O verão americano encenava, mais uma vez, o seu ritual previsível: famílias desfilavam pela Main Street entre carrinhos de bebé e copos gigantes de Diet Coke, fingindo espontaneidade enquanto seguiam o guião comunitário do hambúrguer, da música ao vivo e do fogo-de-artifício.
As crianças corriam em círculos, hipnotizadas por néons e balões. Os pais aplaudiam as bandas com o zelo de festividade local, como se fosse Woodstock. Tudo terminava em selfies, sob um céu salpicado de pequenas explosões – uma celebração tão coletiva quanto coreografada, feita de consumo, pertença e rotina embrulhada em espetáculo.
Enquanto o último brilho se apagava no céu, muito longe dali, um homem despertava. Parecia apenas o início de mais uma manhã em Portugal – não fosse ele ter acordado com a súbita certeza de ser o novo Presidente dos Estados Unidos.
Nunca atravessara o Atlântico. Imaginava o colégio eleitoral como uma escola noturna. Achava que o Capitólio era um teatro no Parque Mayer. E, para ele, fazia todo o sentido. Mas isso era irrelevante. Fora eleito. No silêncio absoluto do subconsciente nacional.
Durante a noite, o Espírito Santo cruzou a América e o oceano. Desceu sobre o território sonhador que dá pelo nome de Portugal – e sussurrou: – Now it’s your time, boy.
Ergueu-se, solene. Recortou estrelas de jornal e colou-as numa touca de banho esquecida no estendal. Chamou-lhe Coroa da Intuição Pública. Saiu à rua com o peito feito decreto.
Sentir é decidir com base no que paira.
Proclamou-se Presidente. Tinha três testemunhas: o padeiro, o carteiro e um grupo de WhatsApp. Este não respondeu. No silêncio, presumiu-se anuência. Democracia silenciosa.
Entendeu que o protocolo exigia um gesto.
Na tarde do mesmo dia, apresentou-se na Embaixada dos EUA. Levava uma Constituição pessoal, escrita a lápis; um caderno espiral com pensamentos interrompidos; e um frasco com os dizeres Legitimidade – Amostra. Esperou que chamassem o segurança. Talvez o embaixador. Mas quem surgiu foi o segundo-secretário.
Abriu ligeiramente os braços, como quem abraça um país invisível:
– Sou o novo Presidente dos Estados Unidos da América – disse, num tom contido. – A eleição foi subtil. Está em plena conformidade pessoal.
Fez uma pausa. O olhar caiu-lhe nos sapatos. Depois, ergueu-se ligeiramente, apoiado nos calcanhares, como quem se prepara para ser ouvido.
– Tomei posse ao raiar da aurora. Com testemunhas. O padeiro. O carteiro. E um grupo de WhatsApp que, embora ausente, não contestou.
O segundo-secretário – jovem, sotaque do Illinois e a cortesia oficial já a ceder terreno – recuou ligeiramente o queixo… como quem tenta adiar o inevitável:
– Sir, do you even speak English?
Ele abanou a cabeça, com tranquilidade:
– Presidir não exige tradução. Basta sentir.
O tempo hesitou. O segundo-secretário olhou em redor, à procura de um manual invisível. Depois compôs o nó da gravata, endireitou-se ligeiramente e sugeriu, com embaraço elegante:
– Talvez… queira regressar noutra ocasião. Mais oportuna.
Ele respondeu:
– A soberania íntima não se discute ao balcão.
Nenhuma porta se abriu. Mas ele considerou-se em funções.
Sem acesso a Washington, instalou-se num quiosque abandonado, junto a um Intermarché periurbano. Cobriu a placa Jornais & Revistas com outra: Casa Branca de Emergência – América Lusitana. Hasteou como bandeira uma toalha de praia. Ali escutava o vento. Decidia a partir dos silêncios. Legislava em papel de embrulho.
A primeira medida: instituir o Dia Nacional da Dúvida Produtiva – a celebrar sempre que o sol hesita ou o multibanco falha.
O diploma foi escrito de improviso e ignorado com solenidade.
Ainda assim, seguiu-se um plano mais ambicioso. Criou um governo.
Havia uma pasta para a Resignação Ativa, outra para o Desenrascanço Institucional e uma agência para a Saudade Aplicada. Fundou ainda um organismo de consulta — que só se reunia quando havia vontade. Ou disponibilidade emocional.
Ninguém aceitou o convite. Nem qualquer cargo. Nem o risco de estar presente num governo que existia apenas no espírito de um homem só. Agradeceram com elegância. Um pôs-se à disposição, mas de fora. Outro sugeriu observar o sentimento geral.
O projeto ficou de pé. Vazio. Sem vozes. Sem cadeiras ocupadas. Só a estrutura. A ideia. E um silêncio que ninguém quis preencher.
Mesmo sem secretários de Estado, acreditava que o impacto seria global.
A comunidade internacional manteve-se em silêncio. A CNN fingiu não ver. A Fox tentou entrevistá-lo – ele respondeu em verso. A entrevista não foi para o ar.
No Twitter da NATO apareceu por engano a frase: Pending confirmation: Lusitana Presidency.
Foi apagada em cinco minutos – tarde demais.
Em Coimbra, o Instituto de Altas Incertezas escreveu: Forma avançada de poder simbólico. Fenómeno não verificável. Intensamente humano.
Agora, ao fim da tarde, regressa sempre ao quiosque. Assina ordens executivas. Fala com formigas – as que se deixam ficar. Risca listas de compras. Não por terem sido feitas, mas porque é mais seguro que se risquem.
Medita. A condição humana cabe num quiosque.
Na porta, um cartaz preso com molas de roupa: Presidente dos EUA em Funções. Aceitam-se dúvidas, sugestões e restos de emoção.
Ninguém na América o conhece. Mas dizem que o país anda menos triste.
E que Portugal, nestes dias, exportou sobretudo silêncio, paciência e alguma hesitação – embrulhados com zelo, remetidos sem pressa e aceites com espanto em corações estrangeiros.
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Quando o poder cabe num papel de embrulho, a presidência torna-se uma ideia – e a Casa Branca, apenas um quiosque coberto de folhas e intenção. Foto: L. Van de Velde