A Fila como Património Imaterial

Nos EUA, o governo anunciou recentemente restrições de entrada de estrangeiros que “minem os direitos dos americanos”, sobretudo no que toca à liberdade de expressão — incluindo o direito sagrado de partilhar desinformação nas redes sociais sem moderação por parte de outros governos, seja na América Latina, na Europa ou noutro lugar.
Em Portugal, por outro lado, a ameaça veio de Matthew Prince, CEO da Cloudflare, que considerou o país “não sério”, lamentou a “burocracia sufocante” e teve um ataque de caspa no aeródromo de Tires ao ser confrontado com o ultrajante pedido de rastreamento da sua bagagem.
Perante tamanha afronta, há sinais de que o futuro Governo poderá vir a considerar responder, sob a forma de um pacote de medidas destinadas a proteger os pilares fundamentais do modo de vida nacional: a paciência resignada, a burocracia contemplativa e a fila como rito de iniciação cívica.
“Nós somos um país calmo, paciente e eternamente em obras”, declarou a futura Ministra da Paciência e Assuntos Lentos, Maria da Luz Morna. “Essa é a nossa maneira de viver, um direito inato que estrangeiros, por mais bilionários e impacientes que sejam, não têm autoridade para menosprezar.”
Lista de vigilância de VIPs emocionalmente instáveis
Entre as novas medidas está a criação da “Lista de vigilância de visitantes VIP”, que incluirá qualquer cidadão estrangeiro que:
- Demonstre impaciência em filas com menos de duas horas;
- Grite em espaços fechados com mais de uma impressora avariada;
- Use, em repartições públicas, expressões como “Nos EUA isto não acontecia” .
Estes indivíduos poderão ser obrigados a frequentar workshops, entre eles “Como preencher formulários da Segurança Social sem perder a vontade de viver” ou “Meditação guiada ao som das obras do Metro”.
Segundo o provável Secretário de Estado da Cortesia Inútil, Dr. Norberto Firmeza:
“Nós estamos a proteger o país — e o próprio visitante. Ninguém enfrenta o IMT ou o aeroporto Humberto Delgado sem preparação espiritual. É como ir a Fátima de joelhos: exige fé, resistência e um comprovativo de morada.”
Medidas populares
A reação da população imigrante foi entusiástica. Um inquérito à porta do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras revelou que 93% dos utentes concordam que “se eu tenho que esperar sete horas com senha B127, ele também deve esperar”. Os restantes 7% estavam a tentar descobrir onde tirar uma fotocópia da certidão de nascimento.
Também está em estudo um “Visto de contenção emocional”, com validade de 72 horas, destinado a visitantes com histórico de stress administrativo. Esse visto incluirá acesso limitado a zonas de alta frustração — como repartições fiscais, estações dos CTT e balcões de atendimento com um post-it no vidro a dizer “Já volto.”
Tradição é para respeitar
Nas palavras da designada Ministra da Paciência:
“A nossa burocracia não é um erro do sistema. É o sistema. Quem não a respeita, que vá viver para um sítio onde tudo funciona — se tiver habilidade para preencher os formulários.”
Portugal não quer dificultar a vida aos estrangeiros. Apenas garantir que, antes de gritarem com um funcionário público, eles compreendam o que significa ser português: esperar em silêncio, suspirar com dignidade e celebrar cada carimbo como uma pequena vitória sobre o absurdo.
Porque a fila, em Portugal, não é apenas uma espera.
É uma escola.
É um destino.
É património imaterial.
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