Galinha que esgravatar demais há de encontrar os ossos dos seus antepassados.
(provérbio cabo-verdiano)

 

 

A sabedoria popular, embrulhada em metáforas improváveis, é muitas vezes mais certeira do que qualquer escrito. A galinha, coitada, esgravata a terra — talvez por fome, talvez por instinto — e, zás, tropeça no osso dos seus próprios problemas. Dramático? Talvez. Mas profundamente verdadeiro.

Nas últimas semanas, no nosso glorioso reino de distrações, têm-se enterrado mais ossos do que num cemitério de dinossauros. Certos temas pareciam, por momentos, bicadas certeiras no chão duro da realidade. Punham a descoberto verdades desconfortáveis. Mas bastou um sobressalto, uma troca de galhardetes mais exaltada, e zás — o assunto desapareceu do poleiro. A opinião pública, sempre ávida por escândalos frescos, já cacareja noutra capoeira.

É curioso como os temas realmente importantes se evaporam. Como se houvesse uma cláusula invisível no contrato social: “Poderás esgravatar, mas não demasiado — sob pena de carregares tu próprio o osso que desenterraste.”

Afinal, esgravatar tem o seu preço. Não só se pode descobrir o que não convém, mas, pior ainda, tornar-se quem incomoda. Há um ponto em que a galinha deixa de ser curiosa e passa a ser tratada como uma ameaça à biossegurança institucional. E aí chegam os falcões do costume: sobrevoam em nome da estabilidade, da serenidade institucional, do bom senso (que, como sabemos, costuma rimar com silêncio).

Deve ser por isso que há quem prefira deixar o chão quieto. Não levantar poeira. Não vá o diabo tecê-las — ou os jornais escavarem mais do que devem. Certos assuntos, pelos vistos, têm prazo de validade mais curto do que um iogurte fora do frigorífico.

Esquecer não é apenas um hábito — é, muitas vezes, um recurso. A sucessão de escândalos em ciclo curto serve, não raras vezes, quem tem interesse em que nada mude. A cada novo episódio, o anterior perde força, perde foco, perde urgência. O escândalo não corrói o sistema — acomoda-se dentro dele, tranquilo, como mais um osso no chão — sem risco de ser esgravado de novo. E assim se recicla o ruído, evitando o incómodo de escavar a fundo.

E nós, galináceos à escuta, vamos bicando o que nos põem à frente. Um escândalo reciclado aqui, uma indignação morna ali. Até esquecermos que, algures, ainda está meio enterrado aquele osso incómodo que uma galinha mais inquieta ousou destapar.

 

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No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
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