O Homem que se Convenceu ter sido Eleito Presidente da Câmara
Crónica para um compêndio futuro de sociologia ficcional
12 de outubro de 2025. As eleições autárquicas decorreram com a habitual normalidade democrática: mesas compostas, boletins alinhados, filas ordeiras, urnas resignadas. Nada fazia prever que, no dia seguinte, a ordem constitucional seria subtilmente confrontada com um fenómeno sem precedentes.
Na manhã de 13, um homem de meia-idade apresentou-se na receção dos Paços do Concelho de uma vila sem nome digno de nota. Nenhum boletim o mencionava. Nenhuma lista o incluía. Nenhum eleitor se lembraria dele. Trazia um cachecol com as cores do município, um colar dourado onde se lia “Presidente” e uma pasta de couro que acomodava o que chamou de Plano Estratégico de Reencantamento Cívico. Declarou-se, com voz firme, o novo Presidente da Câmara.
“A eleição deu-se no espírito”, explicou à funcionária. “Foi-me revelado esta noite. Com selo divino e legitimidade popular intuitiva.”
Perguntaram-lhe a que partido pertencia. Respondeu com serenidade: “A democracia é, acima de tudo, um ato íntimo. Vivido na consciência de cada um.”
Sem demora, subiu a escadaria. Pediu a chave do salão nobre. Uma estante. Papel timbrado para “editais futuros”. No dia seguinte, iniciou funções. Redigiu despachos em folhas A4 com cabeçalho improvisado: Município do Verdadeiro Sentir, Pelouro da Perceção Popular.
Escolheu o executivo na esplanada municipal: um ex-mecânico para as Obras, uma professora reformada para a Educação, um jovem relutante do skatepark para o Ambiente – desde que não implicasse reciclagem manual. Entre as primeiras medidas, anunciou hortas comunitárias em todas as rotundas, parques infantis com nomes medievais e um Museu da Vontade Popular Não Contabilizável.
Foram chamados académicos. Um politólogo de Beja classificou o caso como “a primeira autoproclamação autárquica espontânea desde as repúblicas italianas do século XII”. O Instituto de Antropologia Comparada de Viena lembrou que 70% das culturas tradicionais reconhecem líderes por revelação. Já o Instituto Nacional de Estudos Políticos publicou a nota interpretativa Da Democracia Sentida, em que sustenta que “a legitimidade simbólica pode ser uma forma avançada de autoajuda”. Tudo parecia convergir para uma nova forma de poder: íntima, infundada, estranhamente funcional – e talvez inevitável.
O contexto internacional valida o fenómeno: Trump, em 2020, e Bolsonaro, em 2022, também se declararam vitoriosos. O caso português, porém, inovou: aqui, o eleito dispensou as urnas. É, até prova em contrário, o primeiro chefe autárquico totalmente epifânico.
O verdadeiro Presidente evita confronto. Admitiu até ceder-lhe a biblioteca, “desde que trate bem dos livros”.
Entretanto, o autoproclamado transferiu-se do salão nobre para a mesa do fundo do Café Central – alegando que ali o ambiente era mais propício à governação intuitiva. Desde então, redige despachos em guardanapos e assina ordens para a “limpeza da rotunda norte por meios mecânicos não invasivos”. Criou uma taxa municipal sobre a melancolia urbana, cobrada em dias de chuva persistente. Recebe munícipes imaginários com soluções reais: paciência, chá de tília, rotas alternativas para fugir à apatia. Todos o tratam por “Senhor Presidente”. Talvez por hábito. Talvez por esperança. Talvez por falta de alternativa.
Ao fim do dia, prepara reuniões do seu executivo invisível. Comparecem: ele, uma cadeira vazia e um cão rafeiro que se senta com solenidade.
Sobre a mesa, uma placa improvisada com o seu hino inaugural:
Sento-me: no silêncio mando.
Quem duvida paga coima de melancolia.
O cão continua a vir.
A cadeira permanece vazia.
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