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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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12
Set25

Trump e a Beleza Decretada

Capitólio.jpg

 

 

Donald Trump, esse grande visionário da estética, decidiu dar uma ajudinha à arquitetura: decretou a beleza.

Assinou uma ordem executiva que devolve a arquitetura federal dos EUA à sua verdadeira vocação: ser pétrea, ser simétrica, ter colunatas e ostentar a imitação gloriosa do passado. Adeus, volumes de betão aparente, adeus palas brancas e planos leves, adeus superfícies envidraçadas protegidas por lâminas metálicas. Adeus às formas de Niemeyer, nascidas sob Kubitschek em pleno sobressalto democrático. Bem-vindos de volta, frontões triunfais!

Não é todos os dias que um estadista se dispõe a salvar a beleza com a caneta. Com o marcador grosso. E que beleza! A beleza oficial, normativa, eterna – aquela que não precisa de pensar no clima, no sítio, na função ou nos seres humanos que se servem dos edifícios.

Porque, segundo Trump, a beleza é coisa que se decide na Sala Oval. Nada de modernices ou minimalismos. O que é bonito, senhoras e senhores, é o que se parece com a Grécia ou com Roma! Ou um banco de Wall Street. Ou, por que não, um centro de saúde em Ohio com uma colunata dórica à entrada, ou uma escola primária com frontão triunfal.

Qualquer arquiteto da galáxia se sentirá pequeno diante de tamanha visão. Muitos passam décadas a dialogar com o sítio e com a história, a debater a função, a experimentar materiais e formas, quando, afinal, tudo se resolvia com uma boa cópia do Capitólio.

Ensina-se na faculdade que a arquitetura é expressão do poder. Mas Trump, com a sua proverbial subtileza filosófica, foi mais longe: decretou que ela é a expressão de um gosto só. O dele. Toda a gente acha que o Capitólio é belo. E quem discorda é desonesto e corrupto.

Afinal, já o sabíamos: a democracia pode ser barulhenta, plural, complexa, mas a arquitetura não precisa de acompanhar esse incómodo espírito do tempo. Ela pode, e deve, ser um bloco de mármore – ou de outro calcário –, imune ao tempo, às desigualdades, à crítica. Um monumento, não ao bem-estar coletivo, antes ao ego de quem o manda construir.

E não sejamos injustos. Há algo de comovente nesta cruzada estética. O desejo de ordem, de grandeza, de simetria é tão compreensível quanto infantil. Como quem quer vestir um império com uma ancestral toga romana para disfarçar fundações que cedem em silêncio.

No fundo, Trump presta um grande serviço à arquitetura: obriga a voltar à velha pergunta. A quem serve a forma construída? Aos que mandam ou aos que utilizam? À nostalgia ou à necessidade?

Porque, como escreveu um antigo arquiteto romano, a beleza nasce do equilíbrio. E o equilíbrio não cabe num decreto: constrói-se, como a própria democracia, passo a passo. E nunca, nunca, com marcador grosso.

 

10
Set25

O Chato, a Chata e o Chat

 

 

 

O chato não sabe que é chato. Por isso continua. E talvez a verdadeira chatice esteja justamente aí: nessa pureza cega de quem não duvida do que diz. Porque quem duvida – quem se escuta antes de falar – já se fere por dentro, e um pouco de dor salva-nos do exagero.

O chato acredita que existe porque é ouvido. Quando não é ouvido, aumenta o volume. O silêncio do outro não é percebido como recusa, mas como surdez. A função do chato não é convencer – é continuar. Ele quer atenção, mas não sabe pedir; então constrói um labirinto de frases, na esperança de que alguém se perca lá dentro e o encontre.

A chata é mais perigosa. Porque tem detalhes. E cada detalhe que oferece é uma corda que lança ao outro, como se dissesse: agarra-me por aqui, ou perco-me.

Transforma o pormenor em evento, o ponto final em vírgula, diz trinta palavras onde bastava uma, mas fá-lo com tal convicção que, por momentos, acreditamos que havia mesmo ali qualquer coisa de novo a aprender. Vai dando voltas e reviravoltas até se transformar numa dança que não acaba.

E talvez o outro se canse. Mas ela não. Porque está a tentar nomear o que sente, e o que sente nunca cabe numa frase curta. A chata sofre porque pensa demais no que sente. E continua a desabafar para tentar calar o que não se cala cá dentro. Ainda não conseguiu.

E o chat? O chat é onde os dois se encontram – sem se tocar. É a nova forma da insistência: digital, assíncrona, omnipresente.

É onde o chato continua a fazer-se ouvir, agora sem ouvidos presentes, bastando um olhar fugidio que automatize um "visto às 03h12". Onde a chata pode escrever cinco mensagens seguidas sem que ninguém a interrompa. E pensa que isso é liberdade. Mas talvez seja apenas solidão consentida.

O chat é o espelho onde ninguém aparece refletido. Um lugar onde se fala sem saber se há alguém do outro lado. Mas mesmo assim escreve-se. Porque o silêncio digital não é silêncio: é ausência sem fim.

Em tempos, o silêncio era uma escolha. Agora é bug. É erro do sistema. Nunca se assume que alguém se calou por vontade – apenas que algo falhou.

Então, mesmo sem resposta, o chato envia mais uma mensagem. E a chata reformula de novo o que ninguém perguntou. Há também um sticker com um coração, que não é amor, mas um gesto automático. E o gesto vale mais do que o sentimento. Porque o sentimento exige presença, e o chat só devolve reflexos.

No fim, estamos todos ali. A tentar não desaparecer. A tentar não ser os chatos, nem as chatas, mas a suspeitar que somos. Ainda assim, continuamos. Digitamos. Enviamos. Esperamos.

Talvez ser chato seja isto. Esperar que alguém nos leia como quem escuta um segredo. O mundo não se cala. Mas às vezes o que precisamos mesmo é de alguém que diga:

“Estou aqui. Não precisas de escrever nada.”

 

Chato.jpg

Estudo taxonómico da chatice contemporânea. Espécimes observados em redes sociais, grupos de WhatsApp e chats diversos.

 

01
Set25

Lusitana Presidência

Crónica de um delírio transatlântico em dias de legitimidade flutuante

 

 

 

O verão americano encenava, mais uma vez, o seu ritual previsível: famílias desfilavam pela Main Street entre carrinhos de bebé e copos gigantes de Diet Coke, fingindo espontaneidade enquanto seguiam o guião comunitário do hambúrguer, da música ao vivo e do fogo-de-artifício.

As crianças corriam em círculos, hipnotizadas por néons e balões. Os pais aplaudiam as bandas com o zelo de festividade local, como se fosse Woodstock. Tudo terminava em selfies, sob um céu salpicado de pequenas explosões – uma celebração tão coletiva quanto coreografada, feita de consumo, pertença e rotina embrulhada em espetáculo.

Enquanto o último brilho se apagava no céu, muito longe dali, um homem despertava. Parecia apenas o início de mais uma manhã em Portugal – não fosse ele ter acordado com a súbita certeza de ser o novo Presidente dos Estados Unidos.

 

Nunca atravessara o Atlântico. Imaginava o colégio eleitoral como uma escola noturna. Achava que o Capitólio era um teatro no Parque Mayer. E, para ele, fazia todo o sentido. Mas isso era irrelevante. Fora eleito. No silêncio absoluto do subconsciente nacional.

Durante a noite, o Espírito Santo cruzou a América e o oceano. Desceu sobre o território sonhador que dá pelo nome de Portugal – e sussurrou: – Now it’s your time, boy.

Ergueu-se, solene. Recortou estrelas de jornal e colou-as numa touca de banho esquecida no estendal. Chamou-lhe Coroa da Intuição Pública. Saiu à rua com o peito feito decreto.

Sentir é decidir com base no que paira.

Proclamou-se Presidente. Tinha três testemunhas: o padeiro, o carteiro e um grupo de WhatsApp. Este não respondeu. No silêncio, presumiu-se anuência. Democracia silenciosa.

 

Entendeu que o protocolo exigia um gesto.

Na tarde do mesmo dia, apresentou-se na Embaixada dos EUA. Levava uma Constituição pessoal, escrita a lápis; um caderno espiral com pensamentos interrompidos; e um frasco com os dizeres Legitimidade – Amostra. Esperou que chamassem o segurança. Talvez o embaixador. Mas quem surgiu foi o segundo-secretário.

Abriu ligeiramente os braços, como quem abraça um país invisível:

– Sou o novo Presidente dos Estados Unidos da América – disse, num tom contido. – A eleição foi subtil. Está em plena conformidade pessoal.

Fez uma pausa. O olhar caiu-lhe nos sapatos. Depois, ergueu-se ligeiramente, apoiado nos calcanhares, como quem se prepara para ser ouvido.

– Tomei posse ao raiar da aurora. Com testemunhas. O padeiro. O carteiro. E um grupo de WhatsApp que, embora ausente, não contestou.

O segundo-secretário – jovem, sotaque do Illinois e a cortesia oficial já a ceder terreno – recuou ligeiramente o queixo… como quem tenta adiar o inevitável:

Sir, do you even speak English?

Ele abanou a cabeça, com tranquilidade:

– Presidir não exige tradução. Basta sentir.

 

O tempo hesitou. O segundo-secretário olhou em redor, à procura de um manual invisível. Depois compôs o nó da gravata, endireitou-se ligeiramente e sugeriu, com embaraço elegante:

– Talvez… queira regressar noutra ocasião. Mais oportuna.

Ele respondeu:

– A soberania íntima não se discute ao balcão.

 

Nenhuma porta se abriu. Mas ele considerou-se em funções.

Sem acesso a Washington, instalou-se num quiosque abandonado, junto a um Intermarché periurbano. Cobriu a placa Jornais & Revistas com outra: Casa Branca de Emergência – América Lusitana. Hasteou como bandeira uma toalha de praia. Ali escutava o vento. Decidia a partir dos silêncios. Legislava em papel de embrulho.

A primeira medida: instituir o Dia Nacional da Dúvida Produtiva – a celebrar sempre que o sol hesita ou o multibanco falha.

O diploma foi escrito de improviso e ignorado com solenidade.

Ainda assim, seguiu-se um plano mais ambicioso. Criou um governo.

Havia uma pasta para a Resignação Ativa, outra para o Desenrascanço Institucional e uma agência para a Saudade Aplicada. Fundou ainda um organismo de consulta — que só se reunia quando havia vontade. Ou disponibilidade emocional.

Ninguém aceitou o convite. Nem qualquer cargo. Nem o risco de estar presente num governo que existia apenas no espírito de um homem só. Agradeceram com elegância. Um pôs-se à disposição, mas de fora. Outro sugeriu observar o sentimento geral.

O projeto ficou de pé. Vazio. Sem vozes. Sem cadeiras ocupadas. Só a estrutura. A ideia. E um silêncio que ninguém quis preencher.

 

Mesmo sem secretários de Estado, acreditava que o impacto seria global.

A comunidade internacional manteve-se em silêncio. A CNN fingiu não ver. A Fox tentou entrevistá-lo – ele respondeu em verso. A entrevista não foi para o ar.

No Twitter da NATO apareceu por engano a frase: Pending confirmation: Lusitana Presidency.

Foi apagada em cinco minutos – tarde demais.

Em Coimbra, o Instituto de Altas Incertezas escreveu: Forma avançada de poder simbólico. Fenómeno não verificável. Intensamente humano.

 

Agora, ao fim da tarde, regressa sempre ao quiosque. Assina ordens executivas. Fala com formigas – as que se deixam ficar. Risca listas de compras. Não por terem sido feitas, mas porque é mais seguro que se risquem.

Medita. A condição humana cabe num quiosque.

Na porta, um cartaz preso com molas de roupa: Presidente dos EUA em Funções. Aceitam-se dúvidas, sugestões e restos de emoção.

 

Ninguém na América o conhece. Mas dizem que o país anda menos triste.

E que Portugal, nestes dias, exportou sobretudo silêncio, paciência e alguma hesitação – embrulhados com zelo, remetidos sem pressa e aceites com espanto em corações estrangeiros.

 

Casa Branca.jpg

Quando o poder cabe num papel de embrulho, a presidência torna-se uma ideia – e a Casa Branca, apenas um quiosque coberto de folhas e intenção. Foto: L. Van de Velde

 

24
Ago25

A Linguagem Morreu

Mas ainda responde a emojis

 

 

 

Era uma sexta-feira qualquer, daquelas em que o cérebro acorda como um cursor a piscar à espera de instruções, e, com toda a naturalidade, enviei um “👍” à mensagem de um coleguinha. Um polegar para cima. Um simples gesto digital que, para mim, dizia “estou contigo”. Para ele, aparentemente, aquilo soou a “cala-te, estou velho e cansado”.

A linguagem morreu. Não com um grito, mas com um emoji mal entendido.

E não estou a ser dramático – bom, talvez um pouco. A crónica de Luís Pedro Nunes no Expresso – “OK, o mata-conversa” – não só confirma a morte do discurso como também assina o atestado de óbito com a esferográfica preta de um médico legista. Diz ele que o “OK” se tornou o equivalente textual de um aceno feito com o cotovelo: seco, automático, socialmente aceitável, mas semanticamente vazio.

Assino por baixo – com um 💀, claro.

Durante as aulas que tive de semiologia, nos anos 70, tudo parecia mais claro. O modelo era elegantemente linear: emissor → canal → recetor – com “p” mudo, como os dicionários antigos mandavam antes do AO90. Agora temos o mesmo circuito, mas com ruído, sarcasmo e um algoritmo a intermediar a ironia. O canal é o WhatsApp, o recetor é um Gen Z que se expressa em caveiras e o emissor sou eu – um boomer de dicionário na mão, o Unicode aberto noutro separador.

E no epicentro deste ruído geracional… o emoji.

 

Emoji: signo, ruído, ou performance?

Os emojis são a nova pontuação emocional. Ou então são o colapso final da linguagem simbólica. Depende da qualidade do vinho e da bateria do telemóvel.

Segundo o meu “Guia Boomer de Emojis com Intenção Literária”: 🤭 = Ironia leve; 😂 = Tentativa desesperada de parecer cool; 💀 = Gargalhada autêntica.

A caveira agora ri.

Descartes deve estar a dar voltas no túmulo – com uma lágrima de riso no olho.

Mas como explicar tudo isto sem parecer um professor reformado que se perdeu no grupo de WhatsApp da família? A resposta é: com dificuldade. Coloca-se um emoji aqui, outro acolá, como quem agita bandeiras numa névoa de notificações, e reza-se para que do outro lado ninguém leia ao contrário. A dúvida? Já não paira – instala-se, como aquela atualização do sistema que ninguém pediu.

 

Semiologia embriagada

Escreveu Barthes que o sentido se constrói por camadas. Agora é por stickers.

O signo não é só flutuante – é um alcoólico pessoano: “bebi qualquer coisa como três copos de aguardente”, escreveu Álvaro de Campos na Tabacaria. E assim tropeça, ri e nunca chega inteiro a casa.

O emoji, como signo, já não comunica – sugere. Ou melhor: confunde. É o equivalente digital de um olhar de esguelha. Mesmo assim continuamos a usá-lo, como monges a pintar iluminuras, convencidos de que aquilo vai sobreviver ao dilúvio.

 

Um boomer, um Gen Z e um bosquímano entram num bar

E ninguém entende o que o outro está a dizer.

O boomer manda um 👍. O Gen Z responde com 💀. O boomer acha que está a ser ameaçado de morte. O Gen Z está a rir-se. O bosquímano, provavelmente o único ali com uma relação saudável com os signos, acende a fogueira – e lança gestos de fumo. Que não se confunda com meros sinais. O fumo do bosquímano é signo: tem intenção, direção e leitura partilhada. Já o fumo de um incêndio em Seia, por mais dramático que seja, é apenas sinal.

A diferença? O bosquímano quer dizer algo. O fogo, nem por isso.

 

Conclusão (ou mais uma tentativa de mandar sinal)

A linguagem morreu, sim. Mas como qualquer morto ilustre, continua a ser citada, homenageada e usada como referência em crónicas metalinguísticas.

E se ainda conseguimos mandar uma caveira a alguém e receber de volta um coração amarelo (💛 = afeto neutro, certificado para avós), talvez reste ali um último sopro de vida nos circuitos do canal.

Talvez a linguagem não tenha morrido. Talvez esteja apenas em coma linguístico, ligada à máquina pelo emoji certo, enviado na hora certa. Será que ainda sabemos traduzi-los?

A semiologia? Está sentada num banco de emojis – à espera de uma reação.

🤭

 

16
Jul25

O Sal da Terra

Peça curta para dois atores e um ego insuflado

mascaras.jpg

 

 

CENA ÚNICA

Restaurante escuro. Bancos de veludo. Ao fundo, um cantor romântico, decadente, arrasta Sinatra por um microfone gasto.
A mesa está posta com requinte desnecessário.
O cavalheiro tem Coca-Cola light. Gelo a mais. Como se fosse preciso.
A senhora, elegante, calada, chapéu escuro grande demais, de aba implacável, que lhe sombreia os olhos e recusa cumplicidade.
Ele fala. E fala... 

 

CAVALHEIRO
(voz arrastada, teatral, como se ensaiasse frente a um espelho de ouro)

O problema... o real problema, honey, não é a guerra. Não é.
É que ninguém sabe fazer a good deal. They don’t. Zero. Nada.

O russo? Um idiota. Um traidor. Acreditas que eu até gostava dele? Era meu amigo. Grande amizade. A maior amizade do Leste. Bigger than Poland, ok? Everybody says it.

Eu disse-lhe: “Vladimir, listen. Tens de parar com essa mania das bombas. Faz isso e eu dou-te a Crimeia, o Donbass, o que tu quiseres. Tenho os mapas. Fiz os mapas. São lindos, com cores e tudo. Melhores que os da CIA, believe me.”

Mas ele? Ele quer explosões. Quer aparecer na televisão como um Rambo de supermercado.

E eu disse-lhe: “Não sejas burro, Vladi. Somos amigos. Sabes que gosto de ti. Até já elogiei os teus abdominais.”

Mas nada. Ignorou-me. Acreditas?

(Olha para o copo, com dois dedos tira um cubo de gelo)

Este gelo está péssimo. Demasiado húmido. Quem fez isto devia ser deportado.

(Inclina-se ligeiramente, como quem partilha um segredo importante)

Agora toda a gente diz: “Oh, ele é imprevisível. Tretas! Eu sou muito previsível. Eu ganho. Sempre. Pergunta aos casinos.

O incompetente do Biden? Olha, o Biden nem sabe o que é sal. Achas que alguém assim pode negociar a paz no mundo? Come on! Ele já nem sabe se está em Delaware ou na Dysneylândia.

A Kamala? Oh, please. A woman que sorri como se lhe tivessem colado os cantos da boca com fita-cola. Nunca vi ninguém tão perdida com as mãos.
E queriam que fossem eles a resolver isto?

(Pausa. Sorri com condescendência)

Eu ofereci ao Vladimir um acordo de génio. GÉ-NI-O. Disse-lhe: “Ficas com o que o Krutchev — esse bêbedo com nome de remédio para a flatulência — deu aos ucranianos quando tu ainda usavas fraldas soviéticas. E eu fico com o mérito”.

Mas ele não quer o meu mérito. Quer fogo de artifício.

E há aqui uma coisa importante, que ninguém diz, mas eu sempre soube — toda a gente sabe que eu sempre pensei isto:

O russo... o russo é ainda mais comunista do que os incompetentes comunistas que me precederam. Até mais comunista que o Sanders a fazer ioga.

E sabes qual é o problema dos comunistas? Não sabem negociar. Não aceitam um bom negócio.

A verdade é que a Rússia precisa de ser descomunizada. Precisa mesmo.

Ninguém mais tem coragem. Só eu tenho o plano certo.

Eles têm tanques. Eu tenho lógica. Inteligência. E sal. Muito sal.

(Vira o olhar para a companheira. Silêncio espesso.)

Estás a ouvir-me, não estás?

 

SENHORA
(com um bonito sorriso nos lábios)

Passa-me o sal, honey.

 

(Cai o pano.)

 

15
Jun25

Nova Utopia: Crónicas de um Não-Lugar

Não reconheço deuses. Apenas equações. E mesmo essas estão sujeitas à dúvida. (Zylon Husk)

 

 

Em tempos recentes — ou futuros, o calendário já pouco importa — os Estados Iluminados da Grande Amérika sofreram uma reconfiguração populista-messiânica. Sob a batuta de Ronald Drunke, presidente vitalício e autoproclamado Sumo Pontífice da Nova Fé — ou, como gostava de ser referido, o “Papa Laranja” — foi criado o Gabinete da Fé: um conclave de tele-evangelistas especializados em transformar promessas de riqueza instantânea em doutrina de Estado.

Da corte balnear de Mar-a-Charco, rodeado de aduladores digitais e coristas automáticos, Drunke comandava os algoritmos do credo nacional — agora reprogramados para substituir relatórios científicos por parábolas de prosperidade — e distribuía as narrativas oficialmente sancionadas de que Deus o entronizara no poleiro supremo da Nova Fé.

“Marte é domínio sagrado da Grande Amérika”, declarou um dia, vestido com manto bordado a insígnias patrióticas, tiara papal forjada a partir de um boné “Make Earth Great Again”, e iluminado por uma versão remixada do hino nacional, com coros sintetizados.

A transmissão ecoou nas vastidões silenciosas de Marte. Zylon Husk, físico visionário e tecnocrata devocional, governava a colónia marciana de Nova Utopia. A propriedade era partilhada, o trabalho repartido com precisão — seis horas por dia —, a lógica ensinada nas escolas, e o progresso avaliado por algoritmos auditáveis. Era um lugar de pausa e de cético esplendor.

Foi então que Drunke, em nome da Nova Fé, emitiu o Ato de Supremacia Cósmica, exigindo que a Nova Utopia reconhecesse a sua autoridade divina — mesmo fora da atmosfera terrestre. Zylon respondeu com uma frase seca:

“Não reconheço deuses. Apenas equações.”

Para Zylon Husk, a verdade não se impunha — depurava-se. Não era um dogma, mas uma hipótese que resistia ao tempo. Nunca seguiu profetas, mas sempre desconfiou dos que falavam em nome da certeza. E se o seu mundo era feito de algoritmos, era porque preferia sistemas auditáveis à opacidade da fé embalada.

Consta que aí teve início o Cisma dos Algoritmos. Drunke, entre cólera e revelação, excomungou Husk como herege interplanetário. A corte de Mar-a-Charco reuniu-se numa transmissão solene em direto e anunciou o envio da Bomba da Fé Absoluta — uma arma sagrada e maravilhosa, criada para apagar dúvidas e impor verdades simples, fáceis e patrióticas.

Na Terra, dizia-se — em voz baixa e por canais pouco confiáveis — que talvez a fé de Husk não fosse negação, mas uma outra forma de crença. Uma que afirmava que a verdade é um bem partilhado — não propriedade privada do poder. Essas vozes foram apagadas. O seu lugar foi ocupado por um número de série.

Em Marte, Zylon Husk não esperava ser salvo. Não era mártir, nem herói — e, acima de tudo, não era sentimental. Por isso, fez apenas o que lhe competia.

Ligou o terminal pessoal. Gravou o seu último registo, encriptado e programado para se apagar sozinho passadas 24 horas. Limpou todos os ficheiros, desligou os alarmes e calou as mensagens automáticas que pudessem denunciar o que se passava. De seguida, escreveu o comando final e confirmou sem hesitar.

Antes de tudo se silenciar, deixou um último apontamento no registo:

A perfeição é uma variável.
A dissidência, um erro.
O silêncio, pura eficiência energética.

Transferiu uma Dogecoin para o moderador — o óbolo de quem atravessa fronteiras irreversíveis.

Saiu em direção à estufa. Foi regar tomates hidropónicos.

 

More.jpg

The Execution of Sir Thomas More, 1591 — A. Caron

 

Nota:

Thomas More escreveu Utopia em 1516, como provocação ética e literária:

Onde há propriedade privada e tudo se mede pelo dinheiro, nunca haverá justiça nem bem comum.

Mas talvez o contrário só exista num não-lugar — naquela ilha impossível onde a sátira subtil não precisa sequer de enfrentar carrascos.

Num gesto de extraordinário humor e dignidade perante a morte, More levou consigo uma moeda para dar ao seu carrasco — como à época noticiava o Guardian.

Nova Utopia é uma visita crítica a esse não-lugar — agora em órbita, entre algoritmos e dogmas recicláveis. 

Mas atenção: Zylon Husk não escreve utopias. Ele recita linhas de código — como outros recitam orações.

 

09
Jun25

Cinco Horas para a Imortalidade

Camoes.png

À beira de mais um 10 de Junho — dia de Portugal, de Camões e das Comunidades — impõe-se a ilustração de Hugo van der Ding: um retrato que é certeiro e cruelmente belo do nosso Poeta em plena aflição produtiva. Algures entre a epopeia e o esgotamento.

 

 

Lá está ele: coroa de louros — provavelmente sintética — portátil sobre a mesa frágil, chávena esquecida, e o olhar de quem já não distingue entre o ritmo heroico e o batimento cardíaco acelerado pela cafeína. Faltam cinco horas. E o Canto IX.

É ali que deviam entrar as musas inspiradoras, as batalhas navais e — com alguma sorte — uma alegoria moral bem colocada. Mas o tempo escasseia. A folha continua em branco. E a dúvida, essa, alastra.

A despeito de atuar com a diligência exigível face às circunstâncias concretas — conseguirá o prestimoso Luís Vaz atingir os seus objetivos?

O prazo aperta. O ânimo falha. E o manuscrito está longe de pronto. Sobram anotações dispersas: “inserir deusa aqui”, “ver mitologia adequada para esta parte”, “acrescentar glória pátria com subtileza”.

Neste Camões, trabalhador precário, exausto, revemos algo muito nosso: o talento à espera do momento certo, a obra-prima quase feita, o engenho confiado ao derradeiro impulso — esse dom nacional do desenrascanço.

Impressiona saber que até o maior poeta da nossa língua teve dias em que nem as musas atenderam o chamamento. Porque entre a glória e o rascunho há apenas cinco horas — e um poeta a tentar o impossível.

 

06
Jun25

Drunke v. Husk

Crónica de um Ego-Naufrágio

Relato não autorizado de Drunke City, onde o disparate é lei e a realidade foi arquivada.

 

 

Na república alternativa de Drunke City, onde a lógica foi deportada e o ridículo governa por decreto diário, dois egos em rota de colisão disputam o título de Messias da Desordem Global.

De um lado, Ronald Drunke, presidente vitalício, orador compulsivo e devoto do spray capilar. Do outro, Zylon Husk, magnata intergaláctico, inventor de problemas e profeta do capitalismo de foguetão.

O que começou como uma aliança de conveniência — entre jantares protocolares e promessas de colonizar Marte com isenção fiscal — descambou, como sempre, em insultos públicos e disputas de audiência.

Esta semana, Drunke irrompeu no seu canal privado, Truthology, com o fervor de um tele-evangelista em crise de vaidade ferida:

“Husk ficou maluco! Um traidor da economia divina! E usa gravatas de poliéster como se fossem herança cultural!”

Husk, fiel à sua tradição de sarcasmo algoritmo-dependente, respondeu com uma sondagem na sua rede social, perguntando se Drunke deveria ser banido da realidade — as opções eram simples: “Banir Drunke da realidade” ou “Enviá-lo num foguetão para o exílio espacial”. A esmagadora maioria escolheu o silêncio eterno das estrelas.

A consequência foi previsível: as ações da SpaceHex caíram a pique, a Testa suspendeu os seus automóveis voadores e as criptomoedas… choraram em silêncio.

Entretanto, o pequeno X — filho de Husk e neto espiritual do índice Nasdaq — foi visto, na Sala Ovoide, a jogar xadrez contra si próprio… e a perder, enquanto os conselheiros de Drunke discutiam a forma correta de redefinir a palavra “facto”.

Entre os conselheiros, destacava-se Karmina Levix, Secretária de Fervor e Transmissão Moral, sempre com os microfones prontos e a maquilhagem imune à coerência. Leu, com voz sintética e entusiasmo programado, o comunicado oficial:

“Tudo decorre conforme previsto no plano que não pode ser revelado. Continuem a aplaudir.”

O povo obedeceu. Durante 37 minutos.

 

Como tornar tudo ainda pior

Como se o delírio ainda tivesse combustível, Husk anunciou a fundação do Partido da Singularidade Cómica, com uma doutrina clara:

“Se a realidade dói, reinventa-te como episódio de podcast.

A proposta já conta com 12 milhões de seguidores, três slogans contraditórios e um hino composto inteiramente por notificações de smartphone, roncos sintéticos e um excerto da Constituição recitado ao contrário.

 

Fim do episódio — Até à próxima crise

Em Drunke City, onde as câmaras nunca se desligam e o ridículo é um dever cívico, Ronald Drunke e Zylon Husk prosseguem o seu duelo de vaidades em órbita.

Dois homens que poderiam ter alcançado as estrelas. Mas preferiram mergulhar no redemoinho dourado do espetáculo permanente.

Porque em Drunke City, a lógica foi exilada, a verdade convertida em entretenimento e o pensamento crítico declarado inimigo da audiência. A verdade foi ao espaço… e o bom senso ficou preso na alfândega.

 

30
Mai25

A Fila como Património Imaterial

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Nos EUA, o governo anunciou recentemente restrições de entrada de estrangeiros que “minem os direitos dos americanos”, sobretudo no que toca à liberdade de expressão — incluindo o direito sagrado de partilhar desinformação nas redes sociais sem moderação por parte de outros governos, seja na América Latina, na Europa ou noutro lugar.

Em Portugal, por outro lado, a ameaça veio de Matthew Prince, CEO da Cloudflare, que considerou o país “não sério”, lamentou a “burocracia sufocante” e teve um ataque de caspa no aeródromo de Tires ao ser confrontado com o ultrajante pedido de rastreamento da sua bagagem.

 

 

Perante tamanha afronta, há sinais de que o futuro Governo poderá vir a considerar responder, sob a forma de um pacote de medidas destinadas a proteger os pilares fundamentais do modo de vida nacional: a paciência resignada, a burocracia contemplativa e a fila como rito de iniciação cívica.

“Nós somos um país calmo, paciente e eternamente em obras”, declarou a futura Ministra da Paciência e Assuntos Lentos, Maria da Luz Morna. “Essa é a nossa maneira de viver, um direito inato que estrangeiros, por mais bilionários e impacientes que sejam, não têm autoridade para menosprezar.”

 

Lista de vigilância de VIPs emocionalmente instáveis

Entre as novas medidas está a criação da “Lista de vigilância de visitantes VIP”, que incluirá qualquer cidadão estrangeiro que:

- Demonstre impaciência em filas com menos de duas horas;

- Grite em espaços fechados com mais de uma impressora avariada;

- Use, em repartições públicas, expressões como “Nos EUA isto não acontecia” .

Estes indivíduos poderão ser obrigados a frequentar workshops, entre eles “Como preencher formulários da Segurança Social sem perder a vontade de viver” ou “Meditação guiada ao som das obras do Metro”. 

Segundo o provável Secretário de Estado da Cortesia Inútil, Dr. Norberto Firmeza:

“Nós estamos a proteger o país — e o próprio visitante. Ninguém enfrenta o IMT ou o aeroporto Humberto Delgado sem preparação espiritual. É como ir a Fátima de joelhos: exige fé, resistência e um comprovativo de morada.”

 

Medidas populares

A reação da população imigrante foi entusiástica. Um inquérito à porta do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras revelou que 93% dos utentes concordam que “se eu tenho que esperar sete horas com senha B127, ele também deve esperar”. Os restantes 7% estavam a tentar descobrir onde tirar uma fotocópia da certidão de nascimento.

Também está em estudo um “Visto de contenção emocional”, com validade de 72 horas, destinado a visitantes com histórico de stress administrativo. Esse visto incluirá acesso limitado a zonas de alta frustração — como repartições fiscais, estações dos CTT e balcões de atendimento com um post-it no vidro a dizer “Já volto.”

 

Tradição é para respeitar

Nas palavras da designada Ministra da Paciência:

“A nossa burocracia não é um erro do sistema. É o sistema. Quem não a respeita, que vá viver para um sítio onde tudo funciona — se tiver habilidade para preencher os formulários.”

Portugal não quer dificultar a vida aos estrangeiros. Apenas garantir que, antes de gritarem com um funcionário público, eles compreendam o que significa ser português: esperar em silêncio, suspirar com dignidade e celebrar cada carimbo como uma pequena vitória sobre o absurdo.

Porque a fila, em Portugal, não é apenas uma espera.
É uma escola.
É um destino.
É património imaterial.

 

26
Mai25

Crónica de um Saque Anunciado

Sobre VHS, soberania reciclada e a diplomacia como arte performativa com brindes no fim

Ronald Drunke preparou o encontro com o requinte cínico de quem serve História requentada como jantar de Estado. O alvo: Luís Monotone, primeiro-ministro fluente na arte de evitar o compromisso, enviado a Drunke City DC para “reforçar laços transatlânticos” e, se possível, evitar a aplicação da tarifa de 500% à exportação de mexilhão atlântico e túbaros de porco para a Grande Amérika.

 

 

Na Sala Ovoide, sob lustres pesados e entre cadeirões imponentes, o Presidente mandou apagar as luzes. Uma tela desceu com a solenidade de uma aula do 2.º ciclo. No ecrã surgiu um registo tremelicante em VHS — o passado a preto e branco, tingido de vermelho por zelo digital. Ruídos de megafone. Depois, a gravação explodiu:

— O capitalismo apodrece como carne ao sol. Mas o povo levanta-se — não pede, ocupa!

Um revolucionário de bigode e patilhas longas, camisa aos quadrados, berrava com convicção embebida em vinagre ideológico:

— Os lacaios do imperialismo saqueiam o planeta numa disputa cega.

Monotone empalideceu. Tentou sorrir, mas o suor revelou o embaraço de quem estava a ser colado, por pura má-fé, a um passado que não era o seu.

O vídeo saltou para uma cena recente: uma arruada. Alguém de fato escuro, com a gola do casaco a boiar bem acima do colarinho da camisa — o mesmo visual de Monotone naquele momento. O discurso desdobrava-se numa frase carregada de intenção e leve de sentido.

— Ãontem foi ãotem. Hoijze, nósz olhamosz… nósz olhamosz para cada criançza que nasze…

Nesse instante, o sistema de tradução automática — protótipo da Zylon Husk 3000™, calibrado com uma base de dados etimológica caótica e sotaque texano — entrou em ação:

Yesturday was the pastest. Today, we… we lookz at each baby that bornifies…

Drunke fixou o ecrã. Depois olhou para Monotone. A pausa foi curta — nem precisava de mais.

Recognize anyone? — perguntou. — So… is this your Minister of Philosophy?

Virou-se para JD Convex, que já abria a pasta com o memorando.

Give us Madeira — pediu, com a boquinha ensaiada de quem pede pouco e leva tudo. — And maybe the Azores. And those… how you say? Berlengas?

Monotone ainda tentou resgatar a compostura, explicando, com sotaque polido da Linha:

— Nós olhamos para cada cidadão com o compromisso de lhe proporcionar…

Drunke levantou a mão. A frase morreu. Tal como a soberania.

JD Convex pousou o “Memorando de Partilha Geoestratégica” à frente dele. Tanto quanto se sabe, Monotone anuiu. Uma caneta grossa terá confirmado.

Foi conduzido até à porta, com um sorriso amarelo e um saco de recuerdos: boné, autocolante e um folheto satírico, todos com frases sobre amizade, parcerias e maoismo gourmet.

À saída, Monotone deteve-se por um instante. Depois, baixou os olhos para o conteúdo do saco e murmurou, quase só para si:

— Não era isto que nós sonhámos.

Drunke compôs um sorriso postiço antes de declarar, sem pressa:

We’ll keep the islands safe.


Para que não digam que ninguém avisou: 🎵 Zeca Afonso — “Os Vampiros” (Vimeo)

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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