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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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Jul25

Ritual

Coimbra (2).jpg

 

 

 

Os sons da cidade espalham-se ao raiar da aurora. É o som da civilização cansada a fingir que desperta.

O som inebriado dos estudantes que, por dois semestres apressados, tomam de empréstimo a noite de uma cidade que nunca será inteiramente sua. Mas que parece pertencer-lhes por instantes.

Alguns sons não têm morada. Passam. Apenas passam.

Os pássaros cantam, ignorantes da tragédia planetária. Há gente que acorda, olheiras fundas e pão com manteiga na mão. O sol levanta-se, belo e cruel, marcando o fim da pausa e o regresso à rotina do desassossego.

Pelas seis e meia, ouve-se a voz grave dos que saem cedo – passos ritmados no passeio, botas pesadas a anunciar mais um dia igual.

Um carro ou uma motorizada sulca, de tempos a tempos, o silêncio espesso das ruas – deixando atrás de si o ronco quente do motor e o bafo do tubo de escape.

Vêm os homens da construção pelas sete e pouco, sacudidos pelas curvas dos autocarros suburbanos ou, com sorte, na carrinha velha onde se ouve o rádio do empreiteiro.

Logo a seguir, são as empregadas de limpeza, que partem cedo das suas terras e, como quem cumpre um ritual, desaguam na Baixa e se mantêm em grupos – grupos que se desfazem ao longo do percurso –, conversando, alto e sem pressa, sobre os maridos cansados, os mais velhos que já pouco dizem, e a prima que arranjou lugar na padaria.

Nas ruas circula o cheiro inconfundível do pão quente, a caminho das pastelarias e cafés ainda fechadas ao mundo. A cadeia de abastecimento junta-se ao burburinho matinal.

Já se veem os que servem o café a dispor as mesas na esplanada – como soldados sonolentos de um ritual quotidiano.

Depois, a cidade adensa-se: buzinas nos engarrafamentos, autocarros que quase raspam em tudo o que se move – e também no que não se move. Diz-se que há de vir o metrobus, com a sua via dedicada, por definição. Talvez no fim do ano… se Deus quiser.

Acordam os habitantes da cidade: casais jovens e os que tentam sê-lo, em marcha apressada para deixar os filhos na creche, na escola – ou, com aquela dedicação parental que já roça o absurdo, na universidade.

E ouvem-se também, das janelas entreabertas, os murmúrios dos mais velhos, insatisfeitos – alguém suspira pela vida que poderia ter sido... e já não será.

Os passos dos trabalhadores do comércio apressam-se – o horário de abertura é às nove, nalguns casos às dez, como é hábito nas cidades de nuestros hermanos.

E depois vêm os funcionários, rostos conhecidos dos balcões, dos carimbos e dos crachás – cada um fiel ao seu pequeno caos. E à ajudinha da cápsula compatível com Nespresso.

O som alastra. Primeiro murmúrio, depois clamor. A cidade parece ganhar forma – sobrepõem-se rotinas, funções, rostos de todas as idades, sotaques familiares e línguas que ela ainda está a aprender a ouvir.

Gente que caminha lado a lado, ou se cruza, trocando olhares e, quando o acaso permite, um "bom dia" distraído.

Dizem que é o som de uma cidade a ganhar tino. Talvez seja só ruído. Mas seguimos, como sempre, até à próxima esquina.

 

16
Jul25

O Sal da Terra

Peça curta para dois atores e um ego insuflado

mascaras.jpg

 

 

CENA ÚNICA

Restaurante escuro. Bancos de veludo. Ao fundo, um cantor romântico, decadente, arrasta Sinatra por um microfone gasto.
A mesa está posta com requinte desnecessário.
O cavalheiro tem Coca-Cola light. Gelo a mais. Como se fosse preciso.
A senhora, elegante, calada, chapéu escuro grande demais, de aba implacável, que lhe sombreia os olhos e recusa cumplicidade.
Ele fala. E fala... 

 

CAVALHEIRO
(voz arrastada, teatral, como se ensaiasse frente a um espelho de ouro)

O problema... o real problema, honey, não é a guerra. Não é.
É que ninguém sabe fazer a good deal. They don’t. Zero. Nada.

O russo? Um idiota. Um traidor. Acreditas que eu até gostava dele? Era meu amigo. Grande amizade. A maior amizade do Leste. Bigger than Poland, ok? Everybody says it.

Eu disse-lhe: “Vladimir, listen. Tens de parar com essa mania das bombas. Faz isso e eu dou-te a Crimeia, o Donbass, o que tu quiseres. Tenho os mapas. Fiz os mapas. São lindos, com cores e tudo. Melhores que os da CIA, believe me.”

Mas ele? Ele quer explosões. Quer aparecer na televisão como um Rambo de supermercado.

E eu disse-lhe: “Não sejas burro, Vladi. Somos amigos. Sabes que gosto de ti. Até já elogiei os teus abdominais.”

Mas nada. Ignorou-me. Acreditas?

(Olha para o copo, com dois dedos tira um cubo de gelo)

Este gelo está péssimo. Demasiado húmido. Quem fez isto devia ser deportado.

(Inclina-se ligeiramente, como quem partilha um segredo importante)

Agora toda a gente diz: “Oh, ele é imprevisível. Tretas! Eu sou muito previsível. Eu ganho. Sempre. Pergunta aos casinos.

O incompetente do Biden? Olha, o Biden nem sabe o que é sal. Achas que alguém assim pode negociar a paz no mundo? Come on! Ele já nem sabe se está em Delaware ou na Dysneylândia.

A Kamala? Oh, please. A woman que sorri como se lhe tivessem colado os cantos da boca com fita-cola. Nunca vi ninguém tão perdida com as mãos.
E queriam que fossem eles a resolver isto?

(Pausa. Sorri com condescendência)

Eu ofereci ao Vladimir um acordo de génio. GÉ-NI-O. Disse-lhe: “Ficas com o que o Krutchev — esse bêbedo com nome de remédio para a flatulência — deu aos ucranianos quando tu ainda usavas fraldas soviéticas. E eu fico com o mérito”.

Mas ele não quer o meu mérito. Quer fogo de artifício.

E há aqui uma coisa importante, que ninguém diz, mas eu sempre soube — toda a gente sabe que eu sempre pensei isto:

O russo... o russo é ainda mais comunista do que os incompetentes comunistas que me precederam. Até mais comunista que o Sanders a fazer ioga.

E sabes qual é o problema dos comunistas? Não sabem negociar. Não aceitam um bom negócio.

A verdade é que a Rússia precisa de ser descomunizada. Precisa mesmo.

Ninguém mais tem coragem. Só eu tenho o plano certo.

Eles têm tanques. Eu tenho lógica. Inteligência. E sal. Muito sal.

(Vira o olhar para a companheira. Silêncio espesso.)

Estás a ouvir-me, não estás?

 

SENHORA
(com um bonito sorriso nos lábios)

Passa-me o sal, honey.

 

(Cai o pano.)

 

15
Jul25

O Feitiço do Aprendiz

aprendiz.jpg

 

 

"You’re fired!" era apenas uma frase televisiva. Dita com ar triunfante por um apresentador que, semana após semana, punha fim à carreira de um aprendiz de empresário. Era um ritual do entretenimento. Era The Apprentice.

Durante mais de uma década, esse apresentador, também produtor e juiz, foi líder absoluto no estúdio. Bastava-lhe a frase. Um corte seco de câmara. Um olhar ensaiado. E a autoridade impunha-se. O efeito não vinha da decisão, mas da encenação. O poder vivia na pose, no ritmo do silêncio, no gesto estudado. Tudo estava sob controlo.

Como tantos reality shows do nosso tempo, este também transbordou do pequeno ecrã. Quando atravessou a fronteira para a política real, o apresentador levou tudo consigo: a personagem, o estilo, a frase. Teatral. Arbitrário. Feito de efeitos rápidos e meias-verdades encenadas. Passou a cortina com um arsenal mediático e uma frase-feitiço que meio mundo conhecia.

"You’re fired!", a frase mágica, parecia bastar para impor vontade. Rapidamente tornou-se maior do que o novo aprendiz de feiticeiro que a proferia. Despedir deixou de ser um ato administrativo. Passou a ser uma fórmula de autoridade instantânea. Invocada vezes sem conta. Idolatrada. E com isso ganhou vida própria. Transformou-se numa ameaça real para o sistema democrático que a tinha acolhido sem resistência.

Esse aprendiz de feiticeiro, agora investido de poderes reais, encolheu o Estado à medida do seu ego. Eliminou empregos. Desmantelou serviços essenciais de saúde, educação e apoio humanitário. Tal como num lance de xadrez, capturou a Justiça en passant. Sem compreender o perigo, chamou feitiços que escapavam ao seu entendimento. Declarou guerra tarifária à China, à União Europeia e ao mundo. Provocou retaliações em cadeia. Deteve e expulsou imigrantes em massa. Provocou disrupções nas cadeias de produção e um caos social que avançou sem travões. Militarizou discursos. Ordenou bombardeamentos sem consulta nem consenso. Deslegitimou o sistema eleitoral.

A vassoura encantada já começava a rodopiar sozinha.

O aprendiz, desde o início, abandonou o multilateralismo, trocando-o por uma diplomacia de ocasião. Feita de promessas voláteis. De vantagens imediatas.

Achou que podia despedir tudo e todos: juízes, jornalistas, eleitores — até a própria democracia.

Como no poema de Goethe, despertou forças que não compreendia. A democracia, como a vassoura encantada, seguiu em frente. Surda ao comando de quem lhe lançara o feitiço. Será que alguém com raciocínio esquemático e vocabulário limitado pode mesmo compreender as subtilezas de contextos complexos? Então, os efeitos colaterais não tardaram a manifestar-se. Seguiram a sua própria lógica. Discreta, mas implacável.

Nada disto é novo. Entre democracia e demagogia, o caminho pode ser curto. A República de Weimar era uma democracia. E mesmo assim deu lugar ao totalitarismo. De lá à Venezuela, passando por Itália, Hungria e Turquia, aprendizes imprudentes invocaram forças que não controlaram. Deixaram para trás ruína institucional, social e moral.

Enquanto se distraem e se deixam entreter, as democracias correm o risco de confundir o espetáculo com soberania.

Mas toda a peça grotesca tem o seu ato final. E, como nas grandes tragédias, os papéis invertem-se no fim.

É então que a democracia regressa ao palco. Não como figurante, mas como protagonista.

Ergue-se, firme. Não há aplausos. Apenas o silêncio espesso de um palco que já viu demais. Enfrenta a câmara invisível com a gravidade de quem foi ferida, mas não vencida.

E pronuncia, com a dignidade que só a justiça tardia conhece, a frase que sela o destino de quem se julgava acima da lei:

"You’re fired!"

 

Nota: Ilustração de Nelson Cruz para o poema O Aprendiz de Feiticeiro de Goethe.

 

12
Jul25

Dejà Vu

 

 

Hoje, um déjà vu inquietante atravessa a paisagem política global. Uma sensação de repetição histórica –daquelas que não reconfortam. Resquício de tempos sombrios. Uma presença que não se deixa esquecer. Estará a História a ensaiar novamente os mesmos passos? Não com as mesmas caras, nem nos mesmos palcos. Mas com argumentos parecidos. Com métodos semelhantes. Com uma mesma pressa em distorcer as regras — e uma mesma habilidade em transvesti-las de legitimidade.

Foi assim, por exemplo, na Alemanha de 1933. Recém-chegado ao poder, o governo não tardou a encontrar, num artigo da antiga Constituição de Weimar – aprovada nas últimas convulsões de uma democracia enfraquecida –, o pretexto jurídico para instaurar a governação por decreto. Uma lei com nome benevolente: Para Aliviar o Sofrimento do Povo e do Reich. Mas cujo efeito foi aliviar, sim – o fardo da fiscalização parlamentar. A Constituição podia ser reescrita. O Reichstag, ignorado. E os opositores, silenciados. Tudo dentro do enquadramento legal – com a violência invisível de quem o controla.

Hoje, noutro continente, com outras figuras e outro vocabulário, assiste-se a algo que, em traços largos, reencarna esse mesmo padrão.

Nos últimos dias, foi aprovada nos Estados Unidos uma peça legislativa colossal – quase mil páginas. Chama-se One Big Beautiful Bill. Nome sedutor, de marketing eficaz.Um título com mais brilho do que substância. Trata-se de um pacote orçamental, com ramificações que extravasam o mero orçamento. O debate foi apressado. O tempo para análise, curto. A pressão sobre os congressistas, intensa. Tudo em nome da urgência, da necessidade patriótica, da salvação da nação.

Mas o mecanismo – esse já vimos antes: aprovar muito, depressa, em silêncio, com um sorriso na face e a erosão institucional escondida em rodapé.

E quando as leis se tornam demasiado bonitas no nome? Títulos grandes. Sonantes. Impecavelmente patrióticos. One Big Beautiful Bill. Nomes que brilham nos ecrãs e nas manchetes. E escondem, lá dentro, cláusulas discretas. Pequenos desvios. Portas entreabertas. Silêncios escritos. Instrumentos de poder. Legalmente afinados. Democraticamente perigosos.

É nestes momentos que a História se insinua. Não como pretexto, mas como aviso. Porque a democracia –mesmo quando se ampara na legalidade – pode ser esvaziada por dentro. E quando as leis se tornam demasiado bonitas no nome… é prudente ler com ainda mais atenção o seu conteúdo.

 

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Capa de apresentação da One Big Beautiful Bill. Imagem: IDN Financials

 

10
Jul25

A Queda das Ditas Duras

Dominós.jpg

 

 

 

Na Europa do século XX, as ditaduras caíram como peças de dominó — umas pela força das armas, outras pela erosão interna, algumas pela morte natural dos seus líderes. A Alemanha nazi ruiu em 1945, esmagada pela guerra e pela ocupação aliada, levando Hitler ao suicídio e à divisão do país. Em Itália, Mussolini foi deposto pelo próprio Grande Conselho Fascista em 1943, preso por ordem do rei e resgatado pouco depois por tropas alemãs. A efémera República Social Italiana, imposta pelos nazis, duraria até 1945, encerrando-se sob a ação decisiva da resistência.* 

Na França ocupada, o regime colaboracionista de Vichy caiu em 1944 com a libertação do país. Mais a sul, Portugal e Espanha ofereceram despedidas particularmente tardias aos seus ditadores. Franco morreu na cama em 1975, após quase quatro décadas de autoritarismo. Mas foi precisamente o rei que ele deixara como herdeiro, Juan Carlos, quem lideraria uma transição pactuada para a democracia. Já em Portugal, a ditadura do Estado Novo foi derrubada por militares exaustos de travar uma guerra sem sentido, numa revolução que trocou tiros por cravos, em abril de 1974.

Também em 1974, a Grécia livrou-se da farda autoritária dos coronéis — uma queda apressada pelo fiasco da sua aventura nacionalista em Chipre. E quando o Leste europeu explodiu em 1989, a queda do Muro de Berlim abriu caminho para o colapso dos regimes ditos comunistas. O caso romeno foi o mais sangrento: Ceaușescu não teve direito a tribunal. Os restantes regimes renderam-se à evidência do tempo.

A história das ditaduras mostra que nenhuma é inabalável. Por mais que pareçam edifícios colossais, imponentes e inquebráveis, erguidos sobre areia movediça, estão condenadas a afundar-se quando a base enfraquece. Por mais que os ditadores se cerquem de muros e tanques, são as fissuras abertas pela persistência dos cidadãos — a sua recusa silenciosa e teimosa — que minam os alicerces do poder.

Hoje, os olhos voltam-se para figuras como Trump, cuja retórica autoritária desafia a própria lógica democrática dos Estados Unidos — sobretudo a ilusão de que basta votar para estar a salvo de líderes com tiques de poder absoluto. E para Putin, cuja permanência à frente do Estado se sustenta numa combinação clássica: repressão interna, culto de personalidade e guerra.

Ambos resistem, por enquanto — com a teimosia típica dos mitos que hão de ruir.

Mas as ditaduras modernas — mais subtis, mais mediáticas — não estão imunes à mesma fragilidade estrutural que acabou por desfazer os alicerces das que emergiram antes.

Trump, recém-retornado, e Putin poderão durar mais quatro anos, oito, doze.

Mas o fim não virá com o degredo para Alligator Alcatraz, nem com vertigens no ponto mais alto do Kremlin.

Virá com a manta pesada do ridículo e do descompasso com a realidade — um véu diáfono que revela o afastamento das ditaduras modernas de uma realidade que avança, enquanto elas se agarram a fantasmas do passado.

A queda das ditas duras continua — agora, em tempo real.

Ditas. Duras... Mas não eternas.

 

* ... e com o Bella Ciao a ecoar pelas montanhas.

 

04
Jul25

A Roda e o Vento

Mandala.jpg

Em tempos em que as linhas entre o sagrado e o absurdo se tornam cada vez mais ténues, a ideia de reencarnação ganha novos contornos.

 

 

O Testamento

Num mosteiro suspenso nas alturas rarefeitas de Dharamsala, sob uma luz dourada filtrada por bandeiras de oração que dançam com o vento ancestral, o 14.º Dalai Lama, com olhos de paz profunda e voz como pedra antiga, dirige-se ao mundo:

Quando eu partir, voltarei. Não nascerei onde me esperam. Serei homem — mas não moldado. Livre da mão do império. Leiam os sinais com pureza. E não temam o desvio.

A China reage com firmeza ritual, prometendo conduzir o processo com os seus protocolos apertados como algemas. Mas o mundo escuta. E os monges, em segredo, começam a preparar o inevitável.

 

O Vazio

A morte do Dalai Lama não tem som. Um frio denso espalha-se pelas planícies e vales.

Convocam-se oráculos. Rituais milenares cruzam os corredores dos templos. Os monges estudam estrelas, fragmentos de sonhos, deslocações de energia.

O oráculo murmura três sinais: silêncio denso, reflexo ausente, orgulho inato.

Dharamsala transforma-se num centro de vigília espiritual. Abrem-se arquivos ancestrais com luvas brancas. Mapas cármicos sobrepõem-se como mandalas cifradas.

Forma-se uma comitiva sagrada: lamas experientes, astrólogos, linguistas, noviços com relíquias ao peito, olhos como lanternas.

Partem para os Himalaias, os Andes, os Alpes, os Apalaches — as periferias invisíveis e as metrópoles onde a alma se esconde sob o betão e o consumo. A sua presença é quase invisível — e, ainda assim, imparável.

Consultam calendários lunares, escutam parteiras, analisam nascimentos coincidentes com o último suspiro do mestre.

Em cada casa com aura suspeita, oferecem os objetos — um sino, uma tigela, um colar de madeira antiga — para acordar a memória. Procuram gestos automáticos, olhos que reconhecem o invisível, dedos que hesitam antes de escolher.

Vivem meses entre malas feitas e desfeitas, silêncios e mantras. A imprensa especula. O povo sussurra. Mas nada é certo.

A reencarnação escapa. As visões contradizem-se. Instala-se uma angústia sem nome, como se o novo Dalai Lama não quisesse ser encontrado. Ou pior: como se estivesse deliberadamente fora do mapa.

 

A Revelação

Nos subúrbios de um continente distraído, uma mulher comenta com os vizinhos que o filho é... estranho.

Fala com palavras de homem feito. Corrige adultos. Dá ordens a quem não o escuta. Detesta jogos que não impliquem autoridade. Promete grandeza. Exige reverência. Nunca pede desculpa.

E passa muito tempo ao espelho, a ensaiar poses para o olhar dos outros.

Certa vez, proclama:

O mundo precisa de mim. Mas não está pronto.

Quando os monges chegam, são recebidos por brinquedos alinhados com rigor militar. De uma bolsa retiram os objetos antigos, que dispõem sobre uma mesa de vidro. O menino aproxima-se, olha, toca, depois murmura:

— That was mine! The bell is off-key. So are you.

Silêncio absoluto. Um dos monges fecha os olhos, como se escutasse um sinal. Outro anota algo com mãos trémulas — talvez iluminação, talvez cobiça.

O menino tem quatro anos. Rechunchudo. Pele clara. Uma boquinha quadrada, que articula frases simples com a precisão de quem acredita que cada palavra sua é lei. O olhar é tão firme quanto altivo. Usa fatinho azul escuro, gravata vermelha absurda, a roçar-lhe os joelhos — como se fosse emprestada — e penteado cuidadosamente esculpido num laranja improvável, desafiando o vento, o karma e o bom senso.

O ciclo fecha-se. A roda do renascimento girou… e tropeçou. O universo riu-se. Não foi de alegria.

 

Nota: A mandala que abre este post é um símbolo visual do universo e da impermanência, usado em tradições budistas. Representa ciclos de existência — perfeitos à vista, mas frágeis no centro. Tal como a história que acaba de se fechar.


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