Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
20
Jan26

Da Persistência do Direito: Nota sobre a Situação Jurídica da Gronelândia

Tordesilhas.png

 

 

Num tempo em que o direito internacional é invocado de forma seletiva – ao sabor da retórica política ou da gravidade dos interesses estratégicos – importa recordar que a ordem jurídica global assenta, antes de mais, na continuidade histórica dos seus próprios fundamentos.

Entre esses fundamentos encontra-se o Tratado de Tordesilhas, celebrado em 1494 entre as Coroas de Portugal e de Castela, reconhecido, sancionado e validado pelas autoridades internacionais da época, nomeadamente pela Santa Sé, então instância suprema de legitimação jurídica. Este tratado estabelecia uma linha de demarcação clara no que respeita à soberania sobre territórios descobertos e por descobrir – uma linha que estruturou, durante séculos, a ocupação, administração e reconhecimento territorial à escala planetária.

É precisamente na expressão “por descobrir” que reside a sua relevância contemporânea. A Gronelândia, território vasto e mal cartografado à época, situado em latitudes extremas, não foi objeto de qualquer exclusão explícita ou implícita no articulado do tratado. À luz dos princípios jurídicos então vigentes – e, sublinhe-se, válidos na sua época –, tal omissão não invalida a aplicabilidade do regime geral de partilha territorial que ali se consagrou.

Portugal, enquanto parte contratante originária, jamais renunciou formalmente às prerrogativas que do tratado decorrem, nem estas foram revogadas por instrumento jurídico internacional de hierarquia equivalente. Ora o simples desuso político não configura, em Direito, caducidade automática.

Assim, num contexto global em que se ressuscitam mapas, se reinterpretam fronteiras e se redefinem conceitos de segurança estratégica, não é anacrónico recordar que o direito internacional se funda na precedência, e não na conveniência. E a precedência, neste caso, está documentada, selada – e escrita a tinta que a História ainda não apagou.

Esta exortação à memória jurídica não ambiciona agitar os equilíbrios vigentes, mas recordar que os fundamentos do Direito resistem ao tempo – tal como o pergaminho em que foram traçados, ainda legível sob a poeira dos séculos.

 

11
Jan26

O Inimigo Já Não É o Que Era

(mas a realidade também já não é o que devia ser)

 

 

 

Desde que me conheço como leitor – ou pelo menos desde que comecei a perceber piadas com ministros e vacas voadoras – acompanho O Inimigo Público. Primeiro no jornal Público, agora no caderno Ideias do Expresso.

Dirigido por Luís Pedro Nunes, mestre de cerimónias de um mundo paralelo – ou talvez não tão paralelo assim – onde o ridículo é património da humanidade, o Inimigo sempre foi mais do que uma publicação de humor: foi, e continua a ser, uma bússola no meio do absurdo – enquanto ainda é possível achar o absurdo... engraçado.

Porque o humor, quando bom, não serve só para rir. Serve para pensar, para inquietar, para dar uma cotovelada elegante nas certezas. O Inimigo faz isso: serve uma caricatura matinal temperada com lucidez.

Mas eis que o mundo decidiu tornar-se a própria caricatura. E com isso, a sátira perdeu o efeito de choque – porque deixou de ser exagero.

Quando Donald Trump apareceu, parecia um sketch. E era – daqueles que começam por ser engraçados e acabam em trauma coletivo. Trouxe tudo o que não devia ter acontecido – e aconteceu. Com ele, instalou-se uma era pós-satírica – ou talvez de pós-realidade – em que o absurdo deixou de precisar de guião, e a imaginação dos cronistas já não consegue acompanhar. Como competir com alguém que sugeriu curar um vírus com luz e injetar desinfetante?

A piada perdeu a graça no momento em que passou a ser título de notícias. De repente, já não é preciso rir do absurdo – basta assistir ao telejornal.

A verdade é que O Inimigo Público continua a fazer o seu trabalho. O problema não está na sátira – está no mundo. Num planeta onde o inverosímil se torna banal, resta ao humor apenas imitar – e mal – o noticiário.

Talvez seja por isso que se tenha saudades da sátira como ela era: não porque tivesse mais graça, mas porque a realidade ainda deixava espaço para a ficção. Agora, o exagero já não espanta – limita-se a repetir aquilo que o mundo se encarregou de tornar real.

Quem sabe, Luís Pedro Nunes devesse contratar Trump como redator principal. Não para escrever piadas – mas para continuar a alimentá-las. A musa disfarçada de apocalipse cor-de-laranja.

Afinal, talvez o problema não seja O Inimigo Público, mas o público inimigo: os que deixaram de rir porque começaram a levar a loucura a sério.

 

04
Jan26

O dia em que o Mundo Respirou

Disseram os astrólogos que 2026 começaria com grandes acontecimentos.
Acertaram na escala. Erraram na lógica.

 

 

 

1

Todas as manhãs, às 5h48, Xixi Pang ajustava a respiração ao compasso de um metrónomo digital, rodeado por assessores imóveis e plantas sintéticas. Chamavam-lhe “recalibração cognitiva de alto nível”.
Foi nesse instante, ainda de robe funcional, que o pelotão de monges tibetanos entrou. Treinados em Zurique, armados com mandalas de acusação simbólica, estavam credenciados por um consórcio internacional de preservação da memória cultural.
A acusação — “obliteração sistemática da memória do século XXI” — foi lida em quatro línguas vivas e duas mortas.
Xixi acenou. Não por concordância, mas por reflexo institucional.
Foi selado num frasquinho de vidro transparente, para análise. A China protestou. As bolsas subiram.

2

Ao fim da tarde, na sua datsha de férias, de tronco nu e copo de vodka na mão, Putianov contemplava a lareira onde ardiam documentos do século XX.
O destacamento georgiano entrou pela porta principal. Treinados pela Ucrânia, com apoio turco, seguiram o Protocolo 27-B da Carta de Bucareste — cuja autenticidade fora validada horas antes num podcast esloveno.
Putianov foi levado em silêncio, montado num cavalo albino.
O cavalo pediu asilo. Foi concedido.

3

Pipi emergia de uma sessão de sais minerais no Spa Oriental do Hilton de Jerusalém Oeste quando o painel “Soluções Hídricas em Regiões em Conflito” foi suspenso.
A detenção foi executada por agentes de várias jurisdições, com capacetes azuis reutilizados e crachás impressos à pressa.
O mandado partira de um Tribunal Híbrido do Médio Oriente, de estatuto flutuante e competência variável.
Pipi alegou missão de paz. Foi desmentido por catorze telegramas, um vídeo em loop e um PowerPoint intitulado “Água, Paz e Escavadoras”.
A comitiva dissolveu-se por inconsistência ética. O tribunal suspendeu-se a si próprio.

4

Na varanda de Mar-a-Charco, Drunke ensaiava um gesto de golfe, em camisa aberta e bronzeado perpétuo.
A flotilha iraniana surgiu sobre jet skis pretos. Bandeiras verdes fluorescentes. A CNN transmitiu em direto. A Fox classificou como “turismo aquático hostil”.
— Não podemos resolver isto com 18 buracos e dois mojitos? — perguntou.
Foi detido ao som de uma banda a tocar Sinatra. JD Convex leu um comunicado segundo o protocolo de emergência. A Sra. Drunke nada disse, como sempre.

5

Nenhum disparo. Nenhum herói. Apenas capturas eficazes, com fundamentos jurídicos que pingam da jurisprudência como tinta molhada.
A legalidade, agora, é flexível como yoga geopolítico.
O mundo, que ontem talvez gritasse, hoje atualiza as notícias enquanto mastiga pipocas.

 

03
Jan26

Onde está a minha Tribo?

22638298_wcLGv.jpeg

Em caminhos que atravessam florestas de solidão, cada passo é uma oportunidade de forjar ligações e descobrir significados.

 

 

          Há quem viva
sem se filiar em partidos ou religiões, nem se deixar levar pelo entusiasmo dos estádios. Evitando espaços onde tradições e ideologias são já sombras gastas do vasto horizonte da experiência humana. Percorrer desertos ideológicos não é uma fuga ao vento, mas uma forma de o enfrentar – com a pele exposta à brutalidade da beleza e à descoberta daquilo que, mesmo invisível, nos une.

          As árvores de inverno,
nuas e solitárias, encarnam essa resistência tranquila: enfrentam o frio não com desespero, mas com a dignidade de quem encontra revelações no silêncio. O seu isolamento evoca uma coragem coletiva, uma celebração de identidade. Afinal, a moral não se forja em dogmas, mas na textura da própria existência – esse tecido vivo e interligado que resiste mesmo às distâncias percebidas.

          Talvez por isso tenha nascido
duas vezes. A primeira, no rés-do-chão de uma casa de habitação na Rua Luciano Cordeiro, como rezava a cédula pessoal. A segunda, aos 16 anos, quando a leitura compulsiva de Sartre e outros autores despertou uma fome de pensamento que desarrumava a adolescência. Mas esse segundo nascimento não ficou ancorado no passado – reaparece sempre que a liberdade se insinua – trazendo consigo o peso silencioso da escolha. Renasço sempre que me volto para o silêncio, recusando o conforto das certezas prontas.

          Os professores, os colegas
e os amigos – inteligências inquietas – moldaram-me. As circunstâncias também deixaram a sua marca, com a paciência (ou impaciência) do tempo. Tribos informais surgiam nos intervalos, em cafés, em ideias partilhadas que sabiam ser maiores do que as palavras. Nunca foram multidões, mas constelações – breves encontros de luz num céu interior.

          Onde está, então,
a minha tribo? Talvez não se veja. A tribo não é um lugar fixo, nem um grupo fechado – é um reconhecimento mútuo. As árvores isoladas no frio não estão verdadeiramente sós: as suas raízes entrelaçam-se na rede subterrânea que sustenta o ser.

          A minha tribo vive aí
– no invisível que persiste.

 

01
Jan26

Regresso à Idade Média

Entre castelos de dados e fogueiras digitais, a nova Idade Média está entre nós – e não vem a cavalo

 

 

1

Diz-se que a Idade Média é coisa do passado. Uma fase ultrapassada, encerrada nos manuais escolares, ilustrada com gravuras de monges curvados e castelos húmidos. Mas, como em tantas mortes anunciadas, talvez tenha apenas mudado de roupa. Não desapareceu: reciclou-se.

A Idade Média não foi negra por esconder o poder; foi clara por o exibir. O senhor sentava-se no alto, a espada à vista, o direito divino bem exposto. A verdadeira escuridão começa quando o poder se apresenta como salvação, quando deixa de mandar e passa a proteger, quando já não oprime – cuida.

 

2

Imagine-se um feudo qualquer. Poderia chamar-se Terravela. O senhor manda. Os servos obedecem. Quem ousa falar fora de tempo desaparece. Não é preciso grande imaginação: basta pensar num território fechado, numa verdade única, numa hierarquia sem fissuras. O feudo vive da repetição, do medo e da promessa de segurança. Em troca, exige silêncio. E aclamações em dias certos.

 

3

O mundo continua em palco – mas alguns, poucos, constroem o seu feudo no camarim. Há o fanfarrão de bandeira em punho e exército de seguidores – em Mar-a-Lago ou nos comícios das planícies interiores. Há o imperador eterno, instalado em Pequim, que combina censura interna com empatia externa – até que a dívida substitua o afeto. Há o cruzado moderno, em Jerusalém, que invoca uma promessa antiga e dispara certezas recentes. E há o czar reinventado, entre cúpulas ortodoxas e reservas de gás, que troca ideologia por nostalgia e anexações.

Todos eleitos, ungidos, legitimados – claro. Pela vontade do povo, pelo medo, por urnas, algoritmos ou decretos. A forma muda; o gesto repete-se.

 

4

Também o povo mudou, dizem. Mudou, sim, mas talvez menos do que se supõe. Na Idade Média, não sabiam ler. Hoje, leem o que lhes aparece à frente. Ontem havia senhores; hoje há sistemas. Uns invisíveis, outros automatizados, todos eficazes. Onde antes havia inquisidores, há agora especialistas em autoajuda e pregadores de virtude. A lógica é semelhante: indicar o bem, apontar o mal, punir o desvio.

A ignorância perdeu o nome, mas não o efeito. Continua útil, obediente, bem-comportada – agora com ar limpo e verniz de opinião.

 

5

Ó glória vã de mandar!

– Camões

O verso atravessa séculos sem perder atualidade. Mandar continua a ser uma tentação antiga, e obedecer uma prática cómoda. O mando, a mentira.

Outra vez nas trevas. Que alguém acenda a luz.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D