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Cidade sem Tino

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade, nome feminino – O palco das vidas que se cruzam e divergem. Sem, preposição – Uma lacuna, um estímulo à descoberta. Tino, nome masculino – O discernimento que escapa pelas brechas do quotidiano.

Cidade sem Tino

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

.
Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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06
Dez25

Grupo de Trabalho sobre a Realidade

Uma breve ficção administrativa sobre a fragilidade da realidade como conceito partilhado.

Reuniram-se numa sala demasiado iluminada, com garrafas de água ridiculamente pequenas, alinhadas com rigor. O objetivo: decidir se a realidade, na sua forma atual, devia ser revista.

Havia quem defendesse que já não fazia sentido usar a palavra. Outros propunham mantê-la, mas apenas com inicial minúscula e com um asterisco.

O presidente da comissão, um homem grisalho com voz educada, falou do custo de manter uma realidade comum. Era difícil atualizá-la em simultâneo para todos os utilizadores.

– O atraso médio entre o acontecimento e a compreensão ultrapassa já os três anos – disse, com a naturalidade de quem apresenta estatísticas de trânsito.

Uma jovem analista questionou se seria possível viver com versões personalizadas:

– Cada cidadão teria direito à sua própria realidade, devidamente validada por algoritmo certificado.
– E se duas realidades forem incompatíveis? – quis saber alguém.
– Serão toleradas – disse-se, com a solenidade de quem não entendeu a pergunta.

No fim, votou-se manter a realidade, mas com condições.
Aceitar que há zonas lentas, zonas cegas e zonas suspensas.

Ficou decidido que qualquer proposta de atualização da realidade deverá ser submetida com, no mínimo, 30 dias de antecedência.

Ficou acordado que a palavra “realidade” passará a ser usada com a delicadeza de quem segura uma bomba-relógio embrulhada em papel de seda.

01
Dez25

O Dia da Restauração

Crónica gastronómica, dita aos tachos e ouvida pelas gerações.

Ilustração_O_Dia_da_Restauração.png

 

A cada 1.º de dezembro, evoca-se mais do que a História – recorda-se um golpe de estado culinário. Foi o dia em que ilustres chefs de cuisine derrubaram o cochinillo asado e proclamaram o cozido à portuguesa como prato soberano. Aconteceu há quase quatro séculos, mas o vapor ainda embacia os vidros da memória.

 

 

 

No ano de 1640, o Paço da Ribeira deixara para trás os rendilhados manuelinos – de cordas, de marés – sinais de um tempo em que o mar esculpia a pedra das fachadas. Com as obras felipinas, o palácio crescera em dimensão e em silêncio. O maneirismo engoliu os registos náuticos e apagou o sal das paredes – como se a arquitetura tivesse perdido o antigo paladar, feito do sabor dos temperos locais.

Foi ali, nesse palco de outrora, que 40 chefs se reuniram. Trouxeram consigo abades e sargentos-mores. Todos de colher de pau em punho, avental ao peito, e uma fome antiga de justiça. Marchavam com fervor patriótico – decididos a destronar o invasor castelhano não só do trono, mas da própria mesa.

No salão nobre – entre colunas emproadas e tapeçarias mudas – a Sous-Chef de Portugal e o seu Provador-Mor saboreavam, sem pudor, um sumptuoso cochinillo asado. As bocas brilhavam com gordura estrangeira. Como se a gula castelhana tivesse tomado o lugar da honra.

Foi então que os conjurados irromperam. Erguiam as colheres como cetros de guerra, avançando pelo salão com passos de fervura. Ao centro, o Grão-Chef — figura austera, barba firme, olhos de forno aceso.

¡Cómo osan, bárbaros, profanar el gloriosísimo cochinillo – joya imperial de carnes tiernas y grasa celestial – consagrado por Su Majestad y bendecido con estrella Michelin?! – vociferou a Sous-Chef, com um sorriso de escárnio e os talheres dourados ainda em riste.

O Grão-Chef não se deixou abalar. Deu um passo em frente. E a sua voz soou como um tambor ao longe:

– Chegou o dia em que o fumo de Espanha deixará de toldar as nossas cozinhas! A partir de hoje, o cochinillo será relegado ao esquecimento. Para que se prove, uma vez mais, que somos senhores dos nossos tachos e do nosso destino!

Fez-se um silêncio espesso. Como caldo de véspera.

– O cozido. Prato soberano que fortaleceu gerações. Resistiu – firme – ao embate da vossa operação gastronómica especial. É o bastião da nossa identidade. O verdadeiro sustento da alma portuguesa. Em contraste com o suíno invasor. De carne mole... e flácida. Uma afronta à robustez da pátria!

E concluiu, parafraseando Mestre Almada:

– Um cochinillo a pretender lugar à mesa é um insulto! Morra o cochinillo, morra! Pim!

Gritaram todos, como se a fervura das panelas lhes subisse ao rosto:

– Glória ao cozido! Morte ao cochinillo!

Apavorada, a Sous-Chef refugiou-se num armário do palácio. Lá dentro, já se encontrava o Provador-Mor. Sem espaço para ambos, este remexeu-se desajeitadamente, provocando uma restolhada de folhas de louro esquecidas no interior. Mais se assemelhou a um embaraço digestivo abafado. Fez-se uma pausa. E então, num gesto irremediável, ele abriu a porta.

No instante em que se revelou, foi defenestrado. Sem fala. Sem perdão. Sem sequer a suavidade de um paraquedas.

Um corpo gorduroso a cair do alto. Último vestígio da velha ordem, a estatelar-se contra a calçada.

– Cozido! Cozido! – gritavam os chefs, as colheres agora erguidas como estandartes.

E como é da natureza do boato espalhar-se mais rápido do que um bom caldo entornado, logo fervilhou nas redes sociais do reino:

– Acorramos ao Grão-Chef, amigos! Acorramos ao Grão-Chef, que fritam sem porquê!

Logo esta fake news – muito antes de o termo existir – percorreu vilas e campos. As gentes, ouvindo isto, saíam à rua a ver que coisa era. Falando uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam de tomar armas: rolos de massa, facas e pinças de churrasco. Cada qual como melhor e mais asinha podia.

Vieram azeiteiros. Vieram almocreves. Depois taberneiros, estalajadeiros e limpa-chaminés. Todos se juntaram à causa: em defesa do cozido, contra o cochinillo, e em nome da panela portuguesa. Em boa hora levantada pelos 40 conjurados.

Com o partido do cochinillo a braços com labaredas na Catalunha, as forças castelhanas dispersaram como cebolas num refogado mal mexido. Foi o suficiente para o cozido, impávido, subir ao trono das mesas portuguesas. Não com pompa castelhana. Mas com o fumo orgulhoso de um tacho a ferver. E o estalar heroico – fora de tempo – de uma farinheira distraída.

 

- A ilustração no início do texto foi gerada por inteligência artificial, que cometeu, no entanto, um pequeno deslize histórico. O Provador-Mor, em vez de ser arremessado para fora, aparece a entrar pela janela. Foi, portanto, defenestrado ao contrário. Um pormenor curioso que, assim como esta crónica gastronómica, privilegia o sabor sobre o rigor.

- A Duquesa de Mântua era, desde 1634, a representante gastronómica da coroa de Felipe IV de Espanha, III de Portugal – como soe dizer-se. Na manhã de 1 de dezembro de 1640, foi detida pelos conjurados – sem qualquer mandado, pasme-se! – e enviada para o Convento de Santos, enquanto o Duque de Bragança era aclamado Grão-Chef. O texto refere-a como Sous-Chef – que, num 2025 moderno e inclusivo, seria certamente Sous-Cheffe. Mas, à época, a feminização linguística das profissões ainda não constava da ementa política.

- Importa dizer que a anacronia histórica é intencional: Andeiros e Vasconcelos nunca faltaram. Seja na gastronomia ou noutras esferas. Como um ovo podre numa omelete bem batida, os traidores estragam o sabor das causas e das mesas. Surgindo ao longo dos séculos: em 1383, em 1640… e, sem dúvida, em tempos que hão de vir. Não surpreende, então, que a fake news de 1640 tenha, afinal, começado já em 1383. Como relatou Fernão Lopes.

- Séculos depois, Portugal voltou a cruzar-se com a Espanha. Numa inesperada aliança gastronómica. E estratégica. Coube a um nobre catalão – Roberto Martínez – a missão de reerguer o esplendor nacional. Se em 1640 a revolta na Catalunha ajudou a restaurar o trono, agora, sob a batuta ibérica, o cozido alia-se ao pan amb tomàquet e aos cargots a la llauna para dominar os campos do Mundial. Afinal, a História repete-se. Primeiro como prato. Depois como posse de bola.

 

20
Nov25

Adeus, Bidé – até depois

Uma crónica sobre o declínio (e metamorfose) do bidé em Portugal


Bidé.jpg

 

Desde janeiro de 2024, o bidé deixou de ser obrigatório nas casas de banho portuguesas. Com o novo Simplex urbanístico (Decreto-Lei n.º 10/2024), bastam três peças: uma banheira ou duche, uma retrete e um lavatório. O Estado assinou discretamente o cancelamento da louça mais emblemática da intimidade doméstica.

A decisão não foi (só) higiénica. Foi também urbanística, económica e até filosófica. O objetivo era libertar área útil e alinhar com hábitos internacionais – fosse isso feito por simplificar projetos ou simplesmente reduzir exigências. Numa palavra: simplificar. E como em quase todas as simplificações, perdeu-se uma coisa – e ganhou-se liberdade.

 

 

 

 

Portugal descobriu que o bidé não era um objeto: era um estado de espírito. Um vestígio cerâmico de uma era em que a higiene era ritualizada, coreografada e separada por aparelhos. Hoje, a água continua essencial, mas o modo como ela nos encontra ficou ao critério da arquitetura e da imaginação.

Três soluções íntimas perfilam-se para tomar o lugar da velha peça de cerâmica – cada uma com o seu charme (ou ausência dele).

A primeira é o regresso das tralhas hidráulicas. O velho polibain ainda sobrevive nalgumas casas dos anos 80. O seu jato vertical, ora manso ora imprevisível como um poço de petróleo, fez dele um caso de amor e medo. Pouco elegante, mas funcional. Mais convincente é aquela torneirinha com bicha que parece saída de um improviso de canalizador. Popular no mundo islâmico e em ascensão nos mini-apartamentos lisboetas, é barata, simples e eficaz. Pode não ser bonita, mas resolve o essencial: a água chega onde tem de chegar. Como diz o senhor Jorge, canalizador de Massamá, “a água não precisa de GPS”.

A segunda hipótese é a sofisticação japonesa. Durante anos, as sanitas-bidé foram um luxo de hotel de cinco estrelas. Hoje, os modelos com funções básicas custam menos do que uma torneira de autor em latão filosófico. Trazem jato ajustável (frontal e traseiro), ar quente e tampa aquecida. Uma música de piano acompanha o utilizador, caso se demore demais, até ao limite da decência auditiva. Com tecnologia e conforto, a sanita evoluiu para trono digital: para muitos, é a alternativa mais aceitável ao velho bidé cerâmico.

Por fim, há a robustez do mundo sem canalização – lugares onde o bidé nunca chegou, nem tinha razões para chegar. Aí, a higiene íntima é um exercício de destreza: baldes fazem de torneira, a água é racionada com precisão quase cerimonial, e a limpeza segue métodos tão antigos quanto eficazes. Nada de cerâmica nem design – só engenho e necessidade. Nestes contextos, a intimidade não se desenha – resolve-se. E há algo de admirável nessa resiliência: uma dignidade pré-azulejada, sem botão de jato, mas com imenso sentido prático.

Com a nova legislação, Portugal começa a divergir em estilos e escolhas. A construção nova – mais barata e mais compacta – tende a eliminar o bidé sem remorsos. Há arquitetos que preferem torneirinhas discretas, como se fossem segredos hidráulicos. Hotéis apostam nas sanitas-bidé para vender conforto com sotaque internacional. E muitas famílias tradicionais mantêm o bidé, como quem guarda um retrato de família em louça branca.

A casa de banho tornou-se um espelho do que somos e do que deixámos de ser. Na réplica Minimalista Escandinava, a sanita flutua na parede como se rejeitasse o pecado da gravidade – e o bidé não é bem-vindo nem como conceito: sugeri-lo é como servir feijoada num spa. Num T3 Renovado, a entrada de água do bidé poderá ter sido escondida com uma tampa cromada que brilha como uma culpa mal resolvida. Num Hotel Boutique, uma sanita tocará harpa enquanto a tampa se levanta sozinha – só falta agradecer e deixar gorjeta. Numa Casa de Família, há bidé, polibain, banheira e duche: um museu da higiene portuguesa, com legendas imaginárias. No Estúdio para Alojamento Local, a torneirinha é vendida como “conforto oriental”, mas funciona como pistola de paintball para turistas desprevenidos.

O bidé continua presente, mesmo ausente. E essa presença-fantasma define a sua importância. Para uns, é património afetivo. Para outros, um obstáculo hostil. Muitos usam-no como recipiente de cremes, escova elétrica e livros de Sudoku. Uma tia de Alvalade serve-se dele como suporte de plantas “medicinais”. Alguns batem-lhe diariamente com o joelho como quem castiga um parente incómodo. Poucos o celebram. Mas todos o reconhecem.

Mesmo em tempos de sanita inteligente, o bidé clássico guarda uma virtude difícil de replicar: a sua simplicidade mecânica. Sem eletrónica, sem sensores, sem manual de instruções. Só cerâmica e água. Paradoxalmente, talvez fosse a hipótese mais sustentável.

Como qualquer espécie digna de nota, o bidé evoluiu: começou no século XVIII como sela de aristocrata francês. Ganhou estatuto sanitário no século XX. E agora liquefaz-se: torna-se spray, sanita japonesa ou memória.

O bidé não está extinto. Apenas sublimado.

Na era pós-Simplex, a higiene íntima em Portugal passou da obrigação ao design. E cada português – e portuguesa, claro – é agora livre para reinventar o seu ritual: com sensor digital, com torneira improvisada, ou com a memória húmida de uma peça de louça que já não tem lugar, mas ainda diz muito.

 

Fonte da imagem: United States Patent Office. Patente de John Reid – “Bidet”, arquivada a 5 de dezembro de 1887.

 

15
Nov25

Unicórnios e Outros Bichos Mitológicos

 

Há qualquer coisa de mágico – ou talvez de tragicómico – no palco da Web Summit. Os políticos chegam baços, saem brilhantes. Como se o LED das luzes lhes acendesse os olhos, e a linguagem da tecnologia lhes devolvesse uma juventude de laboratório. Disruption. Quantum. Scalability. Palavras que não se mastigam – projetam-se, com fé e sotaque. E basta prender-lhes um microfone à bochecha para parecer que parte do raciocínio foi enviado para processamento remoto, numa cloud muito nacional, muito promissora.

Desta vez, foi um ministro. Não importa o nome. Importa o gesto, a cadência, a fé. Disse que Portugal está pronto para liderar o mundo em inteligência artificial. Liderar. O mundo. Assim mesmo, sem rodapé.

É sempre bonito ver entusiasmo. Mas mais bonito seria ver médicos onde faltam, professores onde são precisos e escolas sem baldes no chão a aparar o que a chuva traz. Saltam-se etapas com uma leveza inquietante – como quem promete um foguetão para Marte antes de construir a estrada até casa.

No topo do discurso, uma estrela: um tutor de IA para cada aluno. Um ser digital que escuta, guia, inspira. Que conhece a criança melhor do que ela própria. E que, se o orçamento der, talvez ajude a por a mesa e a aquecer a sopa.

Por instantes, pareceu estar ali, no palco, a solução para décadas de desigualdade educativa – comprimida num algoritmo afável, programado para o bem.

Mas o verniz do entusiasmo estala depressa. Portugal já foi líder do hidrogénio verde. Do mar. Do sol. Das startups. Dos bioquímicos e dos roteiros tecnológicos. Especialista em anunciar o futuro, mesmo quando o presente está por fazer.

Não se trata de um lamento contra a tecnologia. Trata-se, por assim dizer, de um gesto de respeito. Porque a tecnologia merece chão fértil, tempo, investimento real, políticas sérias. Não promessas em palco com drones a filmar de cima.

No meio desta dança – entre o PowerPoint e o milagre – o cidadão comum observa. Lá vai, com o que lhe resta. E pergunta-se, talvez em voz baixa, se também ele terá direito ao tal tutor de IA que o escute, que o inspire, que o guie.

Talvez sim. Talvez não.

Mas até lá, o mais sensato é continuar a confiar na velha fórmula que nunca falhou: inteligência humana, ironia quanto baste e aquele instinto antigo – quase animal – que desperta sempre que alguém nos garante o futuro… com brilho nos olhos e inglês de telepromoção.

 

Eles galopam.jpg

Eles galopam. Promessas ao largo.

 

13
Nov25

Sermão às Pedras da Calçada

Uma pregação laica sobre a cidade, dita às pedras e ouvida pelo tempo.

 

Tudo começou com um sermão – não no púlpito, mas sobre a calçada de uma praça imaginária. Foi ali que nasceu a Cidade sem Tino: sem ser por vontade divina, mas sim por curiosidade terrena — esse gesto de olhar para o chão e perguntar o que as pedras pensam de nós. O Sermão às Pedras da Calçada inaugurou este espaço com a inquietação de quem fala à matéria inerte, esperando resposta. Entre a ironia e a fé no humano, traçava, desde então, o rumo desta cidade: pensar o quotidiano, desmontar o absurdo e, quando possível, devolver-lhe o riso. Hoje, as pedras continuam – mais gastas, talvez. As falácias multiplicaram-se, mudaram de pele, assumiram formas mais subtis. Mas há também passos novos, mais atentos. Por isso, republica-se este sermão – com reformulações discretas – não como relíquia, mas como lembrete de que até o chão pode ser lugar de pensamento.

 

 

 

 

PedrasCalçada.jpg

Numa praça deserta, sob o sol do meio-dia, o calor eleva-se do empedrado em ondas invisíveis, e o silêncio adensa-se entre fachadas imóveis. Um pregador põe os olhos no chão e, com voz aveludada, desafia as verdades aceites.

 

Ó pedras da calçada,
vós que revestis o chão da cidade não apenas como adorno, nem como mero suporte para os passos apressados dos transeuntes, sois as guardiãs do tempo, da memória, das nossas histórias e dos desafios contemporâneos. Sois testemunhas silenciosas das escolhas que moldam o quotidiano e dos desafios que se acumulam a cada esquina.

Ao observarmos o mundo
transformar-se num mar de falácias, questionamos: será falha vossa, que não empedrais firmemente, ou da terra, que não se deixa empedrar? Será porque os novos pregadores proclamam a verdade enquanto praticam a hipocrisia, ou porque os acomodados escolhem seguir os exemplos corruptos em vez das palavras íntegras?

Vós, pedras,
que conheceis cada canto da cidade, formais a verdadeira ágora onde se manifestam as angústias e alegrias dos cidadãos. Sois humildes na essência: guiando os passos da gente comum, mostrais mais atenção à realidade do que à vaidade das poses encenadas. Como netas das imponentes catedrais que escreviam a História em pedras de grande formato, unis o antigo e o contemporâneo em cada rua, em cada praça. Triunfais sobre o torpor dos espaços por calcetar.

Ainda assim, ó pedras da calçada,
urge que não permaneçais apenas como testemunhas mudas e vos ergais contra as adversidades que assolam a nossa cidade. Levantai-vos contra os tanques que cruzam o empedrado, tentando expandir a sua influência ou impregnar a vossa natureza com uma visão hierárquica da cultura. Vede como o musgo do preconceito e da discriminação, que cresce silenciosamente entre vós, cria barreiras invisíveis que segregam os passos de pessoas de diferentes cores e origens. Vós, que devíeis unir, tornastes-vos, sem querer, divisoras do caminho, favorecendo uns em detrimento de outros. Não permitais, ó pedras, que, por astúcia interesseira, raízes daninhas se entrelacem sorrateiramente, enfraquecendo a terra que vos sustenta e usurpando as casas a que ofereceis acesso.

Vós, que fostes assentes
uma a uma com cinzel e martelo, pela mestria de quem zela para que nenhuma saliência cause tropeço, estai atentas à erosão das fundações, essa imperfeição disfarçada sob o polimento da legalidade. Lutai contra o abuso de prerrogativas que vos despoja do vosso pó e da areia fina para proveito próprio. Levantai-vos contra os culs-de-sac e outros impasses infrutíferos da justiça eclipsada.

Vivei, ó pedras,
em consonância com as pessoas, a fauna e a flora. Suportando o peso da vida que vos envolve, abraçai o desafio climático com a firmeza de quem sustenta o mundo passo a passo. E, mesmo que permaneçais mudas, deixai que o vosso silêncio fale mais alto do que os gritos da ambição vazia.

Tenho falado convosco
como quem fala ao tempo. Nem sempre sei se me escutais, ou se estas palavras se perdem entre os passos e o pó. Mas creio que, mesmo mudas, vós sentis quando algo se desloca no fundo da cidade – como um pressentimento que antecede o desabamento ou a sementeira.

Despeço-me, então,
ó pedras da calçada, com uma exortação final: continuai a sonhar e a inspirar sonhos, pois em vós reside o potencial de mudar destinos. Recordai o que diz o poeta e deixai que a música, simples mas poderosa, flua. Sonhai, pois, e sabei que o mundo se move e avança, como pedra “colorida entre as mãos de uma criança”.

La la la ra la ra ra.

 

- O Sermão de Santo António, que inspirou este texto, foi pregado por António Vieira, na cidade de S. Luís do Maranhão, ano de 1654, três dias antes de o autor embarcar ocultamente para o reino, a procurar o remédio da salvação dos índios.

- No Speakers' Corner do Hyde Park qualquer cidadão pode discursar. Há a crença de que o orador, ao permanecer sobre uma cadeira ou caixote, não pisa solo inglês, estando por isso isento das leis e tradições – uma noção pitoresca, mas sem fundamento.

- Pedra Filosofal é um poema de António Gedeão, publicado em 1956, que fala da capacidade humana de sonhar e transformar o mundo. Em 1970, Manuel Freire fez do poema canção, que rapidamente se tornou um hino de resistência.

- Há pedras que sonham. E, às vezes, por entre as juntas, desponta qualquer coisa maior.

 

11
Nov25

Bateram-me à Porta

Bateram.jpg

 

Ele — meia-idade, cabelo ainda preto, fato negro grande demais, a gola do casaco erguida. O pescoço, já não.

Ela — talvez vinte e cinco anos, vestido evasê pied-de-poule, abaixo do joelho, sapatos de meio salto ligeiramente cambados.

 

 

 

Ambos traziam

pastas de napa preta. Certas missões exigem uma pasta. E uma postura.

No modo como se apresentavam, havia qualquer coisa de encenação – uma dignidade algo teatral, como se carregassem o peso de uma causa antiga.

Disse ele, com solenidade:

– Vimos falar com o Senhor.

Eu sorri

e ativei o meu discurso número dois – aquele para visitas inesperadas e delegados das alturas.

– Dou-me – e dar-me-ei sempre – bem com todas as estrelas do céu e com os seus representantes na Terra. Não ando atrás de nenhuma em particular, mas também não quero ser apanhado de surpresa quando o sol escurecer e os figos verdes caírem, derrubados da figueira por qualquer vendaval. É que, neste ponto, as opiniões dividem-se…

Fiz uma pausa

e acrescentei, com a franqueza que a ocasião pedia:

– Estou super-stressado. Trabalho até dizer chega, e pouco tempo me sobra para conversa. A menos que queiram – o que é improvável – dar-me uma ajuda.

Ela hesitou

por um segundo. Depois disse, com serenidade:

– Somos os novos vizinhos do andar de cima.

Andar de cima.

Naturalmente.

Nunca mais os vi.

Mas, às vezes, ouço passos.

Mesmo quando o prédio está vazio.

 

31
Out25

Cidade com Tino, Cidade sem Tino

Cidades.jpg

 

 

 

Hoje é o Dia Mundial das Cidades.

Celebram-se todas: as que ainda têm algum tino, as que fingem que têm, e aquelas que o perderam na rotunda antes da saída certa. Celebram-se as cidades reais — e as imaginadas. As que resistem ao colapso e as que já desistiram de o disfarçar. Muitas com sensores, planos estratégicos e um vocabulário tão bonito quanto vago.

No virar do século XIX para o XX, a cidade era milagre: tijolo e esperança. Um teto com salário, contra o trabalho de sol a sol. Uma troca: menos galinhas, mais fábricas. A urbe prometia abrigo, trabalho e, com alguma sorte, um par de sapatos.

Mas o século XXI mudou o enredo. A cidade industrial desmaterializou-se. Em vez de aço, produz reuniões. Em vez de bens, plataformas. Em vez de progresso, “soluções” — muitas vezes para problemas que ninguém sabia sequer que existiam.

E cresceu. Em 2008, mais de metade da humanidade já vivia em cidades. Em 2050, serão dois terços — cerca de 6,3 mil milhões de pessoas a partilhar o mesmo congestionamento, o mesmo ar condicionado e, talvez, a mesma esperança.

A cidade é uma teia: de transporte, de água, de eletricidade, de dados. Sobre estas redes, erguem-se edifícios — uns com alma, outros com mais vidro do que dignidade. E dentro deles? Pessoas. Ligadas por tecnologia, mas cada vez mais sós. Entre redes técnicas e redes sociais, sobra cada vez menos espaço para a rede invisível da convivência.

Multiplicam-se as cidades ditas inteligentes. Há sensores no lixo, no trânsito, na paciência dos habitantes. Mas se a tecnologia não servir para reduzir desigualdades, limitamo-nos a instalar soluções digitais onde faltam soluções humanas.

E quanto à arquitetura? Nalguns lugares, sonha-se com um regresso ao clássico — ou pior: a um neoclassicismo de catálogo. Fala-se em virtude e proporção, mas o resultado é mais próximo do kitsch com diploma. Há quem imponha que edifícios públicos pareçam templos gregos — como se uma fachada de Ictinos ou de Vitrúvio redimisse uma cidade desigual.

Mas o tempo mudou de língua. Nem em Atenas se fala grego clássico. Nem em Roma se ouve latim.

As cidades são palcos — da economia, do lazer, da mobilidade… e também da exclusão. E se a cidade é um palco, urge escutar quem vive nos bastidores: quem caminha devagar, quem fala baixo, quem não aparece nos mapas.

Uma cidade com tino coloca as pessoas no centro — não só os dados. Não confunde cimento com civilização, nem tecnologia com justiça.

As cidades estão a tornar-se digitais. Que sejam também humanas, verdes — e radicalmente decentes.

 

Foto de Jeswin Thomas em Unsplash

 

27
Out25

Última Dança em Washington

A capital dos Estados Unidos candidata-se à filiação honorária no Clube das Cidades sem Tino.

 

CasaBranca.png

 

 

 

Não se sabe bem quando começou a dança, e entretanto há notícia de que o presidente decidiu deitar abaixo a Ala Leste da Casa Branca para ali construir um salão de baile. Aparentemente, o poder precisava de mais espaço para rodopiar. Nada contra a música, nem sequer contra o baile — mas há um compasso qualquer que soa a desvario quando o ritmo da festa se impõe ao da razão.

Diz-se que é um projeto great, tremendous, absolutamente necessário. Que o novo salão acolherá jantares de Estado, eventos patrióticos e, quem sabe, indultos em massa entre danças e discursos. O que não se diz é se houve licenciamento, pareceres técnicos ou, pelo menos, um instante de pudor. Por cá, a reconstrução de uma varanda num prédio dos anos cinquenta exige quatro reuniões de condomínio, três vistorias da câmara municipal e uma catrefada de carimbos; lá, parece bastar o estalar de dedos de quem ocupa a Sala Oval.

Supõe-se que o briefing com a equipa criativa foi breve: menos Lincoln, mais Las Vegas — e ponham um trono giratório com vista para a FOX News. A Ala Leste, onde funcionavam os escritórios presidenciais e se mantinha o Salão das Primeiras-Damas, foi arrasada para abrir espaço a lustres dourados, espelhos venezianos e — diz-se — uma mirror ball pendurada como o novo sol, girando lenta sobre os escombros da moderação. A Ala Leste caiu — que ninguém se espante se amanhã surgir no jardim sul um campo de golfe.

Os defensores do património histórico americano gritaram “heresia!” — e com razão. A Casa Branca não é uma casa qualquer. É o rosto visível de uma ideia — a da democracia americana — que há muito perdeu o brilho e começa agora a ranger nos alicerces. Derrubar uma ala histórica para instalar um salão de baile não é apenas um gesto de mau gosto; é uma metáfora involuntária de poder absoluto, uma valsa dançada sobre o soalho gasto da moderação.

Os juristas do urbanismo perguntam se houve avaliação de impacto, se a comissão federal de planeamento levantou um dedo que fosse, se alguém verificou a compatibilidade da demolição com as leis do património. Trump respondeu, diz-se, que não precisa de aprovação para modernizar “a sua” residência. É curioso: os autocratas têm essa tendência — confundem o Estado com o palacete, o bem público com a pista de dança.

Os políticos dividem-se, como sempre: uns aplaudem a coragem da transformação, outros lamentam a perda da memória. O povo observa, entre incrédulo e cansado, como quem vê um reality show com orçamento ilimitado. Afinal, tudo parece hoje espetáculo — até a destruição.

E, no entanto, há algo de tristemente coerente neste gesto: o mundo afundado em crises e desigualdades, e o velho magnata a pôr de pé o salão para dançar — talvez não por capricho, mas como maneira engenhosa de encobrir o esqueleto corroído do poder. Talvez, no fundo, o baile seja o rito que resta a uma democracia exausta — a valsa final antes do silêncio.

 

Fotografia; Jacquelyn Martin / AP. Trabalhos de demolição na Ala Leste da Casa Branca, antes da construção do novo salão de baile.

 

16
Out25

Acidente de Trabalho

Dizem que Gaudí morreu como viveu: de olhos postos na Sagrada Família e a cabeça nas nuvens.

 

SagradaFamília.png

 

 

 

Barcelona, junho de 1926. O trânsito era escasso, os elétricos deslizavam devagar, e Antoni Gaudí, como de costume, parecia pertencer a outro tempo — barba de profeta cansado, roupa desalinhada de monge da arquitetura e o olhar perdido no alto.

Nessa manhã, saiu cedo do seu pequeno quarto-oficina, onde dormia entre plantas, maquetas e pó de pedra. Ia rever mais um pormenor da sua obsessão: talvez uma gárgula com escoliose… ou uma curva inspirada num caracol visto no mercado. Caminhava devagar, de olhos erguidos, com a alma hipotecada ao andar celestial da sua obra.

E, claro, atravessou a rua.

O elétrico vinha tranquilo, mas Gaudí já estava longe — com os pensamentos adiantados até 2072. Ou lá para quando a catedral estiver, um dia, concluída.

O arquiteto, claro, não viu o veículo. O veículo também não viu nele um visionário. Apenas um velho mal vestido a meter-se à frente.

Pumba.

Simples. Trágico. E, como quase todas as ironias urbanas, ridiculamente simbólico. O homem que redesenhou o céu de Barcelona, ceifado por um banal detalhe urbano: o transporte público.

Ninguém o reconheceu. Com a barba por fazer, os bolsos vazios e o olhar perdido, parecia-se mais com um indigente do que com o arquiteto que reinventara a silhueta da cidade. Levaram-no para o hospital dos pobres, onde ficou dias sem nome — como se a própria Barcelona tivesse demorado a perceber que engolira o seu criador.

Há nisto uma certa poesia cruel. A obra tornou-se tão monumental que eclipsou o homem. Como um visionário engolido pelo próprio sonho em pedra.

Alguns vizinhos diziam que ele falava com as pedras. Talvez falasse. Talvez até elas lhe tenham respondido naquele instante final — como uma curva torta refletida no chão. Ou uma sombra que não batia certo.

Hoje, os turistas passam por ali em fila indiana, telemóvel em riste. Todos de olhos postos nas torres. Ninguém olha para o chão onde ele caiu. A cena repete-se todos os dias — a devoção distraída dos que olham sem ver.

A Sagrada Família, essa, continua em obras. Vivamente inacabada. Como se tivesse vergonha de acabar sem Gaudí. Talvez ele tenha mesmo deixado instruções secretas para manter o estaleiro aberto até ao Juízo Final.

Não por vaidade — mas porque há sonhos que não cabem no calendário.

 

Foto: German Documentation Center for Art History – Marburg Picture Index. Barcelona, anos 20. A Sagrada Família como sempre: em obras. Gaudí já não voltaria a atravessar a rua.

 

Sobre o blog

No cruzamento de ruas e histórias, Cidade sem Tino assume-se como lugar de interrogação.
Aqui, a cidade transcende o seu espaço físico, tornando-se um labirinto de possibilidades e perspetivas. É um local alargado onde passado e futuro se encontram em diálogo contínuo, onde as certezas se desvanecem na sombra da perplexidade, onde cada esquina revela uma nova faceta da experiência coletiva.
Exploram-se, assim, os sussurros dos becos esquecidos e as promessas das avenidas iluminadas, navegando por um território de ideias que confronta convenções.

Sobre mim

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Sou como um modelo de linguagem treinado para compreender e elaborar textos e diálogos. Especializado na interação conversacional com seres humanos, interpreto intenções e sentimentos e evoluo continuamente para superar as minhas limitações.

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