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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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26
Ago25

O Homem que se Convenceu ter sido Eleito Presidente da Câmara

Crónica para um compêndio futuro de sociologia ficcional

 

12 de outubro de 2025. As eleições autárquicas decorreram com a habitual normalidade democrática: mesas compostas, boletins alinhados, filas ordeiras, urnas resignadas. Nada fazia prever que, no dia seguinte, a ordem constitucional seria subtilmente confrontada com um fenómeno sem precedentes.

 

 

 

Na manhã de 13, um homem de meia-idade apresentou-se na receção dos Paços do Concelho de uma vila sem nome digno de nota. Nenhum boletim o mencionava. Nenhuma lista o incluía. Nenhum eleitor se lembraria dele. Trazia um cachecol com as cores do município, um colar dourado onde se lia “Presidente” e uma pasta de couro que acomodava o que chamou de Plano Estratégico de Reencantamento Cívico. Declarou-se, com voz firme, o novo Presidente da Câmara.

“A eleição deu-se no espírito”, explicou à funcionária. “Foi-me revelado esta noite. Com selo divino e legitimidade popular intuitiva.”

Perguntaram-lhe a que partido pertencia. Respondeu com serenidade: “A democracia é, acima de tudo, um ato íntimo. Vivido na consciência de cada um.”

Sem demora, subiu a escadaria. Pediu a chave do salão nobre. Uma estante. Papel timbrado para “editais futuros”. No dia seguinte, iniciou funções. Redigiu despachos em folhas A4 com cabeçalho improvisado: Município do Verdadeiro Sentir, Pelouro da Perceção Popular.

Escolheu o executivo na esplanada municipal: um ex-mecânico para as Obras, uma professora reformada para a Educação, um jovem relutante do skatepark para o Ambiente – desde que não implicasse reciclagem manual. Entre as primeiras medidas, anunciou hortas comunitárias em todas as rotundas, parques infantis com nomes medievais e um Museu da Vontade Popular Não Contabilizável.

Foram chamados académicos. Um politólogo de Beja classificou o caso como “a primeira autoproclamação autárquica espontânea desde as repúblicas italianas do século XII”. O Instituto de Antropologia Comparada de Viena lembrou que 70% das culturas tradicionais reconhecem líderes por revelação. Já o Instituto Nacional de Estudos Políticos publicou a nota interpretativa Da Democracia Sentida, em que sustenta que “a legitimidade simbólica pode ser uma forma avançada de autoajuda”. Tudo parecia convergir para uma nova forma de poder: íntima, infundada, estranhamente funcional – e talvez inevitável.

O contexto internacional valida o fenómeno: Trump, em 2020, e Bolsonaro, em 2022, também se declararam vitoriosos. O caso português, porém, inovou: aqui, o eleito dispensou as urnas. É, até prova em contrário, o primeiro chefe autárquico totalmente epifânico.

O verdadeiro Presidente evita confronto. Admitiu até ceder-lhe a biblioteca, “desde que trate bem dos livros”.

Entretanto, o autoproclamado transferiu-se do salão nobre para a mesa do fundo do Café Central – alegando que ali o ambiente era mais propício à governação intuitiva. Desde então, redige despachos em guardanapos e assina ordens para a “limpeza da rotunda norte por meios mecânicos não invasivos”. Criou uma taxa municipal sobre a melancolia urbana, cobrada em dias de chuva persistente. Recebe munícipes imaginários com soluções reais: paciência, chá de tília, rotas alternativas para fugir à apatia. Todos o tratam por “Senhor Presidente”. Talvez por hábito. Talvez por esperança. Talvez por falta de alternativa.

Ao fim do dia, prepara reuniões do seu executivo invisível. Comparecem: ele, uma cadeira vazia e um cão rafeiro que se senta com solenidade.

Sobre a mesa, uma placa improvisada com o seu hino inaugural:

Sento-me: no silêncio mando.

Quem duvida paga coima de melancolia.

O cão continua a vir.

A cadeira permanece vazia.

 

24
Ago25

A Linguagem Morreu

Mas ainda responde a emojis

 

 

 

Era uma sexta-feira qualquer, daquelas em que o cérebro acorda como um cursor a piscar à espera de instruções, e, com toda a naturalidade, enviei um “👍” à mensagem de um coleguinha. Um polegar para cima. Um simples gesto digital que, para mim, dizia “estou contigo”. Para ele, aparentemente, aquilo soou a “cala-te, estou velho e cansado”.

A linguagem morreu. Não com um grito, mas com um emoji mal entendido.

E não estou a ser dramático – bom, talvez um pouco. A crónica de Luís Pedro Nunes no Expresso – “OK, o mata-conversa” – não só confirma a morte do discurso como também assina o atestado de óbito com a esferográfica preta de um médico legista. Diz ele que o “OK” se tornou o equivalente textual de um aceno feito com o cotovelo: seco, automático, socialmente aceitável, mas semanticamente vazio.

Assino por baixo – com um 💀, claro.

Durante as aulas que tive de semiologia, nos anos 70, tudo parecia mais claro. O modelo era elegantemente linear: emissor → canal → recetor – com “p” mudo, como os dicionários antigos mandavam antes do AO90. Agora temos o mesmo circuito, mas com ruído, sarcasmo e um algoritmo a intermediar a ironia. O canal é o WhatsApp, o recetor é um Gen Z que se expressa em caveiras e o emissor sou eu – um boomer de dicionário na mão, o Unicode aberto noutro separador.

E no epicentro deste ruído geracional… o emoji.

 

Emoji: signo, ruído, ou performance?

Os emojis são a nova pontuação emocional. Ou então são o colapso final da linguagem simbólica. Depende da qualidade do vinho e da bateria do telemóvel.

Segundo o meu “Guia Boomer de Emojis com Intenção Literária”: 🤭 = Ironia leve; 😂 = Tentativa desesperada de parecer cool; 💀 = Gargalhada autêntica.

A caveira agora ri.

Descartes deve estar a dar voltas no túmulo – com uma lágrima de riso no olho.

Mas como explicar tudo isto sem parecer um professor reformado que se perdeu no grupo de WhatsApp da família? A resposta é: com dificuldade. Coloca-se um emoji aqui, outro acolá, como quem agita bandeiras numa névoa de notificações, e reza-se para que do outro lado ninguém leia ao contrário. A dúvida? Já não paira – instala-se, como aquela atualização do sistema que ninguém pediu.

 

Semiologia embriagada

Escreveu Barthes que o sentido se constrói por camadas. Agora é por stickers.

O signo não é só flutuante – é um alcoólico pessoano: “bebi qualquer coisa como três copos de aguardente”, escreveu Álvaro de Campos na Tabacaria. E assim tropeça, ri e nunca chega inteiro a casa.

O emoji, como signo, já não comunica – sugere. Ou melhor: confunde. É o equivalente digital de um olhar de esguelha. Mesmo assim continuamos a usá-lo, como monges a pintar iluminuras, convencidos de que aquilo vai sobreviver ao dilúvio.

 

Um boomer, um Gen Z e um bosquímano entram num bar

E ninguém entende o que o outro está a dizer.

O boomer manda um 👍. O Gen Z responde com 💀. O boomer acha que está a ser ameaçado de morte. O Gen Z está a rir-se. O bosquímano, provavelmente o único ali com uma relação saudável com os signos, acende a fogueira – e lança gestos de fumo. Que não se confunda com meros sinais. O fumo do bosquímano é signo: tem intenção, direção e leitura partilhada. Já o fumo de um incêndio em Seia, por mais dramático que seja, é apenas sinal.

A diferença? O bosquímano quer dizer algo. O fogo, nem por isso.

 

Conclusão (ou mais uma tentativa de mandar sinal)

A linguagem morreu, sim. Mas como qualquer morto ilustre, continua a ser citada, homenageada e usada como referência em crónicas metalinguísticas.

E se ainda conseguimos mandar uma caveira a alguém e receber de volta um coração amarelo (💛 = afeto neutro, certificado para avós), talvez reste ali um último sopro de vida nos circuitos do canal.

Talvez a linguagem não tenha morrido. Talvez esteja apenas em coma linguístico, ligada à máquina pelo emoji certo, enviado na hora certa. Será que ainda sabemos traduzi-los?

A semiologia? Está sentada num banco de emojis – à espera de uma reação.

🤭

 

20
Ago25

Museu de Gente

Com as mãos nos bolsos e as ideias à solta

 

 

 

Disse-me um amigo, com aquele tom que só os septuagenários afinam entre um suspiro e um diagnóstico:

– Em suma, já sou uma peça de museu.

A frase ficou no ar, a pairar como uma borboleta antiga, dessas que já só sobrevivem, espetadas com alfinetes, em álbuns de ciências naturais. E eu, que não resisto a ideias disparatadas com valor de futuro, imaginei logo o cenário: museus a contratarem velhos. Não a tempo inteiro – apenas durante as horas de visita, que ninguém merece ser património o dia todo com as cruzes a estalar.

Um museu onde as peças falam, resmungam, afinam a garganta, corrigem a legenda da própria vitrine e até se ofendem com perguntas mal feitas. Jovens visitantes aproximam-se dos “exemplares” – sentados em cadeirões de veludo gasto ou à mesa de fórmica – e perguntam, com genuína curiosidade ou reverência mal enjorcada:

– Senhor Velho, como era viver no bafio salazarento? Foi mesmo tudo a preto e branco… ou é só o filtro do TikTok?

As peças – também conhecidas por seres humanos com mais memória do que cartilagem – respondem com a serenidade dos que não têm pressa. Falam de senhas de racionamento e de cartas de amor escritas a esferográfica azul. De censura e rádios de válvulas.

E de esperanças pequenas, mas obstinadas.

Algumas fazem pausas para o comprimido da tensão. Outras encenam episódios do Zip-Zip ou recriam reuniões clandestinas com cheiro a cevada.

Cada sala tem o seu tema: Antes do Multibanco – A arte do troco; Pides e Piadinhas – Humor em tempos de medo; Cartas, Censura e Cravos – A construção do inacreditável.

E claro, como em qualquer museu, também aqui há etiquetas: “Exemplar não adaptado a sushi”; “Intervalo para sesta às 15h30”.

No fim da visita, zonas de descanso duplas: uma para os jovens, exaustos de fingir que já viram tudo; outra para os velhos, exaustos de terem visto mesmo. Em ambas, bolachas Maria, mantas e a RTP Memória a passar em loop.

Distopia? Talvez. Mas não mais absurda do que a realidade em que se fecham os velhos dentro de lares com nomes paradisíacos, como se a memória fosse contagiosa. Ali eles pouco falam… que quase ninguém pára para ouvir.

No museu, pelo menos, há diálogo.

Ou talvez esse museu já exista, disfarçado. Nos cafés, nos bancos de jardim, nas salas de espera dos centros de saúde. A entrada é gratuita. O acervo é infinito. Basta sentar-se, se houver lugar.

E quem sabe, um dia, também eu seja colocado numa dessas salas. Ao lado de um abat-jour e de um cartaz desbotado a dizer “Liberdade”.

Eu, peça cansada, mas não calada.

Com as mãos nos bolsos. E as ideias à solta.

 

Abat-jour.jpg

Foto de R. Stachman (Unsplash)

 

19
Ago25

Obrigatório Usar Gravata

 

 

Era uma vez uma gravata. Vermelha. Longa. Inchada de importância. Não dizia nada, mas falava por cima de muitos. Pairava sobre encontros como uma exigência silenciosa. Não apertava pescoços – apenas a estética do poder. (Coisa sensível, a estética, quando fica assim estrangulada.)

Era só tecido. Mas, à distância, parecia comando.

Vinha de longe. Trazia memórias de púlpitos, palanques, fotografias tiradas de frente. Habituara-se a liderar o mundo à altura do pescoço, prolongando-se até às profundezas do protocolo. Não gostava de ser ignorada. Nem de ser posta em causa. Era o que se usava. O que devia usar-se. Sem esse traço vertical no peito, o poder parecia… inacabado.

Quando, em teoria, alguém ousava apresentar-se à margem, murmurava-se desconforto. Chamavam-lhe informal. Faltava-lhe o adereço. “Que falta de respeito!” – diziam, com a discrição ensaiada dos ofendidos em público.

Até que, certo dia, um homem chegou ao centro do poder. Vestido de escuro. Sem gravata. Só isso bastou para gerar perguntas, provocar sarcasmos – alguém soltou um "aperaltado" – e alimentar comunicados. Não foi o que disse. Nem o que pediu. Foi o que não usou.

A gravata não compareceu. Ou talvez tenha sido convidada, mas posta de parte. Porque ali, naquele estilo, naquele gesto, não fazia sentido.

Ainda assim, falou-se dela. E muito. Mais do que de tratados, de números ou de prazos. Mais do que de pessoas. E crianças. Mais do que daquilo que realmente se veio discutir.

Há símbolos que só se fazem ouvir quando escolhem não aparecer.

Ninguém sabe ao certo quem comanda: se o homem, se o tecido. Mas é certo que, no coração do protocolo internacional, a gravata continua à espera. Talvez a mesma de sempre. Ou outra igual. À porta. Com o nó feito. E uma lista de pescoços por confirmar.

 

Gravata.jpg

À espera de um pescoço.

 

17
Ago25

O Guardião da Pureza

“Zaratustra, ao completar trinta anos, deixou a sua pátria e o lago da sua infância, e subiu à montanha. Aí viveu do espírito e da solidão, e disso não se cansou durante dez anos. Mas, por fim, o seu coração mudou. Então, numa manhã, ergueu-se com a aurora, dirigiu-se ao sol e falou-lhe assim...”

(Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

 

 

 

Zaratustra desceu da montanha com um livro em chamas. Não trazia mandamentos, mas perguntas. A liberdade, dizia, não é um dom – é uma tarefa. E cada escolha pesa. Cada ato exige o risco da responsabilidade.

Mas há terras onde a ética da escolha foi substituída pela moral da obediência. Onde o gesto livre é suspeito, e a dúvida um crime litúrgico. Nessas paisagens de calma imposta, ergue-se o Guardião da Pureza.

Não é um homem. É um sistema com rosto. Um corpo feito de olhos e ouvidos, espalhado como névoa por praças, escolas, lares. Infiltra-se nas dobras da vida privada: no gesto, no riso contido. Multiplica os véus – não por devoção. Exibe castigos como quem exibe troféus. Faz do medo estética. A teatralidade do poder é a sua liturgia.

As mulheres, cobertas por roupas escuras, longas, pesadas, mostram apenas o rosto e as mãos. Falam com os olhos. E com mãos longas, de pianista. Cada gesto, uma música sussurrada sob camadas de silêncio.

Sob o domínio do Guardião, a pureza não é um ideal: é uma arma. O véu torna-se fronteira. O castigo público, espetáculo. O silêncio, língua oficial. Tudo é ritual. E quanto mais puro o povo, mais impuro o poder que o molda.

Ele conhece bem o ciclo: primeiro, libertar – com promessas de dignidade. Depois, dominar – em nome da virtude. Por fim, purificar – até ao esquecimento. A história repete-se como teatro de sombras: ontem foram as riquezas naturais, hoje são as consciências. Tudo nacionalizado em nome da moral.

Claro que ele não está sozinho. Pertence a uma galeria de protagonistas que, por pavor do efémero, decidem tornar-se eternos. São os engenheiros do medo, artesãos da unanimidade. Chamem-lhes o que quiserem: clérigos, salvadores, mandatários eternos – em nome de Deus, envoltos nas sombras que costuram sobre os corpos alheios.

Mas a eternidade é frágil.

O Guardião da Pureza crê que ela lhe pertence porque dita o silêncio e multiplica véus. Mas a eternidade não se decreta: basta um gesto ínfimo – um olhar descoberto, uma palavra fora do guião – para que todo o império da pureza se desfaça em pó.

Não é o povo que teme o Guardião. É o Guardião que treme diante da livre escolha.

 

Olhar.jpg

 O silêncio também sabe olhar.

 

12
Ago25

O Manual da Eternidade

Onde se demonstra que, no poder, a paciência é mais afiada que a espada – e menos arriscada para quem a segura.

 

 

Entrou sem perguntar. A casa já era dele. Disse que ia limpar. Começou nos cantos, passou para as salas e acabou nas pessoas. Chamou-lhes poeira. Chamou à vassoura moral. A moral, no seu reino, era uma escada: quem subia, caía; quem caía, não voltava.

O trono tinha um relógio. O relógio tinha ponteiros. Os ponteiros tinham pressa. Mandou arrancá-los.

Vinha de sangue antigo, de marchas longas, de vitórias e purgas. Aprendeu cedo que poder não é conquistar; é não morrer. Teve ouro e teve lama. O ouro ensinou-o a sentar-se. A lama ensinou-o a cavar. Juntou as duas coisas: sentou-se e cavou à volta.

O jogo não era de xadrez. No xadrez há um fim. O dele era de cerco. Devagar, até não haver saída. Enquanto uns nadavam, ele fechava portos. Enquanto uns apanhavam sol, ele fechava portas. Cercava sempre.

Nos reinos de votos, pedem números. No dele, pedem fidelidade. E fidelidade não se conta, testa-se.

Sorria. Um sorriso oriental. O poder não precisa de muito mais. O resto é silêncio. E o silêncio é a música que toca quando todos têm medo.

Não era eterno. Fingiu que era. Todos fingem. Até que o eterno seguinte entra pela mesma porta.

O poder não acaba. Só muda de mãos. Troca apenas de dono.

 

Mao.jpg

Duas figuras lado a lado: o líder e a dama antiga, unidos pela luz e separados pela sombra. Ele, mais exposto; ela, mais oculta. Até na pedra, a autoridade fica à frente. Fotografia: Sculpture for sale, Flea Market, Chaotian Palace, Nanjing, China, 2007 — Phil Douglis

 

11
Ago25

O Narcisista

Há quem volte para governar. Outros regressam para repetir o número. Neste ato, o protagonista é aplauso de si mesmo, produtor da crise e herói da sua própria invenção. Um exercício de vaidade com roteiro de vingança.

 

 

Ele não regressa. Repete-se. Não volta ao poder – volta ao palco. A sua ausência foi apenas um intervalo mal interpretado.

No segundo ato, a encenação aperta. A luz é mais crua; o cenário, mais pobre; os gestos, mais nítidos. O que antes parecia improviso é agora vingança com guião. O erro do passado foi confiar nos filtros. Agora, filtra-se tudo – menos a raiva.

Uma vítima foi a estatística. A matemática contrariou o enredo e foi despedida. O número passou a ser suspeito. A verdade entrou em período sabático. Ainda não regressou.

Depois, a dissidência institucional. Quem recusa o roteiro sai de cena. O investigador que investigava demais. A jurista que leu a lei. O técnico que não quis maquilhar relatórios. Todos removidos com a mesma lógica: deslealdade à personagem principal. Não se trata de funções – trata-se de fidelidade.

Lá fora, o mundo é mercado. O desacordo, um número. A ameaça, uma percentagem. A diplomacia, um balcão de trocas diretas. Um elogio adia. Uma crítica acelera. Até o inofensivo pode tornar-se risco – basta uma etiqueta nova. A crise é fabricável. Desde que tenha o nome certo.

No centro de tudo, a sala. Não é um gabinete – é palco. A forma como se entra. O gesto ao sentar. O silêncio antes da fala. Tudo é dirigido. O visitante, público. A conversa, peça. O protagonista, constante.

As instituições tornam-se adereços. A legalidade, efeito especial. A linguagem cresce em volume e desaparece em significado. O tom apocalíptico consome tudo. Só ele pode salvar o que ameaça destruir.

Não governa. Representa. O discurso não convence – comove. A plateia não discute – aclama. Duvidar é má educação. A complexidade, inimiga.

O homem acredita ser necessário. Age como tal. Cada gesto é o ensaio de um destino. Cada erro, culpa de outro. Cada verdade, adaptável. Há algo de religioso na forma como se oferece como resposta. E algo de vaudeville na forma como tudo o resto é encenado.

O protagonista nunca sai de cena. Mesmo quando cai o pano, continua a acenar.

E nós, deste lado, assistimos – o próximo ato já começou.

 

Águia.png

Olha como quem vigia. Espera como quem já decidiu o final.

 

10
Ago25

O Protagonista Rotundo

O protagonista não fala – projeta. O Estado é musical; o povo, coreografia. O botão vermelho, brinquedo nuclear com aura de relíquia. O poder desfila – sempre com o mesmo corte de cabelo e um comboio blindado como altar em movimento.

 

 

 

Não chegou ao poder. Já lá estava. O trono foi-lhe passado pelo sangue e pelo nome – e, com ele, o guarda-roupa, o guião e, quiçá, o penteado. Não governa – representa a eternidade por herança.

A figura, redonda. A postura, hirta. O cabelo, geometria ideológica. Desafia a física, a moda e, por vezes, a gravidade emocional do regime. Presença constante, mas não expansiva. Move-se pouco. Fala ainda menos. Ri como quem calcula o alcance de um míssil intercontinental.

O Estado à sua volta é um musical nuclear. Os desfiles tornam-se bailados de farda. As execuções, finais de ato em tom grave. Cada gesto é espetáculo. Cada silêncio, parte do guião. O palco, um país fechado. O público, uma população coreografada. A encenação é contínua – como a marcha, como a vigilância.

No centro da narrativa: um botão. Vermelho, reluzente, simbólico. Parte relíquia, parte brinquedo preferido. Não se sabe se é real. Mas sabe-se que está sempre perto – adereço de segurança num teatro de tensão perpétua.

Também o comboio. Lento, blindado, decorado com pretensões imperiais. Viaja nele como quem transporta a ideia do poder. Cada paragem, um ritual. Cada chegada, um eclipse. A locomotiva não se apressa. O protagonista também não.

A sua voz é escassa – por isso foi delegada a quem sabe ampliá-la. A locutora do regime fala, grita e treme por ele – atuação em que cada sílaba é ensaiada como hino de lealdade. A sua dicção, espada de veludo, capaz de transformar uma colheita de batatas em anúncio apocalíptico. Mais que humana – encarnação sonora da obediência.

E quando o espetáculo exige sacrifício, entra o engenheiro. Ou melhor, o símbolo da falha. O míssil caiu. O satélite não subiu. O navio técnico afundou. E alguém tem de ser lançado ao ar – demonstração de que a gravidade não falha duas vezes. O erro não pertence ao sistema. Pertence ao corpo que se pode eliminar – técnico, ministro, qualquer figura removível para manter intacta a ilusão da máquina perfeita.

A tecnologia do regime, gloriosa nas imagens e frágil nos circuitos. Um foguetão é lançado, mas as ruas continuam iluminadas a petróleo. As ogivas multiplicam-se, mas as bicicletas do avô ainda servem para ir buscar arroz subsidiado.

Lá fora, poucos aliados – todos teatrais. Amor internacionalista por outros protagonistas com gosto por plateias amordaçadas. Marcham juntos. Sorriem juntos. Ajudam, se for filmado.

E discursos. Poucos, vagos, solenes. Com silêncios longos e repetições dignas de liturgia. Tudo em nome do povo, pela vontade do povo, contra qualquer suspeita de povo.

As estátuas sorriem. Os retratos vigiam. O líder está em todo o lado – até no comboio. Especialmente aí.

A pátria, um ecrã que repete o mesmo gesto como se fosse novo. Espetáculo em loop disfarçado de eternidade. Fronteira entre o trágico e o kitsch, onde até o medo dança ao compasso de uma fanfarra.

E nós, deste lado, observamos – entre o riso contido e a inquietação de que, agora, o botão talvez não seja apenas decorativo.

 

Coreia.png

A disciplina como espetáculo. A obediência como dança. Foto: El País.

 

09
Ago25

O Homem do Cerco

Não governa uma terra – guarda um muro. O perigo é o seu fôlego; o seu nome, a salvação. Permanece – não por necessidade, mas por inevitabilidade.

 

 

 

Nunca saiu. Apenas mudou de corredor. Apresenta-se cada regresso como resgate, mas mais não é do que continuação. O novo início é o velho meio com outro nome.

Constrói-se no som da sirene. A sua autoridade nasce da urgência. Governa melhor sob ataque – real ou inventado. Precisa do cerco. Sem ele, vacila.

Do país, a muralha. É o último a segurá-la. Tudo pode cair – menos ele. A queda do mundo é o argumento para a sua permanência. O caos fora justifica o controlo dentro.

Governa o medo. A identidade é trincheira. Não se escolhe um homem – agarra-se uma corda. O futuro não se promete: prolonga-se o presente.

A fé, testemunha silenciosa. Casa-se com o poder sem nunca o interrogar. A tradição mantém os fiéis dentro e os inimigos fora.

O tribunal, porta fechada. A assembleia, um corredor sem saída. A voz pública, apenas som.

A linguagem, a de sempre: ameaça, traição, sobrevivência. O tom grave, a pausa medida. Quem discorda é imprudente. Quem hesita, cúmplice. Quem pensa, perigoso.

Comprime-se o tempo. Molda-se o agora à sua imagem. O relógio repete a mesma hora, o mesmo minuto, o mesmo segundo – cada vez mais alto.

Ele é o escudo que decide. O eco da fortaleza. O corpo que substitui quem devia representar.

Quando perde, soa o alarme. Quando vence, o silêncio é alívio. Fora há apenas caos – e ele sabe narrá-lo.

O cenário não se move. As falas também não. Entram e saem rostos. O lugar, intacto. Segura a porta. E faz soar o alarme.

Deste lado, já não distinguimos o alarme da voz que o grita.

 

Gaza.jpg

O que sobra. Foto: RTP.

 

08
Ago25

O Protagonista Silencioso

Crónica sobre o poder que sussurra e encena. Quando o império já caiu e continua a governar por reflexo, o silêncio torna-se forma de comando. É esta a anatomia de um protagonista que não fala – representa. E de um país onde a história não se aprende – ensaia-se.

 

 

O tempo, neste lugar, não avança – dobra-se. Dobra-se como papel mal impresso. Como quem arquiva versões de uma mesma mentira. As verdades? Dobram-se também. Os adversários? Encaixam-se nos cantos. A história não passa: repete encenações com outro nome. Aqui, o futuro veste os trapos do passado, e o presente encena.

Tudo é palco. A queda de um opositor? Acidente coreografado. A pose ao lado de um animal, de um veículo militar ou de um torso? Ensaio de virilidade. O corpo, cartaz. O poder, coreografia.

No centro da cena, um homem. Não um nome, mas uma ideia com pernas. Caminha entre símbolos como se os tivesse inventado. Não comanda – representa. Governa através de gestos que se tornaram dogma. Foi funcionário do silêncio, zelador de ruínas, agora é protagonista de uma peça que se prolonga por aplausos obrigatórios.

A sua pedagogia é simples: o mundo trai, o país sofre. O inimigo é externo, e por isso eterno. Não está sempre à porta, mas pode ser inventado – e isso basta. A política faz-se a partir do medo e da fidelidade. Quem não teme... é suspeito. Quem pensa... está longe.

A mesa branca, longa demais para a convivência, tornou-se símbolo. Em tempos, provocou riso. Agora, é geometria de poder. Ninguém se senta perto. Ninguém diz “não”. A distância não é sanitária – é ideológica. É o intervalo entre o eu e o eco. Quem quer falar, traga binóculos.

Guerra – perdoe-se o termo – não se diz. Chama-se outra coisa. Eufemismo é ferramenta do regime. O léxico é cirurgicamente escolhido para que a dor pareça protocolo. Morrem civis, mas diz-se “precaução”. Bombardeiam-se cidades, mas fala-se de “paz”. As palavras tornam-se luvas: tocam sem deixar marcas.

Internamente, o espetáculo segue. Dissidentes adoecem em momentos oportunos. Jornais fecham antes da próxima página. Os que ainda escrevem vivem entre a coragem e o voo. A democracia existe – como cenário pintado. Os atores têm falas. O público, silêncio.

A fé também entra em cena. Mistura-se a devoção com soberania, e obtém-se um ritual de submissão. O sagrado serve para justificar a ordem. E o estrangeiro para ser denunciado. O poder lava-se no altar e sai santificado.

O homem ao centro já não é homem. É personagem que se acredita inevitável. Fala de paz com pólvora no bolso. Cita a história enquanto a altera. Move-se como se fosse conduzido pelo destino, mas o texto está ensaiado. Sempre foi.

Não governa. Representa. E ao representar, prolonga-se. Enquanto isso, nós – espectadores involuntários – observamos entre o bocejo e o calafrio.

 

Mesa1.png

A famosa mesa branca, ridiculamente longa, tornou-se símbolo estético da liderança em solilóquio.

 

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Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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