Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
20
Nov25

Adeus, Bidé – até depois

Uma crónica sobre o declínio (e metamorfose) do bidé em Portugal


Bidé.jpg

 

Desde janeiro de 2024, o bidé deixou de ser obrigatório nas casas de banho portuguesas. Com o novo Simplex urbanístico (Decreto-Lei n.º 10/2024), bastam três peças: uma banheira ou duche, uma retrete e um lavatório. O Estado assinou discretamente o cancelamento da louça mais emblemática da intimidade doméstica.

A decisão não foi (só) higiénica. Foi também urbanística, económica e até filosófica. O objetivo era libertar área útil e alinhar com hábitos internacionais – fosse isso feito por simplificar projetos ou simplesmente reduzir exigências. Numa palavra: simplificar. E como em quase todas as simplificações, perdeu-se uma coisa – e ganhou-se liberdade.

 

 

 

 

Portugal descobriu que o bidé não era um objeto: era um estado de espírito. Um vestígio cerâmico de uma era em que a higiene era ritualizada, coreografada e separada por aparelhos. Hoje, a água continua essencial, mas o modo como ela nos encontra ficou ao critério da arquitetura e da imaginação.

Três soluções íntimas perfilam-se para tomar o lugar da velha peça de cerâmica – cada uma com o seu charme (ou ausência dele).

A primeira é o regresso das tralhas hidráulicas. O velho polibain ainda sobrevive nalgumas casas dos anos 80. O seu jato vertical, ora manso ora imprevisível como um poço de petróleo, fez dele um caso de amor e medo. Pouco elegante, mas funcional. Mais convincente é aquela torneirinha com bicha que parece saída de um improviso de canalizador. Popular no mundo islâmico e em ascensão nos mini-apartamentos lisboetas, é barata, simples e eficaz. Pode não ser bonita, mas resolve o essencial: a água chega onde tem de chegar. Como diz o senhor Jorge, canalizador de Massamá, “a água não precisa de GPS”.

A segunda hipótese é a sofisticação japonesa. Durante anos, as sanitas-bidé foram um luxo de hotel de cinco estrelas. Hoje, os modelos com funções básicas custam menos do que uma torneira de autor em latão filosófico. Trazem jato ajustável (frontal e traseiro), ar quente e tampa aquecida. Uma música de piano acompanha o utilizador, caso se demore demais, até ao limite da decência auditiva. Com tecnologia e conforto, a sanita evoluiu para trono digital: para muitos, é a alternativa mais aceitável ao velho bidé cerâmico.

Por fim, há a robustez do mundo sem canalização – lugares onde o bidé nunca chegou, nem tinha razões para chegar. Aí, a higiene íntima é um exercício de destreza: baldes fazem de torneira, a água é racionada com precisão quase cerimonial, e a limpeza segue métodos tão antigos quanto eficazes. Nada de cerâmica nem design – só engenho e necessidade. Nestes contextos, a intimidade não se desenha – resolve-se. E há algo de admirável nessa resiliência: uma dignidade pré-azulejada, sem botão de jato, mas com imenso sentido prático.

Com a nova legislação, Portugal começa a divergir em estilos e escolhas. A construção nova – mais barata e mais compacta – tende a eliminar o bidé sem remorsos. Há arquitetos que preferem torneirinhas discretas, como se fossem segredos hidráulicos. Hotéis apostam nas sanitas-bidé para vender conforto com sotaque internacional. E muitas famílias tradicionais mantêm o bidé, como quem guarda um retrato de família em louça branca.

A casa de banho tornou-se um espelho do que somos e do que deixámos de ser. Na réplica Minimalista Escandinava, a sanita flutua na parede como se rejeitasse o pecado da gravidade – e o bidé não é bem-vindo nem como conceito: sugeri-lo é como servir feijoada num spa. Num T3 Renovado, a entrada de água do bidé poderá ter sido escondida com uma tampa cromada que brilha como uma culpa mal resolvida. Num Hotel Boutique, uma sanita tocará harpa enquanto a tampa se levanta sozinha – só falta agradecer e deixar gorjeta. Numa Casa de Família, há bidé, polibain, banheira e duche: um museu da higiene portuguesa, com legendas imaginárias. No Estúdio para Alojamento Local, a torneirinha é vendida como “conforto oriental”, mas funciona como pistola de paintball para turistas desprevenidos.

O bidé continua presente, mesmo ausente. E essa presença-fantasma define a sua importância. Para uns, é património afetivo. Para outros, um obstáculo hostil. Muitos usam-no como recipiente de cremes, escova elétrica e livros de Sudoku. Uma tia de Alvalade serve-se dele como suporte de plantas “medicinais”. Alguns batem-lhe diariamente com o joelho como quem castiga um parente incómodo. Poucos o celebram. Mas todos o reconhecem.

Mesmo em tempos de sanita inteligente, o bidé clássico guarda uma virtude difícil de replicar: a sua simplicidade mecânica. Sem eletrónica, sem sensores, sem manual de instruções. Só cerâmica e água. Paradoxalmente, talvez fosse a hipótese mais sustentável.

Como qualquer espécie digna de nota, o bidé evoluiu: começou no século XVIII como sela de aristocrata francês. Ganhou estatuto sanitário no século XX. E agora liquefaz-se: torna-se spray, sanita japonesa ou memória.

O bidé não está extinto. Apenas sublimado.

Na era pós-Simplex, a higiene íntima em Portugal passou da obrigação ao design. E cada português – e portuguesa, claro – é agora livre para reinventar o seu ritual: com sensor digital, com torneira improvisada, ou com a memória húmida de uma peça de louça que já não tem lugar, mas ainda diz muito.

 

Fonte da imagem: United States Patent Office. Patente de John Reid – “Bidet”, arquivada a 5 de dezembro de 1887.

 

15
Nov25

Unicórnios e Outros Bichos Mitológicos

 

Há qualquer coisa de mágico – ou talvez de tragicómico – no palco da Web Summit. Os políticos chegam baços, saem brilhantes. Como se o LED das luzes lhes acendesse os olhos, e a linguagem da tecnologia lhes devolvesse uma juventude de laboratório. Disruption. Quantum. Scalability. Palavras que não se mastigam – projetam-se, com fé e sotaque. E basta prender-lhes um microfone à bochecha para parecer que parte do raciocínio foi enviado para processamento remoto, numa cloud muito nacional, muito promissora.

Desta vez, foi um ministro. Não importa o nome. Importa o gesto, a cadência, a fé. Disse que Portugal está pronto para liderar o mundo em inteligência artificial. Liderar. O mundo. Assim mesmo, sem rodapé.

É sempre bonito ver entusiasmo. Mas mais bonito seria ver médicos onde faltam, professores onde são precisos e escolas sem baldes no chão a aparar o que a chuva traz. Saltam-se etapas com uma leveza inquietante – como quem promete um foguetão para Marte antes de construir a estrada até casa.

No topo do discurso, uma estrela: um tutor de IA para cada aluno. Um ser digital que escuta, guia, inspira. Que conhece a criança melhor do que ela própria. E que, se o orçamento der, talvez ajude a por a mesa e a aquecer a sopa.

Por instantes, pareceu estar ali, no palco, a solução para décadas de desigualdade educativa – comprimida num algoritmo afável, programado para o bem.

Mas o verniz do entusiasmo estala depressa. Portugal já foi líder do hidrogénio verde. Do mar. Do sol. Das startups. Dos bioquímicos e dos roteiros tecnológicos. Especialista em anunciar o futuro, mesmo quando o presente está por fazer.

Não se trata de um lamento contra a tecnologia. Trata-se, por assim dizer, de um gesto de respeito. Porque a tecnologia merece chão fértil, tempo, investimento real, políticas sérias. Não promessas em palco com drones a filmar de cima.

No meio desta dança – entre o PowerPoint e o milagre – o cidadão comum observa. Lá vai, com o que lhe resta. E pergunta-se, talvez em voz baixa, se também ele terá direito ao tal tutor de IA que o escute, que o inspire, que o guie.

Talvez sim. Talvez não.

Mas até lá, o mais sensato é continuar a confiar na velha fórmula que nunca falhou: inteligência humana, ironia quanto baste e aquele instinto antigo – quase animal – que desperta sempre que alguém nos garante o futuro… com brilho nos olhos e inglês de telepromoção.

 

Eles galopam.jpg

Eles galopam. Promessas ao largo.

 

13
Nov25

Sermão às Pedras da Calçada

Uma pregação laica sobre a cidade, dita às pedras e ouvida pelo tempo.

 

Tudo começou com um sermão – não no púlpito, mas sobre a calçada de uma praça imaginária. Foi ali que nasceu a Cidade sem Tino: sem ser por vontade divina, mas sim por curiosidade terrena — esse gesto de olhar para o chão e perguntar o que as pedras pensam de nós. O Sermão às Pedras da Calçada inaugurou este espaço com a inquietação de quem fala à matéria inerte, esperando resposta. Entre a ironia e a fé no humano, traçava, desde então, o rumo desta cidade: pensar o quotidiano, desmontar o absurdo e, quando possível, devolver-lhe o riso. Hoje, as pedras continuam – mais gastas, talvez. As falácias multiplicaram-se, mudaram de pele, assumiram formas mais subtis. Mas há também passos novos, mais atentos. Por isso, republica-se este sermão – com reformulações discretas – não como relíquia, mas como lembrete de que até o chão pode ser lugar de pensamento.

 

 

 

 

PedrasCalçada.jpg

Numa praça deserta, sob o sol do meio-dia, o calor eleva-se do empedrado em ondas invisíveis, e o silêncio adensa-se entre fachadas imóveis. Um pregador põe os olhos no chão e, com voz aveludada, desafia as verdades aceites.

 

Ó pedras da calçada,
vós que revestis o chão da cidade não apenas como adorno, nem como mero suporte para os passos apressados dos transeuntes, sois as guardiãs do tempo, da memória, das nossas histórias e dos desafios contemporâneos. Sois testemunhas silenciosas das escolhas que moldam o quotidiano e dos desafios que se acumulam a cada esquina.

Ao observarmos o mundo
transformar-se num mar de falácias, questionamos: será falha vossa, que não empedrais firmemente, ou da terra, que não se deixa empedrar? Será porque os novos pregadores proclamam a verdade enquanto praticam a hipocrisia, ou porque os acomodados escolhem seguir os exemplos corruptos em vez das palavras íntegras?

Vós, pedras,
que conheceis cada canto da cidade, formais a verdadeira ágora onde se manifestam as angústias e alegrias dos cidadãos. Sois humildes na essência: guiando os passos da gente comum, mostrais mais atenção à realidade do que à vaidade das poses encenadas. Como netas das imponentes catedrais que escreviam a História em pedras de grande formato, unis o antigo e o contemporâneo em cada rua, em cada praça. Triunfais sobre o torpor dos espaços por calcetar.

Ainda assim, ó pedras da calçada,
urge que não permaneçais apenas como testemunhas mudas e vos ergais contra as adversidades que assolam a nossa cidade. Levantai-vos contra os tanques que cruzam o empedrado, tentando expandir a sua influência ou impregnar a vossa natureza com uma visão hierárquica da cultura. Vede como o musgo do preconceito e da discriminação, que cresce silenciosamente entre vós, cria barreiras invisíveis que segregam os passos de pessoas de diferentes cores e origens. Vós, que devíeis unir, tornastes-vos, sem querer, divisoras do caminho, favorecendo uns em detrimento de outros. Não permitais, ó pedras, que, por astúcia interesseira, raízes daninhas se entrelacem sorrateiramente, enfraquecendo a terra que vos sustenta e usurpando as casas a que ofereceis acesso.

Vós, que fostes assentes
uma a uma com cinzel e martelo, pela mestria de quem zela para que nenhuma saliência cause tropeço, estai atentas à erosão das fundações, essa imperfeição disfarçada sob o polimento da legalidade. Lutai contra o abuso de prerrogativas que vos despoja do vosso pó e da areia fina para proveito próprio. Levantai-vos contra os culs-de-sac e outros impasses infrutíferos da justiça eclipsada.

Vivei, ó pedras,
em consonância com as pessoas, a fauna e a flora. Suportando o peso da vida que vos envolve, abraçai o desafio climático com a firmeza de quem sustenta o mundo passo a passo. E, mesmo que permaneçais mudas, deixai que o vosso silêncio fale mais alto do que os gritos da ambição vazia.

Tenho falado convosco
como quem fala ao tempo. Nem sempre sei se me escutais, ou se estas palavras se perdem entre os passos e o pó. Mas creio que, mesmo mudas, vós sentis quando algo se desloca no fundo da cidade – como um pressentimento que antecede o desabamento ou a sementeira.

Despeço-me, então,
ó pedras da calçada, com uma exortação final: continuai a sonhar e a inspirar sonhos, pois em vós reside o potencial de mudar destinos. Recordai o que diz o poeta e deixai que a música, simples mas poderosa, flua. Sonhai, pois, e sabei que o mundo se move e avança, como pedra “colorida entre as mãos de uma criança”.

La la la ra la ra ra.

 

- O Sermão de Santo António, que inspirou este texto, foi pregado por António Vieira, na cidade de S. Luís do Maranhão, ano de 1654, três dias antes de o autor embarcar ocultamente para o reino, a procurar o remédio da salvação dos índios.

- No Speakers' Corner do Hyde Park qualquer cidadão pode discursar. Há a crença de que o orador, ao permanecer sobre uma cadeira ou caixote, não pisa solo inglês, estando por isso isento das leis e tradições – uma noção pitoresca, mas sem fundamento.

- Pedra Filosofal é um poema de António Gedeão, publicado em 1956, que fala da capacidade humana de sonhar e transformar o mundo. Em 1970, Manuel Freire fez do poema canção, que rapidamente se tornou um hino de resistência.

- Há pedras que sonham. E, às vezes, por entre as juntas, desponta qualquer coisa maior.

 

11
Nov25

Bateram-me à Porta

Bateram.jpg

 

Ele — meia-idade, cabelo ainda preto, fato negro grande demais, a gola do casaco erguida. O pescoço, já não.

Ela — talvez vinte e cinco anos, vestido evasê pied-de-poule, abaixo do joelho, sapatos de meio salto ligeiramente cambados.

 

 

 

Ambos traziam

pastas de napa preta. Certas missões exigem uma pasta. E uma postura.

No modo como se apresentavam, havia qualquer coisa de encenação – uma dignidade algo teatral, como se carregassem o peso de uma causa antiga.

Disse ele, com solenidade:

– Vimos falar com o Senhor.

Eu sorri

e ativei o meu discurso número dois – aquele para visitas inesperadas e delegados das alturas.

– Dou-me – e dar-me-ei sempre – bem com todas as estrelas do céu e com os seus representantes na Terra. Não ando atrás de nenhuma em particular, mas também não quero ser apanhado de surpresa quando o sol escurecer e os figos verdes caírem, derrubados da figueira por qualquer vendaval. É que, neste ponto, as opiniões dividem-se…

Fiz uma pausa

e acrescentei, com a franqueza que a ocasião pedia:

– Estou super-stressado. Trabalho até dizer chega, e pouco tempo me sobra para conversa. A menos que queiram – o que é improvável – dar-me uma ajuda.

Ela hesitou

por um segundo. Depois disse, com serenidade:

– Somos os novos vizinhos do andar de cima.

Andar de cima.

Naturalmente.

Nunca mais os vi.

Mas, às vezes, ouço passos.

Mesmo quando o prédio está vazio.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D